|
|
Ás Margens do Atlântico
Cabo Verde e Brasil têm laços antigos. Os escravos que vinham
para cá passavam por portos do arquipélago africano. O povo cabo
verdiano gosta de dizer que a primeira mulata, símbolo da
cultura brasileira, lá foi esculpida pela miscigenação de
brancos portugueses com negros cabo-verdianos. Hoje em dia, o
país africano recebe inúmeras influências brasileiras, desde
novelas e músicas até canais de TV daqui, que passam na
televisão fechada de lá.
O país tem como cultura a emigração. Segundo o Banco Mundial, a
população das ilhas de Cabo Verde era, em 1994, de 372 mil
habitantes. Estimativas da ONU apontam para 390,25 mil em 1995,
dos quais cerca de metade na Ilha de Santiago. A distribuição
pelas ilhas é bastante desigual, com uma forte concentração,
89,3%, nas quatro ilhas principais. No entanto, estima-se que
vivam fora do país quase o dobro dos cabo-verdianos que residem
no arquipélago; a escassez de recursos naturais e os ciclos
prolongados de seca provocam grandes fluxos migratórios. A
maioria da população emigrada vive nos Estados Unidos, cerca de
350 mil; Portugal, Senegal e Angola, cerca de 40 mil, cada; e
ainda na Holanda, França e Brasil. Os Estados Unidos,
principalmente em sua porção sul, tem uma comunidade cabo
verdiana especializada na pesca e no transporte marítimo.
Apesar de ser um país de recursos muito escassos, Cabo Verde
apresenta indicadores demográficos e sociais muito favoráveis em
comparação a outros países africanos. Desde a independência, o
país tem formado, em média, 1.500 quadros superiores por ano.
Essa característica é, sem dúvida, gerada por esse recente tipo
de migração que se torna cada vez mais comum entre países
africanos, nesse caso, especialmente Cabo Verde.
Semanalmente há vôos de Cabo Verde para o Brasil. Através deles,
os angolanos residentes em São Paulo e Rio de Janeiro recebem
notícias defasadas de seu país de origem e dinheiro. Na mesma
freqüência, vôos que fazem escala em Luanda servem também como
forma de comunicação para aqueles residentes no Brasil que
deixaram familiares por lá.
Estes vôos são o meio através do qual os cabo-verdianos recebem
notícias de suas famílias e de seu país. Muitos deles haviam
migrado de Cabo Verde para Angola em busca de diamante e
melhores condições de vida. Isso, somado a outros fatores, fez
com que os cabo-verdianos acabassem constituindo família em
Angola (as chamadas langas). O movimento: Cabo Verde - Angola -
Brasil. Assim, os que vieram para o Brasil deixaram família não
somente em Cabo Verde, mas também em Angola.
Há também um movimento contrário. Muitos angolanos migraram para
o Zaire, estabeleceram família neste país e, por diversos
motivos, regressaram para Angola. No fluxo de migração
Angola-Brasil, acabaram vindo para o nosso país e deixaram para
trás alguns familiares em Cabo Verde e outros em Angola. Estes
também utilizam os vôos semanais para obter notícias de suas
famílias em Angola.
No Rio de Janeiro, há a Associação de Cabo Verdianos do Rio de
Janeiro, com sede em Mesquita presidida por Pedro Santos. Fazem
parte dessa associação comunidades que estão na cidade há
aproximadamente 30 anos. Formada principalmente por pessoas de
classe social menos favorecida e pouca instrução residentes em
Mesquita, Duque de Caxias, Nova Iguaçu.
A migração recente ao Brasil é um pouco diferente dessas de 30
anos atrás. Vê-se inúmeros jovens estudantes universitários que
vêm para cá através de diversos convênios do governo de Cabo
Verde com o governo brasileiro e universidades particulares
daqui. Só na Universidade Santa Úrsula, uma das faculdades
particulares que firmou convênio com o governo africano, estudam
60 cabo verdianos.
O estudo do caso da imigração de cabo-verdianos foi feito
principalmente sobre esse novo fenômeno migratório. Conversou-se
com estudantes cabo verdianos da Santa Úrsula, UFRJ e UERJ.
Esses estudantes criaram, recentemente, a Associação de
Estudantes Cabo Verdianos no Rio de Janeiro, que está buscando
sua legalização como entidade. Além disso, há um programa de
rádio na internet produzido pelo presidente da associação, o
estudante de jornalismo da UFRJ, Odair Santos. Descobriu-se a
repercussão que esse programa tem na comunidade e as diferentes
formas de integração e informação que os estudantes encontraram.
Foi quase unânime nos depoimentos a esse trabalho a descrição
dos entrevistados de que quando estavam em Cabo Verde tinham uma
visão equivocada do Brasil. Manuel Lopes, estudante de Biologia
da Universidade Santa Úrsula comenta que “não imaginava que
havia tanta miséria aqui (...) a imagem que tinha era a das
novelas”. Manuel diz que agora, pelas conversas que tem ao
telefone com sua mãe, o Brasil é visto como um país onde há
muita violência. Isso, provavelmente, se relaciona com a
transmissão por satélite da TV Record para o país, e a
popularização de seus programas policiais como Cidade Alerta,
relatada por muitos estudantes.
Essa imigração universitária tem características peculiares. A
primeira delas, é se tratar de um movimento sazonal, pois há
datas de início de período letivo e fim de cursos. Embora a
maioria dos entrevistados diga pretender voltar ao país assim
que se formar, existem aqueles que tem suas dúvidas. Jeremias
Fernandes, estudante de pedagogia da Universidade Santa Úrsula e
secretário da Associação dos Estudantes revela pretender ficar
no país por “questões do coração”. Alguns estudantes admitem não
haver escolhido o Brasil como primeira opção no exame para
concorrer às bolsas de estudo, a primeira opção parece ser
Portugal. Afirmam, no entanto, terem recebido ótimas informações
sobre o país e o ensino das universidades daqui por meio de
estudantes que retornavam a sua ilha de origem formados ou de
férias. Odair Santos, apesar de haver selcionado Portugal como
primeira opção, considera que “o Brasil é um dos países mais
avançados na área de comunicação social, principalmente em
jornalismo”.
O presidente da Associação de Estudantes diz que “a cultura é a
raiz de um país”. Para ele, uma das missões da associação é
difundir a cultura do aruipélago africano. Cabo Verde seria
divulgado através de festas e eventos. No dia 25 de maio, dia da
África, é realizado um evento com estudantes de diversos países
africanos. As festas de Cabo Verde organizadas pela Associação
contam com comidas, músicas e danças típicas. Mas, além disso,
há música brasileira para que se possa integrar os convidados de
fora da comunidade. Essa atitude vem em combate a maior crítica
feita aos estudantes cabo verdianos. Jeremias Fernandes conta
que uma professora sua disse que eles só se relacionavam entre
si como se vivessem em um gueto, onde só havia cabo verdianos.
Dalmiro José, estudante de administração, defende os
compatriotas afirmando que andam junto para ter maior segurança.
Manuel Lopes diz que estar cercado de cabo verdianos diminui as
saudades do país de origem. Além das festas da Associação de
Estudantes, são famosas as festas promovidas por cabo verdianos
estudantes da Universidade Federal Fluminense em Niterói.
Nem sempre esse serviço de divulgação cultural é feito por
entidades formais. Os próprios estudantes tratam de fazê-lo
entre colegas da faculdade, com apresentação de trabalhos
ligados a Cabo Verde nas disciplinas que cursam e nas atividades
de suas universidades. Estudantes de pedagogia da Santa Úrsula
contam que em um evento chamado Pedagogia em ação houve
apresentações de danças típicas por estudantes cabo verdianos.
A língua oficial de Cabo Verde é o Português, mas quase todos os
cabo-verdianos falam o crioulo, um dialeto que mistura línguas
européias, como inglês, francês e português com idiomas
africanos. Para os emigrantes cabo-verdianos, o crioulo é um
instrumento de cultura, um utensílio de transnacionalismo e
reencontro. Quer em Cabo Verde ou longe de lá, em locais como a
Holanda, Estados Unidos, Angola, Senegal, Brasil, França e
Portugal, o crioulo é o meio através do qual se partilham
sentimentos de fraternidade, hospitalidade e nostalgia,
alimentados por este cordão umbilical ligado ao país natal. A
luta dos cabo-verdianos para legitimar a sua língua afeta tanto
os próprios falantes do crioulo como as sociedades em que vivem.
Nas passagens pela Universidade Santa Úrsula e UERJ, observou-se
que, ao se encontrarem, os cabo verdianos cumprimentam-se em
crioulo. Jeremias Fernandes nos explica que há pequenas
diferenças do idioma para cada ilha de Cabo Verde, afirma também
que “o crioulo traz proximidade entre os cabo-verdianos (...) é
mais um importante elemento da cultura de Cabo Verde”.
Um dos maiores problemas para os estudantes que aqui chegam é
não ter lugar para ficar e não encontrar conhecidos quando
desembarcam. Houve vários relatos de imigrantes que tiveram
dificuldades em arrumar onde morar assim que chegaram. Por isso,
a Associação tem um núcleo responsável por receber os estudantes
no aeroporto, encaminhá-los para regularizar documentação na
polícia federal, tirar CPF e abrigá-los em alguma casa de
estudantes cabo-verdianos enquanto eles procuram moradia.
Outra dificuldade enfrentada por esses imigrantes é o
preconceito racial. O estudante de administração Dalrio José diz
que vê preconceito todos os dias. “As pessoas estão sempre
desconfiadas de mim por ser negro”. Outro que nos conta uma
história de preconceito é Odair Santos. Ele afirma que na
entrevista com o músico cabo verdiano Mário Lucio que foi fazer
para seu último programa foi barrado na portaria do hotel.
“Disseram que não podia subir visitas aos quartos, mas quando eu
tinha chegado vi uma senhora a telefonar e, depois, subiu para
visitar uma amiga. O cara me disse que ela era uma amiga, mas eu
falei que ia fazer uma entrevista! Foi preciso que o Mário Lúcio
descesse e explicasse ao gerente que se tratava de uma
entrevista.”. Jeremias Fernandes nos contou o caso de um colega
que perdeu um estágio por ser africano, mas afirma que a maioria
das discriminações são por ser negro. “Em relação ao estrangeiro
não há muito problema. O pessoal brinca com nosso sotaque, mas é
só humor mesmo, porque lembram das piadas dos portugueses”.
A Associação tem um projeto já bem encaminhado de produzir um
site, outro meio de comunicação seria um jornal que ainda está
em discussão. As formas de informação dos estudantes sobre seu
país de origem são basicamente as mesmas. Os sites mais
acessados são o expressodasilhas.cv, de um semanário mais
popular do país; cabonet.cv, de uma rádio do país;
portaldecaboverde.cv; inforpress.cv e bbcafrica. Existem aqueles
que recebem os semanários do país, Expresso das Ilhas, Horizonte
e A Semana em casa com uma semana de atraso, por causa do vôo
que sai semanalmente do arquipélago africano. Odair Santos,
presidente da associação, era uma dessas pessoas. Ele também
produz o programa de rádio Monte Cara, com informação e cultura
de Cabo Verde. Essa importante mídia étnica será analisada
abaixo, juntamente com os sites que informam a comunidade
universitária cabo verdiana.
Monte Cara

Monte Cara é um programa de rádio produzido por Odair Santos,
presidente da Associação e estudanten de jornalismo da UFRJ, que
vai ao ar na Rádio Ecomídia,
www.ecomidia.net , uma rádio na Internet de estudantes da
Escola de Comunicação da UFRJ. O programa começou em agosto de
2002 na Rádio Interferência, rádio livre dos estudantes da UFRJ.
Desde o início de outubro é transmitido pela Rádio Ecomídia ao
vivo às 20 horas das sextas-feiras e está disponível para ser
ouvido a qualquer hora durante a semana. Monte Cara tem duração
de 40 minutos e tem periodicidade semanal.
A repercussão do programa dentro da comunidade é boa. Odair
Santos diz que há cabo verdianos de Mesquita que conhecem o
programa, mas não podem ouvi-lo por não ter acesso a computador.
“São comunidades pobres, sem acesso a Internet” afirmou o
presidente da Associação de Estudantes. Para suprir essa
ausência, Odair apresentou um projeto ao primeiro ministro de
Cabo Verde sobre a criação de um programa para a comunidade numa
rádio aqui no Brasil, que poderá servir de propagador cultural e
integrador dos cabo-verdianos residentes no país.
Entre os estudantes, que tem maior poder aquisitivo se
comparados aos moradores dessas comunidades, há maior facilidade
de acesso a computadores em casa ou nas universidades. A maioria
dos ouvintes está nesse grupo, que valoriza a iniciativa de
Odair. “O Monte Cara traz o que na internet não se vê, a parte
da crítica embasada (...), porque são jornais tendenciosos,
ligados a partidos políticos, que abordam as notícias segundo
seus interesses” opina Jeremias Fernandes. Outros, como Dalmiro
José consideram que “o programa Monte Cara é uma forma de se
manter ligado com a cultura e as informações do país. É uma
forma de se manter ligado com o país”. Além de ligar esses
estudantes a seu país de Origem, Monte Cara é um importante
embaixador da cultura de Cabo Verde. O programa recebe vários
e-mails de diferentes lugares do mundo. Um deles divulgado na
capa do site da Rádio Ecomídia explicita essa divulgação
cultural promovida pelo estudante da UFRJ:
“Sou portuguesa e gosto muito da cultura cabo verdiana. Fiquei a
saber do programa Monte Cara através de um amigo de Leiria. Esta
é a sétima vez que escuto o Monte Cara. O programa está muito
bom... Gostei da música ‘Qualquer Um’. Parabéns a todos os
integrantes da Rádio Ecomídia.”
Ana Cristina, ouvinte da
cidade do Porto, em Portugal.
Estrutura do programa Monte Cara
1
Espaço de Notícias: em 5’ (cinco minutos) são desenvolvidas
as principais noticias de Cabo Verde, dando sempre destaque as
notícias que de alguma forma tem relação com o Brasil.
2 Conhecer Cabo Verde: esta rubrica é dedicada à divulgação da
realidade cabo verdiana (Cultura, Saúde, educação, história e o
turismo que se faz e pode se fazer em Cabo Verde).
3 A boa notícia/ Monte Cara: Semanalmente elege-se um
acontecimento cultural ou social em Cabo Verde, e é destacado
como A boa notícia. Mas, esse espaço pode ser substituído por
entrevistas com artistas e personalidades cabo-verdianas de
passagem pelo Rio. O último programa contou com entrevista do
músico cabo verdino Mauro Lúcio.
4 Revista de Imprensa: Resumo dos principais semanários de Cabo
Verde (Expresso das Ilhas, A Semana e Horizonte)
5
Espaço do ouvinte: o ouvinte pode solicitar uma música, enviar
mensagens aos familiares e amigos.
Sites citados pelos entrevistados
Expresso das Ilhas –
www.expressodasilhas.cv
Trata-se do site do semanário Expresso das Ilhas. É o jornal
mais popular de Cabo Verde. A linha editorial é baseada em
bastante opinião, com artigos assinados. Há espaço para humor,
em charges, onde se vê a utilização do crioulo. Abaixo primeira
página do site no dia 02 de dezembro de 2003
Inforpress –
www.inforpress.cv
As notícias são basicamente as mesmas dos outros sites. Conta
também com muitas colunas e artigos assinados O diferencial é
apresentar links com notícias específicas das ilhas de São
Nicolau, Sal, São Vicente, Boavista, Santiago, St Antão, Fogo,
Brava, Maio.
Outros Sites:
BBC África -
www.bbc.co.uk/portugueseafrica/
Todos os africanos entrevistados citaram o site da BBC África.
Nota-se o destaque dado às notícias internacionais divulgadas
nas grandes agências de notícia. Capa do dia 03/12/2003:
• Secretário de estado americano, Colin Powell, anuncia que se
vai encontrar com autores de plano de paz alternativo, não
oficial, entre israelitas e palestinianos, conhecido com Acordo
de Genebra... apesar da forte oposição do governo de Israel, o
encontro terá lugar na sexta-feira em Washington
• Em Moçambique, o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades
Naturais manifesta preocupação em relação à escassez de reservas
alimentares destinadas às mais de seiscentas mil pessoas
afectadas pela seca... reservas podem vir a sofrer uma ruptura
em Janeiro próximo
• Demissão de um dos principais colaboradores de José Eduardo
dos Santos
José Leitão da Costa e Silva demitiu-se de todos os seus cargos
e funções incluindo o de Chefe da Casa Civil da Presidência da
República de Angola...
• Em São Tomé e Príncipe realiza-se seminário para deputados
são-tomenses sobre noções básicas de indústria e experiência na
gestão de recursos petrolíferos... Assembléia Nacional já está a
trabalhar na elaboração de uma lei de gestão e aplicação de
recursos petrolíferos
• Organização Internacional do Trabalho diz que só direitos no
trabalho é que irão assegurar um justo e imparcial
desenvolvimento econômico no continente africano ... OIT reunida
com centenas de delegados que representam governos, empresas e
empregadores
• Na Grã-Bretanha, uma em cada quatro mulheres poderá ser vítima
de violência doméstica às mãos do marido ou parceiro... governo
britânico acolheu uma conferência internacional sobre o tema.
Autores: Aline
Gatto Boueri, Artur Frazão, Fernanda Couto Guimarães,
José Gelson Dondelle, Giuliano Djahjah
Bonorandi e Pedro Otavio Bello Koblitz.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
voltar
para o canal Terrítorios
voltar
para HOME
|