Lula destaca contribuição de imigrantes libaneses e esforço pela paz no Oriente Médio
Mylena Fiori - Repórter da Agência Brasil
São Paulo - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participou na noite desta quinta-feira da cerimônia comemorativa dos 125 anos da imigração libanesa no Brasil, no Clube Atlético Monte Líbano, destacou a contribuição dos imigrantes para a construção de nosso país e o esforço dos libaneses pela paz no Oriente Médio. "Somos companheiros de verdade em busca de uma única causa: justiça social, liberdade e democracia no mundo", afirmou o presidente. No Brasil vivem 6 milhões de libaneses e descendentes – o dobro da população do Lìbano e a maior comunidade de imigrantes libaneses do mundo.
O presidente fez um apelo para que o mundo olhe para o Oriente Médio sem preconceitos e enxergue a contribuição dos árabes para a civilização ocidental. "Não podemos aceitar uma visão distorcida dos povos do Oriente Médio, que se alimenta de preconceitos e ignora a História, esquece a contribuição fundamental da cultura e da ciência árabes para a civilização ocidental, da qual o Brasil é parte", afirmou.
Lula enfatizou que o Brasil tem buscado apoiar, na medida do possível, o processo de "reincorporação plena do mundo árabe no convívio internacional", e que esta será a principal missão da Cúpula América do Sul-Países árabes, que reunirá em Brasília chefes de Estado das duas regiões no dia 10 de maio. De acordo com o presidente, o encontro "oferecerá a oportunidade de intensificar os vínculos e lançar o diálogo entre os países latinos e os países árabes".
O presidente Lula também fez questão de homenagear o ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, recentemente assassinado. "Foi um homem de diálogo e de visão, dedicou sua vida aos interesses de seu povo e aos valores maiores da humanidade. Trouxe esperança a um povo oprimido pela violência. Sua ação política e empresarial lançou as bases do verdadeiro renascimento que hoje vive o Líbano", disse.
Nesta quinta-feira, Lula esteve também nas cidades paulistas de São Carlos e Araraquara. Pela manhã, em São Carlos, participou da cerimônia de início das obras do Hospital Escola Municipal. Depois, da solenidade de apresentação dos novos investimentos da empresa Tecumseh no Brasil. À tarde, em Araraquara, inaugurou a quarta unidade da Eletronic Data System-EDS Brasil, empresa especializada na terceirização de serviços de Tecnologia da Informação, e compareceu à cerimônia de entrega das obras da Base de Estocagem de Álcool Combustível da Petrobras (BR Distribuidora), que abastecerá por via ferroviária o terminal de Paulínia, reestruturando a distribuição de álcool no interior de São Paulo.
Lula retornou a Brasília por volta das 23h, logo após o encerramento da cerimônia comemorativa dos 125 anos da imigração libanesa.
Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na solenidade comemorativa aos 125 anos da imigração libanesa no Brasil
Da Agência Brasil em São Paulo (SP), 31/03/2005
Como diria um matuto brasileiro, eu vou suspender a minha nominata, porque tem muita gente e todos já foram citados, para poder dedicar um pouco mais de discurso aos companheiros libaneses. Peço desculpas. Queria apenas citar o governador Geraldo Alckmin, o prefeito José Serra, e cumprimentar a todos os demais companheiros da mesa, deputados, senadores, demais secretários de Estado, deputados estaduais, secretários municipais.
Vamos ver a nossa ligação com o mundo árabe. Eu me chamo Silva; meu médico chama-se Kalil; meu cirurgião chama-se Cutait; o hospital se chama Sírio-Libanês. Ao mesmo tempo, para provar que eu sou amigo dos libaneses, eu fui obrigado a assistir à morte de um carneiro, comer um coração cru, tomar arak com hortelã e com pão sírio. E ainda tive que comer outras coisas que eu não posso falar aqui.
Eu visitei o Líbano em dezembro de 2003. Quero confessar a vocês, primeiro, um sonho: visitar o Líbano. Porque durante muitos anos víamos na imprensa brasileira a guerra do Líbano, os ataques que o Líbano sofria, a destruição do Líbano e a mais extraordinária surpresa que eu tive foi de ver a alegria do povo libanês, ou seja, o brasileiro que viaja para o Líbano não fará diferença, a não ser da língua, da alegria do povo libanês para o povo brasileiro. Não fará nenhuma diferença.
A arquitetura do Líbano é alegre. As coisas que têm no Líbano são alegres, portanto, eu acho, meu querido representante do presidente Lahoud, que o Líbano, que está sofrendo neste momento, precisa continuar o seu processo de reconstrução. E, dentro desse processo de reconstrução, o meu desejo de poder, antes de terminar o meu mandato, inaugurar a Casa Brasil, em Beirute, porque da mesma forma que os libaneses fazem parte da cultura do Brasil, eu quero que o Brasil faça parte da cultura libanesa, ou seja, é uma recíproca ao carinho que recebemos durante muito tempo.
Depois, eu tive o prazer de receber aqui o presidente Lahoud, em fevereiro de 2004, e receber o meu querido amigo Hariri, em junho de 2003, aqui, no Brasil. Foi o primeiro momento, o estreitamento da minha relação com as mais altas autoridades libanesas. E, confesso a vocês, que o Líbano perdeu um grande dirigente, perdeu um homem de bem, perdeu um homem que acreditava na democracia, um homem que acreditava no Líbano, um homem que acreditava nos valores do humanismo, nos valores mais importantes que nós carregamos dentro de nós.
Eu penso que quem conheceu o Hariri, sabe perfeitamente bem o que ele poderia representar para o processo democrático no Oriente Médio, para o processo democrático no mundo árabe. De qualquer forma, Deus é mais poderoso do que todos nós e decide, às vezes, coisas que não temos como evitar. Mas, não tenho dúvida de que, esteja ele onde estiver, estará pensando que um dia o Oriente Médio poderá viver em paz, em tranqüilidade, podendo usufruir da riqueza que Deus deu àquela região do planeta Terra.
Eu não estou aqui para participar da comemoração dos 125 anos, não sei se é só isso, não sei se já não tinham libaneses infiltrados no navio em que Cabral chegou aqui... Também, nós não tínhamos um serviço de inteligência naquela época, portanto, não há nada registrado. Nem o Félix existia ainda.
Cento e vinte e cinco anos de imigração libanesa para o Brasil! Venho a esta Casa celebrar um evento muito, mas muito especial. Celebro a trajetória de um povo de múltiplos talentos e de sentido empreendedor tão vasto quanto os oceanos que atravessou ao longo de sua história. Os libaneses sempre foram uma nação universal. Levaram sua energia e seus conhecimentos aos quatro cantos do mundo. Mas reservaram carinho especial para o Brasil. Aqui fizeram seu segundo lar. Só isso explica que no Brasil existam duas vezes mais descendentes de libaneses do que a população total do Líbano.
Os primeiros imigrantes vindos deste país chegaram ao Brasil trazendo sonhos de construir uma nova vida, de liberdade e dignidade. E ajudaram a construir, aqui, uma nova nação. Ao longo de todos esses anos, contribuíram para enriquecer e moldar nossa cultura. Integraram-se a todas as esferas da sociedade brasileira. Espalharam-se por todo o país. Acompanharam a expansão do Brasil.
Primeiro, como mascates, exploraram espaços desconhecidos de nossa geografia. Depois, como engenheiros, médicos, escritores, cientistas, empresários ou homens públicos, ampliaram nosso horizonte cultural e político.
Os primeiros libaneses que chegaram ao Brasil trouxeram não apenas sua força de trabalho e a vontade de vencer. Em sua bagagem veio também um forte sentimento de tolerância que lhes permitiu adaptar-se a um ambiente tão distinto de sua terra natal. Sua solidariedade e hospitalidade se fundiram e reforçaram a vocação brasileira para o entendimento, a convivência e o espírito público. Essas virtudes explicam a presença tão significativa dos libaneses na vida nacional.
Foram essas mesmas qualidades que levaram o imigrante libanês Antônio Emílio Lopes a oferecer sua quinta a Dom João, quando da chegada da família imperial ao Brasil, em 1808. Nessa mansão, que se transformou no Paço Imperial do Rio de Janeiro, nasceu Dom Pedro II. Esse episódio, possivelmente, explique porque nosso imperador tenha visitado duas vezes o Líbano, que chamava carinhosamente de o “País dos Cedros”. Movido pelo reconhecimento da dívida que temos em relação à gente libanesa, fui ao “País dos Cedros”.
Desde D. Pedro, um chefe de Estado brasileiro não visitava o Líbano e o Oriente Médio. Meus amigos e minhas amigas, queremos levar a todo o mundo um testemunho. Que todos conheçam não apenas o papel dos libaneses para a construção do Brasil, mas sobretudo o ambiente de harmonia e tolerância entre raças e religiões que aqui ajudaram a forjar. Assim como seus ancestrais que vieram para o Brasil, os libaneses de hoje também estão dando um exemplo de maturidade democrática em sua terra natal. Souberam cicatrizar as feridas e transpor divisões acumuladas ao longo de 15 anos de conflito, para alcançar a reconciliação política e a estabilização econômica.
Quero prestar aqui uma homenagem ao saudoso primeiro ministro Rafik Hariri. Recebi-o em Brasília e experimentei sua calorosa hospitalidade em Beirute. Foi homem de diálogo e de visão. Dedicou sua vida aos interesses de seu povo e aos valores maiores da humanidade. Trouxe esperança a um povo oprimido pela violência.
Sua ação política e empresarial lançou as bases do verdadeiro renascimento que atualmente vive o Líbano. Sua generosidade e otimismo oferecem resposta exemplar à insensatez e ao ódio daqueles que recorrem à violência gratuita e indiscriminada.
Num mundo marcado pelas ameaças do armamentismo e do fundamentalismo, os libaneses, no presente e no passado, são um exemplo do quanto o mundo árabe contribuiu e pode contribuir para os desafios de um mundo interdependente.
Não podemos aceitar uma visão distorcida dos povos do Oriente Médio, que se alimenta de preconceitos e ignora a história. Que se deixa influenciar pelo radicalismo intolerante de grupos minoritários. Ela esquece a contribuição fundamental da cultura e da ciência árabes para a civilização ocidental de que o Brasil é parte.
Os comerciantes libaneses e os navegantes árabes, mais do que quaisquer outros, difundiram o conhecimento que enriqueceu nossa cultura ocidental. Trouxeram para o mundo europeu invenções decisivas para a própria descoberta das Américas.
Com seu amor pelo conhecimento, preservaram para a posteridade a sabedoria clássica. Foram os pais da primeira onda da globalização, estabelecendo um diálogo cultural e comercial que aproximou o Ocidente e o Oriente.
Estou convencido de que o Oriente Médio poderá voltar a desempenhar esse papel de construtor de pontes entre civilizações. E o Líbano está mostrando este caminho. O país está se credenciando como facilitador do diálogo entre palestinos e israelenses e elemento-chave na consolidação da paz em toda a região.
Senhoras e senhores, o Brasil, dentro de suas possibilidades, tem buscado apoiar também esse processo de reincorporação plena do Mundo Árabe ao convívio internacional. Esta é a mensagem fundamental que queremos transmitir na Cúpula América do Sul - Países Árabes, que vamos realizar, em Brasília, nos dias 10 e 11 de maio deste ano. Ela oferecerá oportunidade para intensificar os vínculos e lançar o diálogo entre os países latinos e árabes.
A lógica do diálogo, da cooperação e do comércio é a única resposta capaz de suplantar a irracionalidade da violência e dos extremismos. Queremos que o Líbano seja nosso parceiro privilegiado nessa nova aventura, iniciada por nossos patrícios, de encurtar distâncias e ligar povos.
Conforme já disse em minha visita a Beirute, nós, brasileiros, somos orgulhosos da madura democracia que conquistamos e do ambiente de diversidade em que vivemos. Os imigrantes libaneses trouxeram para o Brasil seu empenho por uma sociedade justa, onde todos possam progredir por conta do próprio esforço. É esse também o empenho do meu governo. Estamos reduzindo as desigualdades sociais e buscando, para todos os brasileiros, condições de vida mais dignas.
Sei que podemos seguir contando com o entusiasmo, confiança e espírito empreendedor dos descendentes de libaneses para construir um país mais próspero, mais justo e, sobretudo, um país de todos. Tenho certeza também de que a comunidade libanesa no Brasil, de que tanto nos orgulhamos, continuará a cumprir o papel essencial de elo de ligação entre dois povos, duas culturas, dois mundos.
Meus amigos e minhas amigas, nós aprendemos na vida cotidiana que, nem sempre, aqueles que estão mais próximos são verdadeiros companheiros. A história cristã nos ensina que nem todo irmão é um bom companheiro. Abel e Caim é o exemplo mais vivo disso. Mas também a história nos ensina que todo bom companheiro sempre será um grande irmão. E, eu acho que o que existe entre nós, brasileiros e libaneses, é mais do que uma imigração: é uma cumplicidade. Porque, nós não somos irmãos como Abel e Caim, nós somos companheiros de verdade em busca de uma única causa: justiça social, liberdade e democracia no mundo.
Muito obrigado e meus parabéns a todos os libaneses no Brasil.