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Pausa para falar sobre o povo banto
Pesquisadores reunidos na Casa de Angola atualizam conhecimentos
sobre os primeiros africanos a chegar à Bahia
Cleidiana Ramos
Jornal A Tarde (BA) - 02/03/2005
Hoje, o povo-de-santo da nação banto, também chamado de Angola, vai estar em festa. Às 19h30, começa o Nzila Kuna Nzambi, expressão que numa tradução para o português significa "o caminho para encontrar Deus". Trata-se de um seminário interdisciplinar aliado a uma exposição etno – fotográfica que vai reunir pesquisadores e religiosos do culto afro na Casa de Angola. O vice-ministro da Cultura para o Patrimônio e Instigação Científica de Angola, Virgílio Coelho, que é antropólogo e estudioso das nações kimbundu, está em Salvador para participar do encontro.
O evento faz parte do Projeto Nzila, que vem sendo desenvolvido há dois anos com o objetivo de mapear sob o ponto de vista antropológico e etnomusical as tradições religiosas de origem banto na Bahia. Segundo Virgílio Coelho essa é uma oportunidade de fundamental importância para o que ele chama ação de "arqueologia" dessa tradição que une Bahia e Angola.
"É preciso aproximar esses dois universos de conhecimentos, fazê-los circular e preencher as lacunas que existem. Há diversos elementos de encontro, como cantigas, rezas. Eles se co relacionam e ao ser descobertos mostram os laços existentes entre a Bahia e Angola. Precisamos ter esse intercâmbio, fazer um fluxo e refluxo, como Pierre Verger fez", disse o vice-ministro.
Um exemplo do que ele diz é a palavra umbanda. Quando se fala dessa vertente do chamado culto afro na Bahia, a primeira referência, geralmente, são as divindades chamadas de caboclos. Mas se a palavra for mencionada a um angolano do grupo cultural kimbundu ele vai reportar-se, imediatamente, ao saber tradicional da arte de curar.
São ramificações, aparentemente, distintas, embora se olhadas com mais atenção, muito próximas, pois basta lembrar a importância do conhecimento do poder das ervas na vertente baiana. As duas são crenças herdadas da religiosidade banto que comparada à iorubá – matriz dos candomblés mais conhecidos em Salvador – foi pouco estudada.
"Muita da riqueza e diversidade dessa religião ainda é desconhecida. A cultura iorubá foi privilegiada até porque os escravos de origem iorubá foram os últimos a chegar aqui. Há pelo menos uma diferença de 200 anos entre a chegada dos bantos e os iorubás", destaca o etnomusicólogo Xavier Vatin, coordenador do evento.
Reencontro
Os bantos foram os primeiros africanos trazidos em massa para a Bahia a partir do século XVI. Eles eram originários do Congo e de Angola. Os iorubás começaram a chegar a partir do século XVIII. A herança cultural desses últimos acabou, principalmente do ponto de vista religioso, sendo a mais conhecida.
"Esse encontro vai ser importante para um resgate dessa herança banto. Ele vai reunir num mesmo espaço pesquisadores e o povo de santo para que possam dialogar sobre os seus conhecimentos, respeitando-se os fundamentos da religião", destacou Vatin.
O seminário interdisciplinar vai até a próxima sexta-feira. A exposição etno-fotográfica é de autoria de Xavier Vatin. Serão apresentadas 150 fotografias selecionadas entre as 1.500 do acervo Nzila, que retratam temas ligados ao universo sagrado e à vida cotidiana dos candomblés de Angola na Bahia. A mostra prossegue até o dia 2 de abril.
O Nzila Kuna Nzambi tem o apoio da Casa de Angola na Bahia, do Centro de Estudos e Pesquisas das Tradições de Origem Banto (CEPTOB), do Departamento de Antropologia da Ufba, da Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação.
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