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Tentativas de
Manutenção
da Identidade de Origem
A esperança os move. Esperança de uma vida melhor. Esperança de dias mais calmos - de serem, por fim, felizes. Apesar de todos o revés que africanos têm encontrado para se estabelecer no Rio de Janeiro, eles continuam levando, insistentemente, a vida com alegria e serenidade. São trabalhadores esforçados, lutando diariamente contra os desmandos da polícia, o abuso do tráfico de drogas e todas as condições precárias que se possa imaginar.
Com uma agilidade incrível, não apenas sobrevivem, como mantêm vivas também suas culturas. Não possuem muito dinheiro, é certo. Mas vão levando, achando meios mais baratos, como a música e o rádio. Fazem festas, organizam reuniões, trocam informações. A comunicação entre africanos na cidade tem, acima de tudo, um forte sentido de solidariedade. Certamente uma lição para nossos grandes veículos de comunicação.
Afinal, é isso que são: uma comunidade - como dicionarizado, trata-se de um pensamento coletivo. País por país, cada uma preserva e mantém vínculos com suas origens. Diante disso passam em seus programas um sentimento inigualável de união de grupo. Identificam-se com seus compatriotas. São guerreiros, com quem podemos compartilhar valiosas lições.
A tarefa proposta ao grupo foi obter informações sobre a população africana imigrante no Estado do Rio. A partir dessas informações e identificados quais grupos fazem parte dessa comunidade que se estabeleceu aqui, ver como se deu seu estabelecimento e verificar que tipo de mídias eram desenvolvidas no sentido da manutenção do pertencimento ao país de origem.
Paralelamente à pesquisa de mídias, perceber como essas comunidades se configuram na cidade e como se desenvolveu a adaptação ao novo país. Identificar quais as iniciativas de preservação da cultura de origem e qual o grau de adaptação dos costumes de origem ao novo local.
Perceber em que aspectos a existência de uma mídia própria mantém laços com o país de origem e de que forma estabelece uma identidade característica dessas comunidades no Rio.
Os africanos vieram de muitos países diferentes. Nigerianos, camaroneses, moçambicanos e quenianos são alguns desses povos que adotaram o Rio como moradia. No entanto, a comunidade de maior concentração na cidade são os nativos de Angola e Cabo Verde, dois países em que a língua é o português. São cerca de 3 mil no Rio de Janeiro.
A maioria dos africanos que vêm ao Brasil está sozinha, isto é, não vem com família e normalmente estão em bairros pobres. No Rio, estão majoritariamente na Vila do João e na Vila Pinheiros, favelas do Complexo da Maré, e na Baixada Fluminense, onde reside a maioria.
O primeiro momento da emigração dos angolanos foi logo depois da independência do país, em 1975. A partir deste fato, Angola se tornou palco de uma grande guerra civil, que se agravou logo depois das eleições livres no país, em 1992, a partir deste ano o Rio começa a receber refugiados angolanos.
Já os cabo-verdianos, e uma parte dos angolanos também, vieram para cá não fugindo de guerras mas em busca de aprendizado e oportunidades. Muitos africanos estudam nas universidades públicas do Rio, em especial na UFRJ.
Os angolanos - ou muangolés, como são conhecidos - destacam-se como a comunidade mais numerosa. Muitos deles hoje enfrentam graves problemas envolvendo a violência nas comunidades pobres onde vivem. Vinda do país de origem devido ao conflito armado para reconstruir suas vidas, esta população passou a ser vítima do preconceito e do terror imposto pelo tráfico de drogas existente nas áreas suburbanas do Rio de Janeiro.
Os angolanos espalharam-se pelo Rio, mas a maioria vive em áreas tão pobres quanto os bairros que deixaram na periferia de Luanda. Por exemplo, os cerca de 500 angolanos do Complexo da Maré, espalhados por comunidades como Vila do Pinheiro, Vila do João, Nova Holanda e Salsa e Merengue, são provenientes do Kassenda e Rangel, dois bairros de Luanda.
A maioria vive de mukunza (muamba), comprando roupas e tecidos para seus familiares revenderem em Luanda.
Há ainda cerca de 100 angolanos residindo em pensões e repúblicas no Estácio. É o caso de dois rappers, Pupa Nzéu Kanda e Ala-X, que usam a música como uma forma de tornar público os problemas que a comunidade a qual pertencem enfrentam.
Fora as dificuldades de sobrevivência, as reuniões para manter a cultura são freqüentes. Toda sexta-feira há uma festa no Catete que reúne muitos africanos. Nesses encontros eles costumam conversar usando o dialeto e dançam o funaná, uma dança tradicional de Cabo Verde, cujo ritmo e dança são bem parecidos com o brasileiro forró. Eles também se costumam se reunir em mofetadas, uma espécie de churrasco, só que com peixe. Outro ponto de encontro é o bar do Tiozinho, na rua 47 da Maré, e em alguns bares da Lapa.
Existe também uma associação cultural no centro da cidade, composta por um acervo com informações sobre os seus costumes. São livros, artesanato e instrumentos musicais, inclusive os tambores típicos para tocar o "semba", um ritmo africano que originou o brasileiríssimo samba.
Primeiro houve a tentativa de obter informações nos consulados dos países. Pegamos os telefones de todos os consulados de países africanos no Rio de Janeiro, mas não se obteve muito sucesso, pois não se conseguiu informações por telefone. Mesmo indo até o consulado enfrentamos dificuldades referentes à burocracia e não obtivemos nada muito além de dados objetivos.
Fomos aconselhados a procurar os africanos justamente na UFRJ, pois os jovens que vem pra estudar, estudam em grande parte nesta universidade. Na própria Escola de Comunicação estudam alguns africanos e um membro do grupo tomou conhecimento de que havia um programa na Rádio Interferência feito por um cabo-verdiano sobre notícias e cultura de Cabo Verde. Odair dos Santos faz Comunicação Social e resolveu criar um programa chamado "Monte Cara" com notícias semanais de Cabo Verde, fornecidas por fontes do próprio país, e com músicas típicas do país. Atualmente o programa não é mais veiculado. Saiu do ar na ocasião em que a rádio foi fechada pela Polícia Federal.
A Internet se mostrou útil no sentido de obter dados, mas informações de caráter mais específico foram conseguidos através de visitas aos locais e através de telefonemas a várias entidades, como as associações de moradores dos locais onde os africanos vivem, organizações de defesa da cidadania e associação dos refugiados africanos. As pessoas em si foram as principais aliadas e fontes dessa pesquisa.
Foi verificada a existência de uma revista chamada "Diáspora", dirigida às comunidades angolanas espalhadas pelo mundo. Esta revista é produzida em Angola, com notícias de lá. Essa publicação é enviada ao Consulado Geral de Angola no Rio de Janeiro. Observações atestam que essa publicação é bastante utilizada como fonte de notícias de Angola principalmente em páginas na Internet, que geralmente são páginas pessoais de imigrantes de Angola, Cabo Verde, Moçambique.
Foram encontradas também associações formadas pelos imigrantes africanos e associações que trabalham com essas comunidades. Há uma associação dos cabo-verdianos cuja sede fica em Mesquita (Nova Iguaçu), além de uma associação no centro da cidade que promove eventos culturais. A entidade chama-se Ação Comunitária do Brasil e um dos focos dos projetos desenvolvidos é o trabalho com os africanos da Vila do João a fim de resgatar a cultura do seu país de origem através da música e do teatro, além de promover a inserção desses imigrantes na cultura brasileira.
Um acontecimento importante que ia haver e que foi de interesse do
grupo é um congresso na Universidade Cândido Mendes. O Congresso Luso-afro-brasileiro de Ciências Sociais, com propostas de discussão de temas acerca intercâmbios culturais, tendo como ponto de partida a língua em comum. Houve uma tentativa de contato com o coordenador do evento para mais informações, porém não obtivemos resposta.
Em que diz respeito especificamente à mídia, se deve destacar que o rádio tem sido um canal de ligação entre Angola e o Brasil através do programa "Conexão Angola", que é transmitido semanalmente na Rádio Bandeirantes e direcionado à comunidade angolana residente no Rio de Janeiro. Trata-se de um projeto da Rádio Nacional de Angola com o apoio da FESA - Fundação Eduardo dos Santos e da Link Comunicação.
O programa tem transmissão nos dois países sendo que no Brasil era emitido apenas no Rio de Janeiro, através da Rádio Bandeirantes e, em seguida, ampliado para quatro cidades: São Paulo (na capital e na cidade de Santos), na capital federal Brasília e em Salvador, na Bahia. Internamente, para o país, a Rádio Nacional de Angola emitirá no Canal A (93.5 FM) às terças-feiras às 21 horas e fará a reposição às sextas-feiras na FM Stéreo (96.5 FM), no mesmo horário.
O programa representa a união de Angola e o Brasil via rádio, tratando principalmente de mobilizar empresários brasileiros para que invistam em Angola.
O crescente interesse de cidadãos desses dois países motivou a ampliação que resulta da identificação do veículo rádio como um meio difusor relativamente barato e capaz de atingir um universo de receptores de grande escala.
Dados demonstram que a mensagem do programa será ouvida por mais de 24 milhões de ouvintes nos dois países e foi concebido para que sirva como elo entre pessoas de ambas as nacionalidades, além de promover a manutenção da cultura angolana na comunidade do Brasil.
O modelo anterior do "Conexão Angola" tinha a comunidade angolana como público primário. Para atingir os públicos angolano e brasileiro de forma mais efetiva, recentemente o programa passou por uma reformulação.
Para que se possa atrair os dois públicos pretendidos, modificou-se a linha editorial do programa e procurou-se dar destaque aos assuntos comuns entre os dois países.
Atualmente, na programação há espaço para a participação dos ouvintes, com mensagens e sugestões. A apresentação e reportagens são dos angolanos Eduardo Magalhães e Vânia Varela e dos brasileiros Wellington Calasans e Carlos Issa.
Um dado interessante e que determina a integração Brasil-Angola é que o vocabulário e o ritmo de cada um procura ser preservado, mas nos casos de palavras que sejam unilaterais, um locutor - num tom de companheirismo - faz o devido esclarecimento ao público da sua nacionalidade, provando que a informação de Angola não é só para os angolanos e atestando a meta de difusão cultural.
A hierarquização da programação, por proximidade dos assuntos, exigiu um modelo de programa capaz de colocar à disposição dos ouvintes, de maneira criativa, o maior volume de informação possível. Assim, tem-se boletins como o "Resumo da Semana", na qual destacam as principais notícias da semana anterior à da veiculação do programa. "Ecos do Atlântico", com o espaço "Mambos D'Angola", é o quando são difundidas curiosidades sobre os dois países, preferencialmente dando-se ênfase aos assuntos culturais que sejam capazes de relacionar os dois países e povos. No espaço "Ligação Angola Brasil" entram vozes de ouvintes que enviam mensagens através do programa.
Os motivos pelos quais os imigrantes africanos vieram para cá foram determinados de forma geral. Analisando de maneira mais específica, caso a caso, os motivos podem ser os mais diversos. Buscar um lugar melhor para se viver, conhecer a experiência de viver em um outro país, ter a oportunidade de estudar. Seria muito simples reduzir tudo a números e estatísticas. Mas pessoas são mais que isso. E essas pessoas que vieram de Angola, de Cabo Verde, do Quênia, por algum motivo escolheram o Brasil para viver e escolheram a Cidade Maravilhosa como destino.
A preferência pelo Brasil explica-se em parte pela familiaridade com a língua - todos fomos colônia de Portugal e a língua portuguesa tornou-se um elo entre as culturas. E o Rio, mais especialmente o carioca, acabou sendo a identificação do modo de ser do angolano, do cabo-verdiano. Eles também se declaram "malandros", mostrando todo o gingado do samba e provando que aqui eles estão em casa.
Melhor dizendo: quase em casa, pois é forte a ligação com o país que deixaram. Saber sobre o país de origem e manter sempre a ligação é um pressuposto fundamental para que o "estar" no outro país seja possível. É a maneira de se resolver a dicotomia de estar aqui e não pertencer a esse lugar e não estar no lugar ao qual se pertence.
O rádio toca as músicas do seu lugar de origem, a revista traz as notícias de onde você nasceu e assim a identidade é cultivada e reafirmada a todo momento. Da mesma forma que o indivíduo reafirma seu pertencimento ele se torna mais apto a "negociar" sua identidade na nova cultura na qual ele está inserido.
A identidade é algo em constante processo de transformação. É óbvio que o imigrante acaba "miscigenando" a sua cultura com hábitos adquiridos no local de destino. E esse parece ser também um dos objetivos das mídias encontradas. Identificar pontos de convergência entre as duas culturas e ao mesmo tempo amenizar o choque entre elas, criando uma forma de conviver melhor nesse lugar novo e diferente.
Referências e fontes
Fausto, Bóris (org). Fazer a América. São Paulo: EDUSP, 2000.
Site Ação Comunitária do Brasil

Site Angola.org

"No ritmo do semba". Reportagem da série "O mundo é aqui" do RJTV
(1ª edição) do dia 01/05/03
Consulado Geral de Angola
Associação de Moradores da Maré
Associação de Moradores da Vila do João
Coordenadoria Executiva do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos
Associação dos Refugiados Africanos no Brasil
"A segunda guerra de Angola". Revista Istoé, número 1753, 07/05/03.
Autores: Adriana Nascimento, Andréia Fanzeres,
Fábio Cardoso,
Gustavo Barreto, Legna de Albuquerque da Silva, Rafael Barros
e
Rosana Leite.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji. voltar
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