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Leituras no
Império |
Análise |
Alicerces
Imperiais
Lauro Barboza Neto
Passado um
ano dos atentados terroristas aos E.U.A, especula-se um
possível ataque norte-americano ao Iraque. Apesar das
retaliações ao Afeganistão, acusado de acobertar Osama bin
Laden, do desmantelamento de parte da rede terrorista al-Qaeda
com a destruição de suas bases e a morte de vários de seus
militantes, e da derrubada do regime talibã, a guerra justa
imperial travada pelos norte-americanos, ainda não está
vencida. Como não se sabe ao certo o paradeiro de bin Laden,
ele ainda é uma grande ameaça ao mundo, assim como Saddam
Hussein e todos aqueles que desrespeitarem as decisões da ONU
(nas quais pesa muito a influência norte-americana),
perturbando a paz e a ordem mundiais.
Não se
pretende defender que os E.U.A. são a única superpotência
global, hegemônica, capaz de ditar unilateralmente os rumos ou
decisões que o mundo irá tomar. Seria um tanto quanto ingênuo
acreditar que apenas um Estado-nação determinaria as regras,
medidas e caminhos a serem seguidos pelos demais, numa ordem
supranacional, em que há sim o reconhecimento e legitimação
dos Estados individuais, mas na qual o direito soberano é
transferido para um centro supranacional. Dessa forma, há uma
realidade no direito situada acima dos Estados-nação - o que
desmistifica a idéia do senso comum em que os E.U.A. são
vistos como o todo-poderoso - que possibilita a formação de um
nova ordem mundial, imperial.
No entanto, a
ação norte-americana é de extrema importância para a produção
de normas e instrumentos legais de coerção que fazem valer
contratos e resolvem conflitos, como salientam Hardt e Negri
em seu livro Império. A intervenção militar como ação de
polícia determinada pelos E.U.A. com o apoio de seus aliados,
como a Grã-Bretanha de Tony Blair, é fundamental para combater
os inimigos do Império. Assim, ganha força e eficácia o
conceito de guerra justa, porém não apenas limitado ao direito
de um Estado de ir à guerra diante de uma ameaça. Agora, a
guerra justa não é mais um mecanismo de defesa ou resistência,
tornando-se justificável em si mesma. Com isso, há uma
banalização do inimigo que é tornado absoluto como uma ameaça
total à ordem ética.
É o que se
percebe muitas vezes nas ações norte-americanas sob a forma de
intervenções militares sem precedentes (da mesma forma como o
discurso norte-americano qualificou os ataques terroristas)
como pode acontecer com um possível ataque ao Iraque. Isso se
dá através do direito de polícia baseado no emprego da
repressão, da prevenção e da força retórica, a fim de ampliar
o domínio dos consensos que dão apoio ao próprio poder
imperial. Essas armas eficientes de legitimação do poder
imperial tornam-se evidentes em declarações do presidente
George W. Bush, como em "Estamos diante da primeira guerra do
século XXI. E, agora que declararam guerra a nós, vou liderar
o mundo até a vitória" e em "Estados como esses (Irã, Iraque e
Coréia do Norte) e seus aliados terroristas constituem um eixo
do mal, armando-se para ameaçar a paz mundial."
Em ambas as
falas, banaliza-se e torna-se absoluto o inimigo do Império,
que ameaçaria todo o mundo e não apenas os E.U.A. Assim sendo,
caberia a eles a missão de salvar o mundo da desordem, mesmo
que através do direito de polícia, fundado na prática da
guerra justa. Desse modo, o direito de intervenção permite que
as autoridades imperiais intervenham em nome de qualquer
espécie de emergência e princípios éticos, como aconteceu no
Afeganistão. Para a consolidação de sua ordem moral, normativa
e institucional, esse tipo de intervenção baseada no uso de
forças militares é primordial. No entanto, essas intervenções
aparecem sob caráter excepcional, apesar de contínuas,
possibilitando reconhecer o Estado de exceção permanente do
Império.
Tendo-se
compreendido como ações militares são justificáveis e
legítimas através do direito de polícia e da guerra justa a
fim de garantir a paz e a ordem bem como os demais valores
considerados universais, faz-se necessário analisar a validade
dos atentados islâmicos como forma de ação da multidão,
insatisfeita com o sistema imperial. Nessa perspectiva, em que
o Império é o inimigo, Hardt e Negri propõem que a solução
seria procurar as alternativas reais e o poder de libertação
dentro do próprio Império, calcados no poder da multidão
global. Para tanto, apresentam duas alternativas: uma, crítica
e desconstrutiva, que seria uma desconstrução ideológica e
material através da derrubada das linguagens hegemônicas e das
estruturas imperiais; a outra, construtiva e ético-política,
que busca transformar os processos de produção de
subjetividades em uma alternativa sócio-política, num novo
poder constituinte.
Parece-me que
os muçulmanos optaram pela primeira. Literalmente, derrubaram
estruturas que davam sustentação ao Império. A queda das
torres do WCT e a destruição de parte do Pentágono não
significaram uma perda apenas material, mas também ideológica
para o Império. O primeiro alvo, um centro mundial de
transações financeiras, símbolo do poder econômico
globalizado, da materialização de uma ordem capitalista. O
segundo, símbolo do poderio militar, do direito de polícia e
da guerra justa de que se valem o Império. O atentado não se
configura como uma alternativa destrutiva completa, uma vez
que a Casa Branca saiu ilesa, e assim o símbolo político
imperial não foi atingido. No entanto, os radicais islâmicos
provaram que os centros de poder do Império não são tão
virtuais como se pensa.
Há ainda
outro problema que limita a eficácia dos atos terroristas dos
fundamentalistas islâmicos. Justamente por constituírem uma
alternativa crítica e desconstrutiva, não englobam a outra
esfera, construtiva e ético-política. Portanto, a ação
terrorista tem um fim negativo, na medida em que apenas
pretende negar o Império (ou parte dele), não apresentando uma
proposta outra para substitui-lo. Por outro lado, a ação
intervencionista militar alicerçada no direito de polícia tem
um fim positivo, uma vez que se vale da guerra justa para a
manutenção da proposta imperial. Ora, do que valeria destruir
o Império, se não se apresentasse nenhum outro sistema para
repô-lo? Destruir por destruir? Estaria certa, então, a mídia
imperial ao denominar os árabes como difusores da barbárie e
de uma violência incompreensível, sem precedentes?
Não. Apesar
de aparentemente não apresentarem uma alternativa construtiva
e ético-política, os seguidores do Islã não se utilizam da
violência sem fundamentos. Como parte integrante da multidão
global insatisfeita com o sistema imperial, estão no seu
direito de negar os valores considerados universais pelo
Império. Por não se identificar com essa padronização e
homogeneização globalizantes, essa parcela da multidão
heterogênea reage, mostrando que o que é ético é relativo, que
a sua cultura não é a imperial. Da mesma forma que os
defensores do Império se valem da guerra justa por se sentirem
ameaçados, os muçulmanos também o fazem por se verem na mesma
situação de perigo.
Portanto, sob
a ótica imperial, as duas formas de violência (tanto a que
atua a favor da manutenção do sistema imperial, quanto a que
pretende derrubá-lo através da multidão) são perfeitamente
legítimas e justificáveis. Dessa forma, se condenarmos e
invalidarmos uma das formas de violência, teremos que fazê-lo
também, por conseguinte, com a outra, pois como afirma Robert
Kurz em O colapso da modernização, "mesmo que o
fundamentalismo tenha traços bárbaros, estes não são mais
bárbaros do que aquilo que os senhores 'civilizados' das
instituições financeiras internacionais exigem da humanidade."
Condenemos e invalidemos ambas, pois. Bem sabemos, isso sob
uma ótica mais sóbria e altruísta, que a violência não se
justifica sob forma alguma.
Se
criticarmos o sistema imperial entre outros motivos por sua
violência, não usemos desse mesmo recurso para libertarmo-nos
dele. Se pretendermos, como salienta o professor César Bolaño
em seu artigo O Império contra-ataca, "buscar os elementos
internos de contradição do próprio capitalismo, capazes de
apontar para um projeto de sociedade diferente... contra a
alternativa terrorista de Nova Iorque é preciso construir
aquela de Seattle e de Porto Alegre, por mais difícil que isso
possa parecer." Se é utópico que o mundo justo e igualitário
deve ser construído através do diálogo e da conscientização, a
utopia é necessária.
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