|
|

MOSAICO GREGO
Como os 20 mil imigrantes e descendentes que vivem em SP aprenderam a misturar obrigado com parakaló
por Mayra Stachuk
Surgida na Antigüidade, a tradição grega de quebrar pratos ocorria apenas nas festas de noivado e casamento: no fim, o noivo atirava ao chão prato e copo usados pela noiva, para que ninguém mais os utilizasse. Com os anos, a prática perdeu seu sentido inicial e virou uma maneira de animar qualquer festa. Na Grécia, ela já está quase extinta; foi substituída por flores, porque causava muitos acidentes
Dois toques e “dona” Ana, 66, atende o telefone. Escuta o pedido e responde: “Ola endaxe. Boris narthis!”. Alguns segundos de silêncio do outro lado e ela reage com uma gargalhada. “Tudo bem. Pode vir! Desculpe, falei grego com você!” Falou mesmo, literalmente. Há 46 anos no Brasil, Sosani Arabatzoglou –ou só Ana, para facilitar– ainda costuma misturar as bolas, trocando o português com forte sotaque pela língua do país natal. “É que falo grego com a família, por isso me confundo.”
Fiel representante da alegria e hospitalidade atribuída aos gregos, Ana está curiosa para saber como “seu povo” será representado no horário nobre da TV: “Belíssima”, a nova novela das oito da TV Globo, que começa amanhã, terá um núcleo grego. “Grego à paulista”, convém ressaltar, com direito ao mix de nacionalidades que a cidade (e autor da história) costuma promover.
“Achei estranho a personagem grega (Irene Ravache) ser casada com um turco (Lima Duarte). Logo um turco?”, diz Ana, referindo-se à inimizade entre os dois povos, resultado de quase quatro séculos de domínio do Império Otomano.
A comunidade em São Paulo não é grande, cerca de 20 mil pessoas, segundo o consulado grego. Os primeiros chegaram ao Brasil entre 1900 e 1910, em Florianópolis. Eram apenas 60. A imigração aconteceu mais fortemente depois da Segunda Guerra e principalmente no início da década de 1950, quando a Grécia se encontrava desestruturada após uma guerra civil entre comunistas e monarquistas.
Deixaram para trás a pátria, mas não as tradições, mantidas pela maioria. Na mesa de centro da sala de Ana, uma bandeja de koularakia e outra de kourabie, biscoitinhos típicos que a reportagem iria encontrar em todas as casas gregas visitadas depois. “Na Grécia, a tradição é receber as pessoas com um doce de fruta cristalizada em calda, laranja ou figo, por exemplo, e um copo de água gelada. A água nunca pode faltar”, explica Ana.
O café preto, feito com coador caseiro, daqueles que deixam borra na xícara (conhecido como café turco), é feito pelo marido, Paraskevas Arabatzoglou, 74, nome abrasileirado (como quase todos) para Páris –o mesmo do sedutor troiano que raptou Helena e provocou a guerra de Tróia. “Cheguei aqui em 1954 para ganhar dinheiro e melhorar de vida. As coisas estavam muito difíceis na Grécia naquele tempo”, explica o anfitrião.
“É claro que a gente chega com a idéia de voltar, mas meu irmão veio também, aí conheci a Ana, nasceram os filhos... Quando tínhamos dinheiro para voltar, a vida já estava feita aqui.” Páris trabalhou como mecânico, taxista, feirante, vendedor e, por fim, abriu uma loja de roupas no Brás, bairro que, há algumas décadas, junto com o Bom Retiro, concentrava a maioria dos imigrantes gregos.
Ele e Ana se conheceram num casamento grego no Brás. “Foi meio arranjado, como é comum na cultura. Mas nós nos gostamos também”, lembra a mulher. Os três filhos do casal falam grego, mas apenas uma, a economista Marina, 45, casou-se com um descendente, Stayros Kyrioupolos, 46, e fez questão de uma cerimônia típica.
“Eles nunca nos obrigaram a casar com um grego, mas eu era a mais ligada à coletividade, dançava nas festas etc. Foi lá que conheci Stayros”, diz Marina, referindo-se à Coletividade Helênica de São Paulo, entidade de divulgação da cultura do país e que coordena o Instituto Educacional Ateniense, hoje com 160 alunos.
Essa segunda geração, quase sem exceção, fala grego; muitos freqüentam a Igreja Ortodoxa e batizam seus filhos com nomes tradicionais. “Não é exagero dizer que os gregos brasileiros mantêm mais a tradição que os da Grécia”, afirma, com bastante sotaque, Alexandra Matheopoulos, 74, há 55 anos no Brasil. “Qualquer grego já é orgulhoso da história do seu país. O que sai da pátria então... Faz tudo para manter a cultura.”
Alexandra trouxe na bagagem um filho de dois anos; chegou um ano depois do marido, que já tinha montado uma oficina mecânica no bairro dos Jardins. Aqui teve a segunda filha, Ana, 47. “Minha mãe parece aquele personagem do filme ‘Casamento Grego’ (de Joel Zwick, 2002), que ficava procurando a raiz grega em todas as palavras. Ela faz isso o tempo todo”, entrega Ana Matheopoulos Papadimitropoulos (sobrenome que agregou do marido, Nicolas, ou Niko, 60, grego que imigrou ainda criança).
Assim, enquanto a própria Grécia mudava de hábitos, a primeira geração manteve na comunidade brasileira os costumes com os quais foram criados, na década de 50. “Poucos lá hoje em dia sabem as danças e músicas que eu sei”, diz Marina. “Quando conheci o país, no fim dos anos 80, é que me dei conta de como havia sido criada no passado.”
O mesmo vale para a língua que usam, conta a arquiteta Patrícia Anastassiadis, 33, filha e neta de gregos por parte de pai e de poloneses pelo lado da mãe. “O grego que aprendi é muito diferente do falado pelas pessoas da minha idade lá, é muito mais formal. Meus primos me gozam muito. Não sei se chego a um ‘vossa excelência’, mas, que falo refrigerador em vez de geladeira, falo.”
Na casa dela, apesar da mistura, a tradição grega prevalece. “Meu pai é daqueles que enche o peito para falar da Grécia. Não é religioso, mas prega a filosofia para todo mundo”, conta.
Separada, Patrícia tem um filho de nove anos –que também já está aprendendo grego. “Acho importante passar a cultura adiante. Até eu, que não sei cozinhar, comecei a fazer um caderno com as receitas gregas da minha avó.”
A manutenção da tradição não significa, porém, que os gregos sejam indiferentes à cultura brasileira. “Esta é a minha terra. Eu nunca quis voltar de vez. Vou de visita e fico feliz quando encontro brasileiros, sempre vou falar com eles, porque me fazem sentir em casa”, afirma Alexandra, que se naturalizou e vota em todas as eleições do Brasil.
Na casa de sua filha, Ana, não falta o kourabie (o biscoito, lembra?), e a culinária grega está presente todo dia, quase sempre misturada à brasileira. “É a comida brasigrega”, brinca. No dia da entrevista, o menu era feijoada com sarmadakia (charutinho de folha de uva recheado com carne moída).
As duas cozinhas usam ingredientes em comum. O arroz branco é o mesmo, embora lá seja mais consumido “empapado”. Tomate e pepino são onipresentes, devidamente banhados em azeite, que o país produz em abundância. As casas com boas cozinheiras, dizem eles, exalam o cheiro de orégano, também muito usado.
“Em geral, os ingredientes são fáceis de encontrar aqui em São Paulo, no Mercado Municipal tem quase tudo. Até mesmo o endro, que o brasileiro não usa muito, eu encontro”, diz Ana Papadimitropoulos. As exceções são o queijo feta, preparado com leite de cabra, as azeitonas calamatas e o ouzo, bebida à base de anis muito consumida como aperitivo.
O grego não come sem pão. Como antepasto, ele é consumido com o tzatziki, uma mistura de coalhada seca, pepino ralado e alho temperada com vinagre, sal e azeite. “Esse patê vai também no famoso churrasco grego, que lá é feito com carne de porco ou de novilho”, explica Ana.
Reflexo Em “Belíssima”, Safira (Cláudia Raia), uma das filhas do casal formado pela grega Katina e o turco Murat, já foi casada com um italiano, um português, um judeu e um japonês. Boa mistura, poderia dizer, com conhecimento de causa, o arquiteto Ioannis Simeon Theoharidis, 44, marido da analista de sistemas Yvone Yoko Iso, 44. Filho de gregos, Ioannis (João) virou Jony e conheceu Yoko num barzinho. “Minha sogra não fez cara de espanto quando me viu”, brinca a filha de japoneses nascida em Presidente Venceslau (a 620 km da capital). “Eu não tive educação rígida. Claro que minha mãe ficaria feliz se eu tivesse me casado com uma grega, mas isso não aconteceu e ela aceita”, diz Jony.
É no filho do casal, de um ano e meio, que a força da tradição helênica se mostra: Stephanos foi batizado na Igreja Ortodoxa. “É que a Yoko não segue o budismo...”, argumenta Jony. Mas ele também não freqüenta a Igreja Ortodoxa.
Dispersa Os integrantes da primeira geração conhecem quase todos os gregos que vivem em São Paulo, mas a comunidade não é organizada ou unida, como a dos judeus, por exemplo.
Há uma única Igreja Ortodoxa Grega na cidade, que fica na rua Bresser e foi fundada em 1959 –uma cena de “Belíssima” foi gravada ali, conta o padre Dimitros Papadimitropoulos, 69. “Fazemos cerimônias muito bonitas aqui, muitos brasileiros vêm conhecer”, diz ele.
Fora a missa, que todos os domingos reúne boa parte da primeira geração, a única celebração conjunta é a Páscoa, quando a Coletividade Helênica convida as famílias para celebrar em um sítio em Ibiúna, com comidas típicas e o tradicional assado de carneiro. Poucos vão. “Eu acho que isso acontece porque a maioria dos gregos aqui é de classe mais baixa, não há arrecadação para fundar um clube, por exemplo”, acredita Alexandra.
Patrícia acha que o motivo é outro. “O grego é assim: tem um sentimento de irmão pelos seus conterrâneos a ponto de não cobrar uma conta, por exemplo, do táxi. Mas, na hora de se organizar para formar alguma coisa, já não funciona.”
Nem o restaurante Acrópoles, o único de culinária 100% grega em São Paulo, é mais um reduto helênico, como nos tempos de sua fundação. Dos 80% de antigamente, os imigrantes foram minguando e não passam de 10% da clientela. “Acho que o grego faz a comida típica em casa, né?”, justifica o dono, Thrassypoulos Petrakis, 88, um dos imigrantes mais conhecidos da cidade. Mas e o encontro com os conterrâneos? “Filha, hoje em dia cada um foi para o seu canto, tomou um rumo.”
Há 44 anos em São Paulo, “seu” Trasso veio com a mulher, com quem estava casado há dois anos. Trabalhou mais dois numa loja de roupas e foi ser garçom no Cantinho Grego, que ficava exatamente onde hoje é o Acrópoles, na rua da Graça. O restaurante era de um conterrâneo que havia chegado em 1959. “Foi fácil, eu já tinha sido garçom e cozinheiro na Grécia. Primeiro virei sócio e, em 1970, quando ele voltou, comprei o lugar”, lembra.
No mesmo ano, Trasso perdeu a mulher e a filha de 12 anos em um acidente. Alguns anos depois, casou-se com uma brasileira, com quem teve duas filhas. O casamento acabou e a ex-mulher vive atualmente na Grécia, junto com uma das filhas, numa casa comprada por ele. “Ah, ela gosta mais de lá do que eu. Quando vou pra lá, fico com elas, mas não gosto muito de ficar longe do Brasil”, conta, comendo doces gregos e bebendo um copo de água.
“Olha, esse é um país maravilhoso, tem toda essa natureza. E o povo é o mais amigável do mundo”, diz, com sotaque carregado, ao receber a reportagem. “Vim porque foi isso que a minha cunhada, que chegou em 1956, me escreveu na carta. E é verdade, por isso nunca quis ir embora.”
Parakaló, dizem os brasileiros.
O Cristianismo Ortodoxo
HIERARQUIA A autoridade máxima da Igreja Ortodoxa Grega não é o papa, mas o patriarca –o atual chama-se Bartholomeu. A sede não é o Vaticano, e sim o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, em Istambul (Turquia). Abaixo dele ficam os arcebispos metropolitas, que equivalem aos bispos romanos
- A sede do arcebispado responsável pela Igreja Ortodoxa Grega de SP fica em Buenos Aires, Argentina
- Os ortodoxos seguem o calendário juliano; os católicos, o gregoriano. Por isso, a Páscoa ortodoxa é comemorada depois da católica; ambas coincidem nos anos bissextos
RITOS
Missa Sempre nas manhãs de domingo, liturgia em português e grego, dura cerca de quatro horas. Inclui celebrações como a litania, que homenageia o santo do dia com uma procissão pelos corredores da igreja. No último domingo, foi o dia do santo grego Dimetrio. Na comunhão, os fiéis recebem o “corpo” e o “sangue” de Cristo: um pedaço de pão e um gole de vinho.
Casamento Uma das principais diferenças é a coroação, em que o padre repete três vezes o gesto de colocar na cabeça dos noivos coroas de flores brancas (representando o Pai, o Filho e o Espírito Santo). Depois é a vez dos padrinhos coroarem os novos com as coroas ligadas por uma fita, que significa a união. Segundo a tradição, o casal deve voltar à igreja oito dias depois, para o padre cortar a fita e abençoar os noivos, mas o hábito caiu em desuso.
Batizado A cerimônia é mais longa, pode durar mais de uma hora. A criança é mergulhada na água benta da pia batismal três vezes. Na mesma cerimônia é feita a crisma, em que o padre abençoa com óleo santo testa, queixo, mãos, pés, peito, costas, bochechas, orelhas e joelhos da criança.
Morte Os cemitérios e as salas de velório são as mesmas. No velório, o morto traz as mãos cruzadas no peito e, sobre elas, uma imagem de Jesus Cristo; os presentes se despedem beijando a imagem e a testa do morto.
Na última benção, feita no cemitério, antes de o caixão ser fechado, o padre derrama óleo santo no corpo, para que ele seja acompanhado pelos santos anjos de Cristo. Durante todo o ritual há queima de incensos, para que a alma fique nas mãos de Deus até ser julgada, e não do demônio.
Mnimóssimo As missas dos mortos acontecem no 3º dia após a morte, no 9º (equivalente à missa de sétimo dia), no 40º, no terceiro mês, no sexto mês e após um ano. Em todas, o altar é decorado com a cóliva, um doce feito de trigo distribuído aos presentes depois da missa, em um salão fora da igreja.
voltar
para o canal Mosaico
voltar
para HOME
|