Armênios

Análise

As Marcas do Genocídio

Todos os sítios de autoria armênia aqui analisados trazem a questão das atrocidades cometidas pelo então Império Otomano contra os conterrâneos do país. Conhecido por eles como o Metz Yeghérn (“Grande Mal”), os ataques dos turco-otomanos são o principal tema discutido nas mídias armênias no Brasil, mesmo tendo ocorrido há mais de 80 anos.

Os textos estudados não poupam críticas à Turquia por sua alegada condescendência e desprezo pelos fatos ocorridos nos anos da Primeira Guerra Mundial. Eles censuram a postura do atual governo turco de omitir do currículo das escolas a agressão turca ao povo armênio. A “islamização forçada” de dois milhões de habitante em solo turco é outro alvo de reprovação. Eles afirmam que a imensa maioria dos armênios na Turquia é obrigada a camuflar sua origem. Citando pesquisas de “estudiosos”, eles explicam que apenas oitenta mil armênios sentem-se livres para manifestar sua ligação com a Igreja Ortodoxa Armênia.

As páginas destacam ainda a “insistência das autoridades turcas de continuarem a renegar o genocídio armênio”. De acordo com os textos levantados, os turcos tentam parecer inocentes em relação às investidas turcas que culminaram com o genocídio de 1915 a 1923.

Os artigos também ressaltam a elisão da comunidade e da mídia internacional quanto à ocorrência que tomou de assalto o início do século XX. Destaca-se, pois, o contraste entre as posições frente ao Holocausto e o genocídio contra os armênios. O argumento mister é que o grande número de refugiados, os campos de concentração e as deportações e assassinatos em massa não receberam uma atenção à altura. A eliminação de dois terços dos armênios da época é, segundo eles, completamente omitida.

O amadorismo dos sítios reflete inteiramente a posição do governo da República da Armênia, que incessantemente solicita que o governo turco reconheça o genocídio otomano. O pedido de desculpas é pré-requisito para que a Armênia restabeleça suas relações diplomáticas com a Turquia e para que as fronteiras entre os dois países sejam abertas.

Ainda, após 80 anos, os armênios sempre se mostram como vítimas, em discursos proferidos em diversos foros multilaterais, especialmente na Assembléia Geral das Nações Unidas. A Armênia acusa os turcos pelas investidas em seu território, a Turquia critica o exagero dos armênios e se isenta das responsabilidades do extinto Império Otomano. Alardeia-se, no entanto, que o governo turco ainda não tomou qualquer mediada concreta para iniciar a reaproximação. Em outras palavras, enquanto a Turquia não assumir a culpa pelo ocorrido, as duas nações permanecerão em lados opostos.

Os artigos encontrados nos dois sítios voltados para a questão armênia no Brasil não possuem um caráter científico, apesar de algumas vezes se valerem de autoridades do meio acadêmico. São textos de protestos e com viés panfletário, que direcionam à conclamação por uma maior consciência sobre o tema entres os armênios, armeno-descendentes e os não armênios.

Concluímos, destarte, que o principal objetivo dos veículos pesquisados é a construção de uma identidade armênia no Brasil. Os indivíduos de nacionalidade realmente armênia no país não passam de cinco mil, a maioria deles vindos quando crianças ao final da Primeira Guerra. Visto que a maioria dos armênios de nascimento ter mais de setenta anos, boa parte das tradições e da questão identitária está sendo perdida. Nesse contexto, o público alvo é justamente os filhos e netos de armênios. Os sítios claramente tentam instigar os armeno-brasileiros a resgatar a identidade de seus ancestrais.

A estratégia, consciente ou não, de levar a cabo a reconstrução (ou invenção) da identidade armênia no Brasil é resgatar o passado de sofrimento desse povo. À semelhança das comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, os armênios fazem do genocídio um artifício para forjar uma única fronte armênia mundial.

No Brasil, a estratégia de junção dos armeno-brasileiros vai um pouco a diante. Além de retomar o “Grande Mal” comum a todos os armênios e seus descendentes, há uma tentativa de criar semelhanças entre o Brasil e a Armênia. A natureza pacifista e amistosa das duas nações é sempre ressaltada. Autoridades armênias e brasileiras são citadas para ressaltar os laços entre os dois países. Isto pode ser observado na home page da Comunidade Armênia.

Os sítios e publicações armeno-brasileiras também, por vezes, referem-se ao Decreto da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo que institui o dia 24 de Abril como o “Dia de reconhecimento do genocídio de um milhão e meio de mártires armênios em 1915, perpetrado pelo governo turco-otomano”. O decreto é um projeto do Deputado Dr. Edson Aparecido (PSDB). Segundo os armênios no Brasil, essa seria uma evidência da preocupação do povo paulista com a comunidade armena-brasileira.

A realidade sobre a relação entre os dois povos é bastante diferente do que os sítios revelam. Os poucos contatos entre os armênios e os brasileiros se restringem, virtualmente, à incipiente aproximação dos Ministérios de Relações Exteriores dos dois países. Há também algumas poucas publicações sobre a história e cultura armênia no País, além de informações históricas no sítio do Museu do Imigrante e o perfil de alguns armênios que migraram para o Brasil.

O contato e o diálogo entre os dois povos se deram de forma bastante harmônica. Não houve qualquer conflito entre as duas culturas. Por serem cristãos e caucasianos, não houve discriminação contra os imigrantes armênios no Brasil. O ecumenismo e o respeito à diversidade religiosa são características comuns entre as duas nações. Segundo as fontes que pudemos apurar, não existe qualquer ressentimento ou consternação com o povo brasileiro. Pelo contrário, os armênios foram inteiramente integrados à sociedade brasileira, perdendo-se bastante da cultura armênia.

Os sítios pesquisados tentam exatamente criar uma identidade dos “Armênios da Diáspora”. As páginas são bastante didáticas. O público-alvo parece ser de armênios que não conhecem sua identidade e sua cultura. Tem-se a impressão que o objetivo da publicação é ensinar os armeno-descendentes o que é ser armênio e o que os une. A questão do genocídio surge para agregar aqueles que, uma vez coagidos à diáspora ante a realidade pouco amistosa contra seu povo no dado momento histórico, conflagram uma busca interessa pela edificação de uma identidade que vincule os exilados de sua Terra Natal.



Comunidade Armênia: 
www.comunidadearmenia.com.br

A Página é diagramada como uma típica homepage de notícias. É dividida em várias seções: Brasil, Mundo, Armênia e Editorial. Apesar de aparentemente diversificado, o sítio restringe-se a poucas notícias sobre a Armênia, assim como sobre as relações armeno-brasileiras e informações sobre armênios de destaque e seus feitos no mundo. A linha editorial limita-se – escoltada por uma razoável dose de pretensão - a selecionar as notícias a partir de um ‘olhar armênio’.

O Comunidade Armênia não é exatamente um jornal na rede. Não há repórteres, tampouco uma redação. O sítio compila notícias de grandes veículos que sejam de interesse para os armeno-brasileros. Não há o compromisso ou a preocupação com a constante atualização das notícias. No dia 5 de julho, a notícia mais recente era do dia 20 de maio de 2003.

Sob o título de ‘Páginas Amarelas’, a página possui ainda um serviço de encaminhamento de descendentes de armênios a empregos. O Comunidade Armênia faz anúncios gratuitos daquelas empresas que dão preferência a armênios na contratação para empregos e estágios. São divulgadas também aquelas empresas de propriedade de armênios.

Na editoria Brasil, o sítio veicula informações recentes sobre as relações oficiais entre o Brasil e a Armênia. Entre elas está a noticia da inauguração da pedra fundamental da Embaixada Brasileira em Ierevan, capital armênia, e da possibilidade de inauguração da chancelaria armênia em Brasília. Em outra reportagem, a página reproduz uma declaração do ex-Ministro das Relações Exteriores sobre a importância dos armênios no Brasil como forma de estimular o comércio entre os dois países. Em outra matéria, por sua vez, a prefeita Marta Suplicy é citada quando fala dos atributos dos armeno-brasileiros. Nessa editoria, o Comunidade Armênia também divulga as publicações em língua portuguesa sobre a História e sobre a comunidade.

O segmento Mundo traz informações sobre armeno-descendentes eminentes no mundo. Escritores, intelectuais, músicos e poetas armênios são destacados por seus méritos, reconhecimentos e prêmios. Entre os textos dispostos no dia 5 de julho estava um artigo sobre o lançamento do filme ‘Ararat’, do cineasta armênio Atom Egoyan.

Na parte intitulada História, a homepage traz em todos os artigos a questão da deportação e massacre de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano, entre os anos de 1915 e 1923. Os textos, manifestamente editorializados, remontam o sofrimento do país durante a Primeira Guerra Mundial e a injustiça da comunidade internacional por não ter ainda reconhecido “o primeiro genocídio do século XX”.

Nota-se claramente que, ao longo da página, tenta-se forjar uma proximidade entre as duas nações. Há um esforço para trazer à tona os fantasmas e evidenciar as poucas características comuns entre esses dois tão distantes povos.

 



Armênia.com.br:
www.armenia.com.br

O site Armênia.com.br não traz a mesma quantidade de informações do que o da Comunidade Armênia, mas é bem dividido, com links para História, Cultura, Notícias Locais e Internacionais, Negócios e Oportunidades, Comunidade, Nossa Opinião, Fórum e ainda para outros links.

Na parte destinada às notícias, as internacionais são produzidas por agências armênias. No dia 20 de julho de 2004, podiam-se ler duas pequenas matérias internacionais, colocadas on-line no dia 17 de julho. As duas se referiam à luta dos armênios pelo reconhecimento internacional e, principalmente, da Turquia, da ocorrência do genocídio de 1915. O tema se repete freqüentemente em todas as mídias aqui analisadas e sugerem ser a causa da criação das home pages. Há também as notícias locais, quase todas sobre assuntos ligados à fé cristã e às igrejas armênias brasileiras.

O Armênia.com.br disponibiliza informações, através de textos, como sobre o genocídio, e números, como sobre população, economia, migração e nível social da população armênia para quem se interesse em conhecer melhor como é o país e quem é esse povo. Também há espaço para informações sobre artistas armênios (a maioria descendente) que se destacam no cenário brasileiro e mundial. Dois que aparecem são os atores Stepan Nercessian e Aracy Balabanian, filhos de armênios que chegaram aqui durante a Primeira Guerra Mundial.

No link Comunidade, o internauta tem acesso ao nome, endereço e telefone de 18 entidades armênias sediadas em São Paulo. O site ainda oferece links para outros sites, grande parte estrangeiros, que contenham informações sobre a Armênia. No espaço Negócios e Oportunidades, nenhum tipo de classificados de empregos encontra-se à disposição, como sugere a página.

 



Armênia-Brasil: 
www.armenia.brasil.nom.br

O Armênia-Brasil é um site pessoal, criado por um francês, filho de armênios que vieram para o Brasil depois de se refugiarem na França devido ao massacre de 1915 e fugirem de Paris devido à invasão alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Como os outros sites, este traz notícias sobre a Armênia, principalmente que se referem ao reconhecimento do genocídio. No dia 20 de julho de 2004, era possível ler uma matéria do Le Monde Diplomatique, publicação francesa, sobre a questão.

A história e cultura milenar do povo armênio, assim como a trajetória do autor da página, também têm lugar na home, porém com menos informações do que as anteriormente analisadas. Mais uma vez, a tônica do conteúdo deste se assemelha a dos outros sites: a tentativa de se criar uma identidade entre os descendentes de armênios a partir de uma história trágica comum entre seus familiares.

Autores: Ludmilla de Lima, Raquel Lobão, Nelson Velloso e Mariana Filpo. Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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