Judeus

Análise

Construindo um lugar ao sol: os judeus no Brasil

Apesar de existirem registros de comunidades judaicas no território brasileiro durante a ocupação holandesa em Pernambuco - no século XVI -, essas comunidades não conseguiram se estabelecer. Esse fato ocorreu porque, além delas não serem numericamente expressivas, nessa época, ocorreu a expulsão dos holandeses pelos portugueses, o que ocasionou no fim, praticamente, dessas comunidades.

Devido a essa expulsão, a comunidade judaica brasileira só foi formada durante a primeira metade do século XX, principalmente, pelas sucessivas migrações de judeus provenientes de outros continentes. Dentre essas migrações, destaca-se a de judeus oriundos da Europa Oriental, os yiddishfones, que imigraram maciçamente no período entre o final do século XIX e a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Ainda que existente, a participação do Brasil como destino de imigração judaica é praticamente irrelevante no continente americano. Apesar de ser um país de dimensões continentais e de ter tradição como pólo receptor de imigrantes, o Brasil era visto, nas comunidades judaicas que passavam por momentos migratórios, como uma grande selva, sujeita a riscos desnecessários. O destino preferencial dos imigrantes judeus foi em três países: Estados Unidos, Canadá e Argentina.

A imigração e a estabilização do povo judeu

No início do século XX, a imigração judaica para o centro-sul do Brasil tem papel preponderante. Nesse contexto, o trabalho na agricultura se caracterizou como atividade primordial desse povo, já que tanto eles, como o próprio estado brasileiro, tinham interesses em comum na realização dessa atividade.

Para os imigrantes, o trabalho na terra era visto como uma espécie de libertação dos vícios da vida urbana, regenerando assim a pureza da raça. E para o governo brasileiro há também uma visão positiva, pois a agricultura era conceituada como setor prioritário e os imigrantes em bem vindos para desempenhar a função, ampliando as potencialidades do país.

Posteriormente, começam a haver correntes migratórias internas para os grandes centros do Brasil, especialmente Rio e São Paulo. Com isso, o fluxo de imigrantes judeus passou a ser mais direcionado para essas localidades. O comércio prestamista a domicílio passou a ser o ofício mais corriqueiro dos imigrantes. Esse era realizado tanto nas zonas de expansão da atividade agrícola, onde havia demanda por esse tipo de serviço, como nas zonas urbanas, em espaços com pouca oferta.

Diferentemente dos imigrantes sírios e libaneses, os judeus se agruparam em comunidades numericamente expressivas nas grandes cidades. Isso se explica pelo menor número dos judeus em relação aos outros grupos descritos. Dessa forma, é imperioso para uma comunidade menor se agrupar a fim de educar os filhos e viver dentro da cultura e visão de mundo judaico, neste caso.

Outros ramos de atuação comercial, desenvolvidos pelos judeus, foram em setores como indústria ligeira de confecção de roupas e mobiliário. A proporção de filhos dos antigos empresários atuando nas pequenas empresas familiares decresceu substancialmente nos últimos anos, já que esses tiveram uma formação universitária e ingressaram em profissões liberais ou empregos gerenciais em empresas particulares.

A construção do judaísmo brasileiro

A identidade judaica brasileira era muito difícil de ser pensada devido à falta de contato entre os diversos grupos de imigrantes que optaram pelo Brasil. Entretanto, organizações como a Alliance Israélite Universelle procuravam auxilia-los na inserção comunitária e no desenvolvimento de laços mais firmes entre os grupos instalados no país.

Ao chegar ao Brasil, os judeus de diversas origens passaram a se agrupar a partir da constituição de sinagogas, mantendo um centro de costumes e ritos que representassem sua cultura. Houve também a criação das Landmannshaffen, organizações de oriundos de diversas cidades da Europa Oriental. Em ambos os casos, existem os aspectos dos rituais religiosos, dos hábitos alimentares e da organização da família, que eram centrados em um grupo específico de judeus.

Posteriormente, alguns fatores ajudaram a descentralizar esse quadro, moldando uma identidade judaica mais aglutinadora. Dentre eles, pode-se citar as organizações sionistas e não sionistas e principalmente os clubes recreativos e culturais.

Um fator ilustrativo da força da comunidade judaica brasileira é o grande número de organizações em relação ao contingente populacional. O peso dos leigos na estrutura organizacional é relevante na medida em que possibilitou maior abertura nas relações com judeus de outras vertentes e até mesmo com não-judeus. Assim, é notória uma melhora da imagem deles junto ao público externo. Logicamente, há ressalvas nesse contexto, já que a força da liderança religiosa, intransigente nas relações com outros grupos, também exerce influência no processo.

O capital étnico dos judeus brasileiros

Enquanto em outros países os judeus têm de superar adversidades no relacionamento com outras parcelas da sociedade, no Brasil acaba sendo ser judeu é considerado um trunfo. Declarar-se judeu fornece boas expectativas de inserção no mercado de trabalho qualificado.

O imaginário da identidade brasileira apresenta a mistura de raças como fator preponderante, ou seja, não haveria espaço para um isolamento por parte de determinado grupo específico. Isso facilitou a aceitação dos judeus na inserção social no país, ao contrário do que ocorria na Europa, por exemplo, onde sua mistura com raças consideradas superiores era temida.

Além disso, num país de escravidão tardia como o Brasil, quanto maior é o afastamento da identidade negra, mais valorizado o indivíduo fica, seja no mercado de trabalho ou nas relações sociais. Assim, os judeus com sua ascendência européia obtiveram poucas restrições em seu processo de inclusão na realidade brasileira durantes seus fluxos migratórios.

A comunidade judaica brasileira também procurou se dissociar de suas parcelas consideradas negativas, como zonas de prostituição, por exemplo. Para isso, havia a associação delas com seus países de origem, como Polônia e Rússia que eram estigmatizados durante o período de Guerra Fria. Dessa forma, as prostitutas eram chamadas de polacas, preservando a comunidade judaica.

Conclusão

Os judeus brasileiros realizaram na média, uma trajetória de destaque em sua introdução na sociedade brasileira e no valor embutido a si perante a sociedade. Essa construção, entretanto, é um processo contínuo, cabendo à comunidade preservar valores morais como a luta contra o racismo no país e características positivas atribuídas aos judeus, como vocação intelectual, por exemplo. Este último aspecto pode ser ilustrado através de eventos artísticos e intelectuais.

Além disso, atuações pessoais devem primar pela ética de conduta a fim de não arranhar a imagem positiva dos judeus, para que não haja, porventura, algo negativo que possa ser remetido à comunidade como um todo. Afinal, a avaliação positiva, em geral, dos judeus no Brasil é uma peculiaridade visto que ser judeu em outras localidades do globo acaba se tornando um fardo.

Autor: Luciano Constant Oliveira (Disciplina de Comunicação, Cidadania e Política IV, em 2003-1).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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