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Comunicação de raízes
The Bible Unearthed: archeology's new vision of ancient
israel and the origin of its sacred texts de Israel Finkelstein
e Neil Asher Silberman. New York: Simon and Schuster, 2002. 286
p.
Hélio Amaral
A chave para se entender a paixão e o poder da saga histórica da
Bíblia é o reconhecimento do tempo único (história) e do espaço
físico (arqueologia) de sua composição. Foi com este objetivo
que Israel Finkelstein, diretor de Instituto de Arqueologia de
Tel Aviv e Neil Asher Silberman, historiador belga e colaborador
da revista Archeology, publicaram The Bible Unearthed. A edição
que se recenseia é de 2002, saiu simultaneamente em Nova Iorque,
Londres, Toronto, Sydney, Singapura com título sugerindo que se
trata da Bíblia que vem aos holofotes das escavações levadas a
termo nos anos mais recentes.
O reino de Josias, de 639 a 586 antes da Era Comum, marcou o
clímax da história monárquica do futuro Israel, de acordo com o
ponto de vista do Antigo Testamento, máxime os cinco (daí
Pentatêuco) Livros da Lei (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e
Deuteronômio) e os dois Livros dos Reis. Seu reino promoveu a
Grande Reforma de 622 antes da E. C. que culminou na composição
ou compilação destes livros que revolucionaram o ritual e
reformularam a identidade do Israel do futuro.
Eles contêm, especialmente o Deuteronômio, as linhas de força do
monoteísmo, a saber, o culto exclusivo do principal dos deuses,
em um único santuário, localizado na cidade que centralizava
também os grandes festivais da Páscoa e dos Tabernáculos e as
leis de bem-estar, justiça e moralidade pessoal. Um só deus,
YHWH (pronuncia-se Adonai-Senhor), um só TEMPLO, um só REI, uma
só cidade de celebração dos ritos da nacionalidade, JERUSALÉM e
uma só língua sagrada, o HEBRAICO.
O reinado de Josias foi medíocre do ponto de vista
político-administrativo, porém se imortalizou pela feitura da
Bíblia, escrita, ou compilada de tradições pré-existentes ou
mesmo copidescada por uma equipe provavelmente liderada pelo
Deuteronimista, escondido sob anonimato como de praxe. Os
autores procuram demonstrar com clareza que a linguagem, os
sítios citados e atribuídos a épocas imemoriais e a ideologia
são do tempo de Josias. Trata-se de uma assombrosa propaganda da
teologia-ideologia avalizada por este rei que sentou-se no trono
aos oito anos de idade, tutelado pela casta sacerdotal do sumo
sacerdote Helquias. O Deuteronômio, escrito então, e em que
pesem certos versículos sanguinários para a mentalidade atual, é
uma das mais belas páginas da literatura de todos os tempos.
O povo israelita descende dos canaanitas (Canaã) que, no final
do segundo milênio antes da E. C. demandaram as regiões
montanhosas, mais seguras e longe das rotas de comércio. Por
volta do ano 1000 antes da E.C. criaram duas culturas distintas,
o Reino do Norte, também chamado de Israel e o Reino do Sul, o
futuro reino de Judá. Ambos os povos cultuavam YHWH e praticavam
a dieta do porco, no mais não se distinguindo dos demais povos,
inclusive no que diz respeito ao politeísmo. Tinham como centros
Siquém, no Norte populoso (cerca de 120 mil no auge do
desenvolvimento) e rico e Jesusalém, no Sul pobre, população
escassa e atrasada culturalmente uns dois séculos. A partir de
722 antes da E. C. o Reino do Sul teve sua grande chance
histórica com a destruição do Reino do Norte e deportação da
elite pelos assírios. O Rei Manassés, 698-642 antes da E. C.,
soube aproveitar. Foi o maior de todos os reis do Sul, mas
incorreu na maldição bíblica pela política de boa vizinhança com
os assírios e pelo favorecimento do preceito democrático do
politeísmo.
Josias, três anos depois, herdou um reino poderoso, próspero e
apresentou ao povo a grande saga da Bíblia em que proclama a
pretensão de avançar sobre as terras vizinhas. Nada mais justo,
elas foram prometidas aos israelitas pessoalmente por YHWH aos
ancestrais, entre eles Abraão, Moisés, Davi, Salomão. Estas
personagens podem ter existido, contudo não foram encontrados
indícios confiáveis. O primeiro melhor documentado foi o Rei
Ahab, do Norte, um extraordinário monarca, maldito da Bíblia
pelo casamento com a fantástica Jezebel, fenícia, porém um
grande construtor cujas obras, erroneamente, se atribuía a
Salomão. Na verdade Josias governava um pequeno território,
dividido em doze distritos (daí a legenda das Dozes Tribos) ao
redor de Jerusalém, na direção do Mar Morto com, no máximo, 70
mil habitantes. Após o exílio, 440 antes da E. C, a província
persa que então foi criada pela inteligente estratégia do Rei
Ciro, ainda menor do que o pequeno Judá do Rei Josias, recebeu a
denominação aramaica de Yeud (Judá) e os habitantes, Yeudin,
(judeus).
Durante o exílio a idéia de um Rei da dinastia de Davi foi
abandonada pela de um futuro Messias, isto é, um Rei ungido de
Deus, ele mesmo Deus na mentalidade iraniana e helênica, que
resgataria Israel. No estágio de publicação da Bíblia pós-exílio
havia similaridade com a época da primeira edição: os israelitas
estavam centrados em Jerusalém, num clima de muita incerteza,
controlando um território menor do que o prometido aos
ancestrais. Era preciso uma autoridade central para manter unida
a população, daí o reforço do monoteísmo e do imaginário. Com a
perda da liberdade física produz-se uma liberdade espiritual sem
freios. Isto foi feito brilhantemente por novas edições da
Bíblia, aperfeiçoamentos e acréscimos de alguns livros em
aramaico, a língua comum a toda a região desde Damasco, tornando
o hebraico língua litúrgica. O Velho Testamento, para o judaísmo
atual termina com o Livro de Ester que, curiosamente, não se
refere a YHWH.
Uma recensão precisa dizer se o resultado obtido esteve à altura
do objetivo, emitir um juízo final e indicar ao leitor a que se
destina a obra. É um trabalho iconoclasta, provocativo
apresentando dramaticamente uma Bíblia diferente da que os
pregoeiros em cima de caixote de querosene veiculam. Os autores
apresentam primeiro o que diz o texto sagrado, depois confrontam
com as escavações levadas a efeito. A metodologia ótima e fica a
sensação de que havia um motivo escondido em toda a obra, provar
que os territórios atuais de Israel são-lhes de direito e não
apenas de direito teológico ou ideológico. Parecem reconhecer
também o direito dos demais povos, descendentes diretos ou
indiretos da antiga Canaã. É leitura para quem deseja conhecer a
história da cultura ocidental, de modo peculiar os comunicadores
que precisam aprender como uma mensagem tem a força de varar os
século.
Autor: Hélio Amaral é doutorando em Comunicação pela
ECO-UFRJ, jornalista, formado também em Filosofia, AUSU/Rio e em
Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma.
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