Preferência de angolanos pelo Rio, onde já são 5 mil, vira tema
de mestrado e de especial da TV estatal do país africano.
Matéria de Cláudia Amorim no Jornal do Brasil, 28/4/2002
Em 1980,
na canção Palco, Gilberto Gil dizia que só quem sabe onde
é Luanda saberia dar valor à sua banda. Hoje, no Rio de Janeiro,
milhares de habitantes não só sabem como guardam uma estreita
relação com a capital de Angola. O território carioca é, em todo
o Brasil, o destino predileto dos imigrantes angolanos, que
correspondem a 70% dos refugiados atendidos pela Igreja Católica
na cidade. Segundo a Polícia Federal, 2.565 deles vivem em
situação regular no Estado. Mas estimativas indicam que o número
de angolanos no Rio é bem maior. O fenômeno é retratado em uma
dissertação de mestrado escrita por um dos articuladores da
comunidade, e foi alvo de uma reportagem da televisão estatal de
Angola, que registrou como vivem os angolanos na Cidade
Maravilhosa.
Não por
acaso, o dia de gravações foi passado na Vila do João, no
Complexo da Maré. Em solo carioca, é lá que se concentra a maior
parte dos angolanos, integrantes de uma colônia
predominantemente carente. Muitos podem ser vistos na Glória,
nos arredores do Palácio São Joaquim, sede da Arquidiocese, onde
têm assistência da ONG católica Cáritas, ponte para o
reconhecimento da condição de refugiado.
''Além de
buscar condições para que sejam declarados refugiados,
promovemos qualificação de mão-de-obra e, em alguns casos, damos
uma ajuda de custo'', explica Cândido Feliciano Ponte Neto,
diretor da Cáritas, que calcula em 1.500 o número de atendidos.
Segundo ele, a própria colônia se encarrega de prestar
assistência aos que chegam, o que faz com que a quantidade de
imigrantes aumente a cada ano. São jovens com pouco mais de 20
anos, sem qualificação profissional ou oportunidades por causa
das guerras travadas em sua nação nos últimos 40 anos.
Uma das
razões apontadas para o surgimento da conexão Angola-Rio é o vôo
direto da TAAG (Linhas Aéreas de Angola) que liga o país
africano ao Galeão/Tom Jobim. São as únicas ocasiões em que os
taxistas do aeroporto terminam a corrida em áreas carentes como
Parque União, Baixa do Sapateiro, Vila Pinheiro e Vila do João.
''Praticamente levamos só os angolanos para esses lugares.
Depois das comunidades da Maré, o destino mais comum é a Rua
Riachuelo'', diz o motorista Oscar de Carvalho, que aponta outro
ponto de concentração de angolanos: o Bairro de Fátima.
Além da
facilidade dos vôos diretos, a força do mercado informal no Rio
parece ser um dos atrativos para os angolanos. Cândido Feliciano
diz que muitos ganham a vida com biscates. Francisco Cruz,
também imigrante, que prepara uma dissertação de mestrado sobre
a diáspora angolana no Rio de Janeiro, concorda.
''Muitos
sobrevivem vendendo roupas e sapatos e, às vezes, também têm um
emprego modesto'', diz. Cientista social de 38 anos, Francisco
chegou de Angola há seis anos para estudar. Hoje, se emociona ao
falar da saudade e do sonho de trazer Nelma, Amilga, Baleu e
Denise, seus quatro filhos, para morar no Rio.
O objetivo
de Francisco, presidente da Associação dos Angolanos no Rio de
Janeiro e coordenador do projeto Diamante Negro, da ONG Ação
Comunitária do Brasil, é colocar na berlinda a cultura de seu
povo, mais acostumado a ser retratado como coitadinho refugiado
ou nas páginas policiais por envolvimento com o tráfico. ''O
angolano é como o brasileiro, tem o talento do ritmo, do canto e
da dança'', defende. Procurando patrocínio para o grupo
Cantadores e Contadores de Angola, Francisco tem o cantor e
compositor Abel Duerê como ícone da face que pretende revelar da
comunidade angolana carioca, que calcula em 5 mil pessoas. A
esmagadora maioria delas tem como ponto de referência a Segunda
Igreja Batista Evangélica da Vila do João, uma espécie de
conversão religiosa (já que em Angola somente 15% da população é
de protestantes) que merece um novo estudo sobre a diáspora.
Desconfiados e sofridos
Eles vêm
de um país em que a média de vida é de 46 anos, mais da metade
da população não é alfabetizada e onde o Produto Interno Bruto
despencou de 4,57 bilhões para 2,7 bilhões nos anos 90. Chegando
aqui, engrossam as fileiras dos habitantes de favelas. Na Vila
do João, um deles, Silva Gaspar Francisco, junto ao grupo de
teatro que a comunidade de angolanos tenta colocar em prática,
cantarola os versos de uma música que retrata a história de
muitas mães em sua terra natal. ''Mama kiatula kubata / wish
Pedrito wai kwebe?'', entoa, em dialeto quimbundo. ''Uma mãe
chega em casa e pergunta pelo filho que não está. É sobre o
desespero de perder um filho'', explica Silva, 22 anos e cinco
de Vila do João, à procura de trabalho desde que perdeu o
emprego na construção civil.
Como
muitos conterrâneos, Silva passa os momentos de lazer em
companhia de outros angolanos, cultivando a saudade e falando
das lembranças da terra natal. Ao contrário dele, que pretende
voltar para a África, Ariete José, 21, que chegou há três anos
para morar com a madrinha no subúrbio de Mariópolis, sonha em
trazer a família para morar no Rio. ''O povo brasileiro é
alegre, como nós. Só que Angola é um país que já sofreu muito''.
Ariete conta que, antes de sair de lá, já ouvia falar da
''igreja dos angolanos na Vila do João''.
''Os
angolanos têm fama de desconfiados porque já sofreram muito e,
quando ouviram promessas de ajuda, elas não foram cumpridas'',
explica o cientista social Francisco Cruz. A reserva é a atitude
adotada por Diogo Junior, 35 anos e 15 de Rio, e o amigo
Alexandre Rui, 32, que se diz um dos pioneiros da comunidade
angolana da Vila do João, onde mora há dez anos. Os dois contam
que são comerciantes que negociam no eixo Angola-Paraguai-São
Paulo. Casado com uma brasileira e pai de duas filhas, Alexandre
ressalta que aqui encontrou oportunidades que não existem em
Angola. ''Meu pai ganha R$ 2'', queixa-se.
Hugo Melo,
23, estudante de desenho industrial e informática, se vira como
barman, professor de dança e decorador de festas. Morador do Rio
Comprido, Hugo, que chegou em 1999, faz parte de uma elite entre
os angolanos, mas não abre mão do ideal de voltar para casa e
''dar uma contribuição para o país''. Quanto ao atual acordo de
paz, que, segundo a Polícia Federal, dificulta que os angolanos
alcancem o status de refugiados, acha que a situação continuará
a mesma. ''Já houve outros sete, mas no fim ficou tudo em papas
de iakalunga'', conta, usando uma expressão usada em Angola
quando uma promessa não dá em nada.
Fonte: Jornal do
Brasil