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A imigração árabe muçulmana em Curitiba
Este é o assunto da dissertação de mestrado, que pode virar livro, do jornalista paranaense Omar Nasser Filho. Ele conta a história dos libaneses, palestinos e sírios que chegaram na capital do estado depois da 2ª Guerra Mundial. 'A maior parte da imigração muçulmana no Brasil é relativamente recente', disse.
Alexandre Rocha
São Paulo - Quem se interessa pela história da imigração árabe no Brasil acaba de ganhar mais uma fonte de informação. No final do mês passado, o jornalista paranaense Omar Nasser Filho conquistou o título de mestre em história, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao defender a dissertação "O Crescente e a Estrela na Terra dos Pinheirais: os árabes muçulmanos em Curitiba", obra que ele pretende transformar em livro no futuro.
"A história sempre me interessou e além disso eu sou muçulmano. Em função dessa curiosidade eu busquei uma bibliografia sobre o assunto e encontrei dificuldades de encontrar, praticamente não há livros sobre o assunto", disse ele. Existem obras sobre a imigração árabe no país, segundo ele, mas quase nada específico sobre a presença muçulmana. "Então surgiu a oportunidade de, no universo de Curitiba, falar sobre estes imigrantes, de quando eles vieram e como se relacionaram aqui", acrescentou.
A pesquisa começou há dois anos e meio e Nasser consultou os arquivos públicos do estado, documentos da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná e tomou depoimentos de imigrantes e seus descendentes. Ele limitou o trabalho ao período entre 1945 e 1984. Foi no pós-guerra que a imigração dos árabes muçulmanos ao Brasil ganhou intensidade. Antes, a grande maioria dos árabes que se estabeleceram no país era cristã. "Este é um dado interessante, a maior parte da imigração muçulmana é relativamente recente", disse.
De acordo com ele, no cenário externo os fatores que influenciaram o fluxo foram a abertura das fronteiras internacionais após a 2ª Guerra, o início dos conflitos no Oriente Médio por conta da criação do estado de Israel e a falta de perspectivas econômicas na região. Na seara interna, o Brasil passava por um momento de desenvolvimento industrial aliado a uma política de relaxamento da legislação sobre imigração.
"Eles viram no Brasil uma nova perspectiva", afirmou Nasser. Durante as décadas de 1950 e 1960, Curitiba passou por um período de crescimento impulsionado pelo desenvolvimento do setor cafeeiro e da infra-estrutura do estado. "Os imigrantes passaram a ver a cidade como viável", acrescentou.
Origens
Segundo ele, não existem dados estatísticos sobre o número de árabes muçulmanos residentes na capital paranaense. A Sociedade Beneficente Muçulmana, no entanto, estima a população em 500 famílias, o que dá cerca de 2 mil pessoas. Nos registros estaduais, Nasser descobriu que 79% destes imigrantes são de origem libanesa, 13% palestinos e 8% sírios.
Assim como seus conterrâneos que começaram a chegar ao país no final do século 19, a maioria dos muçulmanos de Curitiba se estabeleceu no comércio. O perfil econômico destas famílias, porém, já era um pouco diferente. Embora alguns tenham trabalhado como caixeiros viajantes, outros já chegaram para abrir negócios.
Outro fator que impulsionou o fluxo migratório, de acordo com Nasser, foi o que a historiadora Neuza Neif Nabhan chamou de "cadeia de chamadas". "O indivíduo vem para cá, se estabelece e melhora de vida. Aí ele vai chamando seus parentes, vizinhos, etc.", afirmou o jornalista. "O conceito de 'família' entre os árabes não é o de 'família nuclear'. Por exemplo, eu perguntei para um dos imigrantes quantas pessoas haviam em sua família. Ele respondeu: trezentas! Ou seja, é um conceito de clã", acrescentou.
Desta maneira, os árabes que já estavam no Brasil, mesmo que cristãos, ajudaram a influenciar a vinda dos muçulmanos, assim como o estabelecimento destes ajudou a manter o fluxo migratório nas décadas seguintes, especialmente nos anos 70 e 80 com a guerra civil no Líbano.
Uma característica peculiar da colônia curitibana é que, no início, a maioria dos imigrantes era xiita, vertente minoritária dentro do Islã. Por isso a mesquita da capital paranaense leva o nome do Imã Ali, fundador da corrente. A partir dos anos 70, porém, tornou-se maior o fluxo de muçulmanos sunitas. "Hoje há uma integração grande", disse Nasser.
Duas foram as principais dificuldades dos imigrantes pesquisados por Nasser: os problemas de ordem econômica e as diferenças culturais e religiosas. No primeiro aspecto, o jornalista afirmou que, no balanço geral, as famílias tiveram sucesso, mas nem todas. "Existe um outro lado, que é o daquele imigrante que veio e não obteve sucesso econômico." Ele contou o caso de um dos entrevistados, filho de libanês, que trabalha como guardador de carros.
Adaptação cultural
Na seara religiosa, como o Brasil é um país de população majoritariamente cristã, também ocorreram dificuldades de adaptação. "Existem pessoas que conservaram suas práticas religiosas intactas e outras que se aculturaram", disse. Ocorreu também um meio termo, de membros da comunidade que exibem traços fortes das duas culturas, como a moça que ele entrevistou, que se veste e age no seu dia a dia como uma típica brasileira, mas considera a religião muçulmana essencial em sua vida.
Entre os depoimentos que tomou, um que julga simbólico é o de um imigrante que chegou ao Brasil aos 15 anos e hoje está na faixa dos 60, bem estabelecido e com os filhos encaminhados, que disse: "Nós aprendemos a ser muçulmanos no Brasil". "O contraste com o outro não existe quando se convive com pessoas da mesma cultura. Mas quando se migra para outro país e trava-se o contato com pessoas diferentes, aí surge a necessidade de recriar espaços e conservar as tradições étnicas e culturais", disse Nasser.
E da mesma forma que os costumes brasileiros influenciaram os árabes e seus descendentes, o movimento inverso também ocorreu. Desde a chegada dos muçulmanos, Curitiba viu a fundação da Sociedade Beneficente, em 1957, da mesquita Imã Ali, em 1972, e do Cemitério Jardim de Alá, de 1984, data que marca o fim do período estudado por Nasser.
"Outro exemplo são as pessoas que se converteram ao Islã, descendentes de árabes ou não", afirmou o Jornalista. Ele próprio pode ser personagem de sua tese. Neto de libaneses cristãos maronitas por parte de pai, e de alemães por parte de mãe, além de ser casado com uma descendente de poloneses, ele se converteu à religião islâmica por vontade própria. "Desde criança sempre tive uma atração muito grande pela cultura árabe, que tem muita influência islâmica", afirmou. Formado em jornalismo e economia, Nasser trabalha como jornalista na Federação das Indústrias do Estado do Paraná e é colaborador da ANBA.
http://www.anba.com.br/especial.php?id=242
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