Chineses

Análise

O mais antigo afresco brasileiro, na abóbada do altar de Nossa Senhora das Mercês na Igreja de Santa Teresa, em Salvador - atual dependência do Museu de Arte Sacra da Bahia. Sua atribuição a Charles Belleville (Wei Chia-lu) - Clique na imagem para saber mais...Receita de Sobrevivência

É cada vez mais comum ver pelas esquinas do Rio de Janeiro lanchonetes gerenciadas, a priori, por chineses. O primeiro aspecto que chama a atenção é o fato que todos esses estabelecimentos são muito parecidos, com, praticamente, o mesmo design, as mesmas cores e os mesmos materiais. Há, aparentemente, uma estética comum a todos eles; o que indica um princípio de especialização étnica.

Vale a pena, portanto, refletir sobre essa tese de especialização étnica no contexto de imigração. E, no caso que nos interessa, conferir a própria origem étnica deste grupo; já que existe uma certa indefinição (talvez até voluntária) quanto à identidade nacional do grupo estudado. Como seria interessante também entender o porquê da escolha de um ramo específico pelo grupo.

Consolidada essa primeira etapa da pesquisa, deve-se buscar saber se os comerciantes componentes de nosso estudo constituem verdadeiramente uma comunidade ou vivem isoladamente. No caso da afirmativa, resta descobrir se existe algum canal de comunicação acessível a todos eles no Brasil ou no Rio de Janeiro. E/ou se existe alguma forma de contato com seu país de origem – por meio de ligações telefônicas, correspondência, viagens ou algum meio de comunicação.

Histórico da imigração chinesa no Brasil

O primeiro passo de nossa pesquisa investigativa, acerca de uma suposta especialização de uma etnia específica com o ramo da pastelaria no Rio de Janeiro, é a busca por um embasamento teórico. Pôde-se constatar, então, a grande escassez no assunto. As poucas informações encontradas, localizadas na Internet, dizem respeito ao histórico da imigração chinesa para o Brasil e a sua distribuição no território nacional. O dado mais importante é relativo ao número desta comunidade no Brasil, estimado em cerca de 190 mil chineses e descendentes, dos quais 120 mil vivendo no Estado de São Paulo.

As raízes desta imigração remontam ao ano de 1812 quando, por sugestão do Conde de Linhares, D. João VI autorizou a entrada de 2.000 chineses. Vieram apenas 400 e foram destinados às plantações experimentais de chá do Jardim Botânico e da Fazenda Imperial de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, ambas sob controle do Governo. Ao longo do século XIX algumas iniciativas isoladas introduziram outras pequenas levas de chineses no Brasil.

Desembarque de imigrantes na Estação da Hospedaria de Imigrantes -  SÃO PAULO (SP), C. 1907 Fonte Memorial do Imigrante -  - Clique na imagem para saber mais...A primeira entrada oficial de chineses em São Paulo ocorreu o 15 de agosto de 1900. Eram 107 pessoas que, viajando no vapor Malange, procedente de Lisboa, desembarcou no Rio de Janeiro sendo conduzido em seguida para a Hospedaria de Imigrantes, na cidade de São Paulo.

Composto de agricultores, hortelãos, pintores, ferreiros, carpinteiros, serradores e carroceiros o grupo tinha como destino a cidade de Matão onde já havia firmado contratos de trabalho com certos fazendeiros locais.

Após um longo período de estagnação ou de pouca expressividade, a imigração chinesa para o Brasil intensificou–se a partir de 1949, com a implantação do socialismo na China e a conseqüente fundação da República Popular da China. É naquela época que houve o início do fluxo migratório chinês. Com a Europa arrasada pela II Guerra Mundial e os Estados Unidos dificultando a entrada de imigrantes sem recursos, grande número de chineses seguiu para o Brasil. A maioria deles vindos após 1949, partiu da China através do porto de Hong Kong.

Embora haja registros de experiências rurais bem sucedidas, a imigração chinesa para o Brasil teve um caráter predominantemente urbano. A grande maioria dos que aqui se radicaram dedicou–se ao comércio, estabelecendo–se com pequenos bazares, bares, restaurantes, pastelarias e mesmo como profissionais liberais.

A primeira geração de imigrantes não poupou esforços pessoais e financeiros, investindo maciçamente na educação de seus filhos. Estes, por sua vez, destacaram–se em diversos ramos da engenharia, da medicina, do direito, do ensino universitário, da indústria e tantas outras atividades. Mais detalhes iam ser obtidos numa pesquisa direta com os membros desta comunidade no Rio de Janeiro.

Pesquisa de campo

Sem muita demora, foi conseguido o primeiro depoimento. A entrevista, concedida pela esposa do dono de uma pastelaria, revelou que o casal é de fato chinês, proveniente da região de Canton, e residente no Brasil há sete anos. A escolha desta destinação foi motivada pelo fato de que, aqui, já estavam instalados outros familiares. A família (“muito grande” segundo a entrevistada) continua determinando, até hoje, seu círculo social e a maior parte de seus relacionamentos, tanto pessoais como profissionais.

Porém, o contato com membros da família ou amigos ainda estabelecidos na China é muito raro, pois, segundo eles, “a ligação é muito cara – 1 minuto custa 4 reais.” Já na outra ponta, apesar de sua moradia não ser definida em função da proximidade parental, mas sim pelo local de trabalho, suas relações sociais com os brasileiros, exceto a sua clientela direta, ainda são mínimas.

Essa falta de abertura social se deve, em grande parte, à dificuldade do imigrante em adquirir o instrumento da língua portuguesa, aprendida no dia-a-dia, no o convívio com brasileiros. Dificuldade que acabou limitando substancialmente o desenvolvimento da própria entrevista...

Próximo ao local da primeira entrevista, se tentou conseguir um segundo depoimento, porém, a dona da loja, também chinesa, demonstrou-se muito menos disposta a se abrir para nós do que o casal anterior. Aparentava um domínio muito precário da língua portuguesa, não entendendo a maioria das perguntas. Poucas informações foram obtidas e algumas delas claramente equivocadas, como por exemplo, indagada há quanto tempo estava no Brasil, respondeu 50 anos quando claramente aparentava ter uma idade menor que este tempo. Deduziu-se que ela queria dizer cinco em vez de 50...

Na terceira entrevista, também foram encontradas muitas dificuldades. O dono da pastelaria, também chinês, disse ser originário da região de Hong Kong e que se encontrava no Brasil há menos de um ano. Ele teria vindo para o país igualmente por motivos familiares, já que a sua família, incluindo seus pais, teriam emigrado antes. Ao seu fraco domínio da língua portuguesa se acrescentava uma certa falta de vontade, respondendo sistematicamente um categórico “não sei”.

No quarto estabelecimento visitado, não foi possível localizar o dono, também chinês, mas um parente seu encontrava-se responsável pela loja. Entretanto, ele não se demonstrou disposto a cooperar com a pesquisa. Os funcionários, porém, já com longo tempo de serviços prestados ao patrão, possuíam um bom conhecimento sobre suas origens e puderam responder a algumas questões.

O dono do estabelecimento, que também possui uma outra loja de mesmo ramo num bairro vizinho, é originário da região de Hong Kong e encontra-se estabelecido no Brasil há dezesseis ou talvez dezessete anos. Ele teria emigrado para o Brasil por já ter parentes aqui, como primos e irmão, e mantém um forte contato com outros chineses (mais de que com os brasileiros), que seriam em sua maioria, membros de sua família. Os funcionários, no entanto, explicaram que “todos esses chineses por aí se conhecem”; o que leva a crer que o dono do estabelecimento também faz parte da comunidade chinesa existente no Brasil.

Ele reside perto do trabalho, mas mantém contato com os parentes na China, costuma realizar ligações internacionais para o país de origem com freqüência e, de tempos em tempos, viaja para lá. Mas, seus filhos, ainda crianças, estudam em colégios regulares de classe média; o que indica o tradicional caminho para a integração intergeracional.

Neste estabelecimento, além de um bom número de informações, um elemento inesperado veio a enriquecer a pesquisa: um jornal, dedicado à comunidade chinesa no Brasil, e do qual, segundo os funcionários, seu patrão é assinante. O jornal, com título em português “Jornal Chinês para a América do Sul”, é escrito em chinês, exceto alguns raros pequenos textos em português.

Aparentemente, o periódico não continha nenhum anúncio publicitário; o que leva a imaginar que ele deve se sustentar financeiramente – através de um preço por exemplar um tanto alto ou através de investimentos financeiros da comunidade. E, pelo que foi possível aferir pelas poucas fotos disponíveis na edição oferecida pelos funcionários da pastelaria, parece divulgar notícias tanto do Brasil como da China. Junto ao título do jornal, encontravam-se impressos o local de impressão (São Paulo) e os locais de distribuição (Rio de Janeiro, Pernambuco, São Paulo, Distrito Federal, Ceará, Paraná e Pará).

Depois dessas quatro entrevistas realizadas na zona sul do Rio de Janeiro, foi decidido se deslocar para a zona norte, onde há grande concentração de pastelarias chinesas, para a realização de novas entrevistas. Lá, a quinta entrevista, também foi concedida por um funcionário do estabelecimento, uma vez que a dona, presente, demonstrou muita má vontade em dar qualquer informação, chegando até mesmo a ficar impaciente e irritada e alegar que não entendia as perguntas, após claramente ter demonstrado um bom domínio da língua portuguesa.

Através do funcionário, se pôde descobrir que ela já se encontrava no Brasil há cerca de 9 anos. Ela teria vindo para o país após seu marido vir e conseguir se estabelecer financeiramente. Sua mãe também se encontra residindo no Brasil e, segundo o funcionário, também possui um estabelecimento semelhante em um bairro próximo. Seu pai, no entanto, ainda permanece na China e ela mantém um forte contato com ele, principalmente através de ligações telefônicas, realizadas com o auxílio de um cartão para ligações internacionais (maiores informações sobre esse cartão não puderam ser adquiridas). Ela não assina nenhum jornal da comunidade, de acordo com o empregado, e tem um filho de 7 anos de idade, que estuda regularmente no Brasil.

O sexto estabelecimento visitado, localizado próximo ao anterior, também era de um chinês, mas ele se encontrava ocupado e mais uma vez só foi possível conseguir informações com os funcionários da loja. Segundo estes, o dono é originário da região de Canton e se encontra no Brasil desde 1989. Sua família também reside no Brasil, incluindo sua mulher e seus filhos, que freqüentam a escola.

Segundo os funcionários, ele mantém um forte relacionamento com outros chineses e continua em contato com os parentes ainda estabelecidos na China. A loja também recebia regularmente um jornal intitulado Jornal Chinês – “Americana”, igualmente impresso em São Paulo. Pelo que se pôde constatar, este jornal tem uma temática aparentemente muito semelhante ao periódico anterior, também expondo acontecimentos do Brasil e da China, mas não estavam divulgados (pelo menos não em português), os locais onde o jornal é distribuído. No entanto, encontrava-se estampado na primeira página o preço por exemplar do jornal:
R$ 2,50. da mesma maneira que o periódico anterior, ele não parecia conter anúncios publicitários.

A sétima entrevista não foi muito produtiva. A mulher entrevistada, de trinta anos de idade, também chinesa e esposa do dono, não estava muito disposta a responder ao questionário, alegando o tempo todo que não entendia as perguntas. Porém, a visita a este estabelecimento não foi em vão, já que foi possível notar, em um canto do balcão de atendimento, ainda lacrado, um exemplar do Jornal Chinês para a América do Sul, que aparentava se tratar de uma edição mais recente do que os encontrados em outras lanchonetes.

O oitavo entrevistado, encontrado em um estabelecimento próximo ao anterior, revelou-se esposo da última entrevistada e dono dos dois estabelecimentos. Bem-humorado e despreocupado, respondeu à maioria das perguntas.

Originário de Hong Kong, assim como sua mulher, ele veio para o Brasil há sete anos, pois seus irmãos e sobrinhos já se encontravam estabelecidos no país. Porém, seus pais ainda vivem na China. Tem dois filhos: o mais velho reside em território chinês e estuda lá, enquanto o mais novo, ainda com 6 anos de idade, estuda no Brasil. Indagado sobre o porquê de ter escolhido o Brasil para trabalhar, o entrevistado não foi muito claro, limitando-se a dizer que “O Brasil é bom, muito bom”. Ele conhece e tem muito contato com outros chineses residentes no país, mais de que com os brasileiros.

Dado o seu relativo bom domínio da língua portuguesa, foi possível lhe perguntar sobre o motivo de sua especialização no ramo de pastelarias: “Pra ganhar dinheiro, toda criança sabe disso...”, “Não sei fazer avião, não sei fazer carro, só sei fazer massa.” Este motivo, explicitado pelo entrevistado, pode ser generalizado a toda a comunidade chinesa de pastelarias que, por falta de domínio de áreas de produção “mais nobres”, acabou se especializando neste ramo ao lucro certeiro e investimento inicial relativamente baixo.

A entrevistada seguinte era filha do dono do estabelecimento. Apesar de seu bom domínio da língua portuguesa, aprendida no dia-a-dia, fez mistério sobre o tempo que ela está aqui no Brasil, mas deixou claro que veio depois que vários parentes tenham se estabelecido aqui. Seu círculo social é formado principalmente por chineses e também matem um contato freqüente com seus parentes na China. A informação mais importante, trazida por ela, foi o fato de afirmar que ela assiste um canal de televisão chinês, mas não soube falar o nome dele em português nem como se fazia para adquirir sua assinatura.

Enfim, uma última mulher chinesa foi entrevistada num estabelecimento da mesma região. Originária de Hong Kong, ela veio pra cá ainda criança, com os pais, há dez anos. Foi seu pai quem imigrou primeiro, antes de trazer o resto da família. Sua aprendizagem da língua foi feita no convivo com os brasileiros, mas seus irmãos mais novos estudaram em escolas brasileiras. Seu convívio social é, primordialmente, chinês e seu principal meio de comunicação com parentes na China é a Internet, por ser mais barato do que os outros meios, como telefone, por exemplo, mas, igualmente rápido. Ainda, segundo ela, é difícil arrumar emprego na China, o que favorece sua permanência e a de sua família no Brasil.

Conclusões

As entrevistas não fluíram tão bem quanto o esperado. Constatou-se uma certa resistência por parte dos entrevistados em responder às perguntas. A maioria demonstrou uma certa dificuldade em entender e/ou alguma desconfiança com relação à pesquisa. A desconfiança pode ser devida à memória de origem marcada pelo autoritarismo, preocupação com o fisco ou, talvez, em função da situação legal de alguns entrevistados.

Porém, as respostas conseguidas foram de grande valor informativo quanto à natureza comunitária da vida dos chineses estabelecidos no Brasil (no Rio de Janeiro mais especificamente), quanto à tese de especialização étnica e também com relação à origem regional comum do grupo.

Uma das constantes levantadas diz respeito ao progressivo processo migratório como também à sua natureza familiar. A mesma história se repete em todos os casos: a maioria veio porque já havia familiares estabelecidos no Brasil. Os recém-chegados, depois de certo sucesso material, trazem outros membros da mesma família; principalmente os mais próximos (conjugues e filhos), enquanto os mais velhos (pais e avôs), geralmente, continuam morando na China. Porém, na maioria das vezes, foi constatado que os laços com eles são mantidos através de correspondência, telefone e Internet.

A organização comunitária do grupo, todavia, não passa pela proximidade geográfica espacial. Na medida que a escolha da moradia, geralmente, é feita em função do local de trabalho e não para privilegiar o agrupamento familiar ou étnico. Já o motivo da opção pelo Brasil não foi claramente definido. Uns não sabem dizer, uma vez que não foram pioneiros, mas sim seguidores de uma tradição já consolidada. Outros se contentam em ressaltar as oportunidades de negócios no país de destino. A mesma incerteza se repete quando se trata de explicar o porquê da especialização no ramo da pastelaria. 

Enfim, no ponto relativo à questão da comunicação comunitária e da comunicação intercultural, ficou claro o peso e a penetrabilidade da mídia chinesa produzida no Brasil. Os dois principais jornais em chinês (Jornal chinês para América do Sul e Jornal chinês - Americana), ambos com sede no bairro asiático da Liberdade em São Paulo, estão presentes em todos os estabelecimentos visitados.

Porém, todas as tentativas de entrevistar os responsáveis pela redação dos jornais fracassaram. Os telefonemas não renderam informações significantes, devido à mesma barreira da língua (os atendentes demonstravam a mesma dificuldade de falar português). Os dois únicos dados obtidos dizem respeito a periodicidade (mensal) dos jornais e ao estranho valor da assinatura: R$ 450,00!!! O que levanta a suspeita de que se tratava, na verdade, de uma estratégia para desencorajar qualquer tentativa de ter acesso regular a esta mídia.

Foi obtida a valiosa novidade da possibilidade de sintonizar uma emissora de TV em chinês aqui no Brasil, mas não se conseguiu nem o nome do canal nem a modalidade de recepção. Até o recurso ao consulado da China no Rio de Janeiro se revelou ineficiente, tanto pro telefone como via e-mail, reforçando a idéia de um certo fechamento por parte dos responsáveis. 

Sites

Site China Brasil


http://www.fundaj.gov.br/china/china02.html

Site da PMSP - Comunidades no Brasil


http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/mil_povos/comunidades/chineses/chineses.asp

Autores: César Rodrigo, Diego dos Anjos.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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