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Uma História Antiga
Segundo alguns historiadores, os fenícios teriam atingido o litoral do continente americano já no século XII a.C. O historiador brasileiro Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1858 - 1931), em seu trabalho "Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, Especialmente do Brasil" (RJ - 1930), afirma que muitas palavras indígenas são de origem fenícia e hebraica, pois alguns dos tripulantes de embarcações fenícias teriam chegado ao litoral do Brasil, permanecendo nessas regiões e constituindo clãs, daí a diversidade de línguas e costumes de várias nações indo-americanas, principalmente depois da conquista da Fenícia por Alexandre, o Grande, e depois as dominações grega e romana. Em se tratando de língua, é interessante observar que em alguns idiomas como Quíchua, Chibika, Aimará, Guarani e Tupi, há vocábulos supostamente aramaicos e mesmo árabes antigos que seriam encontrados em todos aqueles idiomas, sendo o Quíchua e o Tupi os mais próximos do aramaico e do árabe.
Encontrariam-se também em vários lugares do Brasil inscrições supostamente fenícias gravadas em rocha, como por exemplo, as da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. Na Ilha de Marajó, foram encontradas pedras trabalhadas com inscrições aramaicas, cuja existência é datada de antes da Era Cristã. Estas se encontram no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Existem também os tipos de portos - "muralhas" - que os fenícios construíram, como as que se encontram em Batrun, Líbano: no Aquiri-AM e em Alcobaça-BA.
Inscrição "fenícia" na Pedra da Gávea. Transcrições em letras hebaraicas, latinas e a tradução em português:
"Tyro, Phenícia, Badezir primogênito de Jethabaal."
Inscrição "fenícia" encontrada na Pouso Alto - Paraíba - Brasil:
"Somos filhos de Caná, de Saida, a cidade do rei. O comércio nos trouxe a esta distante praia, uma terra de montanhas. Sacrificamos um jovem aos deuses e deusas exaltados no ano de 19 de Hiram, nosso poderoso rei. Embarcamos em Ezion-Geber, no mar Vermelho, e viajamos com 10 navios. Permanecemos no mar juntos por dois anos, em volta da terra pertencente a Ham (África), mas fomos separados por uma tempestade, nos afastamos de nossos companheiros e, assim, aportamos aqui: 12 homens e 3 mulheres. Numa nova praia que eu, o almirante, controlo. Mas auspiciosamente passam os exaltados deuses e deusas intercederem em nosso favor."
A Imigração Árabe a partir do século XIX Quando se fala em família árabe no Brasil, fala-se principalmente daquela originária da Síria ou do Líbano, maiores fontes de imigrantes que começaram a chegar aqui no final do século passado. Contudo, há outros países, igualmente árabes, que se identificam por terem os mesmos traços culturais, a mesma língua e a mesma religião. Ao todo são 21 países que integram o mundo árabe.
A vinda dos primeiros libaneses ao Brasil verificou-se antes de 1880. Para Manuel Diegues Júnior (Etnias e culturas no Brasil, 1980), sírios, turcos e libaneses já viviam no Brasil desde a época colonial, uma vez que Portugal mantinha relações comerciais com a Síria.
No entanto, sabe-se que na segunda metade do século XIX a imigração árabe se deu de forma bastante acentuada devido ao período de conflitos políticos e econômicos em razão do domínio do Império Otomano na região do Oriente Médio. Porém, o período de maior fluxo migratório árabe, especialmente sírio-libanês, foi entre 1920 e 1930.
Os recenseamentos de 1920 e 1940 revelam o número de imigrantes sírios e libaneses fixados nos estados do Brasil. São Paulo destacou-se como principal centro de absorção de imigrantes, calculado entre 38,4% e 49,0%, respectivamente. Os libaneses não só aportaram em São Paulo, como também chegaram de outros estados da União, atraídos pelo desenvolvimento da lavoura cafeeira e, principalmente, pelo seu parque industrial, onde marcavam presença.
O estado de Minas foi o segundo estado a receber maior contingente de libaneses. Em muitas cidades, eles dominaram o comércio varejista.
O antigo Distrito Federal ocupou o terceiro lugar, seguido do estado do Rio de Janeiro. A presença do imigrante árabe na Amazônia também foi de fundamental importância.
Para Jamil Safady, em sua obra "Panorama da Imigração Árabe", a vinda dos imigrantes, iniciada em 1871, fez-se tradicionalmente com moradores do campo, lavradores ou proprietários de terras. Esses, porém, não vinham para dedicar-se a esta atividade, preferindo atuar no que parecia mais propício à obtenção de lucros rápidos, com os quais eles pretendiam voltar as suas terras de origem. A maior parte dos imigrantes sírio-libaneses vieram para o Brasil estava disposta a trabalhar com o que fosse preciso para enriquecer. Esse desejo esteve presente durante todos os movimentos de adaptação e todos os passos de construção da sua vida neste país.
Os imigrantes libaneses não buscavam as fábricas ou as propriedades agrícolas. Dedicaram-se especificamente ao comércio e às pequenas indústrias.
Para melhor explicar a imigração árabe para o Brasil, Hajjar ("Imigração Árabe: Cem Anos de Reflexão", 1985), divide sua vinda em duas grandes etapas. No entanto, cada etapa é formada por diferentes levas migratórias.
A primeira etapa, teria tido início por volta de 1860/1870 terminado com o inicio da Segunda Guerra Mundial. Dentro desse período, distinguem-se três levas imigratórias. A primeira vai de 1860 a 1900. A segunda começa em 1900 e vai até 1914. E a terceira vai de 1918 a 1938.
A segunda etapa tem início em 1945 e continua até nossos dias atuais. Dentro dessa segunda etapa, também se destacam três levas imigratórias, dando seqüência às anteriores. Portanto, a quarta leva inicia-se em 1945 e segue até 1955. A quinta, começa em 1956 e termina em 1970, e por último, a sexta, vai de 1971 até a atualidade.
Na primeira fase imigratória, os imigrantes na maioria eram cristãos, principalmente libaneses e sírios que deixavam suas terras por causa do domínio otomano. Esses imigrantes ficaram conhecidos como turcos, por causa do passaporte constar registro turco, devido ao domínio otomano naquelas regiões.
Sabe-se que nesse primeiro período, várias correntes imigratórias chegavam ao Brasil. Os navios que aqui chegavam traziam árabes, mas também italianos, espanhóis, e outros imigrantes. A imigração árabe diferenciou-se pelo caráter espontâneo, sem nenhuma participação direta do governo ou outras forças.
Convém lembrar que nessa época não seria possível que os governos dos países árabes participassem de algum acordo, uma vez que seus Estados não eram ainda soberanos. Sabe-se também que os primeiros imigrantes dessa leva ficaram conhecidos como mascates.
Procuravam um comerciante ou fabricante de bugigangas que lhes dava uma caixa com pentes, vidros de perfume, etc. e iam vender nos arredores das cidades. Foram chamados de 'Ahlal Kacha' (povo da caixa). A palavra brasileira entrou, aliás, no vocabulário árabe comum.
É sabido também que após desembarcarem no Rio de Janeiro, em princípio, ou no Porto de Santos, anos mais tarde, os primeiros imigrantes convergiam para três centros principais: ao Norte, encontraram o ciclo da borracha; ao Sul, o ciclo do café; e ao Centro, o ciclo dos minérios.
A procura de enriquecimento e progresso fazia com que o deslocamento do imigrante se processasse sempre em direção de novos centros, atrás de um novo florescimento econômico, de uma nova estrada ou de uma nova mina, enfim, não lhe importavam as dificuldades que encontraria ou a vida à qual teria de se sujeitar.
Essa primeira leva foi importante pelo fato do árabe ter se espalhado por várias partes do Brasil.
Além disso, nessas primeiras levas, o imigrante não considerava definitiva sua vinda para o Brasil. O retorno a seu país ainda permanecia no pensamento da maioria dos árabes que aqui viviam.
Com o início do século, inicia-se também a segunda leva imigratória. Os primeiros imigrantes já se encontravam em uma situação mais estável, sua família adaptava-se bem ao Brasil e seus filhos freqüentavam escolas e faculdades. Com o sucesso desses árabes, muitos conterrâneos começaram a vir na esperança de melhorarem também seus padrões de vida.
Os que vieram nessa fase, já encontravam os primeiros aqui fixados e já atacadistas. Dessa forma, eles lhe forneciam mercadoria, ensinavam-lhe a língua e os iniciavam nos conhecimento básicos para o exercício das transas comerciais.
Nessa época também, muitos jovens desertores do exército otomano vieram para o Brasil. Para esses jovens, servir o exército otomano era uma ação indigna e a eles restava a emigração. Não somente jovens desertores, mas muitos outros vieram por motivos políticos, perseguições, etc.
Com a vinda desses jovens instruídos e de outros imigrantes com novas idéias, a vida do mascate vai sendo abandonada por muitos por sua aspereza; os recém-chegados tendiam a se fixarem mesmo nos lugares mais distantes com pequeno capital.
Passados 20 anos desde o início da imigração, o mascate passa agora a vendeiro. Posteriormente, torna-se comerciante, onde sua adaptação perpetua-se.
Com relação à terceira leva imigratória, sabe-se que se caracterizou pela chegada dos camponeses arruinados pela Primeira Guerra Mundial entre 1918 e 1938.
Devido ao fato de muitos desses imigrantes serem analfabetos, várias escolas foram fundadas com objetivo de ajudar os novos imigrantes e seus filhos.
Também muitas igrejas foram abertas nessa época, para manter os grupos unidos e estimular as atividades culturais.
Por volta de 1929, a crise e o contínuo progresso da indústria nacional desviaram a atenção dos ricos imigrantes para o comércio e a indústria: foram fundadores de novas indústrias, dominando o mercado de certos produtos.
Se antes, o objetivo era adquirir propriedades na aldeia natal, ou mandar dinheiro para os parentes comprarem imóveis, agora essa situação se alterava. Os árabes começavam a se interessar pelas residências e propriedades no Brasil. E nesse período, o comércio ia se estendendo por todas as vias principais.
Os colegas e parentes observavam esse costume e concluíam que realmente a situação do sujeito e da família havia mudado para melhor. A partir daí, criava-se esperança e expectativa em relação à América. Na época, pouco importava o país, pois eles vinham pensando na América, talvez, até mesmo sem ter noção do tamanho do novo mundo.
As investidas até o início dessa leva visavam o rápido enriquecimento e retorno à terra natal. Após a queda do Império Otomano muitos voltaram, pois o seu sonho de liberdade havia se realizado. Mas segundo relatos de alguns desses que retornaram, o que encontraram foi decepcionante.
O resultado dessas decepções fez com que o período de 1929 marcasse a época em que o imigrante começava a optar pela sua permanência no Brasil.
A imigração deixava de ser provisória. O objetivo a partir de então, era a busca de um lar definitivo. As pessoas deixavam para trás a vida em seu país e seu sonho agora era encontrar um mundo melhor na América.
Os imigrantes que vinham já encontravam aqui parentes, amigos, conterrâneos que os ajudavam na língua, no trabalho, enfim, criavam condições melhores para sua adaptação.
A segunda etapa imigratória inicia-se após o final da Segunda Guerra Mundial.
A imigração árabe depois de um período praticamente cessado, volta a acontecer, ainda que se comparada com a primeira etapa, tenha diminuído consideravelmente.
Sabe-se também que durante a Segunda Guerra, os contatos entre os imigrantes que aqui viviam e os seus conterrâneos haviam sido cortados.
Dessa forma quando recomeça a vinda dos árabes para o Brasil, o primeiro grupo que aqui já existia não mais se identificava com os novos imigrantes.
Os fatores que determinaram a segunda etapa são bastante diferentes dos que determinaram a primeira. Mas, ainda assim como a anterior, vinham pela total insegurança e falta de liberdade em seu país de origem. A região árabe ainda era alvo de instabilidade política, juntamente com outros fatores de interesses externos.
A quarta leva imigratória é marcada, além da vinda dos libaneses, pela forte presença palestina no Brasil. Estes vieram após a implantação do Estado de Israel em 1948, que provocou uma diáspora palestina na região. Mais de 1.500.000 palestinos deixaram a região e se dispersaram por todo o mundo.
No Brasil, sírios-libaneses ajudaram esse novo grupo de imigrantes, instalando-os, facilitando-lhes a identidade, moradia e ocupação.
De 1956 a 1970, dá-se a quinta leva imigratória. Ainda chegam ao Brasil um grande número de libaneses, palestinos e em menor número sírios.
E finalmente, no início da década de 70, começa a sexta leva migratória, que não diverge muito da anterior.
É interessante destacar que nessa época muitos atos revolucionários de guerrilheiros palestinos se iniciam. E a situação no mundo árabe complica-se cada vez mais.
"Esse atos guerrilheiros foram denominados por atos terroristas e eram muito mal vistos por toda a imprensa mundial, que conseguiu implantar um repúdio a tais atos e sobrepôs o nome árabe ao nome terrorista, sendo que a conseqüência dessa intensa propaganda anti-terrorista seria extensiva a todos os árabes dentro e fora da região" (HAJJAR, 1985. P.126).
Aqui no Brasil, apesar dos imigrantes afirmarem não terem sofrido este tipo de discriminação, é visível o preconceito criado em torno da palavra árabe. Se antes, o árabe que vinha para o Brasil fora rotulado de turco, agora com todos esses acontecimentos, ele passou a ser visto como terrorista, inimigo.
E, talvez por esses motivos, a comunidade árabe no Brasil não tem encontrado força suficiente para preservar sua identidade.
Muitos se perderam nessas viagens. Uns achavam que iam encontrar antigos parentes que para a América haviam se mudado. Mas quando entravam no navio, nem sempre chegavam no país esperado. Muitos tentavam os Estados Unidos, mas esse país estabeleceu uma seleção rigorosa para a entrada de imigrantes. Então, os que não eram selecionados, vinham na esperança de encontrar um mundo melhor, com mais oportunidades, e desembarcavam aonde o navio parasse.
A Imigração Libanesa no Brasil Entre os povos árabes que emigraram para o Brasil, destacam-se os libaneses e os sírios. Por este motivo, estas duas serão expostas mais detalhadamente.
A imigração árabe a rigor engloba outras nacionalidades, como egípcios, palestinos, iraquianos e outros, porém os libaneses respondem por cerca de 70% dos imigrantes árabes no Brasil.
A fácil integração desses imigrantes aqui foi, e tem sido, de grande valia para a nação brasileira. É importante ressaltar a índole anti-discriminatória dos libaneses, que levou-os a constituir família a partir da união com índias, negras e descendentes de europeus. Isso, a par da tradução de seus nomes árabes para o vernáculo ou a adoção de nomes e sobrenomes de famílias ilustres, levou, com o passar do tempo, à diluição de suas identidades originais. Muitos dos Ferreira, Salles, Souza, Lage, Ananias, Alcântara, Pedreira, Lopes, Teixeira, Araújo, Amado tem sua origem no Líbano.
A integração do imigrante não se limitou à sua adaptação aos costumes e ao estabelecimento de laços familiares. Desde o primeiro momento, e por força de seu espírito de liderança, o imigrante teve de assumir responsabilidade de comando no espaço regional. Muitos se notabilizaram como chefes políticos, transformando-se nos chamados "coronéis". E isso no âmbito de todas as unidades federativas do Brasil.
Conhecidos como bons comerciantes, os libaneses conseguiram amealhar muitos bens, investindo na industrialização e distribuição de seus produtos. Capitães da indústria e grandes comerciantes tiveram suas fortunas, quase todas, iniciadas na lida da mascateação. O trabalho sacrificante do mascate não tardaria a valorizar-se em razão dos bons serviços prestados à comunidade e à flexibilidade de seu relacionamento comercial. A atitude de correção do imigrante pesou muito na transformação de uma imagem de "turco" ignorante voltado exclusivamente para o lucro para a imagem de libanês trabalhador, inteligente e amigo, procedente de uma terra de cultura milenar.
Os mascates libaneses, ainda que fossem, em sua maioria, de pouca escolaridade, eram depositários de um acervo cultural considerável. Trouxeram consigo a história, a poesia, a religião, a música, o canto, a tapeçaria, a arqueologia, a arte culinária, enfim, a cultura milenar libanesa. No Brasil, a cultura do Líbano foi amplamente divulgada por meio da erudição e dedicação do escritor líbano-brasileiro Mansour Challita, tradutor da obra completa do libanês Gibran Khalil Gibran, um dos maiores pensadores, poetas, escritores e pintores do século XX.
Os imigrantes libaneses pioneiros e seus descendentes vêm percorrendo uma longa caminhada nestes últimos duzentos anos, engrandecendo a pátria brasileira.
Na vida de quase todo brasileiro "da gema" há um brasileiro com um nome assim - "turco", como se diz até hoje, mais por hábito do que por preconceito. Tem o dono da venda, o dono da fábrica, o político, o médico, o pai do amigo, o vizinho. Estima-se que os descendentes de libaneses e sírios somem 10 milhões 1 de pessoas. São 11% da população brasileira, mas estão em todo canto. A Embaixada do Líbano no Brasil garante que há pelo menos um representante da colônia em cada um dos mais de 5.000 municípios do país. Marcam presença em todas as esferas da vida nacional e em determinados nichos ganham um destaque especial. Na política e na medicina, a proliferação de sobrenomes árabes é tão intensa que chega a ser intrigante.
Ao contrário da de outros grandes grupos, a imigração sírio-libanesa foi espontânea e individual. A maioria dos que aqui chegaram preferiu estabelecer-se na cidade e ganhar a vida como comerciante autônomo a ir para as lavouras do interior, como tiveram de fazer outros estrangeiros que já vinham contratados para o trabalho nas fazendas. Segundo um levantamento de 1934, 80% dos árabes viviam em centros urbanos, contra 20% no campo - exatamente o inverso dos imigrantes japoneses. O objetivo era "fazer a América": ganhar dinheiro e voltar. Acabavam ficando e trazendo o resto da família. "O patrício chegava, pegava umas mercadorias em consignação, colocava na maleta e saía vendendo de porta em porta ou sobre a lona estendida na praça. Aos poucos, abria uma lojinha, um atacado, com sorte uma indústria". O comércio permitiu juntar dinheiro mais rápido e deu liberdade para depois aplicar parte dele em boas escolas para os filhos.
Ao colocarem suas quinquilharias na maleta e sair de bicicleta, no lombo do burro ou de barco pelos grotões do Brasil, os imigrantes ajudaram a povoar o país e fincaram raízes nos cantos mais remotos.
A história da dispersão árabe pelo país coincide com etapas da História do Brasil. Houve o ciclo da borracha e lá foram eles oferecer seus produtos aos seringueiros, aos barões da borracha.
Houve o ciclo do café e lá foram os mascates para as porteiras das fazendas do interior de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, enfrentando a febre amarela e o temperamento arredio da gente do interior, vender tecidos, botões, roupas aos lavradores e seus patrões. Com o "comércio no sangue" desde gerações imemoriais, os imigrantes iam atrás de fregueses, de oportunidades. Ou mercado, como se diria hoje. Operaram uma revolução no comércio popular, com novidades como vendas a crédito, redução da margem de lucro compensada pela quantidade, alta rotatividade de estoque e promoção de liquidações.
O espírito de clã, trazido por imigrantes que tinham na aldeia o horizonte máximo, beneficiou a comunidade. A rede de favorecimentos começava na acolhida aos recém-chegados e se estendia depois até as relações entre industriais e grandes comerciantes, com facilidades de crédito e de fornecimento. Os mascates, em geral, abasteciam-se com patrícios, comerciantes que já haviam passado pela fase da maleta debaixo do braço e conseguiram abrir uma lojinha. A regra era dar uma força. Essa rede perdurou também para facilitar a entrada em massa da segunda geração no mercado das profissões liberais e, em certo grau, para o ingresso na política.
Embora nem todos os imigrantes tenham ficado ricos, a maioria no mínimo abriu um pequeno negócio. De maneira geral, os que aportaram primeiro foram os que amealharam maior capital. As grandes fortunas das décadas de 40 e 50 eram justamente das famílias que trilharam pioneiramente o trajeto mascate-comerciante-industrial. Em 1907, das 315 firmas de donos sírios ou libaneses em São Paulo, cerca de 80% eram lojas de tecidos ou armarinhos. Em 1930, eram proprietários de 468 dos 800 estabelecimentos de tecidos e confecções, de seis das dez fábricas de camisas, de catorze das 48 fábricas de roupas brancas. Entre as décadas de 40 e 50, o número de comerciantes varejistas diminuiu, enquanto o de atacadistas dobrou e o de industriais, quintuplicou.
A história recente do Líbano é marcada por guerras e conflitos, fatores que pesaram na imigração de volume excepcional. O Líbano tem uma população de 3,2 milhões de habitantes e o número de libaneses e seus descendentes fora do país é de 14 milhões. Quase a metade destes no Brasil. Há presença significativa também nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e outros países latino-americanos.
O Líbano é um dos países que, devido a imigração, contribuiu na formação da nação brasileira.
No Líbano os laços de família com o Brasil fazem-se sentir em quase todo o território libanês, em especial no Vale da Becaa (leste do país) cuja população em sua maioria fala o português. Vindos da cidade de Zahlé - a qual faz parte desta região -, notadamente, o maior contingente de imigrantes libaneses acrescentou-se ao amálgama da população brasileira.
A comunidade brasileira no Líbano, formada quase totalmente de binacionais libano-brasileiros é estimada em 6.000 indivíduos (conforme os registros do Serviço Consular da Embaixada do Brasil em Beirute).
As relações entre os dois países foram marcadas pelos seguintes fatos:
1930: abertura do Consulado do Brasil em Beirute;
1937: o Consulado tornou-se Consulado-Geral;
1945: estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, após a independência do Líbano;
1946: o Consulado-Geral do Brasil passou ao nível de Legação;
1948: assinatura da Convenção Cultural entre os dois países (renovada em 1997);
1951: assinatura do Acordo relativo aos Transportes Aéreos (renovada em 1997);
1954: visita oficial do Presidente da República Libanesa ao Brasil, Sr. Camille Chamoun. Abertura de Embaixadas, no Rio de Janeiro (atualmente, em Brasília) e em Beirute. Assinatura do Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação;
1995: visita oficial do Primeiro Ministro libanês ao Brasil, Sr. Rafic Hariri;
1996: visita do Presidente da Assembléia Nacional libanesa ao Brasil, Sr. Nabih Berry;
1997: visita oficial do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Sr. Luiz Felipe Lampreia, ao Líbano (fevereiro); visita oficial do Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Sr. Michel Temer, ao Líbano (julho); visita oficial do Presidente da República libanesa, Sr. Elias Hraoui, ao Brasil (setembro).
2004: visita do Presidente brasileiro Lula ao Líbano.
É também interessante registrar que o número de muçulmanos no Brasil chega a 1,5 milhão, segundo a Federação Islâmica Brasileira. "Os muçulmanos se concentram nas cidades que têm mesquitas e escolas islâmicas -ao menos 40. A maior comunidade islâmica está no Paraná e no Rio Grande do Sul, mas há grupos importantes em cidades de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. A predominância é de sunitas, embora nos anos 1980 tenha havido uma grande imigração de xiitas devido à Guerra do Líbano", diz o historiador André Castanheira Gattaz.
A Imigração Síria no Brasil A primeira contribuição migratória para o Brasil ocorreu no século XVI (1500-1600), através de missionários católicos sírios que vieram juntos com as caravanas colonizadoras portuguesas, principalmente para os estados do Nordeste, incluindo o Ceará e Pernambuco.
O segundo período ocorre nos finais da dominação turca no século XIX, a partir de 1850, aproximadamente. A atração do Novo Mundo seduziu os jovens cristãos que vieram em pequenos grupos, a partir de 1885, instalando-se principalmente, nas regiões Sudeste do Brasil, de onde partiram como mascates para o Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro.
Em 1922, a coletividade sírio-libanesa doou ao Brasil um monumento histórico referente ao centenário da Independência. Este monumento retrata a atuação fenícia que praticou a arte da navegação no mundo, bem como a construção de barcos e doando ao mundo o alfabeto. Inclui, neste monumento, a estátua de Hiran, Rei de Tiro que descobriu as Ilhas Canárias.
Inaugurado em 1928 teve sua localização primeira no Parque Dom Pedro II, em frente ao Palácio das Indústrias. Em 25 de Março de 1988 foi mudada a sua localização para a Praça Ragueb Chohfi, onde até hoje se encontra.
Dentre as contribuições Sírias ressaltam a Mesquita de São Paulo, a mais antiga construída no continente americano - década de 1940, cujo comando de construção teve sírios e libaneses e culminou com o estímulo à construção de inúmeras outras Mesquitas no interior do Brasil, principalmente nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se concentra um grande número de imigrados sírios - libaneses mulçumanos. A maioria dos sírios cristãos professam o rito ortodoxo e para tanto construíram inicialmente uma Igreja em 1901, na rua Itobi, hoje Cavalheiro Basílio Jafet, travessa da rua 25 de Março, em São Paulo.
Na década de 40, através de um projeto do Engenheiro Paulo Taufick Camasmie, foi construída a Catedral Ortodoxa, uma das maiores do mundo - a segunda - localizada à Rua Vergueiro nº 1515, Vila Mariana, São Paulo e considerada como uma das mais lindas obras arquitetônicas do cristianismo mundial. Foi decorada internamente por pintores russos, bem como Joseph Trabulsi, pintor de escolha do rei Faruk do Egito. Ressalta aos olhos a beleza das imagens dos santos - iconostas - implantados em mármore de carrara, tendo sido doadas pelo benemérito Assad Abdalla Haddad. É um templo digno de ser visitado pelos seus interiores.
Os Egípcios no Rio de Janeiro Segundo o Consulado Egípcio no Rio de Janeiro, existem hoje no estado em torno de 200 a 300 pessoas imigrantes do Egito e elas estão espalhadas, não se concentrando em determinado bairro ou cidade.
Por ser pequeno esse número, não existem lugares onde eles se reúnam para praticar suas culturas e tradições. Não há clubes, igrejas ou coisas do tipo.
Depoimentos e dados fornecidos por alguns árabes que vivem no Brasil Durante o trabalho de pesquisa, foram colhidos alguns interessantes depoimentos de árabes que vivem no Brasil.
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Padre George (Igreja Nossa Senhora do Líbano)
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"Imigração árabe é diferente de imigração muçulmana."
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"Imigração árabe não existiu. O que existiu foi uma imigração de sírios e libaneses. Estes vieram por causa da perseguição e dominação turca."
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"A maioria que imigrou para o Brasil era de cristãos. Vieram a procura, principalmente, de trabalho e liberdade. Quando chegam, todos são conhecidos como turcos."
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"Não existe comunidade árabe, mas sim Síria e libanesa. A imigração libanesa é bem maior que a Síria."
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Alguns descendentes de árabes na política: Rosinha, Garotinho, Presidente da Câmara Municipal, Michel Temer, Paulo Maluf, Espiridião Amim.
Cultura:
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"Existem centros de libaneses e sírios, mas não existe um centro de cultura árabe."
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"Os sírios e libaneses não são mais sírios e libaneses; são brasileiros."
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"Os libaneses são mais fiéis ao país para onde imigraram do que ao país natal. Possuem uma grande capacidade de integração. O Líbano ficou só na memória."
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"A cultura árabe é mais conhecida através da comida. Mas essa comida é, basicamente, libanesa."
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"Os libaneses são muito apegados às tradições, às raízes (apego à família, unidade do matrimônio, respeito aos pais e avós, reunião da família para compartilhar, etc)."
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"O Líbano é um país moderno. É a mais moderna das sociedades árabes pelo contato com o ocidente. A mulher lá não é tão "atrasada" como pensa o senso
comum.
Mídias:
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"Não há mais jornais."
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"Antigamente, em São Paulo, havia 2 jornais."
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"Atualmente existe a revista "Carta do Líbano", editada em São Paulo."
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"A Missão" era uma revista do Rio de Janeiro que não existe mais."
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Havia, antigamente, uma revista editada no Rio de Janeiro chamada "O Jardim Árabe", que não existe mais.
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Os libaneses de São Paulo são mais arraigados à cultura árabe do que no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro eles viraram cariocas.
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Há 10 milhões de libaneses no Brasil.
Sobre a Igreja Nossa Senhora do Líbano:
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A Igreja foi fundada em 1931 para atender libaneses maronitas (cristãos/católicos). Aos poucos os maronitas foram se incorporando à religião católica brasileira.
Hoje a paróquia serve basicamente aos brasileiros (com e sem descendência árabe). O trabalho da paróquia é equilibrado entre as comunidades libanesa e brasileira. Hoje em dia as comunidades são totalmente integradas.
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A Tijuca foi o primeiro bairro de concentração de libaneses católicos.
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Marcos e Neide (Consulado do Líbano no Rio de Janeiro)
"Existem vários tipos de mídias árabes, como jornais e sites das instituições.
Bairros de maior concentração libanesa:
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Tijuca (maioria);
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Ipanema/ Copacabana (antigamente);
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Nova Iguaçu (mais recentes).
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Os libaneses freqüentam pouco o consulado. No entanto, os que freqüentam são sempre os mesmos. Os libaneses se "aclimatam" muito bem ao país que imigram. Acabam virando brasileiros.
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O Líbano é muito parecido com o Brasil. Tem o espírito do Rio de Janeiro e a forma de lidar com dinheiro parecido com São Paulo.
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A maioria dos libaneses no Brasil e Rio de Janeiro é cristã (Ortodoxos, Maronitas e Meuquitas).
Alguns descendentes de árabe na mídia:
Comemorações:
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"As comemorações árabes no clube são a Independência do Líbano (22 de Novembro) e a Independência da Síria."
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"O clube não é mais de sírios e libaneses exclusivamente. É mais um clube de bairro atualmente."
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"O clube foi fundado em 17 de Setembro de 1936. Na época da fundação, 95% dos sócios era sírios e libaneses."
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"Ocorrem ocasionalmente festas e jantares típicos dos árabes."
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"As religiões Maronita e Meuquita não "seguem o papa". Os Ortodoxos não têm um papa. O mais alto cargo é patriarca (uma espécie de cardeal)."
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"Maior parte dos cristãos veio para o Brasil fugindo dos turcos."
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"As primeiras imigrações para o Brasil eram de cristãos."
Referências Bibliográficas: DIEGUES JÚNIOR, Manuel. Etnias e culturas no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1980.
HAJJAR, Claude Fahd. Imigração árabe: Cem Anos de Reflexão. São Paulo: Editora Ícone, 1985.
LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. Trad. Patrícia de Queiroz C. Zimbres. São Paulo: Editora da UNESP, 2001, 344 p.
SAFADY, Jamyl. Panorama da Imigração Árabe. Editora Comercial Safady.
Outras Fontes: ARÁBIAS - http://www.arabias.com.br
Site visitado no dia 10 de Julho de 2003.
CONFELIBRA - http://www.confelibra.org.br
Site visitado no dia 12 de Julho de 2003.
LÍBANO - http://www.libano.org.br
Site visitado no dia 17 de Julho de 2003.
1 Fonte: Consulado do Líbano no Rio de Janeiro
Autores: Blandine Mól de Araújo, Carlos Eduardo Cayres de Matos,
Carlos Leandro Camejo de Souza, Luciana Marques Meireles, Rachel Rossi Mendes
e
Tathiana C. Tenorio da Silva.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
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