Judaicos

Análise

Menorah na TV

História

A idéia de lançar um programa de televisão voltado para a comunidade judaica brasileira surgiu, em 2001, quando Ronaldo Gomlevsky assumiu a revista “Menorah”, após a morte de seu pai que a fundara 44 anos antes. Nessa nova gestão, ele vislumbrou para sua revista um alcance maior do que aquele que o veículo impresso poderia lhe dar. Dessa forma, Ronaldo começou a estabelecer contato com emissoras de rádio e televisão a fim de firmar um acordo para a produção de um programa judaico.

Em meados de 2004, ele conseguiu uma parceria com a NET e começou a produzir um programa de televisão de uma hora, abordando conteúdos tanto da comunidade judaica - a partir do conhecimento que provinha da experiência em sua revista - como também conteúdos de interesse geral - como economia, esportes e política. Porém, sempre colocando os interesses do judaísmo na ponta de sua pauta.

O programa estreou em janeiro de 2005, todavia com um formato totalmente diferente do atual. Apesar de compartilharem o mesmo cenário, o programa antigo era uma mesa redonda com o Ronaldo como mediador e mais três participantes fixos, que debatiam os assuntos mais variados.

Insatisfeito com o resultado que obtivera até então com o programa, Ronaldo Gomlevsky decidiu tirá-lo do ar por um tempo para reformular a atração. De acordo com ele, o formato estava muito confuso e pontual. Só discutir assuntos cotidianos não estava servindo ao seu propósito, queria voltar o foco do programa em uma personalidade apenas. E tê-lo como único entrevistador, concentrando-se nas realizações e ideais desta.

Programa

Assim entrou no ar, em 22 de novembro, o novo “Menorah na TV”, formulado a partir de uma mesa onde Ronaldo recebe e entrevista seus convidados. O programa é estruturado em quatro partes. Primeiro vai ao ar uma breve cabeça do programa, com aproximadamente 2 minutos, quando Ronaldo apresenta a personalidade que dividirá a mesa consigo e os assuntos que serão abordados. Depois acontecem três blocos de 15 minutos cada, em que perguntas sobre o próprio âmbito do entrevistado são respondidas pelo mesmo.

A seguir será feita uma análise minuciosa do conteúdo do programa “Menorah na TV”, baseado na reestréia que ocorreu no dia 22.11.2005. Para essa análise serão avaliados: assuntos propostos pelo programa, sua estrutura, o formato, questões comerciais, a forma de apresentação e outros critérios correspondentes ao conteúdo. Não será problematizada a relação da análise do discurso, apenas fundamentos referentes à forma.

Aqui será feita uma dissecação do Menorah na Tv a partir de seu formato, de seu apresentador, do seu título, da abertura do programa, do próprio entrevistado, dos assuntos tratados ao longo dessa hora, da produção e backstage, do cenário e dos intervalos comerciais.

O apresentador

Ronaldo Gomlevsky está à frente da revista “Menorah” há três anos, dando continuidade ao que foi deixado pelo seu pai José Gomlevsky. Advogado, empresário e jornalista; Ronaldo busca qualidade em tudo que faz, por isso resolveu criar o “Menorah na TV”, que completaria a revista não somente no seu conteúdo, mas a levaria para as casas das pessoas que não necessariamente a lêem. Seu maior objetivo, tanto através da revista, como de seu programa, é baixar o sentimento de anti-judaísmo no Brasil. Futuramente, pretende criar um programa de rádio da “Menorah”, atingindo um número ainda maior de receptores.

Seus muitos anos como Presidente da Federação Israelita trouxeram-lhe o conhecimento necessário para mediar um programa de TV voltado para a comunidade Judaica, principalmente, devido às experiências no ramo da comunicação que ele pôde aprimorar nesses tempos, como a condução de um programa de rádio e do impresso da federação, que ele presidia.

Através de suas entrevistas, ele busca questionar a economia, a política e o social. Os entrevistados são escolhidos aleatoriamente por ele mesmo, sem seguir qualquer tipo de estereótipo. As entrevistas fluem de maneira dinâmica e distraída. Ronaldo conversa com seu entrevistado poucos minutos antes do programa ir ao ar, perguntando quais os assuntos que gostaria de abordar preferencialmente. Logo em seguida inicia-se a gravação e Ronaldo cria todas as perguntas e comentários espontaneamente, sem seguir roteiro algum.

Título

O nome do programa, “Menorah na TV”, foi escolhido para ser remetido à revista “Menorah”, de alta repercussão nas comunidades judaicas.

Menorah significa candelabro, suporte para lâmpadas. Presume-se que a primeira menorah tenha sido feita para o Tabernáculo no Deserto pelo artista e artesão Bezalel, obedecendo às instruções de Moisés. Na menorah há sete lumes de lâmpadas, uma haste central e três braços que saem de cada lado.

A menorah tem um significado velado em Templos Martinistas. Quando o Templo foi destruído, ela tornou-se o principal símbolo artístico e decorativo da fé judaica. Símbolo da vida, de Deus e Sua Criação, que sustenta o Divino e orna Seu Santuário, imagem do verdadeiro tabernáculo, erigido pelo Senhor e não pelos homens.

Entrevistada

A convidada escolhida para o programa de reestréia foi a Deputada Federal e ex-juíza Denise Frossard. Ela foi sondada devido a sua provável candidatura ao governo do estado do Rio de Janeiro nas próximas eleições e devido a sua participação marcante na CPI dos Correios.

Filha de pai comerciante e mãe professora, Denise Frossard, nasceu em 6 de outubro de 1950, na "República das Minas Gerais", na cidade de Carangola. Carioca por adoção, ainda muito jovem veio sozinha para o Rio de Janeiro estudar na Pontifícia Universidade Católica - PUC. Formou-se em direito em 1977, advogou e tornou-se juíza. Em 2002 candidatou-se à Câmera Federal, sendo a deputada mais votada no Estado do Rio de Janeiro.

Abertura

A abertura começa com um background vermelho e uma menorah em segundo plano. Escrito aparece o nome do programa – Menorah na TV - e um subtítulo: “Luzes para um novo tempo”, fazendo analogia com o próprio significado da palavra menorah. O logotipo do programa é o mesmo usado pela revista, a palavra menorah em branco e uma chama acessa sobre a letra “h”.

Após a aparição do nome do programa são exibidos flashes com exemplares da revista “Menorah”, fotos do apresentador com personalidades e trechos de programas já exibidos. Ao fim da abertura, há o retorno à tela inicial com o nome do programa. Essa tela é a mesma que será utilizada como vinheta ao fim/início de cada bloco. Todas essas imagens são acompanhadas da trilha sonora “Hava Naguila”, música famosa nas comunidades judaicas do mundo.
Tempo 20’.

Decorrer do programa

Cabeça

A cabeça do programa é composta por um close de Ronaldo Gomlevsky, que o introduz e faz uma apresentação sucinta de seu convidado, ressaltando suas qualidades morais e competências profissionais. No caso do programa analisado, Ronaldo define Denise Frossard como uma mulher inteligente, de fibra e corajosa, destacando sua atuação na Câmera dos Deputados e no magistério. Como de costume, ele encerra a cabeça com a frase: ”Menorah entrando no ar mais uma vez”. O fim desse bloco é demarcado pelo mesmo quadro – logotipo do programa – utilizado na sua abertura.
Tempo 1’40”.

Primeiro Bloco

Ronaldo Gomlevsky inicia seu primeiro bloco descontraindo sua convidada com uma pergunta sobre seu braço quebrado em uma partida de tênis. Após construir um ambiente mais à vontade, ele emenda com a entrevista propriamente dita. O primeiro assunto abordado é a relação dela com seus companheiros parlamentares na ocasião da CPI dos Correios. A Deputada descreve o funcionamento da CPI e destaca como os parlamentares da nação deveriam se portar. Relata, também, experiências suas em algumas comissões de inquérito.

A segunda questão colocada é sobre o papel do parlamentar enquanto defensor da democracia. Ele questiona acerca dos limites morais da atuação dos deputados quando interrogam os cidadãos nas CPI. A ex-juíza Denise Frossard aponta, aqui, o fato de alguns deputados não representarem essa consciência limítrofe. A sociedade brasileira, ela continua, não possui a noção exata da cidadania e o congresso é o espelho dessa postura ou da falta dela.

Para falar sobre a posição parlamentar de Denise Frossard, Ronaldo resolve remeter à atuação dela como juíza no cerco ao crime organizado. Ele pergunta como se sentiu frente ao caso que trouxe tanta repercussão ao seu nome. A deputada, então, conta sua experiência na investigação do jogo do bicho, sua reação ao ver o processo e suas primeiras providências no caso. Ela disserta ainda sobre a questão da corrupção e lavagem de dinheiro. É interessante destacar que, nesse ponto, Ronaldo interrompe sua entrevistada para esclarecer ao público a natureza do assunto tratado por eles, atitude recorrente em seu modo de conduzir o programa.

Ele, com isso, pergunta a ela se, como ex-juíza, atual deputada e possível governadora do estado do Rio de Janeiro, imagina que o problema da violência nas metrópoles brasileiras tem solução. E se tem, como resolver. Respondendo a essa pergunta, ela afirma que logicamente a violência tem jeito, e que o problema da segurança pública é muito maior do que a polícia, outras questões são inclusive mais importantes, como, por exemplo, a legalidade e a moradia. Nesse ponto, ele a interrompe anunciando o encerramento do primeiro bloco, com a entrada da vinheta característica do programa.
Tempo 19’31”.

Segundo Bloco

Novamente volta a vinheta acompanhada pela música “Hava Naguila” e se inicia o segundo bloco retomando o assunto não encerrado. Ela comenta o projeto Favela Bairro e reitera o seu primor pela busca da legalidade. De acordo com Denise Frossard, a concentração de famílias de baixa renda não necessariamente gera violência, no entanto, é nessas áreas que o tráfico procura sua mão de obra. Ela fala da criação de empregos e de educação, e coloca a atividade repressora como última solução. Por último, ela encerra o assunto falando de um relatório sobre a corrupção e o sistema penitenciário.

A seguinte pergunta se manteve no tema da corrupção. Ronaldo Gomlevsky aponta a crise política e questiona como ela define o Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, a partir de tudo que ela presenciou na CPI dos Correios. Ela separa o Lula entre seu passado e seu presente. No passado ela recria uma frase dele e diz que Lula foi fruto de uma história e não de uma eleição. Agora, ela afirma que ele se mostrou um homem profundamente inteligente, que não é mandado por ninguém e é o responsável por tudo o que está acontecendo no governo. O presidente não possui uma deserção entre o público e o privado. Ela afirma que, no caso da gestão do Lula, já se confirmou o crime de responsabilidade, e o impeachment só não se configurou por falta de comoção social. Como de costume, Ronaldo posiciona o público no entendimento da questão que está sendo abordada.

Aproveitando o rumo da conversa, Ronaldo pergunta de que forma esse comportamento do presidente Lula interfere na sociedade. Ela é dura ao dizer que isso pode matar a democracia, faz com que o cidadão perca a fé nas instituições e isso o torna cínico e rebelde, o que seria a gota d’água para a morte da democracia. Ela afirmou como o Partido dos Trabalhadores – PT - tem amordaçado a opinião pública, a imprensa e o congresso. Denise Frossard menciona como o governo comprou o congresso através do Mensalão, que, de acordo com ela, não é uma suposição e sim uma realidade.

Aproveitando o gancho do Mensalão, o entrevistador pergunta se José Dirceu seria Rasputin ou Stalin, fazendo analogia com a política russa de uma outra época. Antes de a deputada respondê-lo, é chamado mais uma vez o intervalo comercial e o assunto fica guardado para o último bloco. Nesse ponto entra a vinheta do programa e acaba o segundo bloco.
Tempo 33’06”

Terceiro Bloco

O último bloco começa em 35’03”, novamente com a vinheta do “Menorah na TV”. Assim, Ronaldo Gomlevsky retoma sua pergunta que encerrou o bloco anterior e a Deputada Denise Frossard diz que Dirceu é definitivamente o Rasputin, por ser o organizador de todo o esquema praticado pelo governo Lula. Logo, ela continua dizendo que o ex-ministro precisa ter seu mandato na Câmara dos Deputados cassado, e o terá. Afinal , caixa dois é um crime fiscal de empresários. O que o Dirceu organizou é corrupção propriamente dita. De acordo com Denise Frossard, esse tipo de crime precisa ser punido criminalmente.

Ainda se mantendo nesse tema é perguntado se o ex-deputado Roberto Jefferson é um bom ladrão ou foi injustiçado. Para Deputada, ele foi apenas útil, pois denunciou os crimes que só conhecia por fazer parte do esquema de corrupção.

Ronaldo Gomlevsky pergunta a opinião da ex-juíza acerca do desfecho da CPI dos Correios e ela diz que a comissão parlamentar necessita de mais tempo para apurar criteriosamente a situação, senão todo o esforço de investigação vai se acabar em acordos políticos. E aí, o jornalista indaga sobre os crimes que foram constatados nessa CPI. Denise Frossard lembra que crimes como formação de quadrilha e associação para a lavagem de dinheiro deveriam estar no relatório, mas foram retirados por pressão dos partidos. Ela compara com o que acontece com as franquias de agências dos Correios, dessa maneira ele a pede para explicar melhor o assunto e ela o faz.

Quase finalizando, Gomlevsky dá um panorama da sociedade carioca e pergunta como pretende governar um estado como o Rio. Ela, respondendo à sua pergunta, cita seu site (www.denisefrossard.com.br) onde diz estar sua posição sobre esses assuntos. Seguindo, ela critica principalmente a atual política de saúde do Rio e afirma que o estado só se mantém financeiramente graças as suas reservas petrolíferas. Também é criticada a condução da polícia, da habitação e do transporte. Ambos, entrevistador e sua convidada, concordam que falta uma presença mais marcante do governo em seu estado; para exemplificar ela cita ações de governantes outrora atuantes na sociedade carioca.

Na última questão do programa, o jornalista pergunta como Denise Frossard, se governadora, vai tratar os casos de anti-judaísmo explícito no Rio de Janeiro em relação à justiça e à polícia. Ela reafirma a posição severa contra qualquer forma de ilegalidade, e coloca o anti-semitismo como tal. “Pensem em mim como a restauradora da legalidade no estado”, finaliza a candidata à cadeira de governadora do Rio.

Finalmente, Ronaldo Gomlevsky se despede lamentando ter que encerrar a conversa. Ele afirma que trará novamente a Deputada Denise Frossard para conversar sobre a comunidade judaica e sobre a política, enfatizando a defesa das liberdades democráticas sem as quais nenhum judeu, cidadão, homem ou mulher podem viver no Brasil ou no mundo. A entrada da vinheta determina o início do último intervalo comercial.
Tempo 56’58”.

Por fim, exatamente a mesma chamada usada na abertura do programa demarca o seu término.

Produção

O programa é produzido e gravado a partir da própria sede da revista “Menorah”, um escritório no centro da cidade do Rio de Janeiro. A gravação é feita em uma sala anexa à redação da revista. Essa sala possui dez metros quadrados e é ocupada por um pequeno balcão que serve de mesa para as entrevistas. Por trás do balcão se posicionam as cadeiras com o mediador e seu entrevistado e a parede ao fundo é listrada em amarelo e cinza, com uma chama, característica do programa, estampada no centro. Os dois operadores de câmeras que controlam todo o equipamento de áudio e vídeo se encontram em posição oposta à mesa. A iluminação é feita com um único refletor, assim como todo material visual é capturado com câmeras Mini Dv e o som a partir de microfones de lapela posicionados junto aos participantes. Os operadores de câmera são o Alberto e o Robson, este último também responsável pela edição.

A pós-produção é toda finalizada em uma ilha de edição particular. Lá é editado o programa e masterizado o som, além de se colocar a logomarca do “Menorah na TV” no canto direito da tela e a identificação gráfica dos participantes no rodapé. Dali sai o programa em fitas Beta pronto para exibição, levado diretamente para a emissora.

Anunciantes

O contato com patrocinadores e anunciantes é de total responsabilidade do próprio produtor do programa Ronaldo Gomlevsky. Ele faz os contatos diretamente com as empresas anunciantes e estabelece os preços, ficando então toda a negociação comercial executada a partir da própria diretoria comercial da revista “Menorah”, sem interferência da emissora ou de agências de publicidade.

Como foi visto, o programa se estrutura em uma cabeça de abertura, três blocos de quinze minutos e uma vinheta de encerramento. Logo, são disponibilizados para veiculação comercial quatro espaços que variam entre um minuto e dois. Os anunciantes que participam do programa são, em sua essência, alguns dos mesmos que anunciam na Revista “Menorah”.

Nos primeiros reclames, vê-se um anúncio imobiliário da Vila Panamericana (Agenco Engenharia e Construções) um filme da loja de óculos Chili Beans e por fim um comercial da CHL – Construtora e Incorporadora. Essa mesma seqüência de três filmes, de 30”cada, se repete no segundo espaço comercial. No terceiro momento, todavia, comporta ainda o anúncio da Vila Panamericana no início, depois uma propaganda imobiliária do Edifício Reserva de Itaúna, construído pela Brascan Imobiliária. Os últimos trinta segundos são preenchidos com um filme de 20” da Chili Beans e uma pequena mensagem novamente da Vila Panamericana.

Os comerciais que encerram o programa são uma seqüência de todos os filmes que anunciaram ao longo do “Menorah na TV”, além da propaganda da própria revista. Em ordem são: Vila Panamericana, Brascan, Chili Beans, CHL, Revista Menorah e, enfim, um anúncio da Vila Panamericana mais uma vez.

Conclusão

Apesar de considerado uma mídia comunitária, voltada para a comunidade judaica, o “Menorah na TV” se mostra uma opção midiática muito universalista, abordando temas majoritariamente de interesse geral da sociedade brasileira. Essa, de acordo com o próprio Ronaldo Gomlevsky, é a essência de seu programa, ou seja, atingir o máximo de pessoas possíveis, judeu e não judeus, para levar uma mensagem de democracia e tolerância em todos os aspectos.

Contudo, cabe salientar que um assunto de interesse judaico sempre estará fazendo parte da pauta de entrevistas, com o intuito de discutir esses assuntos com os próprios membros da comunidade e desmistificá-los para aqueles que não praticam tal religião.

Autores: Bruno Monteiro Pessoa e Stéphanie Purwin
Orientador: Mohammed ElHajji



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