Russos

Análise

Boletim "DiZ"

Atualmente, a comunidade russa mantém alguns veículos de comunicação e associações culturais, dentre os quais citaremos:

Criado em 1965 pelo padre Vincentas Pupinas S.J. (1920-1993) para retratar a vida dos internos dos Internatos S. Vladimir e Sta. Olga, o boletim "DiZ" (Aos Amigos e Conhecidos) (http://selin.tripod.com) acabou transformando-se, com o tempo, num arquivo da atividade da colônia russa no Brasil. Até a presente data, é o único periódico publicado exclusivamente no idioma russo neste país. Após a partida do p. Vincentas em 1980 para o Vaticano, a redação do boletim ficou a cargo do Pe. Joan Stoisser S.J.

Desde dezembro de 1991 (DiZ N-198), com o auxílio de Victor Selin, ex-aluno do Internato S. Vladimir, o boletim que desde o primeiro número era redigido à máquina de escrever, adquiriu um novo visual computadorizado. A periodicidade do boletim é trimestral (4 edições por ano), mas já está em estudos sua publicação bimestral e com tradução para o português.

Apresentação da mídia:

“O boletim DIZ (“Druziam i Znakomym” – tradução: “Aos Amigos e Conhecidos”) é um periódico redigido integralmente no idioma russo que, atualmente, apresenta-se no formato A4, em P&B, com 4 (no mínimo) a 8 páginas. A partir de 1990 recebeu formatação computadorizada e, desde 1998 é feito em “Page Maker“. A partir das páginas matrizes são feitas cópias xerox em papel A3. O número de cópias é variável (100 – 300 cópias)”.

Receptividade e tipo de público alcançado pela mídia:

“Até os anos 2003 o boletim DIZ era distribuído pelo pe. João Stoisser (falecido em 11/02/04) que enviava cópias, via Correio, a uma grande lista de leitores assíduos locais, sempre recebendo destes cartas de elogios e de incentivo. Além disso, o boletim era enviado para a Rússia, Roma, EUA e Austrália.”

Temas tratados pelo boletim:

“O boletim, desde seu lançamento em 1965, trata dos eventos cotidianos (incluindo nascimentos, casamentos, falecimentos) da colônia russa em São Paulo e outros estados. Além de alguns artigos sobre a história da colônia russa no Brasil, o boletim traz também artigos de caráter religioso, ligados às igrejas russas locais”.

Como o veículo se relaciona com comunidades irmãs:

“O boletim sempre teve grande aceitação em todas as comunidades russas e prima pela absoluta neutralidade ideológica e religiosa cristã. Entretanto, desde 1990 passou a sofrer uma restrição por parte de uma facção religiosa da colônia russa. Isso se deve à origem do boletim que foi criado por padres jesuítas “uniatas” (católicos do rito oriental). Alguns padres do clero ortodoxo foram instruídos por seus superiores (dos EUA) a evitar qualquer contato com os jesuítas. Isso restringiu um pouco o acesso do boletim às informações sobre a colônia. Atualmente, o boletim não tem vínculos com nenhuma facção religiosa”.

Quem escreve para o boletim:

“Os originais dos artigos são recebidos em russo ou, eventualmente, são traduzidos para este idioma. As pessoas que colaboram com o boletim são, em geral, de origem russa e da comunidade”.

Motivações para a criação do boletim:

“A motivação maior da criação do boletim DIZ remonta à sua fundação. Nos anos 60 existiam dois internatos para crianças russas: Instituto São Vladimir – para meninos e Instituto Santa Olga – para meninas. Um dos educadores dos dois institutos, o pe. Vicente Pupinis (falecido em 1993) – que fora especialista em comunicação e mídia do Vaticano, criou este boletim com o intuito inicial de manter a comunicação entre os dois institutos no idioma natal e também divulgar as atividades dos mesmos na colônia russa. A aceitação do boletim foi crescendo e, com o tempo, este transformou-se no único periódico da colônia russa no Brasil e um arquivo de sua história”.

Financiamento e patrocínio:

“Desde a sua fundação o boletim jamais recebeu qualquer patrocínio, exceto esporádicas colaborações para confecção de cópias xerox do mesmo”.

Outras mídias importantes para a comunidade:

“Atualmente, existe o folheto periódico “Ráduga” (trad.: “Arco-iris”) da Sociedade Filantrópica Paulista – Lar “São Nicolau”, um asilo de velhos da colônia russa, que publica em português os eventos ocorridos naquela instituição.

Uma das igrejas ortodoxas russas (na Vila Alpina) publica, em português, um periódico (ignoro a periodicidade) de caráter exclusivamente religioso.

O “Círculo Cultural Nadezhda” lançou o periódico “Nadezhda-Vestnik” (trad.: “Informativo Esperança”) publicado nos dois idiomas e com previsão para ser trimestral e patrocinado por uma empresa de turismo. No ano corrente não houve qualquer nova publicação deste periódico”.

Emissoras de TV assistidas pela comunidade:

“Exceto pela rito cristão ortodoxa e conseqüente diferença de datas religiosas, a comunidade russa está completamente integrada aos costumes do Brasil e compartilha os hábitos nacionais, não possuindo quaisquer preferências exóticas ou outros costumes estranhos ao país.
A maioria dos russos que permaneceu no Brasil concentrou-se principalmente nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Nos Estados de Paraná, Mato Grosso e Goiás prevalecem pequenos grupos dos supracitados "staroveri".

Gradualmente, esses imigrantes se adaptaram às novas condições, trabalhando, estudando a língua portuguesa e formando seus filhos nas universidades locais. E com trabalho, economia e sacrifícios lograram obter boa posição econômica e social.

Freqüentando escolas brasileiras do curso primário ao universitário, a nova geração dos filhos de imigrantes adultos está plenamente integrada ao Brasil. Entretanto, o ensino da língua, história e literatura russas ficou reduzido às escolas particulares junto às igrejas.

Os poucos jornais periódicos e a tipografia russa (em São Paulo) acabaram desaparecendo. Já que, hoje em dia, poucos da nova geração sabem ler e escrever em russo. Neste sentido, os "staroveri" no Paraná, Mato Grosso e Goiás mostraram-se mais organizados e unidos. Dedicam-se à agricultura com muito êxito e conservam a autenticidade russa tanto no sentido religioso-eclesiástico, quanto na língua, tradições e costumes. Seus filhos também estudam em escolas e universidades brasileiras, mas permanecem fiéis à sua religião e estudos do russo, sabendo assim falar, ler e escrever no idioma de seus pais”.

Vida associativa

Nos períodos citados acima existiram na colônia russa muitas associações culturais de maior ou menor vulto. Dentre elas destacamos uma: nos anos 70, ex-alunos dos Institutos São Vladimir e Santa Olga formaram o Grupo "Kalinka" - um grupo de danças e canto folclórico russo – que, durante a sua relativamente curta existência (4 anos), apresentou-se com muito sucesso em diversos festivais folclóricos e na TV. Infelizmente, aquela era uma época de repressão, de "caça aos comunistas" e a palavra "russo" para muitos significava "comunista". Em função disso, o Grupo "Kalinka" teve de encerrar suas atividades após 4 anos de profícua existência.

O Círculo Cultural Nadejda: Entidade cultural, fundada em 1982 em São Paulo com o objetivo de divulgar a cultura russa através de exposições e apresentações folclóricas. Para tanto, criou o Grupo "Troyka" de danças típicas russas, cujos integrantes são filhos e netos de russos ou simpatizantes de sua cultura.
O Grupo Russo de Danças Folclóricas "Volga": Nos anos 80, surgiu o grupo de danças folclóricas "Volga", inicialmente formado por filhos e netos de imigrantes russos. O grupo se renova constantemente e até hoje faz grande sucesso em suas animadíssimas apresentações.

Datas comemorativas:

“As datas comemorativas da Colônia Russa em nada diferem das datas comemorativas brasileiras, exceto no aspecto de calendário religioso.
Os russos são, em sua maioria, cristãos ortodoxos e a Igreja Ortodoxa segue o calendário “juliano” que difere em 13 dias do calendário “gregoriano” da Igreja Católica Romana. Assim, a festa de Natal ortodoxa é comemorada no dia 07 de Janeiro e a festa da Páscoa ortodoxa coincide com a católica uma vez a cada quatro anos.

Outra diferença é que, - para os ortodoxos russos, - a festa religiosa mais importante é a Páscoa, enquanto para os católicos é o Natal.

Os imigrantes russos são em sua maioria cristãos ortodoxos e, em São Paulo, inicialmente usavam o templo sírio-libanês para celebrar suas missas em eslavo eclesiástico. Todavia, logo quiseram construir sua própria igreja e assim o fizeram. Em 1930 construíram a Igreja da Santíssima Trindade no bairro de Vila Alpina. Em 1935, chegou ao Brasil o bispo D. Theodosio para fundar a Diocese Ortodoxa, com sede na rua Tamandaré, onde foi construída a Catedral de São Nicolau. Outros templos ortodoxos ergueram-se em São Paulo e em outras localidades do Brasil, como Rio de Janeiro e Niterói (RJ), Porto Alegre e Santa Rosa (RS) e Goiânia (GO).

Os católicos russos do Brasil são pouco numerosos e pertencem ao Ordinariato para fiéis católicos do rito oriental, entregue ao Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, Arcebispo do Rio de Janeiro.
O centro da Obra Ecumênica Russa é a Igreja russa da Anunciação (R. dos Sorocabanos, 150), localizada perto do monumento do Ipiranga, em São Paulo e dirigida pelo Pe. Joan Stoisser S.J.”

Dados populacionais históricos:

“Há o registro (não oficial) da entrada de 123.727 russos entre 1919 e 1947. Esse número parece excessivo e, provavelmente, existe alguma confusão com o termo genérico "eslavos". Podemos supor que a maioria dos assim chamados "russos" deve ter sido de ucranianos, armênios, lituanos, letos, entre outros.

O primeiro contato entre Rússia e Brasil deve-se ao cientista russo G. Langsdorf. Sua atividade científica esteve ligada ao Brasil desde 1813, quando foi nomeado cônsul geral no Rio de Janeiro. Em 1826, ao se aposentar do serviço diplomático, organizou uma expedição de exploração do interior do território brasileiro. A partir disso, pôde concluir o manuscrito de sua obra sobre a geografia física de Mato Grosso, um estudo complexo do planalto brasileiro - primeira pesquisa européia do gênero.
As primeiras imigrações oficiais de russos para o Brasil ocorreram em 1905. Após a malfadada revolução ocorrida nesse ano, na Rússia, o governo brasileiro concedeu asilo político a alguns dos revolucionários.

Em 1906, os chamados "staroveri" ("fiéis do antigo credo") - grupos descontentes com as renovações litúrgicas promovidas pela Igreja Ortodoxa Russa - resolveram deixar o país no intuito de manterem suas crenças religiosas. Eram grupos formados, em sua maioria, por camponeses de todas as regiões da Rússia que, ao chegarem aqui, acabaram por fixar-se como pequenos produtores rurais em diversos estados brasileiros. No Estado de Mato Grosso os "staroveri" se estabeleceram numa fazenda onde, até hoje, vivem num sistema coletivo.

A partir de 1918 aconteceu uma segunda imigração, muito mais numerosa. Era composta de refugiados russos da revolução bolchevista. Especialmente em 1920 e nos anos posteriores, chegaram ao Brasil muitos russos ''brancos'' (adeptos do regime czarista), vindos da Criméia.

O contingente de imigrantes russos espalhados por todo o mundo, em 1921, era formado por representantes de diversas classes profissionais e sociais da deposta monarquia russa. Religiosos, estudantes de escolas militares, literatos, intelectuais de todos os ramos e, principalmente, oficiais, soldados e feridos do exército "branco" czarista derrotado na luta contra a implantação do regime comunista.

Outro contingente emigraria da Rússia para o Brasil, em 1926. Usaram rotas do Mar Báltico e passaram principalmente pela Estônia e, mais ao norte, pela Finlândia. Na época, a imigração para o Brasil tinha um incentivo maior, pois a política imigratória do Estado de São Paulo privilegiava a vinda de camponeses e pessoas habituadas ao trabalho pesado na agricultura (plantações de café). Descontentes e perseguidos em seu próprio país, estes novos contingentes de emigrantes não hesitaram em dissimular sua instrução e cultura para aproveitar esta oportunidade e sair da Rússia de qualquer maneira, fugindo do regime bolchevista.

Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, cidadãos russos e comunidades russas espalhadas pela Europa emigraram. Os que vieram para o Brasil foram abrigados nas hospedarias da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, e de Campo Limpo Paulista, em São Paulo, especialmente criadas para esse fim. Esse movimento imigratório manteve-se intenso até o início da década de 1950”.

Bibliografia:

BRASIL: INTEGRAÇÃO DE RAÇAS E NACIONALIDADES, Cardeal Agnelo Rossi;

AS ROTAS DOS IMIGRANTES RUSSOS - Dra. Angeline Vassilnenko;

Artigo de Vladimir V. Avrorsky, Consul Geral da Rússia, publicado no periódico DiZ Nº 212.


Autores: Pedro Ribeiro e Renata Machado.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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