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A Colonização Alemã no Brasil:
Etni-Cidade e Conflito
Trabalho baseado no texto de Giralda Seyferth, in FAUSTO, Boris
(org.) Fazer a América. SP: EDUSP, 2000.
A política imigratória voltada para a colonização de terras
públicas começou a ser delineada antes da Independência, quando
um decreto de D. João viabilizou o acesso à terra para
estrangeiros no regime de sesmarias. Os alemães integraram o
processo de colonização desde a instalação da primeira colônia,
em 1818, na Bahia, com 5 sesmarias na Colônia Leopoldina. Na
primeira fase, houve três tentativas – as outras duas foram em
1821 e 1822 -, toda sem sucesso e acabando por dispersar-se.
lém disso, em 1819, no município
de Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, imigrantes suíços
fizeram nova tentativa. Devido a precárias condições dos
assentamentos, longe dos mercados e com altas taxas de
mortalidade, a maioria dos suíços se retirou. 350 alemães foram
inseridos, para mantê-la viva. Em 1824, uma tentativa foi bem
sucedida no Estado do Rio Grande do Sul, fato historicamente
considerado inaugural da colonização. Em 1829, duas colônias
foram instaladas em Santa Catarina e uma no Paraná.
Influência no Governo Imperial
A predominância alemã nos
primeiros projetos consistentes de imigração se deve à presença
influente de indivíduos de ascendência germânica no Governo
Imperial. O pequeno número de imigrantes e a falta de recursos
do Governo, agravados com a Revolta da Farroupilha, impediram o
desenvolvimento das colônias iniciais (exceto São Leopoldo).
Em 1845, duas novas colônias
surgiram, em Petrópolis (RJ) e no Sul. Surgiram questões contra
a escolha da etnia alemã nos projetos, por serem protestantes
numa nação católica. Apesar disso, alemães integraram as
primeiras colônias de parceria em SP e ES. Surgiram na segunda
metade do século XIX as principais colônias do Sul (exceto São
Leopoldo): foram seis províncias bem-sucedidas.
Segunda fase: pós-1850
Houve mudanças na política, para
atrair mais imigrantes. Entre elas: (1) Responsabilidades de
colonização passam para as províncias que assumiriam parte das
terras devolutas; (2) Companhias particulares de colonização
passaram a atuar, o que significou menos despesas para o Estado.
O lote colonial passou de 75 para 25 hectares e o acesso a terra
foi tido somente mediante compra (terras devolutas passam à
condição de mercadoria). Com a abolição do tráfico dos
africanos, a mão de obra livre européia foi tida como solução
para a falta de trabalhadores negros e para o preenchimento dos
vazios demográficos.
A preferência dos agenciadores, da
política oficial e das CIAS particulares era por camponeses e
artesãos, porém foram encontrados registros na documentação da
administração colonial de heterogeneidade: lavradores
(predominante), operários, artífices, operários e outros
trabalhadores urbanos, professores, refugiados políticos. Também
eram listados os indesejáveis: socialistas, comunistas,
revolucionários de 48, deficientes físicos e os intelectuais
acusados de fomentar dupla-nacionalidade.
Até o fim do Império haviam sido
fundadas 80 colônias alemãs (apenas 13 eram oficiais). A partir
da República, intensificou-se a colonização oficial,
estabelecendo-se várias colônias importantes no planalto gaúcho.
Em Santa Catarina,
predominância da iniciativa privada
Em 1850, no médio Vale do Itajaí,
Santa Catarina, atua a empresa Herman Blumenau e F. Hackradt. A
Sociedade Hamburguesa de Colonização funda em 1851 a colônia D.
Francisca (Joinville) e constrói a estrada entre Joinville e Rio
Negro, fundando outras colônias alemãs na região.
Em 1860, o governo federal assumiu
a província de Blumenau e fundou a colônia Itajaí (Brusque). Em
1870, houve o fim da exclusividade germânica, com a chegada de
italianos e poloneses. A Companhia Hanseatica de Colonização
(1897) realiza intensa atividade, com a implantação de ferrovia
ligando regiões coloniais de Joinville e Blumenau, formando área
continua de assentamento alemão.
No Paraná, inserção inicial em
Curitiba
Antes de 1840, as famílias alemãs
são instaladas em colônias urbanas em Curitiba. Os principais
contingentes são oriundos de Joinville pela estrada da
Hamburguesa. Entre 1877 e 1879 alemães teuto-russos criaram
colônias nos atuais municípios de Ponta Grossa e Lapa. Nas
primeiras décadas surgiram colônias em vários municípios, pela
ação das companhias privadas. As colônias organizaram-se com
imigrantes e famílias teuto-brasileiras, formando núcleos
homogêneos (étnico religiosos) e contrariando, assim, a política
oficial que pretendia colônias mistas.
Antes da Primeira Guerra européia
as regiões dos três Estados do Sul (Santa Catarina, Paraná e Rio
Grande do Sul) foram o destino mais comum de imigrantes. Com
isso, houve significativas migrações internas das colônias mais
antigas para o planalto rio-grandense, catarinense e paranaense.
Estes migrantes levam filhos e netos das primeiras gerações para
as colônias abertas por CIAs particulares, criando mais colônias
homogêneas.
O desenvolvimento urbano de São
Leopoldo, Blumenau, Joinville, Santa Cruz, Ijuí etc., atraiu
excedente populacional camponês e imigrante (artífices,
operários), com a formação de primeira classe operaria
relativamente numerosa (diversificação étnica). A denominação
colônia alemã não é necessariamente denominativo de
homogeneidade ética para todas as áreas: Vale do Itajaí e outras
colônias no RS receberam outras nacionalidades (principalmente
italianos) numa política de colonização mista, que pretendia
minimizar a formação de grupos étnicos.
A inserção imigrante depois da
Primeira Guerra procurava mais os centros urbanos e menos as
áreas rurais. Neste caso, não se trata da formação de cidades no
contexto da colonização, mas de instalação de “colônias” em
cidades como Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.
Neste segundo momento, o termo “colônia” remete à organização
comunitária dos imigrantes, num sentido de pertencimento étnico.
Eram referenciais étnicos procurados pelos descendentes. A maior
concentração foi em SP, após 1918 (cerca de 20.000 alemães). Na
década de 20, esta colônia paulista possuía cerca de 14 escolas
teuto-brasileiras, diversas instituições beneficentes, imprensa
étnica, clubes e associações culturais.
Complexo colonial: o homem
branco, europeu, camponês
É quase impossível desvincular a
imigração alemã da colonização. Os idealizadores da política
imigratória tinham o homem branco, europeu e camponês como o
imigrante ideal. O complexo colonial adquiriu dos alemães sua
feição étnica, mesmo em áreas compartilhadas com outros
imigrantes. Esta preferência das demandas governamentais
persistiu ao longo dos períodos históricos seguintes. Em
entrevista ao programa Manhattan Connection do dia 9 de maio de
2005, o jornalista José Carlos Ruy aponta para uma versão
tropical do Movimento Eugenista.
O termo eugenia (boa geração) foi
apresentado por Francis Galton em 1883, no livro Inquires into
human faculty. Sob a influência da leitura do livro de seu primo
Charles Darwin, A origem das espécies, Galton lança as bases do
que depois ganhará o nome de Eugenia. Ele procura demonstrar que
a capacidade humana decorria da hereditariedade mais do que da
própria educação. A intenção é justamente fazer prevalecer as
hereditariedades mais qualificadas. Segundo Galton, Eugenia é a
“ciência que lida com todas as influências que melhoram as
qualidades natas de uma raça; também aquelas que as desenvolvem
à máxima vantagem”[1]. Seus objetivos podem ser
assim descritos: “reunir tantas influências quantas possam ser
razoavelmente empregadas, para fazer com que as classes úteis na
comunidade possam contribuir mais do que sua proporção para a
geração seguinte”.
A ansiedade com o futuro da
sociedade, reforçada por uma série de transformações sociais e
econômicas, criava o contexto no qual a eugenia aflora como uma
esperança para a elite branca e rica. É como se os cérebros da
nação encontrassem-se nas mais altas classes. Seria
estatisticamente mais proveitoso investir nos casamentos em que
ambos os cônjuges são oriundos da mesma classe alta do que em
casos em que apenas um deles o é. No Brasil, seria
estatisticamente mais proveitoso investir diretamente na entrada
de brancos no país, pela imigração direcionada.
Nas primeiras décadas do século
XX, novos intelectuais passaram a questionar o determinismo
geográfico e biológico como explicação para os problemas
nacionais. Era como se a instabilidade política e a
inferioridade econômica do país estivesse determinada pela
origem do seu povo, “igualmente inferior”. Como solução, a
ideologia do branqueamento se consolidou. Nesse período, a
instabilidade política que levaria à crise e derrocada da
Primeira República mostrava cada vez mais um aprofundamento das
divisões internas na elite. A somatória desta cisão com as
transformações econômicas e sociais, além do desenvolvimento da
ciência (especialmente da medicina) brasileira, criou o ambiente
no qual surgiu e ganhou espaço no Brasil a eugenia.
A autodepreciação que antes era
intuída nas preferências imigratórias dos idealizadores
imperiais passou a ser cientificamente validada nas primeiras
etapas republicanas. Para os escritores brasileiros do período
entre as décadas de 1870 e 1930 não havia dúvida sobre
necessidade de embranquecer a população, principalmente quando
tentavam explicar o atraso do país, pois, para eles, os negros,
índios e mestiços eram - em graus variáveis - incapazes de
civilização, característica que seria própria dos povos brancos.
Era uma tese que também correspondia aos interesses da
oligarquia agro-exportadora que dominava o país.
A Geografia do Complexo
O modelo de colonização difere
entre as duas fases em relação à concessão de terras. Houve a
questão do isolamento: a interação com os brasileiros foi
diminuta e cerceada. O projeto não incluía posseiros e
indígenas, presentes nas áreas coloniais. Textos do Ministério
da Agricultura e de pensadores ilustres da realidade brasileira
diziam que o interesse era bem objetivo: instalar no país
agricultores livres e brancos num processo controlado pelo
Estado. Os alemães recebiam seus lotes e se concentravam
isolados da sociedade colonial, em áreas definidas: campesinato
de pequenos proprietários.
A demarcação de linhas e lotes nas
colônias era feita pelo pioneiro, mão de obra imigrante
(abertura de linhas, construção de pontes e estradas, colocação
de marcos divisórios de edificação de alojamentos públicos etc).
O trabalho ajudava a quitar as dívidas coloniais. Havia, no
entanto, alguns contratempos, tais como a demora no recebimento
dos lotes (as vezes até 6 meses); conflitos por demarcações mal
feitas; desgaste físico no preparo das terras; dificuldade de
ajuda mútua por causa do povoamento disperso; precariedade das
estradas e meios de transporte; endividamento no comércio local;
demora na obtenção dos títulos definitivos; epidemias (tifo,
varíola, febre amarela, malária); altas taxas de mortalidade;
enchentes constantes; precário sistema de infra-estrutura
(serviços médicos e escolas insuficientes).
Superada a fase pioneira, foi
consolidado um campesinato familiar, distribuído em lotes em
formato alongado. Suas linhas de demarcação seguiam o curso
d’água. A ocupação dispersa não tinha qualquer relação com a
tradição espacial agrícola na Alemanha. Os lotes eram de
policultura e criação de animais (aves, suínos, gado leiteiro),
associados à produção artesanal de derivados (banha, queijo,
manteiga, charuto, compotas etc). Apesar de parecer
auto-suficiente, o lote dependia de relações comerciais com as
casas (vendas) existentes nas sedes.
O complexo colonial produziu
colonos fortes e outros deserdados de terra. Descontentes com
suas situação iam para outras colônias ou migravam para áreas
urbanas. Algumas das características gerais eram: exploração
agrícola; formação de uma classe media rural de pequenos
produtores; atividade artesanal diversificada; pequena indústria
familiar artesanal proliferou nos povoados (mão de obra
familiar, poucos empregados); indústria de conservas,
laticínios, bebidas cerveja, curtumes, funilaria, ferrarias,
sapatarias, destilarias; industrialização em fins do século XIX
em diversos núcleos urbanos: industria têxtil e metalurgia no
Vale do Itajaí e Joinville, couro, cerâmica e metalurgia no Rio
Grande do Sul, principalmente Porto Alegre; mercado de
trabalhadores para filhos de colonos / formação de classe
operária; urbanização simultânea à industrialização (classe
média urbana e pequena elite de comerciantes e industriais).
O complexo colonial e seu tipo de
exploração agrícola não divergem mesmo em áreas com mais
poloneses ou italianos. As diferenças se dão mais na tradição
cultural nacional, refletida na organização social e étnica.
A Deutschtum: referenciais de
germanidade
A concentração em áreas restritas
e relativamente isoladas acrescida da necessidade de suprir as
carências de serviço público incentivaram a organização coletiva
interna dos colonos, facilitando a manutenção dos costumes e da
língua alemã. A organização comunitária voltada para dentro dos
limites do grupo étnico, com a criação de escolas e serviços
médicos, produzia associações beneficentes e assistenciais, além
de associações culturais e esportivas, com grande circulação
católica (evangélicos-luteranos). A escola alemã foi criada para
atender as necessidades do ensino fundamental, mas aos poucos
tomou feição étnica, tornando-se instrumento de germanidade e
perpetuadora da língua e costumes alemães, levando consciência
étnica aos filhos dos imigrantes.
Outro instrumento de germanidade
que chamou a atenção dos nacionalistas brasileiros foi a
imprensa alemã, principalmente em Porto Alegre, São Leopoldo,
Blumenau, Joinville, Curitiba e São Paulo. Existiam publicações
como jornais (com tiragem semanal, ou duas vezes por semana),
revistas semanais e os Kalenders, almanaques anuais extremamente
populares que abordavam assuntos diversos em mais de 200
páginas. As tiragens dos Kalenders atingiam até 12.000
exemplares. Os jornais tiveram duração efêmera: os que vingaram
tiveram que fechar com a campanha de nacionalização do Estado
Novo, iniciada em 1937.
O uso cotidiano da língua alemã, a
intensidade da vida associativa, a rede escolar particular, a
imprensa e outras publicações periódicas, inclusive as produções
literárias, e a atividade religiosa ajudaram a constituir uma
etnicidade teuto-brasileira: no discurso étnico aparece uma
relação causal entre igreja, escola e lar e a preservação da
língua alemã – portanto, com a germanidade em seu aspecto mais
comunitário. São referenciais que construíram o distanciamento
da população de origem alemã em relação à sociedade nacional,
também nos espaços urbanos.
Etni-cidade e conflito:
Influências da ideologia romântico-nacionalista de Herder
A emancipação política derivou do
crescimento urbano e econômico: a 1ª Constituição Republicana
criou expectativas em relação aos direitos de cidadania, mas os
direitos civis estavam vinculados a uma brasilidade que a
maioria não possuía. Eram restrições como acesso a cargos
públicos, direito ao voto e restrições de culto religioso que
atingiam evangélico-luteranos. A consciência étnica
teuto-brasileira foi intensificada com a atuação de imigrantes
intelectuais. A partir daí, houve incidentes entre dois lados:
de um lado colonos teuto-brasileiros e as lideranças do projeto
imigrantista (que defendiam a integração e a naturalização, além
da concessão de direitos políticos), do outro a classe dominante
sulista que defendia o isolamento político dos imigrantes e os
nacionalistas brasileiros, receosos com uma Alemanha Unificada
que entrava na disputa imperialista (pan-germanismo).
As desavenças entre os
nacionalistas brasileiros e os teuto-germânicos se perpetuavam
num contexto mundial em que a Alemanha se unificava e estava
impregnada de nacionalismo imperialista. As idéias românticas
vindas da Europa chegavam aos intelectuais teuto-brasileiros,
que mais do que nunca entendiam que a nacionalidade alemã é
herdada através do sangue e perpetuada, mesmo longe da pátria
mãe, pela cultura, língua, costumes e espírito próprios do povo
germânico. Neste sentido, foram essenciais as idéias do famoso
escritor romântico alemão chamado Herder.
Herder falava dos chamados
elementos de diferenciação. Ele imaginava que a Alemanha tinha
um papel pedagógico, missão de produzir poetas e pensadores –
Dichter und Denker. Ele era favorável às inúmeras formas de
manifestação popular, porque elas demonstravam a imensa
variedade humana e vários aspectos da sua capacidade de
expressão. Por exemplo, pra ele não havia distinção entre as
culturas dos indígenas americanos e dos povos eslavos ou destes
em relação ao folclore alemão. Todas são expressão de sua
cultura própria e são igualmente importantes dentro de suas
respectivas culturas. Para ele o destino de um povo era
determinado pelas questões locais e pelas nacionais e a
interação entre elas. Era o que aplicava a chamada Deutschtum (germanidade),
que tinha aqui sua versão brasileira, a Deutschbrasilianertum.
Concebia duas possibilidades de
interpretação: a primeira era a de exaltar a contribuição
cultural e econômica dos imigrantes à sua nova pátria –
glorifica o papel civilizador dos colonos, a superioridade do
trabalho germânico e a construção de uma pátria Heimat no
Brasil. Já a segunda era para expressar o pertencimento à
cultura alemã através de critérios de raça, língua, espírito e
cultura germânicos. Ambas direcionavam para a idéia do Estado
dentro do Estado, uma difícil relação na qual dialogavam a
origem alemã (direito de sangue) – esfera da comunidade e a
cidadania brasileira (naturalização) – esfera da sociedade
ampla.
Surgimento de teorias racistas
Para Herder, cada povo possuía uma
espécie de tatuagem dada por sua cultura, materializada na
língua falada, nos hábitos alimentares, na dança etc, que os
acompanhava até a morte. Era esta tatuagem que os
teuto-brasileiros preservavam. E certas facções mais radicais de
teuto-brasileiros levavam tão a sério a questão do separatismo
que recorriam a teorias racistas sobre a superioridade da raça
ariana e um possível separatismo teuto-brasileiro, patrocinado
por entidades enraizadas aqui no Brasil ou mesmo pelo
imperialismo alemão.
Este tipo de debate era publicado
em artigos de jornais alemães e ganharam notoriedade, servindo
como prova de existência de um “perigo alemão” do pan-germanismo
- veja a diferença em relação ao que Herder pregava, que era a
questão dos elementos de diferenciação nunca poderiam ser
confundidos como pretexto para uma política de nacionalismo
agressivo. Estes teuto-brasileiros mais radicais não levaram em
conta a questão do diálogo entre a esfera da comunidade e da
sociedade ampla e vários acontecimentos ao logo dos anos
colaboraram para a intensificação das animosidades entre os
pan-germânicos e as lideranças teuto-brasileiras empenhadas na
integração.
Já em 1863 começavam sérios
conflitos entre os lados. A Questão Christie foi uma matéria
publicada no Deutsch Zeitung (em português, “Jornal Alemão”),
que defendia a posição inglesa em um caso diplomático entre
Brasil e Inglaterra. A notícia gerou protestos populares em uma
sociedade brasileira que temia os “perigos de uma população não
assimilada”.
Em 1900 ocorreu a criação da
Volksverein em Blumenau, uma sociedade política, atuando no
cadastramento dos eleitores alemães. A tentativa era de criar um
partido étnico. Em 1905, chega ao Brasil o Panther, navio de
guerra alemão, no porto de Itajaí. Houve vários festejos e
homenagens á população de origem alemã. As manifestações foram
confundidas como intenções de separatismo.
Guerras acirraram discriminação
Com a declaração de Guerra à
Alemanha, em 1917, ocorreram manifestações de hostilidade contra
a população de origem alemã, especialmente em Porto Alegre e em
outras capitais. A categoria alemã adquiriu conotação negativa,
de traição. O estado de guerra resultou na proibição de
publicações em alemão e na troca do nome das associações e
sociedades assistenciais por designações em português. Alguns
jornais continuaram rodando em português e sem referencias
germanistas. Mas com fim da guerra, cessaram as hostilidades e o
dualismo identitário voltou com toda a força. As publicações
voltaram a circular em alemão, mas com algumas concessões à
cultura brasileira, como o reconhecimento da importância do
aprendizado do português.
Com a entrada em cena do nazismo,
esse dualismo identitário voltou a declinar. O Partido Nazista
criou grupos locais em algumas cidades e encontrou simpatizantes
entre os teuto-brasileiros, mas a maioria dos filiados nasceu na
Alemanha (Neudeutscher). A influência nazista atingiu parte das
instituições comunitárias teuto-brasileiras, como escolas. As
idéias e atividades do partido atingiram principalmente os meios
urbanos, especialmente a classe empresarial e parte das camadas
médias teuto-brasileiras. Alguns jornais também sofreram esta
influência, mas a resistência aos avanços do nazismo partiu
também dois meios teuto-brasileiros.
As medidas nacionalistas da
campanha de intervenção do Estado Novo nas colônias atingiam
todos os grupos imigrantes, mas com as atividades nazistas e
depois a Segunda Guerra e seus desdobramentos, essas medidas se
direcionaram para as populações de origem alemã e japonesa.
Algumas das medidas: (i) Leis de 1937, que proibiram o ensino de
línguas estrangeiras e restringiram a liberdade didática nos
estabelecimentos didáticos. Escolas que não se atualizaram foram
fechadas; (ii) As principais regiões de colonização foram
ocupadas por tropas do exército qualificadas como “agentes de
nacionalização”; (iii) Serviço militar obrigatório longe da
família e comunidade, distribuição de textos patrióticos pela
Agência Nacional, comemoração obrigatória das datas nacionais e
incentivo ao escotismo, que visava impor uma nova noção de
escotismo.
A interferência atingiu o clímax
em 1939, como a proibição do uso do idioma alemão e das
publicações periódicas, inclusive os jornais, e com o fechamento
das sociedades recreativas e culturais. A campanha de
nacionalização foi o fim de um período histórico de imigração
marcado por tensões relacionadas ao ideal de pertencimento de
grupo étnico identificado com a nação alemã. Os efeitos se
fizeram sentir em longo prazo, pois o fim da guerra não trouxe
de volta a maioria das instituições identificadas com a
germanidade: a imprensa, a escola e as associações culturais.
Autor: João Koeler
Hackbarth (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
[1] GALTON, Francis. Esays on eugenics. Londres,
The Eugenics Education Society, 1909, p. 35.
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