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“O Brasil e Questão Judaica – Imigração, Diplomacia e Preconceito”
Jefrey Lesser (editora Imago)
As décadas de 1930 e 40 foram uma época conturbada na vida política e social do Brasil. A economia, essencialmente agrícola, passava a se tornar industrial e o eixo da política deixava o campo rumo à cidade. Uma das características dessa mudança foi a necessidade de mão-de-obra especializada, tanto na agricultura quanto na indústria, pois a economia crescia num ritmo superior ao da população. Desde antes desse período, a imigração estrangeira já era incentivada, principalmente pelas oligarquias cafeeiras paulistas, que precisavam de trabalhadores baratos para substituir os escravos recém-libertos e manter o aumento da produtividade. Por trás dessa necessidade de importar trabalho, havia uma política de “melhoria” do tipo brasileiro, que resultou em medidas de restrição da imigração de judeus e pessoas vindas do Leste Europeu, África e Ásia - todos considerados inferiores pelos responsáveis pelas políticas externas nacionais e pela elite econômica da época.
Todo o processo de imigração para o Brasil foi marcado pelo preconceito racial, religioso e social da imprensa, dos políticos e, em alguns momentos, dos próprios imigrantes. Tudo em nome do “progresso” da civilização brasileira, que deveria se assemelhar à Europa Central – modelo de desenvolvimento social e “avanço” da civilização adotado pelo governo e seus partidários, cada vez mais nacionalistas. A inferioridade racial brasileira acabava sendo usada como desculpa pelas desigualdades e atrasos, onde a política não avançava nunca.
Jefrey Lesser, no capítulo dois de seu livro “O Brasil e Questão Judaica – Imigração, Diplomacia e Preconceito” (Imago) disserta sobre esse período, com foco na imigração de judeus expulsos da Europa devido ao crescimento do nazi-facismo. Os judeus eram o alvo mais fácil dos nativistas, grupo numeroso e influente na política nacional, que pregavam a excelência da raça brasileira. Não se encaixavam nos interesses dos grandes agricultores (ao contrário dos japoneses, também considerados inferiores), não tinham um governo forte para defendê-los e contavam com muito pouco apoio da diplomacia internacional.
Após 1930, ano da Revolução que marcou a mudança do eixo político nacional, cada vez mais os imigrantes pobres eram usados como bodes-expiatórios do desemprego e da violência das cidades. Os que traziam capital não eram atacados. Os judeus imigrantes, em sua maioria, provinham de áreas urbanas e por isso não eram bem vistos pela elite cafeicultora – que era quem bancava boa parte das viagens e não via neles trabalhadores em potencial. Por outro lado, a presença deles nas cidades assustava a classe média urbana, que temia a concorrência no mercado de trabalho e, de acordo com as teorias antropológicas da época, embasadas por intelectuais brasileiros como Oliveira Vianna, considerava os judeus “uma pérfida raça não-branca cujas diferenças raciais eram perigosamente indistínguíveis. A rejeição aos judeus tornou-se uma das poucas áreas de consenso entre os políticos urbanos e rurais” (Lesser pg 99).
Os principais pensadores brasileiros, por sinal, contribuíam para o preconceito e o aumento de barreiras para a imigração judia. De acordo com eles, além de inferiores racialmente, eram financiadores e estimuladores de comunistas. Apesar das teses da época não serem homogêneas, de uma forma geral, defendiam que apenas imigrantes “puros” racialmente deveriam ser permitidos por terem a “capacidade” de se fundir ao caldeirão étnico brasileiro sem contaminá-lo.
A inteligentsia brasileira nada fazia a não ser corroborar as ações do governo revolucionário de Vargas. Pouco tempo após o golpe, uma nova legislação restringia a entrada de imigrantes pobres, que precisavam de autorização para entrar no país e eram submetidos a diversas exigências burocráticas como permissão ministerial para aportar, já possuir família no país e trazer um capital mínimo alto (de 215 a 320 dólares) para poder morar no Brasil. A imigração foi associada à pobreza, por simples medidas como a viagem em terceira classe ser considerada como intenção de se estabelecer no país. Isso fez com que o número de trabalhadores especializados diminuísse e dificultasse assim o desenvolvimento econômico.
De acordo com Lesser, num primeiro momento essas medidas foram eficientes. A imigração judaica caiu 45% e a geral ainda mais. Ainda assim, ela nunca diminuiu tanto quanto a geral, ocupando um percentual crescente nos dados de estrangeiros que se estabeleciam por aqui.
As razões desse fenômeno são a atuação das agências judaicas de ajuda, como a Jewish Colonization Association (JCA). Cada vez mais familiarizadas com a burocracia nacional, essas entidades “ensinavam” como chamar parentes e conseguiam convencer investidores nacionais a trazer judeus, como foi o caso de funcionários gaúchos que bancaram a vinda de alguns imigrantes.
Apesar disso, os diplomatas brasileiros, com algumas exceções sensíveis à situação de perseguição daquele grupo social na Europa, apoiavam a restrição em nome do risco racial, cultural e político. Racial, como já dito, por causa do preconceito; cultural por considerarem os judeus como um grupo demasiado coeso, com cultura própria forte, que poderia prejudicar as tradições brasileiras; e político por suporem que todos os judeus estavam engajados em atividades comunistas. Inclusive foi impresso um folheto, autorizado pelo Delegado de Ordem Social de São Paulo, entitulado “O Comunismo e sua Nefasta Propaganda”, cujo texto afirmava que “os judeus, em virtude um de um suposto defeito biológico, eram inclinados a desestabilizar o status quo” (Lesser pg 107).
O mesmo tratamento foi aplicado aos sírios, armênios e indianos desejosos de embarcar para o Brasil. Como afirmou certa vez Nabuco Gouvêa, lotado em Bucareste, “a cada ano, infelizmente há uma emigração de sírios e judeus para o Brasil, e se a eles se juntarem os armênios, poderemos dizer com orgulho que estamos povoando o Brasil e formando nossa raça com tudo o que há de mais repugnante no universo” (Lesser 108).
Boa parte desse comportamento se devia à influência do fascismo europeu na política nacional. Nada mais adequado a um governo que em breve daria mais um golpe para permanecer no poder e se identificava bastante com Mussolini. Uma força que se destacou pelo seu anti-semitismo foi a Ação Integralista Brasileira, que possuía noventa jornais em circulação na década de 30. Neles reproduzia-se teses distorcidas e falaciosas como conspirações judias internacionais.
Se não havia conspiração, também não havia acomodação por parte dos semitas. Frente a tantas campanhas, os judeus reagiram. Marchas foram organizadas e panfletos distribuídos, mas a repressão acompanhou todos os protestos de maneira violenta. As manifestações foram proibidas e usadas como exemplo da inferioridade racial por causa da violência gerada. Alguns intelectuais se engajaram na defesa dessa população e declararam seu apoio à causa, mas pouco adiantou.
Por outro lado, um outro grupo de imigrantes judeus, refugiados alemães, italianos e austríacos de origem burguesa, mais aceitáveis pelo capital que traziam consigo, também contribuíam para o preconceito. Apesar de seguirem a mesma religião, procuraram se dissociar dos imigrantes oriundos do Leste Europeu que eram mais pobres. Muitas vezes recusaram ajuda de entidades dirigidas por leste-eurpoeus.
Na verdade, esse rico grupo era um modelo para as altas classes nacionais, pois possuíam uma cultura industrial avançada. Além disso, instituíram o ensino do português em suas comunidades, mesmo sem deixar de lado a alta cultura alemã que traziam. Por isso sua entrada não sofria restrições, apesar do crescimento do anti-semitismo.
O nativismo se exarcebava e rumava para a xenofobia. Cada vez mais os direitos dos imigrantes diminuíam e sua vinda era restringida. Um consenso geral foi fabricado e a indústria nacional sofreu com isso, pois a mão-de-obra especializada não podia entrar.
A imagem do Brasil no exterior era ambígua. Por um lado o país se mostrava como um lugar de tolerância. Por outro, o baixo nível de informação dos estrangeiros via o Brasil como um lugar de miséria e cheio de problemas, daí sua preferência em relação aos EUA, Argentina e Palestina.
A Liga das Nações influenciou a política nacional ao estimular os governantes a aceitarem estrangeiros semitas, apesar de países chaves como a Inglaterra fecharem as portas para esse crescente fluxo de pessoas.
A Liga chegou a fazer planos para a imigração judia no Brasil, mas como de hábito, se mostrou incompetente na hora de avaliar a política nacional e a conjuntura internacional. De acordo com Lesse, a missão “McDonald acreditava que o Brasil e a Argentina representavam as melhores oportunidades econômicas para os refugiados e que sua garantia de que seriam concedidos vistos apenas aos ‘intelectuais’ iria conduzir a um abrandamento das restrições de cotas” (Lesser 128). Entretanto, por aqui, interessava trabalhadores agrícolas, mas os judeus do campo emigravam para a Palestina. Aos urbanos restava vir para a América e poucos alemães semitas entraram no Brasil por causa da ação da Liga. Ainda sim, vale ressaltar o interesse de universidades em contratar cientistas.
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