Armênios

Análise

A fuga do genocídio

Segundo dados do governo da República da Armênia, são aproximadamente 40 mil armênios e armeno-descendentes por todo o Brasil, mais de 80% destes vivendo em São Paulo. Entretanto, há poucas manifestações da identidade armênia no País. Ao contrário de outras comunidades como a italiana e alemã, os descendentes de armênios no Brasil não possuem grandes centros que visem preservar a sua identidade. Os poucos pontos de reunião e de difusão da cultura do país estão na capital paulista e são ligados à Igreja Ortodoxa Armênia.

Foi tentado contato com as diversas entidades. O grupo apenas obteve resposta do Representante do Clube Armênio, com sede em São Paulo. A entidade é responsável pelo sitio Armênia-Brasil, o qual descrevemos abaixo. O Sr. Carlos Eduardo Bragotto se restringiu a enviar notícias recentes sobre a Armênia e os armênios pelo mundo. Essas notícias são enviadas a uma lista de emails de armênios à qual não tivemos acesso. 

No Rio de Janeiro, não foi descoberta qualquer entidade que agrupasse a comunidade armênia. Os poucos descendentes existentes não se organizam para a divulgação das suas tradições. Averiguou-se apenas a existência de um grupo de discussões via internet de descendentes de armênios. A entrada para tal grupo era vedada a não armênios. Nenhum membro do grupo conseguiu autorização para participar dos debates e levantar seu conteúdo. 

As únicas expressões midiáticas de diálogo entre a identidade brasileira e armênia foram encontradas na Internet. Foram analisados inúmeros sítios que tratavam dos armênios no Brasil. Contudo, apenas três deles eram produzidos por armênios e divulgavam informações recentes sobre a comunidade armeno-brasileira e sobre também a Armênia. 

Um deles, chamado de ‘Comunidade Armênia’, é hospedado pelo portal ‘Armênia OnLine’, um grande sítio da internet que, além de prover informações sobre o país, agrega páginas menos sofisticadas das diversas comunidades armênias espalhadas pelo mundo. Uma delas é a comunidade armênia no Brasil. 

O segundo deles é o Armênia-Brasil. É uma homepage autoral. É feito por um armeno-brasileiro que, além de resumir as notícias de interesse dos armênios-brasileiros, também traz algumas informações sobre a sua cultura. 

O terceiro chama-se Armênia.com.Br. O sitio é feito pelo Clube Armênio Brasileiro em São Paulo. Traz notícias de diversas fontes estrangeiras sobre o país do sudoeste asiático, armênios famosos e as ligações entre a Armênia e o Brasil.

Os Armênios no Brasil

Os sites analisados neste trabalho, apesar de se esforçarem na valorização e manutenção da cultura armênia, levam poucas informações aos internautas sobre a vinda dos primeiros imigrantes do país asiático para o Brasil. Nenhuma home disponibiliza de dados sobre o número de chegadas no país. Procuramos, então, outros meios para conhecer melhor como se deu a imigração. Sabe-se que os primeiros armênios a aportarem aqui vieram a partir de 1895-1896 e, principalmente, em 1915-1916, sempre fugindo de massacres liderados por grupos armados turcos.

No final do século XIX, a Armênia era dividida entre Rússia e Império Turco-Otomano. Enquanto o lado russo prosperava, e era protegido de invasões e guerras, na parte dominada pelos turco-otomanos, que correspondia à maioria do território, os armênios eram vítimas de humilhações e perseguições. O fato se agravou durante a Primeira Guerra Mundial, quando o regime dos Jovens Turcos, alegando que o povo armênio havia manifestado simpatias pelo exército russo, massacrou perto de dois milhões de armênios, em 1915. Neste momento, a população total da Armênia era de cerca de seis milhões. Os sobreviventes do considerado, pelos armênios e já por outras nações, como a França, primeiro genocídio do século XX, foram deportados ou se refugiaram em colônias armênias no exterior. Muitos passaram a viver em países como Síria, Líbano, Grécia, Egito e Iraque, e outros procuraram países mais distantes, como França e Estados Unidos e, ainda, nações da América do Sul.

No Brasil, os armênios aqui já instalados davam apoio aos que chegavam. Grande parte residia em São Paulo e era dona de indústrias e lojas de artigos, e passou a empregar em seus negócios os compatriotas. Os armênios eram conhecidos por trabalharem bem com couro, por isso a fama de bons fabricadores de sapatos, um dos ramos em que se destacaram no Brasil. Talvez essa corrente de solidariedade criada entre os refugiados seja a origem do que podemos observar em um site analisado (o da Comunidade Armênia ), que disponibiliza uma espécie da classificados de empregos para armênios residentes no país. 

A maior concentração de armênios está localizada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Lá, além de lojas e fábricas de sapatos, esse povo construiu igrejas, todas cristãs. (O povo armênio foi o primeiro a adotar o cristianismo). Os primeiros templos erguidos foram da Igreja Apostólica Armênia de São Paulo, dedicada a São Jorge, em 1924, a Igreja Evangélica Armênia, em 1926, e a Igreja Católica Armênia São Gregório Iluminador, em 1935. Pelo que podemos perceber através dos sites estudados, a religião é um importante aglutinador no Brasil dos armênios e, principalmente dos seus descendentes, que correspondem hoje à maioria dos que se dizem armênios.

As Mídias Armênias no Brasil

Comunidade Armênia:  A Página é diagramada como uma típica homepage de notícias. É dividida em várias seções: Brasil, Mundo, Armênia e Editorial. Apesar de aparentemente diversificado, o sítio restringe-se a poucas notícias sobre a Armênia, sobre as relações armeno-braslieiras, assim como informações sobre armênios de destaque e seus feitos no mundo. A linha editorial pretensamente restringe-se a selecionar as notícias sobre um ‘olhar armênio’. 

O Comunidade Armênia não é exatamente um jornal na rede. Não há repórteres, tampouco uma redação. O sítio compila notícias de grandes veículos que sejam de interesse para os armeno-brasileros. Não há o compromisso ou a preocupação com a constante atualização das notícias. No dia 5 de julho, a notícia mais recente era do dia 20 de maio de 2003. 

Sob o título de ‘Páginas Amarelas’, a página possui ainda um serviço de encaminhamento de descendentes de armênios a empregos. O Comunidade Armênia faz anúncios gratuitos daquelas empresas que dão preferência a armênios na contratação para empregos e estágios. São divulgadas também aquelas empresas de propriedade de armênios.

Na editoria Brasil, o sítio veicula informações recentes sobre as relações oficiais entre o Brasil e a Armênia. Dentre elas está a noticia da inauguração da pedra fundamental da Embaixada Brasileira em Ierevan, capital armênia, e da possibilidade de inauguração da chancelaria armênia em Brasília. Em outra reportagem, o sítio reproduz uma declaração do ex-Ministro das Relações Exteriores sobre a importância dos armênios no Brasil como forma de estimular o comércio entre os dois países. Em outra matéria, a prefeita Marta Suplicy é citada quando fala dos atributos dos armeno-brasileiros. Nessa editoria, o Comunidade Armênia também divulga as publicações em língua portuguesa sobre a História e sobre a comunidade.

O segmento Mundo traz informações sobre armeno-descendentes eminentes no mundo. Escritores, intelectuais, músicos e poetas armênios são destacados por seus méritos, reconhecimentos e prêmios. Entre os textos dispostos no dia 5 de julho estava um artigo sobre o lançamento do filme ‘Ararat’, do cineasta armênio Atom Egoyan. 

Na parte intitulada História, a homepage traz em todos os artigos a questão da deportação e massacre de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano, entre os anos de 1915 e 1923. Os textos, manifestamente editorializados, remontam o sofrimento do país durante a Primeira Guerra Mundial e a injustiça da comunidade internacional por não ter ainda reconhecido “o primeiro genocídio do século XX”.

Nota-se claramente que, ao longo da página, tenta-se forjar una proximidade entre as duas nações Há um esforço para trazer a tona e evidenciar as poucas características comuns entre esses dois tão distantes povos. 

www.comunidadearmenia.com.br

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Armênia.com.br: O site Armênia.com.br não traz a mesma quantidade de informações do que o da Comunidade Armênia, mas é bem dividido, com links para História, Cultura, Notícias Locais e Internacionais, Negócios e Oportunidades, Comunidade, Nossa Opinião, Fórum e ainda para outros links. 

Na parte destinada às notícias, as internacionais são produzidas por agências armênias. No dia 20 de julho, podia-se ler duas pequenas matérias internacionais, colocadas on-line no dia 17 de julho. As duas se referiam à luta dos armênios pelo reconhecimento internacional e, principalmente, da Turquia, da ocorrência do genocídio de 1915. O tema se repete freqüentemente em todas as mídias aqui analisadas e sugerem ser a causa da criação das home pages. Há também as notícias locais, quase todas sobre assuntos ligados à fé cristã e às igrejas armênias brasileiras. 

O Armênia.com.br disponibiliza informações, através de textos, como sobre o genocídio, e números, como sobre população, economia, migração e nível social da população armênia para quem se interesse em conhecer melhor como é o país e quem é esse povo. Também há espaço para informações sobre artistas armênios (a maioria descendentes) que se destacam no cenário brasileiro e mundial. Dois que aparecem são os atores Stepan Nercessian e Aracy Balabanian, filhos de armênios que chegaram aqui durante a Primeira Guerra Mundial.

No link Comunidade, o internauta tem acesso ao nome, endereço e telefone de 18 entidades armênias sediadas em São Paulo. O site ainda oferece links para outros sites, grande parte estrangeiros, que contenham informações sobre a Armênia. No espaço Negócios e Oportunidades, não há disponível nenhum tipo de classificados de empregos, como sugere a página. 

www.armenia.com.br
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Armênia-Brasil:  O Armênia-Brasil é um site pessoal, criado por um francês, filho de armênios que vieram para o Brasil depois de se refugiarem na França devido ao massacre de 1915 e fugirem de Paris por causa da invasão alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Como os outros sites, este traz notícias sobre a Armênia, principalmente que se referem ao reconhecimento do genocídio. No dia 20 de julho, podia-se ler uma matéria do Le Monde Diplomatique, publicação francesa, sobre a questão.

A história e cultura milenar do povo armênio, assim como a trajetória do autor da página, também têm lugar na home, com menos informações do que as anteriormente analisadas. Mais uma vez, a tônica do conteúdo deste se assemelha a dos outros sites: a tentativa de se criar uma identidade entre os descendentes de armênios a partir de uma história trágica comum entre seus familiares. 

www.armenia.brasil.nom.br

Conclusão

Genocídio e a construção da Identidade Armênia

Todos os sítios e publicações pesquisados de autoria armênia trazem a questão das atrocidades cometidas pelo então Império Otomano contra os Armênios. Conhecido por eles como o Metz Yeghérn (“Grande Mal”), os ataques dos turco-otomanos é o principal tema discutido nas mídias armênias no Brasil, mesmo tendo ocorrido há mais de 80 anos. 

Os textos estudados não poupam críticas à Turquia por sua alegada condescendência e desprezo pelos fatos ocorridos nos anos da Primeira Guerra Mundial. Eles censuram a postura do atual governo turco de omitir do currículo das escolas a agressão turca ao povo armênio. Reprovam ainda a “islamização forçada” de dois milhões de armênios em solo turco. Eles afirmam que a imensa maioria dos armênios na Turquia mantém escondida sua origem. Citando pesquisas de “estudiosos”, eles explicam que apenas oitenta mil armênios sentem-se livre para manifestar sua ligação com a Igreja Ortodoxo Armênia. 

As homes destacam ainda a “insistência das autoridades turcas de continuarem a renegar o genocídio armênio”. De acordo com os textos levantados, os turcos tentam parecer inocentes em relação às investidas turcas que culminaram com o genocídio de 1915 a 1923. 

Os artigos também ressaltam a omissão da comunidade e da mídia internacional quanto ao ocorrido no início do século XX. Eles destacam o contraste entre as posições frente ao Holocausto e o genocídio contra os armênios. Segundo eles, o grande número de refugiados, os campos de concentração e as deportações e assassinatos em massa não receberam uma atenção à altura. A eliminação de dois terços dos armênios da época é, segundo eles, completamente omitida. 

O amadorismo dos sítios refletem inteiramente a posição do governo da República da Armênia que incessantemente solicita que governo turco reconheça o genocídio otomano. O pedido de desculpas é pré-requisito para que a Armênia restabeleça suas relações diplomáticas com a Turquia e para que as fronteiras entre os dois países sejam abertas. 

Ainda, após 80 anos, os armênios sempre se mostram como vítimas, em discursos proferidos em diversos foros multilaterais, especialmente na Assembléia Geral das Nações Unidas. A Armênia acusa os turcos pelas investidas em seu território, a Turquia critica o exagero dos armênios e se isenta das responsabilidades do extinto Império Otomano. Os armênios acreditam que o governo turco ainda não tomou qualquer mediada concreta para iniciar a reaproximação. Em outras palavras, enquanto a Turquia não assumir a culpa pelo ocorrido, as duas nações permanecerão em lados opostos. 

Os artigos encontrados nos dois sítios voltados para a questão armênia no Brasil não possuem um caráter científico, apesar de algumas vezes citarem autoridades do meio acadêmico. Eles são textos de protestos, panfletários que conclamam por uma maior consciência sobre o tema entres os armênios, armeno-descendentes e os não armênios.

O grupo concluiu que o principal objetivo dos veículos pesquisados é a construção de uma identidade armênia no Brasil. Os indivíduos de nacionalidade realmente armênia no país não passam de cinco mil, a maioria deles vindos quando crianças ao final da Primeira Guerra. Visto que a maioria dos armênios de nascimento ter mais de setenta anos, boa parte das tradições e da identidade armênia está sendo perdida. Nesse contexto, o público alvo é justamente os filhos e netos de armênios. Os sítios claramente tentam instigar os armeno-brasileiros a resgatar a identidade de seus ancestrais. 

A estratégia, consciente ou não, de levar a cabo a reconstrução (ou invenção) da identidade armênia no Brasil é resgatar o passado de sofrimento desse povo. À semelhança das comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, os armênios fazem do genocídio um artificio para forjar uma única identidade armênia mundial. 

No Brasil, a estratégia de junção dos armeno-brasileiros vai um pouco a diante. Além de retomar o “Grande Mal” comum a todos os armênios e seus descendentes, há uma tentativa de criar semelhanças entre o Brasil e a Armênia. A natureza pacifista e amistosa das duas nações é sempre ressaltada. Autoridades armênias e brasileiras são citadas para ressaltar os laços entre os dois países. Isto pode ser observado na home page da Comunidade Armênia.

Os sítios e publicações armeno-brasileiras também, por vezes, se referem ao Decreto da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo que institui o dia 24 de Abril como o “Dia de reconhecimento do genocídio de um milhão e meio de mártires armênios em 1915, perpetrado pelo governo turco-otomano”. O decreto é um projeto do Deputado Dr. Edson Aparecido (PSDB). Segundo os armênios no Brasil, essa seria uma evidência da preocupação da povo paulista com a comunidade armena-brasileira. 

A realidade sobre a relação entre os dois povos é bastante diferente do que os sítios revelam. Os poucos contatos entre os armênios e os brasileiros virtualmente se restringem a incipiente aproximação dos Ministérios de Relações Exteriores dos dois países. Há também algumas poucas publicações sobre a história e cultura armênia no País. Há informações históricas no sítio do Museu do Imigrante e o perfil de alguns armênios que migraram para o Brasil. 

O contato e o diálogo entre os dois povos se deram de forma bastante harmônica. Não houve qualquer conflito entre as duas culturas. Por serem cristãos e caucasianos, não houve discriminação contra os imigrantes armênios no Brasil. O ecumenismo e o respeito à diversidade religiosa são características comuns entre as duas nações. Segundo as fontes que pudemos apurar, não existe qualquer ressentimento ou consternação com o povo brasileiro. Pelo contrário, os armênios foram inteiramente integrados à sociedade brasileira, perdendo-se bastante da cultura armênia. 

Os sítios pesquisados tentam exatamente criar uma identidade dos “Armênios da Diáspora”. As páginas são bastante didáticas. O público-alvo parece ser de armênios que não conhecem sua identidade e sua cultura. Tem-se a impressão que o objetivo da publicação é ensinar os armeno-descendentes o que é ser armênio e o que os une. A questão do genocídio surge para amalgamar os armênio dispersos pelo mundo e para tentar criar uma identidade que uma aqueles fora de sua Terra Natal.

Autores: Ludmilla de Lima, Raquel Lobão, Nelson Velloso e Mariana Filipo.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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