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Choques da
Civilização
As Civilizações na
História e na Atualidade
A História da
humanidade é a História das civilizações. É impossível
pensar-se no desenvolvimento da Humanidade em quaisquer outros
termos. Através da História, as civilizações proporcionaram as
identificações mais amplas para os povos. As causas, o
aparecimento, o crescimento, as interações, as realizações, o
declínio e a queda das civilizações foram extensamente
explorados por destacados historiadores, sociólogos e
antropólogo, incluindo dentro outros, Max Weber, Emile
Durkheim, Dawson, ,Carroll Quigley. Esses e outros escritores
produziram uma literatura vasta e sofisticada dedicada à
análise comparativa das civilizações.
Uma civilização é uma
entidade cultural, com exceção do que se pensa na Alemanha. Os
pensadores alemães do século XIX traçaram uma nítida distinção
entre civilização, que envolvia mecânica, tecnologia e fatores
materiais, e cultura, que envolvia valores, idéias e as
qualidades intelectuais, artísticas e morais de uma sociedade.
Entretanto, essas tentativas para distinguir entre cultura e
civilização não tiveram aceitação e, fora da Alemanha,
produziram uma concordância generalizada com a colocação de
Braudel de que é “ilusório desejar, à maneira alemã, separar a
cultura de seus alicerces, a civilização”
Civilização e cultura se
referem, ambas, ao estilo de vida em geral de um povo, e uma
civilização é uma cultura em escrita maior. As duas envolvem
“os valores, as normas, as instituições e os modos de pensar
aos quais sucessivas gerações numa determinada sociedade
atribuíram uma importância fundamental”.
Todos os elementos objetivos
que definem as civilizações, o mais importante geralmente é a
religião. Em larga medida, as principais civilizações na
História da Humanidade se identificaram intimamente com as
grandes religiões do mundo, e povos que compartilham etnia e
idioma podem como no Líbano, na antiga Iugoslávia e nos
Subcontinente indiano, massacrarem-se uns aos outros porque
acreditam em deuses diferentes.
Existe uma correspondência
significativa entre a divisão dos povos por características
culturais em civilizações e sua divisão por características
físicas em raças. No entanto, civilização e raça não são a
mesma coisa. Povos da mesma raça podem estar profundamente
divididos pela civilização e povos de raças diferentes podem
estar unidos pela civilização. Em especial as grandes
religiões missionárias, o Cristianismo e o Islã, abrangem
sociedades com variedade de raças. As distinções cruciais
entre os grupos humanos se referem a seus valores, crenças,
instituições e estruturas sociais, não a seu tamanho físico,
formato de cabeça e cor da pele.
As civilizações são, ainda,
abrangentes, isto é, nenhuma de suas unidades constituintes
pode ser plenamente compreendida sem alguma referência à
civilização que a abrange. Toynbee argumenta que as
civilizações “compreendem ser serem compreendidas por outras”.
Uma civilização é uma “totalidade”. Pode envolver um grande
número de pessoas, tal como a civilização chinesa, ou um
número muito pequeno de pessoas, tal como os caribenhos
anglófonos.
As civilizações não têm
fronteiras nitidamente definidas nem começos e fins precisos.
Os povos podem redefinir suas identidades e, em conseqüência,
a composição e as formas das civilizações mudam com o tempo.
As civilizações são, também,
mortais, porém duram muito tempo. Elas evoluem, se adaptam e
são as mais duradouras dentre as associações humanas.a
civilização é, na verdade, a história mais comprida de todas.
Os impérios ascendem e caem, os governos vêm e vão, as
civilizações perduram e sobrevivem às convulsões políticas,
sociais, econômicas, até mesmo ideológicas. Mas ao mesmo tem
pó em que as civilizações perduram, elas também evoluem. Elas
são dinâmicas, ascendem e caem, se fundem e se dividem e
também desaparecem. As fases de sua evolução podem ser
especificadas de diversas maneiras. Quigley vê as civilizações
passando por sete estágios: mescla, gestação, expansão, era de
conflito, império universal, decadência e invasão. Toynbee vê
uma civilização surgindo como uma resposta a desafios e
passando então por um período de crescimento que envolve um
crescente controle sobre seu ambiente produzido por uma
minoria criativa, seguido por um tempo de dificuldades, a
ascensão de um Estado universal e depois a desintegração.
Todas essas teorias vêem as civilizações evoluindo através de
um tempo de dificuldades ou conflito para um Estado universal
e daí para a decadência e a desintegração.
Como as civilizações são
entidades culturais e não políticas, ela, como tal, não mantêm
a ordem, não estabelecem a justiça, não arrecadam impostos,
não travam guerras,não negociam tratados nem fazer quaisquer
das coisas que fazem os governos. Uma civilização pode assim
conter uma ou mais unidades políticas. À medida que uma
civilização evolui, normalmente ocorrem mudanças na quantidade
e na natureza das unidades políticas que a constituem. Num
extremo, pode haver coincidência entre uma civilização e uma
entidade política. Lucian Pye comentou que a China é “uma
civilização que pretende ser um Estado. O Japão é uma
civilização que é um Estado. Entretanto, a maioria das
civilizações contém mais de um Estado ou outra entidade
política.
De forma geras, os estudiosos
estão de acordo quanto à identificação que fazem das
principais civilizações da História e quanto às que existem no
mundo moderno. Assim, as principais civilizações
contemporâneas são as seguintes:
• Sínica: todos os estudiosos
reconhecem a exitência ou de uma única e distinta civilização
chinesa que vem pelo menos de 1500ª.C., e talvez de mil anos
antes, ou de duas civilizações chinesas, uma sucedendo à outra
nos primeiros séculos da era cristã.
• Japonesa: alguns estudiosos
combinam as culturas japonesa e chinesa sob o título de uma
única civilização extrermo-oriental. A maioria, porém não o
faz e, ao contrário, reconhece o Japão como uma civilização
distinta que foi fruto da civilização chinesa, emergindo
durante o período entre 100 e 400 d. C.
• Hindu: reconhece-se de
forma universal que existiram uma ou mais civilizações
sucessivas no Subcontinente desde pelo menos 1500 a. C. de
modo geral, elas são chamadas de indiana, índica ou hindu,
sendo este último termo preferido para se referir à
civilização mais recente. O Hinduísmo foi fundamental para a
cultura do Subcontinente desde o segundo milênio antes da era
Cristã. Mais do que uma religião ou um sistema social, ele é o
núcleo da civilização indiana.
• Islâmica: todos os
principais estudiosos reconhecer a existência de uma
civilização islâmica distinta. Originando-se na Península
Arábica no século VII d. C., o Islã se espalhou rapidamente
através do norte da África e da Península Ibérica, bem como na
direção do leste, pela Ásia Central, pelo Subcontinente e pelo
Sudeste Asiático. Em conseqüência, existem dentro do Islã
muitas culturas distintas, inclusive árabe, turca, persa e
malaia.
• Ortodoxa: Alguns estudiosos
distinguem uma civilização Ortodoxa, centrada na Rússia e
separada da Cristandade Ocidental, como resultado de sua
ascendência Bizantina, religião distinta, 200 anos de leis
Tártaras, despotismo burocrático e exposição limitada ao
Renascimento, Iluminismo e outras experiências fundamentais do
Ocidente.
• Ocidental: A civilização
ocidental é geralmente dada como tendo surgido por volta de
700 ou 800 d. C. de forma geral, ela é vista pelos estudiosos
como tendo três componentes principais na Europa, América do
Norte e América Latina.
• Latino-americana: a América
Latina evoluiu por um caminho bastante diferente dos da Europa
e da América do Norte. Um produto da civilização européia, ela
também incorpora, em graus variados, elementos de civilizações
indígenas americanas que não se encontraram n América do Norte
e na Europa. Ela teve uma cultura corporativista, autoritária,
que existiu em muito menor grau na Europa e não existiu em
absoluto na América do Norte. Historicamente, embora isso
possa estar mudando, a América Latina sempre foi católica. A
evolução política e o desenvolvimento econômico
latino-americanos se diferenciaram muito dos padrões que
prevaleceram nos países do Atlântico Norte. Do ponto de vista
subjetivo, os próprios latino-americanos se encontram
divididos no que se refere à sua auto-identificação. Uma vasta
literatura de autores latino-americanos e norte-americanos
desenvolve suas diferenças culturais. A América Latina poderia
ser considerada ou uma subcivilização dentro da civilização
ocidental ou uma civilização separada, intimamente afiliada ao
Ocidente e dividida quanto a se seu lugar é ou não no
Ocidente.
• Africana (possivelmente):
os principais estudiosos de civilização, com exceção de
Braudel, não reconhecem uma civilização africana distinta. O
norte do continente africano e sua costa leste pertencem à
civilização islâmica. Historicamente, a Etiópia, com suas
instituições distintas, igreja monofisista e língua escrita,
constitui uma civilização própria. Na África do Sul,
colonizadores holandeses, franceses e, depois, ingleses,
criaram uma cultura européia multifragmentada. Mais importante
ainda, o imperialismo europeu levou o Cristianismo para a
maior parte do continente ao sul do Saara. Contudo, as
identidade tribais são profundas e intensas pela África,
embora os africanos estejam também desenvolvendo cada vez mais
uma noção de identidade africana, sendo possível que a África
subsaárica se junte numa civilização distinta, sendo
possivelmente a áfrica do Sul seu Estado-núcleo.
A religião é uma
característica central definidora das civilizações. As grandes
religiões são os alicerces sobre os quais repousam as
civilizações. Das cinco “religiões mundiais” citadas por
Weber, quatro – Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e
Confucionismo – estão associadas com civilizações principais.
A quanto, o Budismo não está. Por quê? Tal como o Islamismo e
o Cristianismo, o Budismo cedo se separou em duas subdivisões
principais e, como o Cristianismo, não sobreviveu na sua terra
natal. A partir do século i D.c., O Budismo maaiano foi
exportado para a China e pra a Coréia, Vietnã e Japão. Nessas
Sociedades, o Budismo foi adaptado de formas diversas,
assimilado às culturas indígena, e eliminado.
De forma geral, a virtual
extinção do budismo na Índia e sua adaptação e incorporação às
culturas existentes na China e no Japão significam que o
Budismo, embora sendo uma religião importante, não foi a base
de uma civilização importante.
AS RELAÇÕES ENTRE AS
CIVILIZAÇÕES
Encontros: as relações entre
as civilizações evoluíram através de duas fases e estão agora
numa terceira. Durante mais de três mil anos depois que as
civilizações emergiram pela primeira vez, com algumas
exceções, não houve contatos entre elas ou os contatos foram
limitados ou intermitentes e intensos. As civilizações
estiveram separadas pelo tempo e pelo espaço. Apenas um
pequeno número delas existiu a um mesmo tempo determinado e há
uma distinção significativa entre as civilizações da Era Axial
e da Era Pré-axial em termos de se elas reconheciam ou não uma
distinção entre as “ordens mundanas e transcendentais”.
As civilizações também
estavam separadas geograficamente. Até 1500 d. C., as
civilizações andina e mesoamericana não tinham contato algum
com outras civilizações ou uma com a outra. As primeiras
civilizações nos vales dos rios Nilo, Tigre-Eufrates, Indus e
Amarelo também não interagiram. Os contatos acabaram de fato
por se multiplicar no Mediterrâneo oriental, no Sudoeste
Asiático e na Índia setentrional. Entretanto as comunicações e
as relações comerciais eram restringidas pelas distâncias que
separavam as civilizações e pelos limitados meios de
transporte disponíveis para superar as distâncias.
As idéias e a tecnologia
passaram de civilização para civilização, mas isso
freqüentemente demandou séculos. Talvez a difusão cultural
mais importante que não resultou de conquista tenha sido a
disseminação do Budismo para a China, que ocorreu cerca de 600
anos após sua origem na Índia setentrional. A imprensa foi
inventada na China no século VIII d.C. e os tipos móveis no
século XI, porém essa tecnologia só chegou à Europa no Século
XV. Outra invenção chinesa, a pólvora, que ocorreu no século
IX, disseminou-se para os árabes algumas centenas de anos
depois e atingiu a Europa no século XIV. Os contatos mais
espetaculares e significativos entre as civilizações se deram
quando povos de uma civilização conquistaram e eliminaram ou
subjugaram os povos de outra. A maioria das interações
comerciais, culturais e militares se deram dentro de uma mesma
civilização.
Impacto: a Ascensão do
Ocidente. A Cristandade européia começou a emergir como uma
civilização distinta nos séculos VIII E IX. Entretanto, por
várias centenas de anos, ela ficou atrás de muitas outras
civilizações no que se refere ao seu nível de civilização. A
China sob as dinastias Tang, Sung e Ming, o mundo islâmico do
século VOOO ao XII e Bizânico do século VIII ao XI
ultrapassavam de muito a Europa em riqueza, território, poder
militar e realizações artísticas, literárias e científicas.
Entre os séculos XI e XIII, a
cultura européia começou a se desenvolver, num processo
facilitado pela “apropriação sequiosa e sistemática dos
elementos adequados de civilizações mais elevadas do Islã e de
Bizâncio, junto com a adaptação dessa herança às condições e
interesses especiais do Ocidente”. Durante os Séculos XII e
XIII, os ocidentais porfiaram por expandir seu controle na
Espanha e lograram estabelecer o efetivo domínio do
Mediterrâneo. Posteriormente, porém, a ascensão do poder turco
causou o colapso do “primeiro império ultramarino ocidental”.
Encontros intermitentes ou
limitados entre as civilizações cederam lugar ao impacto
continuado, avassalador e unidirecional do Ocidente sobre
todas as outras civilizações. O final do século XV testemunhou
a reconquista final da Península Ibérica aos mouros, os
primórdios da penetração portuguesa na sia e a penetração
espanhola nas Américas. Durante os 250 anos subseqüentes, todo
o Hemisfério Ocidental e porções significativas da Ásia foram
postas sob o governo ou a dominação européia. O fim do século
XVIII viu uma retração do controle direto europeu, quando
primeiro os Estados Unidos, logo o Haiti e depois a maior
parte da América Latina se rebelaram contra o domínio europeu
e conseguiram a independência. Contudo, na última parte do
século XIX, um renovado imperialismo ocidental estendeu o
domínio ocidental por quase toda a África, consolidou o
controle ocidental no Subcontinente e em outras partes da Ásia
e, no início do século XX, submeteu virtualmente todo o
Oriente Médio, com exceção da Turquia, ao controle ocidental
direto ou indireto.
As causas desse desdobramento
único e espetacular abrangeram a estrutura social e as
relações de classes do Ocidente; a ascensão das cidades e do
comércio, a relativa dispersão do poder nas sociedades e o
desenvolvimento de burocracias de Estado. Entretanto, a fonte
de navegação oceânica para atingir povos distantes e o
desenvolvimento da capacidade militar para conquistar esses
povos. Como Geoffrey Parker assinalou, “numa larga medida a
ascensão do Ocidente dependeu do uso da força, do fato de que
o equilíbrio militar entre os europeus e seus adversários no
ultramar estava se inclinando de forma constante em favor dos
europeus; (...) a chave para o êxito dos ocidentais para
criarem, entre 155 e 1750, os primeiros impérios
verdadeiramente globais dependeu precisamente daqueles avanços
na capacidade de empreender a guerra que foram denominados ‘a
revolução militar’”.
Ao se chegar a 1910, o mundo
era mais integrado política e economicamente do que em
qualquer outro momento da História da Humanidade. O comercia
internacional correspondia a 33% do produto mundial bruto,
mais do que jamais fora ou veio a ser desde então, não se
chegando sequer perto desse nível até as décadas de 70 e 80.
civilização queria dizer civilização ocidental, e o Ocidente
controlava ou dominava a maior parte do mundo. O Direito
Internacional era o Direito Internacional ocidental, oriundo
da tradição de Grotius. O sistema internacional era o sistema
ocidental westfaliano de Estados-nações soberanos porém
“civilizados” e dos territórios coloniais por eles
controlados.
O surgimento desse sistema
internacional definido pelo Ocidente foi o segundo
desdobramento principal na política mundial nos séculos a
contar de 1500. Além de interagirem numa modalidade de
dominação-subordinação com as sociedades não-ocidentais, as
sociedade ocidentais também interagiam entre si numa base mais
eqüitativa. Essas interações entre entidade políticas dentro
de uma única civilização se pareciam muito com as que
ocorreram no seio das civilizações chinesa, indiana e grega.
Elas estavam baseadas numa homogeneidade cultural que envolvia
“idioma, leis, religião, práticas administrativas,
agricultora, propriedade da terra, bem como, talvez,
relacionamento familiar. Os povos europeus partilhavam de uma
cultura comum e mantinham amplos contatos através de uma rede
de comércio, um movimento constante de pessoas e um notável
entrelaçamento das famílias dominantes”. Entre os Estados
europeus, a paz era a exceção, não a regra. Embora durante
grande parte desse período o Império Otomano controlasse até
um quarto do que freqüentemente se considerava como sendo a
Europa, ele não era considerado um membro do sistema
internacional europeu.
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