|
|
Receita de
Sobrevivência
É cada vez mais comum ver pelas
esquinas do Rio de Janeiro lanchonetes gerenciadas, a priori,
por chineses. O primeiro aspecto que chama a atenção é o fato
que todos esses estabelecimentos são muito parecidos, com,
praticamente, o mesmo design, as mesmas cores e os mesmos
materiais. Há, aparentemente, uma estética comum a todos eles; o
que indica um princípio de especialização étnica.
Vale a pena, portanto, refletir sobre essa tese de
especialização étnica no contexto de imigração. E, no caso que
nos interessa, conferir a própria origem étnica deste grupo; já
que existe uma certa indefinição (talvez até voluntária) quanto
à identidade nacional do grupo estudado. Como seria interessante
também entender o porquê da escolha de um ramo específico pelo
grupo.
Consolidada essa primeira etapa da pesquisa, deve-se buscar
saber se os comerciantes componentes de nosso estudo constituem
verdadeiramente uma comunidade ou vivem isoladamente. No caso da
afirmativa, resta descobrir se existe algum canal de comunicação
acessível a todos eles no Brasil ou no Rio de Janeiro. E/ou se
existe alguma forma de contato com seu país de origem – por meio
de ligações telefônicas, correspondência, viagens ou algum meio
de comunicação.
Histórico da imigração chinesa no Brasil
O primeiro passo de nossa pesquisa investigativa, acerca de
uma suposta especialização de uma etnia específica com o ramo da
pastelaria no Rio de Janeiro, é a busca por um embasamento
teórico. Pôde-se constatar, então, a grande escassez no assunto.
As poucas informações encontradas, localizadas na Internet,
dizem respeito ao histórico da imigração chinesa para o Brasil e
a sua distribuição no território nacional. O dado mais
importante é relativo ao número desta comunidade no Brasil,
estimado em cerca de 190 mil chineses e descendentes, dos quais
120 mil vivendo no Estado de São Paulo.
As raízes desta imigração remontam ao ano de 1812 quando, por
sugestão do Conde de Linhares, D. João VI autorizou a entrada de
2.000 chineses. Vieram apenas 400 e foram destinados às
plantações experimentais de chá do Jardim Botânico e da Fazenda
Imperial de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, ambas sob controle do
Governo. Ao longo do século XIX algumas iniciativas isoladas
introduziram outras pequenas levas de chineses no Brasil.
A primeira entrada oficial de chineses em São Paulo ocorreu o 15
de agosto de 1900. Eram 107 pessoas que, viajando no vapor
Malange, procedente de Lisboa, desembarcou no Rio de Janeiro
sendo conduzido em seguida para a Hospedaria de Imigrantes, na
cidade de São Paulo.
Composto de agricultores, hortelãos, pintores, ferreiros,
carpinteiros, serradores e carroceiros o grupo tinha como
destino a cidade de Matão onde já havia firmado contratos de
trabalho com certos fazendeiros locais.
Após um longo período de estagnação ou de pouca expressividade,
a imigração chinesa para o Brasil intensificou–se a partir de
1949, com a implantação do socialismo na China e a conseqüente
fundação da República Popular da China. É naquela época que
houve o início do fluxo migratório chinês. Com a Europa arrasada
pela II Guerra Mundial e os Estados Unidos dificultando a
entrada de imigrantes sem recursos, grande número de chineses
seguiu para o Brasil. A maioria deles vindos após 1949, partiu
da China através do porto de Hong Kong.
Embora haja registros de experiências rurais bem sucedidas, a
imigração chinesa para o Brasil teve um caráter
predominantemente urbano. A grande maioria dos que aqui se
radicaram dedicou–se ao comércio, estabelecendo–se com pequenos
bazares, bares, restaurantes, pastelarias e mesmo como
profissionais liberais.
A primeira geração de imigrantes não poupou esforços pessoais e
financeiros, investindo maciçamente na educação de seus filhos.
Estes, por sua vez, destacaram–se em diversos ramos da
engenharia, da medicina, do direito, do ensino universitário, da
indústria e tantas outras atividades. Mais detalhes iam ser
obtidos numa pesquisa direta com os membros desta comunidade no
Rio de Janeiro.
Pesquisa de campo
Sem muita demora, foi conseguido o primeiro depoimento. A
entrevista, concedida pela esposa do dono de uma pastelaria,
revelou que o casal é de fato chinês, proveniente da região de
Canton, e residente no Brasil há sete anos. A escolha desta
destinação foi motivada pelo fato de que, aqui, já estavam
instalados outros familiares. A família (“muito grande” segundo
a entrevistada) continua determinando, até hoje, seu círculo
social e a maior parte de seus relacionamentos, tanto pessoais
como profissionais.
Porém, o contato com membros da família ou amigos ainda
estabelecidos na China é muito raro, pois, segundo eles, “a
ligação é muito cara – 1 minuto custa 4 reais.” Já na outra
ponta, apesar de sua moradia não ser definida em função da
proximidade parental, mas sim pelo local de trabalho, suas
relações sociais com os brasileiros, exceto a sua clientela
direta, ainda são mínimas.
Essa falta de abertura social se deve, em grande parte, à
dificuldade do imigrante em adquirir o instrumento da língua
portuguesa, aprendida no dia-a-dia, no o convívio com
brasileiros. Dificuldade que acabou limitando substancialmente o
desenvolvimento da própria entrevista...
Próximo ao local da primeira entrevista, se tentou conseguir um
segundo depoimento, porém, a dona da loja, também chinesa,
demonstrou-se muito menos disposta a se abrir para nós do que o
casal anterior. Aparentava um domínio muito precário da língua
portuguesa, não entendendo a maioria das perguntas. Poucas
informações foram obtidas e algumas delas claramente
equivocadas, como por exemplo, indagada há quanto tempo estava
no Brasil, respondeu 50 anos quando claramente aparentava ter
uma idade menor que este tempo. Deduziu-se que ela queria dizer
cinco em vez de 50...
Na terceira entrevista, também foram encontradas muitas
dificuldades. O dono da pastelaria, também chinês, disse ser
originário da região de Hong Kong e que se encontrava no Brasil
há menos de um ano. Ele teria vindo para o país igualmente por
motivos familiares, já que a sua família, incluindo seus pais,
teriam emigrado antes. Ao seu fraco domínio da língua portuguesa
se acrescentava uma certa falta de vontade, respondendo
sistematicamente um categórico “não sei”.
No quarto estabelecimento visitado, não foi possível localizar o
dono, também chinês, mas um parente seu encontrava-se
responsável pela loja. Entretanto, ele não se demonstrou
disposto a cooperar com a pesquisa. Os funcionários, porém, já
com longo tempo de serviços prestados ao patrão, possuíam um bom
conhecimento sobre suas origens e puderam responder a algumas
questões.
O dono do estabelecimento, que também possui uma outra loja de
mesmo ramo num bairro vizinho, é originário da região de Hong
Kong e encontra-se estabelecido no Brasil há dezesseis ou talvez
dezessete anos. Ele teria emigrado para o Brasil por já ter
parentes aqui, como primos e irmão, e mantém um forte contato
com outros chineses (mais de que com os brasileiros), que seriam
em sua maioria, membros de sua família. Os funcionários, no
entanto, explicaram que “todos esses chineses por aí se
conhecem”; o que leva a crer que o dono do estabelecimento
também faz parte da comunidade chinesa existente no Brasil.
Ele reside perto do trabalho, mas mantém contato com os parentes
na China, costuma realizar ligações internacionais para o país
de origem com freqüência e, de tempos em tempos, viaja para lá.
Mas, seus filhos, ainda crianças, estudam em colégios regulares
de classe média; o que indica o tradicional caminho para a
integração intergeracional.
Neste estabelecimento, além de um bom número de informações, um
elemento inesperado veio a enriquecer a pesquisa: um jornal,
dedicado à comunidade chinesa no Brasil, e do qual, segundo os
funcionários, seu patrão é assinante. O jornal, com título em
português “Jornal Chinês para a América do Sul”, é escrito em
chinês, exceto alguns raros pequenos textos em português.
Aparentemente, o periódico não continha nenhum anúncio
publicitário; o que leva a imaginar que ele deve se sustentar
financeiramente – através de um preço por exemplar um tanto alto
ou através de investimentos financeiros da comunidade. E, pelo
que foi possível aferir pelas poucas fotos disponíveis na edição
oferecida pelos funcionários da pastelaria, parece divulgar
notícias tanto do Brasil como da China. Junto ao título do
jornal, encontravam-se impressos o local de impressão (São
Paulo) e os locais de distribuição (Rio de Janeiro, Pernambuco,
São Paulo, Distrito Federal, Ceará, Paraná e Pará).
Depois dessas quatro entrevistas realizadas na zona sul do Rio
de Janeiro, foi decidido se deslocar para a zona norte, onde há
grande concentração de pastelarias chinesas, para a realização
de novas entrevistas. Lá, a quinta entrevista, também foi
concedida por um funcionário do estabelecimento, uma vez que a
dona, presente, demonstrou muita má vontade em dar qualquer
informação, chegando até mesmo a ficar impaciente e irritada e
alegar que não entendia as perguntas, após claramente ter
demonstrado um bom domínio da língua portuguesa.
Através do funcionário, se pôde descobrir que ela já se
encontrava no Brasil há cerca de 9 anos. Ela teria vindo para o
país após seu marido vir e conseguir se estabelecer
financeiramente. Sua mãe também se encontra residindo no Brasil
e, segundo o funcionário, também possui um estabelecimento
semelhante em um bairro próximo. Seu pai, no entanto, ainda
permanece na China e ela mantém um forte contato com ele,
principalmente através de ligações telefônicas, realizadas com o
auxílio de um cartão para ligações internacionais (maiores
informações sobre esse cartão não puderam ser adquiridas). Ela
não assina nenhum jornal da comunidade, de acordo com o
empregado, e tem um filho de 7 anos de idade, que estuda
regularmente no Brasil.
O sexto estabelecimento visitado, localizado próximo ao
anterior, também era de um chinês, mas ele se encontrava ocupado
e mais uma vez só foi possível conseguir informações com os
funcionários da loja. Segundo estes, o dono é originário da
região de Canton e se encontra no Brasil desde 1989. Sua família
também reside no Brasil, incluindo sua mulher e seus filhos, que
freqüentam a escola.
Segundo os funcionários, ele mantém um forte relacionamento com
outros chineses e continua em contato com os parentes ainda
estabelecidos na China. A loja também recebia regularmente um
jornal intitulado Jornal Chinês – “Americana”, igualmente
impresso em São Paulo. Pelo que se pôde constatar, este jornal
tem uma temática aparentemente muito semelhante ao periódico
anterior, também expondo acontecimentos do Brasil e da China,
mas não estavam divulgados (pelo menos não em português), os
locais onde o jornal é distribuído. No entanto, encontrava-se
estampado na primeira página o preço por exemplar do jornal:
R$ 2,50. da mesma maneira que o periódico anterior, ele não
parecia conter anúncios publicitários.
A sétima entrevista não foi muito produtiva. A mulher
entrevistada, de trinta anos de idade, também chinesa e esposa
do dono, não estava muito disposta a responder ao questionário,
alegando o tempo todo que não entendia as perguntas. Porém, a
visita a este estabelecimento não foi em vão, já que foi
possível notar, em um canto do balcão de atendimento, ainda
lacrado, um exemplar do Jornal Chinês para a América do Sul, que
aparentava se tratar de uma edição mais recente do que os
encontrados em outras lanchonetes.
O oitavo entrevistado, encontrado em um estabelecimento próximo
ao anterior, revelou-se esposo da última entrevistada e dono dos
dois estabelecimentos. Bem-humorado e despreocupado, respondeu à
maioria das perguntas.
Originário de Hong Kong, assim como sua mulher, ele veio para o
Brasil há sete anos, pois seus irmãos e sobrinhos já se
encontravam estabelecidos no país. Porém, seus pais ainda vivem
na China. Tem dois filhos: o mais velho reside em território
chinês e estuda lá, enquanto o mais novo, ainda com 6 anos de
idade, estuda no Brasil. Indagado sobre o porquê de ter
escolhido o Brasil para trabalhar, o entrevistado não foi muito
claro, limitando-se a dizer que “O Brasil é bom, muito bom”. Ele
conhece e tem muito contato com outros chineses residentes no
país, mais de que com os brasileiros.
Dado o seu relativo bom domínio da língua portuguesa, foi
possível lhe perguntar sobre o motivo de sua especialização no
ramo de pastelarias: “Pra ganhar dinheiro, toda criança sabe
disso...”, “Não sei fazer avião, não sei fazer carro, só sei
fazer massa.” Este motivo, explicitado pelo entrevistado, pode
ser generalizado a toda a comunidade chinesa de pastelarias que,
por falta de domínio de áreas de produção “mais nobres”, acabou
se especializando neste ramo ao lucro certeiro e investimento
inicial relativamente baixo.
A entrevistada seguinte era filha do dono do estabelecimento.
Apesar de seu bom domínio da língua portuguesa, aprendida no
dia-a-dia, fez mistério sobre o tempo que ela está aqui no
Brasil, mas deixou claro que veio depois que vários parentes
tenham se estabelecido aqui. Seu círculo social é formado
principalmente por chineses e também matem um contato freqüente
com seus parentes na China. A informação mais importante,
trazida por ela, foi o fato de afirmar que ela assiste um canal
de televisão chinês, mas não soube falar o nome dele em
português nem como se fazia para adquirir sua assinatura.
Enfim, uma última mulher chinesa foi entrevistada num
estabelecimento da mesma região. Originária de Hong Kong, ela
veio pra cá ainda criança, com os pais, há dez anos. Foi seu pai
quem imigrou primeiro, antes de trazer o resto da família. Sua
aprendizagem da língua foi feita no convivo com os brasileiros,
mas seus irmãos mais novos estudaram em escolas brasileiras. Seu
convívio social é, primordialmente, chinês e seu principal meio
de comunicação com parentes na China é a Internet, por ser mais
barato do que os outros meios, como telefone, por exemplo, mas,
igualmente rápido. Ainda, segundo ela, é difícil arrumar emprego
na China, o que favorece sua permanência e a de sua família no
Brasil.
Conclusões
As entrevistas não fluíram tão bem quanto o esperado.
Constatou-se uma certa resistência por parte dos entrevistados
em responder às perguntas. A maioria demonstrou uma certa
dificuldade em entender e/ou alguma desconfiança com relação à
pesquisa. A desconfiança pode ser devida à memória de origem
marcada pelo autoritarismo, preocupação com o fisco ou, talvez,
em função da situação legal de alguns entrevistados.
Porém, as respostas conseguidas foram de grande valor
informativo quanto à natureza comunitária da vida dos chineses
estabelecidos no Brasil (no Rio de Janeiro mais
especificamente), quanto à tese de especialização étnica e
também com relação à origem regional comum do grupo.
Uma das constantes levantadas diz respeito ao progressivo
processo migratório como também à sua natureza familiar. A mesma
história se repete em todos os casos: a maioria veio porque já
havia familiares estabelecidos no Brasil. Os recém-chegados,
depois de certo sucesso material, trazem outros membros da mesma
família; principalmente os mais próximos (conjugues e filhos),
enquanto os mais velhos (pais e avôs), geralmente, continuam
morando na China. Porém, na maioria das vezes, foi constatado
que os laços com eles são mantidos através de correspondência,
telefone e Internet.
A organização comunitária do grupo, todavia, não passa pela
proximidade geográfica espacial. Na medida que a escolha da
moradia, geralmente, é feita em função do local de trabalho e
não para privilegiar o agrupamento familiar ou étnico. Já o
motivo da opção pelo Brasil não foi claramente definido. Uns não
sabem dizer, uma vez que não foram pioneiros, mas sim seguidores
de uma tradição já consolidada. Outros se contentam em ressaltar
as oportunidades de negócios no país de destino. A mesma
incerteza se repete quando se trata de explicar o porquê da
especialização no ramo da pastelaria.
Enfim, no ponto relativo à questão da comunicação comunitária e
da comunicação intercultural, ficou claro o peso e a
penetrabilidade da mídia chinesa produzida no Brasil. Os dois
principais jornais em chinês (Jornal chinês para América do Sul
e Jornal chinês - Americana), ambos com sede no bairro asiático
da Liberdade em São Paulo, estão presentes em todos os
estabelecimentos visitados.
Porém, todas as tentativas de entrevistar os responsáveis pela
redação dos jornais fracassaram. Os telefonemas não renderam
informações significantes, devido à mesma barreira da língua (os
atendentes demonstravam a mesma dificuldade de falar português).
Os dois únicos dados obtidos dizem respeito a periodicidade
(mensal) dos jornais e ao estranho valor da assinatura: R$
450,00!!! O que levanta a suspeita de que se tratava, na
verdade, de uma estratégia para desencorajar qualquer tentativa
de ter acesso regular a esta mídia.
Foi obtida a valiosa novidade da possibilidade de sintonizar uma
emissora de TV em chinês aqui no Brasil, mas não se conseguiu
nem o nome do canal nem a modalidade de recepção. Até o recurso
ao consulado da China no Rio de Janeiro se revelou ineficiente,
tanto pro telefone como via e-mail, reforçando a idéia de um
certo fechamento por parte dos responsáveis.
Sites
Site China Brasil

http://www.fundaj.gov.br/china/china02.html
Site da PMSP - Comunidades no Brasil

http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/mil_povos/comunidades/chineses/chineses.asp
Autores: César Rodrigo,
Diego dos Anjos.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
voltar
para o canal Terrítorios
voltar
para HOME
|