A
história dos judeus no Brasil constitui um caso único,
pois em nenhum outro país os esse povo esteve presente ao
longo de toda a sua existência, contribuindo substancialmente
para o seu desenvolvimento econômico e social.
O
descobrimento do Brasil deu-se numa época em que Portugal
estava no auge da sua expansão no mundo. Os portugueses
visavam quebrar o monopólio mantido pelos venezianos e
genoveses sobre o intercâmbio mercantil com o oriente e, desse
modo, assegurar a posição de centro das grandes
atividades econômicas da época.
A
expansão marítima de Portugal, não teria obtido
êxito sem o longo período de descobertas e
aperfeiçoamentos científicos. Desde o século
XII, vinham os judeus ibéricos, se distinguindo
extraordinariamente nos domínios da matemática,
astronomia e geografia, ciências básicas, para a arte
náutica.
Esse
movimento científico foi intensamente aproveitado pelos
governantes portugueses em prol da ascensão do seu país
à posição de grande potência naval. Prova
disso é que o infante D. Henrique, apelidado "O
Navegador", ao fundar, em 1412 a tradicional "Escola de
Sagres” - a primeira academia de navegação - ,
escolheu para sua direção um dos mais famosos
cartógrafos do século XV, o judeu Jehuda
Cresças.
Porém,
a contribuição judaica ao descobrimento de novas rotas
e de novas terras para a coroa portuguesa não se limitou ao
campo científico. Ela também, traduziu-se na
participação direta nas viagens, nas quais os judeus
revelaram-se de vital utilidade, graças ao conhecimento que
tinham das línguas e costumes de vários países.
Assim,
também contribuíram consideravelmente na expedição
que resultou no descobrimento do Brasil, já que, na frota
dirigida por Pedro Álvares Cabral, viajaram como conselheiros
especialistas pelo menos dois judeus: Mestre
João,
médico particular do rei e astrônomo e Gaspar
de Lemos,
também conhecido como Gaspar da Gama e Gaspar das Índias,
intérprete e comandante do navio que levava os mantimentos, e
considerado pelos historiadores como co-responsável pelo
descobrimento do Brasil.
Logo
nos primeiros anos após a descoberta do Brasil, arrefeceu o
interesse do rei D. Manoel pela nova terra. A expedição
enviada à costa do Brasil no ano de 1501, e que regressou a
Portugal em 1502, não apresentou resultados que fossem de
molde a entusiasmar o Governo português. Este estava
interessado apenas em metais, enquanto os relatórios feitos
pelos enviados ao Brasil mencionavam a abundância da
vegetação, destacando-se o pau-brasil.
É
assim de todo compreensível que, tendo o monarca recebido, em
1502, de um consórcio de judeus dirigido pelo cristão-novo
Fernando de Noronha, uma proposta para exploração da
nova colônia mediante contrato de arrendamento, ele a aceitasse
de bom grado. Era a colonização do Brasil que se lhe
oferecia, para ser feita a expensas de particulares.
O
acordo - que era um monopólio de comércio e de
colonização - foi firmado em 1503, pelo prazo de 3
anos, e compreendia os seguintes principais compromissos dos
arrendatários:
No
período da colonização sistemática
(1530-1570), criaram-se todas as condições favoráveis
à eclosão de uma sólida comunidade israelita no
Brasil:
A)
Suficiência numérica
- O
número dos judeus, graças à intensa imigração
e ao crescimento natural, alcançou uma proporção
razoável em confronto com a população geral, o
suficiente para se opor ao risco de assimilação.
B)
Liberdade de culto
- Havia
tolerância e liberdade bastantes para que os judeus mantivessem
abertamente suas práticas religiosas,
ainda que, como é de se supor, algo sincretizado com o
catolicismo.
C)
Refrescamento imigratório -
As
sucessivas levas imigratórias de judeus portugueses exerciam
um papel reativador, contra-aculturativo.
Graças
a tal conjuntura, estavam se desenhando perspectivas seguras para
que, nos fins do século XVI, se corporificasse uma
coletividade judaica numerosa e estável, no Brasil.
Na
última década do século XVI, porém, a
emigração dirigiu-se predominantemente para a França
e aos Países Baixos, onde florescia o comércio e
reinava tolerância religiosa. Mas, mesmo que não
majoritariamente, continuava a vinda de judeus portugueses ao Brasil.
Há indícios de que, de um modo geral, os países
europeus, e em especial a Holanda, eram preferidos pelos emigrantes
mais abastados, enquanto ao Brasil se dirigiam os pertencentes às
camadas sociais mais modestas, sobretudo os que tinham propensão
à agricultura.
Essa
simultânea migração de judeus portugueses para o
Brasil e os Países Baixos propiciou o estabelecimento de um
elo comercial e afetivo entre os judeus brasileiros e holandeses. Nos
anos seguintes, os judeus brasileiros viram-se lançados a um
conflito de consciência - decorrente do triângulo
Brasil-Portugal-Holanda, que passou a dominar os seus interesses
individuais e suas aspirações coletivas - e esse elo
comercial e afetivo veio a ter importante repercussão
político-social. Ao mesmo tempo, durante 60 anos, foram
impostas sucessivas restrições à emigração
dos judeus de Portugal, mas que não afetaram substancialmente
a entrada contínua de judeus no Brasil, onde prosseguia
crescendo seu número e sua prosperidade.
Entretanto,
outros fatores passaram a toldar a vida judaica no Brasil. A primeira
manifestação de intolerância verificou-se em
1573, na cidade do Salvador, onde foi instalado um auto de fé.
Como não surtiram efeito, o ambiente de tolerância foi
restabelecido. Porém, em 1591, acabou vindo ao Brasil o Santo
Ofício (Inquisição), que limitava suas visitas
ao Nordeste do país. Essa circunstância teria propiciado
o primeiro movimento migratório interno dos judeus do Brasil.
Contudo,
não se sabe ao certo dos motivos das visitações
do Santo Ofício ao Brasil, pois tornaram os inquisidores ao
reino sem que viessem a lume os efeitos das sindicâncias.
Presume-se que essas visitas tivessem fundo político, fruto do
receio em que se encontrava a Coroa quanto aos negócios dos
cristão-novos com a Holanda e quanto a certos indícios
de que o inimigo encontraria aliados e guias no Brasil.
As
suspeitas foram reforçadas mais tarde com a criação
da Companhia da Índias Ocidentais, aprovada pelo governo
holandês em 1621. Em face do programa e dos poderes dessa
Sociedade e da circunstância de que o capital da empresa era
constituído em grande parte com os cabedais de judeus
hispano-portugueses, era lógico desconfiar que o íntimo
intercâmbio entre os judeus do Brasil e da Holanda pudesse vir
a ajudar os propósitos conquistadores dessa última.
E
a primeira prova real da justeza desse receio foi de fato obtida em
1624, quando os holandeses invadiram e conquistaram a cidade do
Salvador, capital do Brasil. A população judaica que
residia na Bahia, era então mais numerosa do que em qualquer
outra cidade do País, submeteu-se alegremente aos
conquistadores, com os quais haviam vindo muitos judeus. Esse período
de 60 anos foi altamente favorável ao desenvolvimento e à
prosperidade da população hebraica do Brasil, mas, em
contraste com o período anterior (1530-1570), ele não
constituiu uma fase tranqüila de evolução. Foi um
período essencialmente tumultuado, cheio de sobressaltos e de
vai-vens que, se não impediram o progresso material dos
judeus, prejudicaram todavia à sua organização
coletiva, que vinha tomando corpo, e feriram fundo as suas esperanças
de liberdade.
Em
decorrência de todos esses fatos, os judeus do Brasil foram
sendo dominados por um sentimento de frustração e
sentiam-se impelidos a um intercâmbio cada vez mais estreito
com os judeus portugueses residentes na Holanda, onde a liberdade era
absoluta em todos os terrenos, nos fins do século XVI.
Era
a possibilidade que eles vislumbravam de vir a ser melhorada: a sorte
dos judeus do Brasil graças à intervenção
de uma outra potência - esperanças quanto à
segurança e tranqüilidade do seu porvir na nova terra.
A
acomodação, tão bem levada a efeito pelos judeus
brasileiros na segunda metade do século XVII, não
adentrou o século seguinte, no qual, a Inquisição
de Lisboa - cujas garras até então mal haviam
conseguido arranhar a população judaica do Brasil -
acabou estendendo sobre este país a sua implacável rede
de perseguições.
Essa
onda de terror se desdobrou por longos 70 anos e conferiu à
primeira metade do século XVIII as características de
época negra da história dos judeus no Brasil.
O pânico foi
geral, paralisando por completo o desenvolvimento das relações
mercantis da colônia com a metrópole e a esta causando
tão sérios prejuízos, que a coroa portuguesa
afinal se viu forçada a proibir que prosseguisse o confisco
dos engenhos de açúcar, na maioria pertencentes a
indivíduos de origem judaica.
Sucedeu
então uma relativa calmaria, que, entretanto, não
chegou a durar 20 anos. A nova fase de perseguições
prosseguiu, praticamente até 1770, quando outras condições
vieram arrancar totalmente, e para sempre, a inquisição,
que tanto manchou a história de Portugal.
Em
1770, teve início um novo ciclo para a vida judaica no Brasil.
As
cinco décadas seguintes constituem uma fase de transição
para uma política liberal, que não mais sofreria
retrocessos, ampliando suas conquistas até a eclosão
definitiva em 1824, após a proclamação da
independência do Brasil e sua constitucionalização.
Em Portugal, o cenário mudara e a Inquisição
entrava em seus últimos dias, graças ao ministro
Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido como
Marquês de Pombal.
O
empenho do marquês em extinguir qualquer discriminação
contra os cristãos-novos teve repercussão imediata no
Brasil.
Após
setenta anos de grandes perseguições, os cristãos-novos
brasileiros estavam ansiosos de se igualarem aos demais habitantes do
país, dos quais freqüentemente em nada se distinguiam, a
não ser pela discriminação que lhes era imposta.
Assim,
nesse ambiente já por si propício - favorecido ainda
pelos intensos cruzamentos étnicos e processos
transculturativos que se vinham verificando naquela época,
graças à mutação econômica parcial
da base agrária para a de mineração - o
liberalismo da nova lei foi um franco estímulo à
completa assimilação dos cristãos-novos.
Porém, foram
necessários mais outros 15 anos para que, alcançada a
independência do Brasil em 1822 e promulgada a constituição
de 1824, desaparecesse, pela via aberta da assimilação,
o problema judaico brasileiro.
Essa retrospectiva
sobre o passado dos judeus no Brasil revela uma trajetória
honrosa, pontilhada por muitos sofrimentos, mas também repleta
de sucesso, traduzido em contribuições positivas e
fundamentais para o desenvolvimento do país e para a formação
do seu povo. Em diversas áreas os judeus deixaram marcas
permanentes da sua participação ativa, impregnando seu
senso progressista e seus valores de cultura.
Os
judeus brasileiros do século XX, como coletividade, têm
todos os motivos para se apropriarem de tal patrimônio
histórico e de se terem por participantes da nacionalidade.
Autores: Adriana Passos Mendonça, Fernanda Moraes Cardozo, Raquel Cristina Danzer e Rebecca de Mattos Barbosa.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.