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Bastião da tolerância em crise de
identidade
Vivian Oswald,
Enviada especial, para o
jornal O GLOBO, em 13/11/2005
AMSTERDÃ. A história se repete. Aisha Tallal é holandesa. Filha
de imigrantes marroquinos, a jovem de 19 anos, suas duas irmãs e
um irmão são nascidos e criados em Amsterdã, um dos ícones do
cosmopolitismo e multiculturalismo europeu. Holandês perfeito e
um bom inglês que aprendeu na escola desde pequena, Aisha
procura trabalho há um ano, enquanto continua os estudos de
direito. Nos últimos meses, já perdeu a conta de quantas cartas
enviou e quantos telefonemas deu em busca do primeiro emprego.
Por telefone, chegou a ter a confirmação do posto e o interesse
do empregador. Mas sempre que enviava o currículo ou mesmo
revelava seu nome, a resposta vinha de bate-pronto: "Na verdade,
não temos a vaga; se surgir uma oportunidade avisamos."
— Eu me sinto perfeitamente integrada, mas sei que muitas
pessoas olham para o meu véu com desconfiança. Acham que você é
diferente, que não pode estudar ou sair de casa, ou que pensa
como Bin Laden. Isso é uma vergonha — desabafa.
Pertencente à segunda geração dos milhares de imigrantes que se
instalaram na Holanda, Aisha vive um problema comum entre os
jovens estrangeiros. Reconhece que as dificuldades de adaptação
dos pais 20 anos atrás foram ainda mais graves: largaram a
família, não falavam holandês e tinham cultura muito diferente.
— Nós da segunda geração não temos as mesmas dificuldades, nos
adaptamos aos costumes holandeses, mas sofremos também — conta.
— Meu irmão às vezes tem raiva do próprio nome. Chama-se Osama
e, por isso, vira motivo de chacota.
Em 2015, Amsterdã terá maioria de origem estrangeira
Desempregado há algum tempo, com problemas familiares e um
passado sobre o qual pouco se consegue saber, o holandês
Mohammed el-Baskiri, de 22 anos, agora presta pequenos serviços
à Fundação Impuls, uma organização sem fins lucrativos
especializada em integrar trabalhadores holandeses. Vivia de
bicos aqui e ali e chegou a trabalhar consertando telhados.
Desde agosto, recebe um auxílio mensal do governo e, em troca,
freqüenta a Impuls, onde aprende a se virar sozinho, cozinhar e
a exercer novos ofícios, como consertar computadores. Com
passado e presente complicados, muitos jovens (alguns são
desempregados, têm problemas com dívidas ou já passaram pela
prisão) abandonam o projeto antes de se firmarem no mercado.
— O mais difícil para o imigrante é a língua. A comunicação
entre patrões e empregados é ruim. E ainda tem os nomes feios.
Por causa da publicidade negativa que se faz dos nossos nomes,
sempre que vêem um nome estrangeiro as pessoas desconfiam. Para
morar aqui, você precisa viver com um holandês, adaptar-se aos
hábitos locais, mas quando acontece alguma coisa errada, "foi um
marroquino" — afirma.
Mohammed é apenas um dos 161 mil moradores de Amsterdã — em sua
grande maioria imigrantes e seus descendentes — que vivem nas
periferias. A população da cidade chega a cerca de 740 mil.
Segundo a Impuls, que cobre toda essa região mais pobre da
cidade, muitos dos jovens na mesma situação de Mohammed sequer
têm onde morar. Dormem sempre na casa de alguém diferente e mal
podem se sustentar.
Em Amsterdã, hoje, metade da população é de origem estrangeira.
Estima-se que dentro de dez anos dois entre cada três habitantes
serão estrangeiros de primeira, segunda ou terceira geração. Ou
seja, estarão em maioria.
Concentrados numa espécie de cinturão ao redor da grande
Amsterdã, os imigrantes vivem em bairros da periferia que já
foram lugares de classe média na década de 50, quando os prédios
da região foram construídos. Por serem mais novos, os prédios
ainda estão em melhores condições do que os edifícios das
periferias francesas, mas também são apertados e cheios de
quartos, o que aumenta a concentração de moradores.
Embora especialistas garantam que o quadro na Holanda não é tão
extremo como na França, em função de uma rede social mais
eficiente, o presidente do Centro Euro-Mediterrâneo de Migração
e Desenvolvimento (Emcemo), Abdou Meneblu, diverge.
— Existe um clima de medo, desconfiança e estresse. Já houve
explosões antes. É uma questão de tempo. Um pequeno incidente
pode desencadear uma explosão a qualquer momento — afirma. E se queixa:
— Cheguei nos anos 70. Para quem via de fora, a Holanda era um
paraíso de abertura, liberdade e tolerância. Os imigrantes já
até chegaram a ser aceitos, mas não tolerados.
Reclamações mútuas de holandeses e imigrantes
Ainda assim, muitos filhos de imigrantes dizem que gostam da
Holanda e que vivem melhor do que viveriam nos países de origem
de seus pais:
— Tenho uma boa vida aqui e acho que meus filhos poderão se sair
ainda melhor do que eu — diz o motorista de táxi de origem
paquistanesa Ali M.
Desde o assassinato do líder direitista Pim Fortuyn, em 2002, e
do cineasta Theo van Gogh, em novembro de 2004, por extremistas
islâmicos, foram despertados em parte significativa da opinião
pública sentimentos de desconfiança, sobretudo em relação à
comunidade muçulmana, que já chega a quase 10% dos 16 milhões de
holandeses. Estrangeiros reclamam da falta de oportunidades e
discriminação; holandeses, do isolamento em que vivem esses
imigrantes em função das diferenças culturais.
Fonte:
O Globo
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