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Unidos pelo continente
Fabiana Oliveira e Erica Cristina | 19/04/2006
Foi-se o tempo em que as comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro contavam entre os seus moradores apenas com imigrantes vindos de outras regiões do país. Hoje, basta um olhar mais atento para perceber que “tem africano na área”. E eles não fixam residência aleatoriamente. A nacionalidade é um fator significativo na hora de escolher o novo lar. Parte do pessoal de Angola, por exemplo, pode ser encontrado no Complexo da Maré, na zona norte do Rio. Mas nada de isolamento. Não falta criatividade na hora de juntar o continente. As iniciativas vão desde festas até a construção de uma rede com para conter o avanço da Aids.
E a organização destes povos não pára por aí. Eles também se reúnem em várias associações, sendo uma das mais expressivas a de estudantes que vêm para o Brasil, por convênios, intercâmbio, ou mesmo, como refugiados - deixando para trás conflitos políticos em suas nações. Na hora que a saudade aperta, palestras, jogos e festas típicas, com músicas e trajes tradicionais, aliviam um pouco a falta da terra de origem.
Este tipo de evento, segundo o presidente da Associação de Estudantes de Cabo Verde (Aecerj), Rui Delgado, tem colaborado bastante para que esses estudantes se sintam mais próximos de casa:
"Para ajudar, nós tentamos reunir as associações de estudantes africanos para diversas atividades culturais. Alguns deles chegam a ficar sete anos sem retornar para casa. Já as pessoas que vêm refugiadas acabam ficando por aqui mesmo. Neste sentido, estes encontros são fundamentais para quem está distante".
Longe da África e, por vezes, distantes entre si no Rio, eles acabam marcando seu lugar no mapa geográfico e simbólico do estado: “Os imigrantes de Angola ficam em sua maioria, na Maré, São Gonçalo e no Estácio; do Senegal, em Niterói; de Cabo Verde, em Vila Isabel, Botafogo e Niterói; de Guiné Bissau, no Maracanã; e de Moçambique, na Zona Sul", situa Rui.
Cultura, trabalho e saúde
Outra forma encontrada para unir estas comunidades foi idealizada por uma das associações de estudantes de Angola, no Brasil. O Grupo Mãe África – Ação Social produziu um debate amplo sobre a situação da Aids nos países africanos. O "I Encontro Filhos da África" reuniu imigrantes do Senegal, Cabo Verde e Guiné Bissau. Também foram portadores do vírus, líderes comunitários, autoridades e Ongs brasileiras, que discutiram alternativas para o tema.
Mas a proposta vai muito além: “Queremos formalizar uma rede no Estado para trabalhar a questão da Aids. Pensamos em aglomerar os africanos em geral. Vamos começar com os estudantes por ser mais fácil localizá-los. A idéia é que, ao voltarem para os seus países, eles possam manter esta rede funcionando”, explica Cabenda Ricardo, coordenador do Grupo Mãe África – Ação Social.
Os números mostram a importância desta iniciativa. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2000, 17 milhões de africanos morreram de Aids; sendo 3,7 milhões crianças. Estima-se também que 8,8% dos adultos estavam contaminados com o HIV (Human Immunodeficiency Virus). Atualmente, somente na África do Sul, 21,5% dos adultos estão infectados e, em Botsuana, esse número está em 37,3%.
No Brasil, embora se estime que cerca de 400 mil pessoas sejam portadoras do vírus, o país é referência mundial no controle da epidemia. O coordenador do Centro Internacional de Cooperação Técnica em HIV/Aids, Carlos Passareli, explica as possíveis razões do sucesso nos resultados relativos ao combate à doença: “Todas as pessoas com indicação médica podem ter acesso ao tratamento na rede pública. Conseguimos conter a epidemia porque fizemos um trabalho de prevenção, juntamente com o tratamento das pessoas”.
Desde 1995, o Brasil tem um trabalho de cooperação com outros países da América Latina, do continente africano, leste europeu e Ásia. A função do Centro Internacional de Cooperação Técnica em HIV/Aids é sintetizada por Carlos:
“O objetivo é fortalecer a capacidade de resposta ao HIV/Aids dos países em desenvolvimento, fomentar a colaboração técnica horizontal entre países e incentivar a cooperação sul-sul (relações entre iguais). Para isso, o Centro trabalha com promoção, diagnóstico e, em alguns casos, doação de medicamentos para esses países”.
Prevenção dá samba
Outra iniciativa apresentada no 'I Encontro Filhos da África', foi a de Kakau Moraes, 36 anos, moradora de Rio das Pedras (zona oeste). Há anos ela distribui camisinhas em bailes da região. Já chegou até a compor um samba para falar das DSTs e da Aids. Para a moça, o tabu continua sendo um grande problema, mas, para isso, ela tem uma estratégia: “Uma forma de auxiliar na prevenção é falar com a população através das rádios comunitárias ou até carros de som. A gente vê como os carros funcionam. Se vende bem para o comércio, por que não vender prevenção?”, questiona.
Outra proposta que deu certo no controle da epidemia é a Rede de Comunidades Saudáveis, que engloba 74 associações comunitárias em todo estado do Rio. O trabalho, dinamizado pelo Centro de Promoção da Saúde (Cedaps), tenta, a partir de reuniões mensais com líderes comunitários, construir soluções compartilhadas em saúde, apostando na mobilização social.
“A mobilização das comunidades é fundamental para o fortalecimento da resposta ao HIV/Aids. Na Rede Comunidades Saudáveis, os próprios moradores problematizam e criam pequenas iniciativas. Mas ainda há uma certa dificuldade em trazer a discussão sobre Aids para o interior das favelas”, diz Kátia Edmundo, da equipe de coordenação geral da instituição.
Unidos também pelas dificuldades
O brasileiro Ademir da Silva, 29 anos, morador do Parque Royal (Ilha do Governador), aponta alguns mitos como explicação para a dificuldade no trabalho de prevenção. A resistência masculina ao uso da camisinha ainda é um dos fatores destacados:
“A mulher é muito mais consciente da necessidade do uso do preservativo, apesar da dificuldade de negociar sexo seguro. Às vezes, os homens não querem usar a camisinha por causa de muitos tabus. Um deles é o receio de perder a sensibilidade. Outra coisa que dificulta a distribuição gratuita é a vergonha que alguns têm de abrir a camisinha de graça, perto da mulher. O homem tem medo da parceira achar que ele não tem dinheiro para comprar um preservativo”, revela.
E quando se trata de cultura, os tabus não são exclusividade dos brasileiros. Os 50 países do continente africano, também passam pelos mesmos problemas: “Os homens ainda são muito machistas, não querem usar o preservativo”, afirma a caboverdiana, Rhynia. Outra situação difícil é apontada por Finhamba, da Guiné Bissau: “Ainda existe muito preconceito com as pessoas portadores do HIV. A primeira vez que fui ter contato com alguém com Aids foi aqui no Brasil. Como psicóloga, pretendo voltar para a Guiné e trabalhar com pessoas que têm essa dificuldade”.
O Brasil agradece e a África também
A Aids ainda é relacionada à promiscuidade, drogas, prostituição e grupos de risco. Este tipo de pensamento faz com que as pessoas descartem a possibilidade de serem infectadas pelo HIV. A moradora da comunidade do Borel (zona norte), Valda dos Santos, 60 anos, diz que sofreu muito com o preconceito ao contrair o vírus, há 20 anos.
“A primeira coisa que fiz quando soube que estava infectada foi dar visibilidade e desconstruir o preconceito. Eu não era prostituta, homossexual e nem usava drogas. Contraí o vírus de um parceiro, que morreu com Aids, três anos depois. Quando comecei o tratamento, tomava 20 comprimidos por dia. Hoje, tomo somente três. Se eu posso acordar todo dia, agradeço ao Ministério da Saúde. A vida não está somente aqui, nem na África. Está em todos os cantos do mundo. Temos que promovê-la”, exclama.
Se depender da disposição dos presentes no 'Filhos da África' a construção desta rede tem tudo para ser eficiente. “É algo que está começando, mas não pretendemos deixar morrer. Vamos chamar os outros grupos, mandar propostas para os consulados e pedir apoio não só aos governos, mas também às Ongs. O Brasil está alguns passos a frente em relação à prevenção da Aids. Por que não aproveitarmos esta experiência?”, diz, animado, o caboverdiano Rui Delgado. Se tudo der certo, provavelmente, isto será motivo para mais uma festa em território afro-brasileiro.
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