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No Rio Grande do Sul, um pedacinho da Palestina
O estado gaúcho congrega a maior colônia de imigrantes no país. Atenta a este fato, a antropóloga Denise Jardim resolveu pesquisar o que os palestinos que vivem no Rio Grande do Sul fazem para manter vivos os laços culturais com a pátria mãe. Descobriu que eles criaram uma pequena sociedade palestina no estado. Em cidades como Canoas, Sapucaia e Chuí, os imigrantes, seus filhos e netos se reúnem para ver canais em árabe, falar o idioma de origem e celebrar.
Sandra Damiani, especial para ANBA
Porto Alegre - Às duas horas da tarde no Chuí, a 520 quilômetros ao sul de Porto Alegre, na fronteira com o Uruguai, grupos de comerciantes palestinos se reúnem para assistir juntos ao noticiário de um canal de televisão de Dubai. A cena acima, assim como o idioma árabe que domina as conversas nas ruas, faz parte do cotidiano dos moradores do pequeno município, de apenas cinco mil habitantes, e dá mostras de como a cultura palestina coexiste com a brasileira na vida dos palestinos e seus descendentes no Rio Grande do Sul.
O estado detém a maior colônia dessa etnia no país, informa o embaixador da Palestina no Brasil, Musa Odeh, embora inexista um levantamento do número de pessoas, dificultado pelo processo de naturalização.
Essa realidade chamou a atenção da antropóloga Denise Jardim, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que acompanhou durante um ano a comunidade do Chuí para estudar como os filhos de palestinos da primeira e segunda geração no país recriam seus laços culturais com a origem árabe.
Para a pesquisa "Palestinos no Extremo Sul do Brasil", sua tese de doutorado, Denise entrevistou 60 pessoas, oriundas de 10 famílias da cidade. Agora, o estudo prossegue nas cidades gaúchas de Canoas e Sapucaia do Sul com a estudante de mestrado Roberta Peters, que está sendo orientada por Denise. O foco são as relações familiares.
A condição de estar em diáspora reforça entre os palestinos naturalizados seu empenho em manter viva a cultura da qual são oriundos. Para Denise, essa peculiaridade parece diferenciá-los no processo de perda da cultura ao longo das gerações. O sentimento de separação da família, identificado junto aos entrevistados, faz com que haja um grande investimento nas relações entre patrícios no Brasil e familiares de outros países e da Palestina, criando o que é denominado multilocalidade. "Conheço todos os patrícios que moram no estado", orgulha-se o comerciante e proprietário de um shopping de fábricas em Porto Alegre, Fakhri Bakri, 57 anos, que desembarcou no Brasil em 1966.
O aprendizado e a manutenção da língua fazem parte do fortalecimento dos laços. Para aprender árabe e conhecer suas origens, os pais, quando possível, enviam os filhos para estudar e conhecer os parentes no exterior. "No mundo árabe, a língua é uma só, então conseguimos manter o idioma e os costumes", conta Fakhri. Com essa finalidade, sua esposa e seus sete filhos moraram cinco anos com a mãe de Fakhri na Palestina. Após a morte da mãe, ele herdou a casa materna, e visita uma vez por ano o país.
No mesmo município é possível encontrar os primeiros migrantes que falam e escrevem, principalmente, conforme a pesquisa, o árabe dialetal de Ramallah (cidade palestina), e que apresentam algumas dificuldades com o português, a segunda geração, que são os filhos dos imigrantes que dominam o português e conhecem um pouco ou procuram aprender o árabe, e a terceira geração, ainda muito jovem.
"Há sotaques diferentes do árabe falado nas ruas. Predomina o uso coloquial de Ramallah, mas há diferença entre quem 'estudou' e quem 'aprendeu na rua' o idioma. Quem estudou na Palestina ou educou por lá seus filhos pode ter alguma familiaridade com o árabe corânico, mas nem sempre sabe escrever", comenta a pesquisadora.
Tânia, entrevistada pela pesquisadora para sua tese, contou as dificuldades de seu aprendizado tardio do árabe. Quando viajou para a Palestina, aos 37 anos, no início dos anos 80, evitava sair da casa dos parentes porque não dominava a língua. "Apelidaram-me de a menina que não sai de casa", lembra.
Só depois de oito meses resolveu enfrentar o problema. "Eu tinha medo de falar e errar, e a casa sempre cheia de visitas." Um dia a prima que sempre a acompanhava deixou-a sozinha e a partir daí ela viu que já estava se saindo bem. "Mandei uma fita pro meu pai. Ele gostou muito, chorou quando recebeu a fita. Todo mundo dizia que eu tinha aprendido rápido", contou à pesquisadora.
Desde a chegada dos primeiros migrantes, que viajavam cerca de 30 dias de navio, aos dias atuais, o avanço das tecnologias facilitou muito essa aproximação. Logo que saíram as TVs a cabo, há cerca de 10 anos, na época com somente um canal em árabe, todos os que tinham condições fizeram questão de assinar.
"Há dez anos tínhamos um, agora são pelo menos doze canais", lembra Saleh Baja, 74 anos, desde 1953 no Brasil. Agora com a internet, ele fala com a filha que casou com um árabe e mora no exterior, usando programas de conversação pela rede e webcam. Saleh chegou primeiro no estado de São Paulo e passou dois anos em Lins trabalhando como mascate. Só então mudou-se para o Rio Grande do Sul. Desde o início suas atividades estiveram ligadas ao comércio têxtil.
A casa dos encontros
A Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre ajuda a manter aceso o vínculo dos palestinos e descendentes com o seu país de origem. Promovendo encontros, almoços, discussões e exposições, a Sociedade congrega diversas gerações e reforça os laços entre as famílias. A Sociedade mantém também um grupo de danças folclóricas.
"Fui criada na Sociedade Palestina. Se não tivéssemos feito esse trabalho com os primeiros que já morreram, essa cultura não continuaria. É um trabalho de sobrevivência", conta a atual presidente Fátima Ali, 40 anos, filha de pai palestino e mãe brasileira.
A Sociedade recebe a todos: muçulmanos ou católicos. O objetivo, explica o secretário-geral da Sociedade Palestina, Ebraim Shahin, 38 anos, é manter o vínculo com a cultura de raiz. "Passar um pouco para a geração futura sobre quem somos e de onde viemos", diz.
A Sociedade ajudou na adaptação de Mohamad Hasan Aladin, 37 anos, que chegou ao Brasil em 1994 e se naturalizou nesse ano. Casado com uma brasileira, ele tem dois filhos e passou a fazer parte da diretoria da entidade. "Nós procuramos manter os costumes. Lá as crianças vão aprendendo e já podem se virar para visitar os parentes", diz.
Mohamad fez um caminho muito semelhante aos primeiros imigrantes. Veio trabalhar na loja de calçados de um primo, na cidade gaúcha de Sapiranga, e posteriormente a comprou. Apesar do comércio ainda permanecer a atividade econômica predominante, as características profissionais dos imigrantes e seus descendentes começam a se modificar. É crescente a busca por formação universitária e atuação como profissionais liberais.
Palestino do Brasil
O duplo pertencimento gera dificuldades na definição de identidade, mas em muitos casos são encaradas com bom humor. Na Inglaterra perguntaram a Said, um dos entrevistados de Denise, de onde ele era. "Sou palestino do Brasil", respondeu. "Como?", questionaram. "Bom, sou brasileiro e meu pai é palestino", explica. "A minha fisionomia é bem diferente, como a do Oriente Médio, eu falava árabe como os árabes e fazia festa com os brasileiros", recorda, observando o espanto que causava.
A pergunta sobre como eles se sentem em relação à nacionalidade exemplifica bem essa dualidade. "Sou brasileiro e sou palestino". Ou melhor definido nas palavras de Saleh: "Tenho dois amores. Amo o Brasil e amo a Palestina."
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