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Fúria dos terroristas britânicos
foi forjada no caldeirão do descontentamento
Por Amy Waldman, Em Inglaterra, para o The New York Times, em
31/07/2005
Mohammad Sidique Khan nunca esteve encrencado, um detalhe que os
amigos oferecem como um elogio. Em um bairro onde muitos jovens
sul-asiáticos perderam o rumo, ou afundaram no tráfico de
drogas, os pares de Khan admiravam sua dedicação à família,
ginástica, trabalho e ao Islã.
A disciplina de Khan, 30 anos, foi compartilhada não apenas com
seus amigos Shehzad Tanweer, 22 anos, e Hasib Mir Hussain, 18
anos, que se juntaram na missão homicida em Londres, em 7 de
julho. Os três homens e Germaine Lindsay, 19 anos, detonaram
quatro bombas que mataram 56 pessoas, incluindo eles mesmos.
Khan, Tanweer e Hussain faziam parte de um grupo maior de jovens
sul-asiáticos britânicos de Beeston, um bairro de Leeds, que
deram as costas para o que passaram a ver como uma cultura
Ocidental decadente, desmoralizante. Em vez disso, o grupo
adotou o Islã, cuja prática era freqüentemente mais
fundamentalista do que a de seus pais e sempre mais política,
concentrada passionalmente no sofrimento muçulmano nas mãos
ocidentais.
De muitas formas, a transformação tinha elementos positivos: os
homens viviam vidas mais saudáveis e construtivas do que muitos
de seus pares aqui, asiáticos ou brancos, que sucumbiram às
drogas, álcool ou ao crime. O motivo para Khan, Tanweer e
Hussain, em particular, terem cruzado uma linha que ninguém
tinha cruzado antes, como eles e Lindsay se associaram, ou se o
plano deles foi desenvolvido em casa ou no exterior, continuam
mistérios, pelo menos para o público.
Mas a pergunta feita desde a revelação de suas identidades após
os atentados continua repercutindo: o que motivou homens criados
a milhares de quilômetros do mundo muçulmano ou de qualquer
experiência direta de opressão a detonar bombas contra os outros
britânicos, dando início a um novo capítulo do terrorismo?
Muitos aqui vêem respostas em um sentimento de injustiça por
eventos tanto em casa quanto no exterior muitos mais
disseminados entre os muçulmanos do que muitos ocidentais são
capazes de reconhecer; na forma de Islã profundamente política e
rígida para qual estão aderindo um número cada vez maiores de
muçulmanos europeus escolarizados; na dificuldade que alguns
filhos de imigrantes tiveram para encontrar seu lugar e direção
na Europa.
A narrativa dos filhos de imigrantes na Grã-Bretanha, na Europa
Ocidental, é bem mais ampla. Jovens que cresceram com pele
morena em uma Grã-Bretanha branca, em um reduto arruinado de
Leeds, sem saber se seguiam os valores tradicionais de seus pais
ou a cultura de classe operária ao seu redor. Ele foram criados
lado a lado com antigas igrejas de pedra e jovens hooligans,
face a face com atitudes em relação à família e moralidade
diferentes daquelas ensinadas por seus pais.
"Eles não sabem se são muçulmanos, britânicos ou ambos", disse
Martin McDaid, um ex-agente antiterrorismo que se converteu ao
Islã, adotou o nome de Abdullah e trabalhava no bairro.
Eles são alienados da cultura rural sul-asiática de seus pais,
que consideram retrógrada. Criados em um meio geralmente
racista, eles se sentem excluídos da sociedade britânica, que
até agora não produziu identidades imigrantes hifenizadas como
nos Estados Unidos. Eles amadureceram em uma era marcada por
conflitos entre muçulmanos e poderes melhor armados -- Índia,
Sérvia, Rússia, Israel, Estados Unidos e Reino Unido -- e a
ascensão de uma ideologia que santifica os ataques contra o
Ocidente em resposta.
Assim, alguns homens jovens resolveram a questão do "não sei" ao
descobrir a nova identidade assertiva e transnacional de
muçulmano. A mudança transcorre dentro das famílias, nas casas
geminadas de tijolos das ruas de Beeston.
Em uma loja de esquina estava sentado Ejaz Hussain, 54 anos, que
veio de uma aldeia paquistanesa na adolescência, e criou oito
filhos na Grã-Bretanha. Os pais dos terroristas e ele
freqüentavam a mesma mesquita; os filhos deles partiram,
rejeitando tanto a forma de Islã da mesquita como sendo
incorreta e a determinação de manter a política do lado de fora
da mesquita como sendo injusta.
Caminhando pela Stratford Street, passando por outra mesquita
dos anciões que os terroristas e seus associados rejeitaram, se
chega à loja de Mohammad Jaheer, um homem corpulento nascido em
Bangladesh e que adotou o traje do Profeta desde que passou a
ser "religioso", como dizem os jovens daqui, 10 anos atrás, aos
16 anos. O Islã o salvou do que considera uma vida semelhante a
de um animal como empresário ocidental, passando o tempo em
clubes, disse ele. Ele ajudou a formar o Centro de Aprendizado
Iqra, uma livraria islâmica, cinco anos atrás, para educar
muçulmanos e não-muçulmanos sobre a fé.
Tal livraria, a poucas quadras de sua loja, sofreu uma batida
policial devido aos seus possíveis vínculos com os terroristas.
Com o tempo, sua educação passou a incluir material provocativo,
que alguns argumentam que visa inspirar a jihad. Mas McDaid, que
trabalhou na livraria, disse que visava apenas despertar a
consciência e incitar as paixões -tanto entre os muçulmanos
quanto o establishment britânico- sobre a opressão aos
muçulmanos ao redor do mundo.
As paixões foram incitadas entre os terroristas, mais
radicalmente, e entre muitos outros aqui e na Europa. Hussain,
que ajudou a organizar duas marchas pela paz após os atentados,
rejeita a noção de que um estrangeiro da Al Qaeda recrutou os
homens, apesar de outros discordarem.
Ele apontou para sua cabeça e disse sobre os terroristas e
outros jovens
muçulmanos: "A Al Qaeda está dentro".
Uma emigração épica
Ejaz Hussain tinha 16 anos quando partiu de sua aldeia no
Paquistão, que tinha apenas 40 casas, e veio para a
Grã-Bretanha, em 1967. Todos estavam partindo; ninguém planejava
permanecer muito tempo. Ele não percebeu que ele e muitos outros
faziam parte de uma emigração épica, permanente, que mudaria a
Grã-Bretanha de muitas formas, os eventos de 7 de julho sendo
apenas uma delas.
O Raj britânico acabou oficialmente em 15 de agosto de 1947, mas
seu relacionamento com seus súditos não. Nas décadas que se
seguiram, homens do subcontinente indiano vieram em massa para a
Grã-Bretanha para fornecer mão-de-obra barata, não treinada,
para fábricas, fundições e, especialmente, a indústria têxtil no
norte da Grã-Bretanha.
A maioria deles era de agricultores muçulmanos da região de
Mirpur, da Caxemira paquistanesa. Outros vieram de Gujarat na
Índia, ou o que atualmente é Bangladesh, ou, como no caso das
famílias dos terroristas, da província de Punjab, no Paquistão.
A maioria era pobre, de formação rural e freqüentemente
analfabeta, apesar de Hussain, o filho gentil e atencioso de um
policial, ter uma maior instrução do que a maioria.
Eles começaram com talvez 5 libras em seu bolso, e trabalhavam
16 a 18 horas por dia, com uma determinação tenaz para ganhar e
construir algo para a próxima geração. Hussain, atualmente com
54 anos, trabalhava em fábricas e indústrias, dirigia um táxi, e
cuidava de um pequeno mercado de esquina há 15 anos, criando
oito filhos ao longo do caminho. A integração era mínima, graças
as barreiras de raça e língua, cultura e religião. Os imigrantes
eram colonizados que vieram viver entre seus antigos
colonizadores. "Quando chegamos éramos como serviçais", disse
Hussain. Apesar de mal terem tempo até mesmo para a Oração de
sexta-feira, eles ainda eram muçulmanos, para os quais a
verdadeira assimilação aos modos ocidentais, como beber, seria
inevitavelmente irreligioso.
Muitos, Hussain entre eles, pensavam em ganhar algum dinheiro e
então voltar para casa. Em vez disso, eles eventualmente
trouxeram suas esposas ou jovens famílias, formando comunidades
fechadas nas quais a fluência em inglês era dispensável.
No final dos anos 80, a maioria das fábricas e indústrias
fecharam. Homens começaram a dirigir táxis, ou a abrir lojas e
outros negócios dirigidos pela família, que exigiam atenção
ininterrupta por parte da família estendida. Outros simplesmente
se aposentaram.
A atitude da primeira onda era, e ainda é em grande parte, de
gratidão pelo Reino Unido, que ofereceu um meio para ganharem a
vida e os deixou em paz para praticarem sua religião.
"O Reino Unido é o maior país do mundo" por estes motivos, disse
Arif Butt, uma figura conhecida em Beeston, que dirige uma de
suas mesquitas e já entrou em choque com seus jovens.
Arshad Chaudhry, um contador e membro do Fórum Muçulmano de
Leeds, vê de forma diferente. "Eles eram muito tímidos", disse
ele sobre a primeira onda.
Bairros difíceis
Beeston Hill, onde Mohammad Sidique Khan e Shehzad Tanweer foram
criados, e a vizinha Holbeck, onde Hasib Mir Hussain cresceu,
têm um ar dissoluto, melancólico. As casas parecem ter de alguma
forma encolhido em escala, e os sonhos de muitos jovens parecem
ter sido ajustados para se adequarem.
Os dois bairros são compostos de cerca de 77% de brancos e 18%
de "asiáticos ou britânicos asiáticos", segundo o censo de 2001.
Quase metade da população tem menos de 30 anos.
Muitos moradores brancos de Beeston gostam de tatuagens e pit
bulls. A bebedeira começa cedo e abertamente. Lixo e móveis
tomam conta de algumas ruas. Os rostos parecem devastados pelas
drogas, cujo uso atingiu o ápice poucos anos atrás, quando
legiões de viciados em heroína, semelhantes a zumbis,
perambulavam pelas ruas.
Mais de 10% das casas estavam vazias. Quase um terço da
população de cerca de 16 mil recebe "benefícios", o equivalente
britânico ao bem-estar social. O desemprego é de quase 8%, mais
do que o dobro do índice no restante de Leeds.
Brancos e asiáticos convivem educadamente, mas de forma
distante. Ambos os grupos dizem que os sul-asiáticos na verdade
prosperam mais do que os brancos, o que tem gerado algum
ressentimento. Muitos dos muçulmanos britânicos enfrentam
miséria e desemprego, mas os terroristas e seu círculo imediato
não estavam entre eles. Pelo menos alguns jovens parecem mais
sem direção do que carentes.
De certa forma, dizem Hussain e outros anciões, as coisas foram
fáceis para os jovens. Na idade em que seus pais trabalhavam
como mulas, os filhos estão jogando críquete, estudando,
namorando. Em comparação com seus pais, eles tem boa instrução,
são fluentes em inglês e Internet.
Alguns sabem que os negócios da família estão aguardando para
que assumam. Alguns vivem dos "benefícios" assim que atingem a
idade adulta. Alguns vendem drogas. "Eles estão ficando
preguiçosos, são mimados pelo governo", disse Abu Hanifa, 60
anos, outro lojista que trabalha sem parar.
Mas Hussein e outros acham que a situação é mais difícil para os
jovens. Em uma cultura estranha, o trabalho dava estabilidade
aos imigrantes, assim como os valores tradicionais que
importaram de casa. Os jovens não dispõem de tais âncoras; eles
às vezes parecem estar vivendo em quartos sem paredes.
A geração de Mohammad Sidique Khan foi a primeira a ser educada
totalmente na Grã-Bretanha. As escolas que freqüentaram quase
não tinham ajuste para sua presença. Eles não aprenderam quase
nada sobre o Paquistão, a história do Islã ou tradições.
Em vez disso, era esperado que se tornassem britânicos, e muitos
tentaram. Mas em áreas como Beeston, dizem os jovens, isto
também significava aprender a beber e usar ou vender drogas
desde cedo, a perder a virgindade aos 14 anos.
Eles cresceram em bairros barra pesada onde a capacidade de
brigar com qualquer um, a qualquer hora, era essencial, disse o
filho de Hussain, Nadeem Ejaz, atualmente com 30 anos, que
dirige a mercearia da família. Ele ainda tem lembranças vívidas
da adolescência, dos cadarços vermelhos preferidos pelos jovens
racistas da Frente Nacional, gravadas em seu cérebro.
Muitos jovens muçulmanos, Khan entre eles, se voltaram para
artes marciais ou para o boxe para estarem preparados para o
combate.
Nos colégios locais, os meninos eram regularmente divididos em
gangues brancas e asiáticas. Em abril, um garoto de 15 anos
morreu apunhalado por um membro de uma gangue asiática que o
perseguia.
A segunda geração não tinha a subserviência, a passividade, de
seus progenitores, disse Ejaz Hussain. Criada na Grã-Bretanha,
ela quer seus direitos, mesmo se tiver que lutar por eles. Nele,
isto inspira tanto orgulho quanto medo.
Hussain vê uma continuidade de autodestruição entre os atentados
de julho e os tumultos raciais ocorridos a 16 quilômetros dali,
em 2001 -uma fúria aparentemente sem ligação. "Por que esta
destruição a suas próprias ruas, suas próprias cidades, suas
próprias comunidades?" ele perguntou sobre os jovens asiáticos
que participaram dos tumultos, semelhante àqueles que agora
perguntam agora como os terroristas puderam se voltar contra sua
própria sociedade. "Talvez se tivéssemos prestado mais atenção,
isto não teria ocorrido."
Muitos jovens asiáticos daqui estão, segundo o jargão do
bem-estar social britânico, "Neet": "Not in Education,
Employment or Training" (sem ensino, emprego ou treinamento).
Aqui e em outras comunidades sul-asiáticas ao longo dos últimos
15 anos, eles começaram a superar o ingleses na venda de drogas
e no cumprimento de penas nos presídios, em taxas alarmantes.
Em Stratford Street, um vendedor de drogas bengali-britânico com
dente de ouro e ar ameaçador, está sentado em espreita. Jaheer,
o lojista bengali-britânico, passa por ele. Segundo Jaheer e
seus amigos, a batalha crítica aqui tem sido entre aqueles que
sucumbiram ao ambiente, arrastando sua comunidade para o buraco,
e aqueles que têm buscado resgatá-la e melhorá-la.
Neste esforço para combater o vício, a violência e a falta de
rumo em Beeston, eles dizem que o Islã tem provado ser um aliado
de valor incalculável. Para aqueles que dizem que o Islã voltou
os terroristas contra a Grã-Bretanha, eles respondem que o Islã
também salvou jovens britânicos.
<B
Jaheer estava entre os primeiros a se tornarem religiosos, e
outros logo os seguiram. Um a um, jovens que regularmente
dormiam na hora da oração, despertaram. Khan estava entre eles;
assim como, posteriormente, seus companheiros de atentado,
Tanweer e Hussain.
O grupo foi sempre uma pequena minoria entre a juventude de
Beeston, mas uma influente. Os pioneiros ensinaram aqueles que
os seguiram sobre como viver como muçulmanos no Ocidente,
empregando um novo conservadorismo social. É permitido olhar uma
vez para mulheres pouco vestidas no verão, eles dizem para os
jovens. Depois disto é um pecado. Os jovens se livram de seus
aparelhos de televisão, dizendo que não há programação
apropriada para os muçulmanos, e às vezes impõem novas
restrições à suas esposas.
"Eles estavam se saindo muito bem com os irmãos mais jovens",
disse Nadeem Ejaz, creditando a Khan e outros a retirada de
alguns jovens das drogas. "Isto aqui era um antro de heroína.
Estas pessoas tomaram a iniciativa de limpar a comunidade."
O grupo de amigos criou uma rede de organizações para tirar os
jovens asiáticos das ruas por meio de esportes, excursões pela
natureza e educação extra. Para a câmara dos vereadores de Leeds,
desesperada para combater as mazelas sociais em Beeston e
comunidades semelhantes, os homens eram um conduto ideal. Ao
longo dos anos a câmara canalizou verbas para organizações com
as quais eles trabalhavam, e alguns de seus esforços foram
bem-sucedidos.
Khan foi um dos que receberam verbas. Sob o patrocínio da
Associação dos Jovens Asiáticos do Sul de Leeds, ele pediu e
obteve duas verbas de 2 mil libras para equipamentos de
ginástica para dois locais diferentes, segundo registros da
câmara.
Ao mesmo tempo, a fé recém-descoberta do grupo o distanciava de
seus pares, e às vezes os colocava em conflito com as escolhas
de seus pais.
Um dos filhos de Ejaz Hussain se tornou muito religioso cinco
anos atrás. Ele trabalha no estabelecimento do pai, brincando
com os fregueses, chamando as mulheres de "luv" (amor), a
saudação padrão de Yorkshire. Mas a loja vende cigarro, bacon e
carne de porco, revistas de mulheres nuas.
Para ele, a loja -- o fruto de décadas de trabalho de seu pai --
viola sua fé, e ele tem tentado persuadir sem sucesso sua
família a desistir.
Religiosamente, os jovens chegam ao Islã como convertidos --
questionando tudo, não aceitando nada. Se vão praticar, eles
querem fazer o que consideram o certo. Se querem ir para o céu,
eles sentem, eles precisam encontrar a forma mais pura. Eles
querem evidência para o que fazem no Alcorão.
Todos os jovens rejeitaram rapidamente o Islã de seus pais, que
praticam uma corrente do subcontinente de influência sufi,
chamada Brelvi. Formada em parte por costumes locais e
hinduístas, ela acredita no poder dos pirs, ou homens santos, e
em seus templos.
Os jovens, Khan um dos principais entre eles, rotularam tais
crenças como "inovação", uma contaminação do Islã.
Eles deixaram de rezar nas mesquita de seus pais, apesar de
usarem o ginásio do porão dela para alertar a juventude contra o
tipo de Islã praticado no andar de cima.
Os jovens adotaram a escola Deoband, a mais rígida e ortodoxa de
Islã, que também tinha uma pequena mesquita na cidade. Entre os
seguidores do deobandismo está o Talibã do Afeganistão; eles
adotam o que consideram uma abordagem altamente literal da
religião. Na Grã-Bretanha, assim como no Paquistão, esta é a
escola que mais está crescendo -- dando início a seminários,
produzindo pregadores que falam inglês, tirando jovens do Islã
mais liberal de seus pais.
Eventualmente Khan e seus amigos também deixaram a mesquita
deoband, dizendo que sua abordagem para atrair mais seguidores
era estreita demais, seu foco apolítico demais. E os jovens
fanáticos sentiram apenas frustração e desprezo pelos imãs das
mesquitas, que freqüentemente vinham do subcontinente, falavam
pouco inglês, não sabiam nada do labirinto moral enfrentado
pelos muçulmanos britânicos e seguiam a ordem dos anciãos de que
política e eventos atuais envolvendo muçulmanos deviam ficar de
fora da mesquita.
Um Islã politizado
Para os jovens, o Islã é política. "Há muito ódio" devido ao
Iraque, Kosovo, Caxemira, disse Ejaz. Se a mesquita transforma
em tabu assuntos como estes, se suas portas são fechadas, ele
disse, os jovens irão para outro lugar.
Em Beeston e por toda o Reino Unido, isto é exatamente o que
estão fazendo, o motivo para o pedido do primeiro-ministro Tony
Blair, para que as mesquitas preguem contra o extremismo, poder
ser um exercício de futilidade.
Os filhos escolarizados de imigrantes muçulmanos estão
encontrando o caminho para uma forma extrema de Islã que está se
espalhando não por meio das mesquitas, mas por meio das
livrarias islâmicas, a Internet e sociedades universitárias,
disse Roger Ballard, um antropólogo de Manchester que é
especializado nos muçulmanos paquistaneses na Grã-Bretanha.
A forma é chamada de salafismo, que tira seu nome do termo para
os companheiros do Profeta Maomé, apesar de seus seguidores
freqüentemente rejeitarem tal rótulo. Ela se originou na
Península Árabe no século 19 e ajudou a inspirar grupos como a
Irmandade Muçulmana e a Al Qaeda.
O salafismo exige pureza e rejeição de qualquer Islã exceto
aquele dos primórdios, o que pode levar a profunda intolerância
mesmo por outros muçulmanos como os xiitas.
Os salafistas vêem a política como parte do DNA do Islã, que foi
fundado para restaurar a justiça social na Arábia do século
sétimo. Eles seguem à risca a injunção de que a ummah -- a
comunidade global dos muçulmanos -- é "como um só corpo": se uma
parte está sofrendo, o restante também sofrerá. Portanto, eles
acreditam que é uma obrigação a jihad física sob certas
condições.
Para os jovens muçulmanos europeus escolarizados que não
aprenderam nada de sua história na escola, o salafismo é um
atrativo natural, disse Ballard. Ele fornece respostas
inequívocas. E, ele disse, se trata basicamente de um "faça você
mesmo".
Em Beeston, os jovens fizeram eles mesmos. Após deixarem as
mesquitas, eles gravitaram para o Centro de Aprendizado Iqra, a
livraria fundada por Jaheer e amigos em 2000. Aqui, eles estavam
livres dos anciãos e seus modos antigos. Eles produziram,
debateram e estudaram literatura e vídeos, montaram
computadores, tudo isto com uma agenda que era tanto política
quanto religiosa.
O esforço deles para criar uma identidade islâmica nos jovens
muçulmanos britânicos foi alimentada pela crença de que o
Ocidente está travando uma guerra -- uma "cruzada", a palavra
usada pelo presidente Bush em 2001 -- não contra o terrorismo,
mas contra o Islã, uma noção fortalecida poderosamente pela
invasão do Iraque.
Esta noção se tornou um motivo recorrente nos materiais que
circularam em livrarias islâmicas como a Iqra. CDs produzidos e
distribuídos pela Iqra sobrepunham imagens das cruzadas com
imagens horríveis de bebês muçulmanos mutilados pela guerra.
Eles sobrepuseram uma cruz pingando sangue sobre o Iraque e o
Afeganistão. No final do vídeo estão imagens do que McDaid
chamou de "mujahedeen", soldados muçulmanos contra-atacando em
uma série de conflitos, mas ele insistiu que tais imagens não
estavam nas cópias distribuídas.
Segundo as novas leis que a Grã-Bretanha está impondo contra o
"incitamento indireto" ao terrorismo, todo o material nos CDs
poderia se tornar ilegal. Para os jovens daqui, isto causa
perplexidade e é errado. Uma propaganda britânica, eles apontam,
é a verdade do outro. O derramamento de sangue em locais como o
Iraque não é uma invenção deles, eles dizem. "Como pode ser
incitamento se são fatos?" perguntou Jaheer.
Em sua loja de esquina, Ejaz Hussain, cujo Islã foi rejeitado
por seus filhos como sendo liberal demais, abriu um jornal e viu
uma reportagem, empurrada para o interior por mais reportagens
sobre os atentados em Londres, sobre cerca de 25 mil civis
mortos no Iraque em dois anos.
"As pessoas continuam perguntando o que havia na cabeça deles",
ele disse tranqüilamente.
Hussain mudou de mundo ao vir para a Grã-Bretanha, e agora o
mundo que ele criou foi mudado para sempre por seus jovens.
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