|
|

Comunitá em Revista
Há mais de dez anos
atrás, nasceu o Comunitá Itália, do trabalho de um pequeno grupo
de estudiosos e intelectuais italo-brasileiros, que constataram
a falta de uma publicação de qualidade para divulgar informações
e integrar a comunidade italiana no Brasil. Em 1994, na cidade
de Niterói, o Comunitá começava timidamente: com uma média de 12
páginas impressas em preto e branco e uma tiragem de 4 mil
exemplares, o jornal era distribuido gratuitamente,
principalmente em associações italianas.
Quem deu o pontapé inicial para
realizar o projeto foi o jornalista Domenico Petraglia, então
com apenas 18 anos, com o apoio do sócio Julio Vani, na época
com 67 anos de idade. Aos poucos, o jornalzinho foi crescendo e
rendeu frutos: em 1999 o Comunitá Itália ganhou uma versão
on-line (www.comunitaitaliana.com.br)
e alguns anos depois foi inaugurada uma editora de mesmo nome,
especializada em publicar textos e romances de escritores
italo-brasileiros, em italiano.
Uma década depois, os
jornalistas da pequena redação niteroiense podem se orgulhar de
fazer uma respeitada revista, que conta com a colaboração
periódica de ilustres nomes italianos, como o escritor Umberto
Eco e Domenico de Masi. Atualmente, o Comunitá se tornou o
principal veículo da comunidade italiana em todo o Brasil, com
tiragem de mais de 30 mil exemplares e distribuição para todo o
território brasileiro, até mesmo a Amazônia e também para
Itália, México e Austrália.
Hoje, o sócio-fundador Pietro
Petraglia é, além de editor-chefe da revista, vice-presidente da
Associação Brasileira de Imprensa Italiana. Seguem trechos da
entrevista realizada com ele:
Etni-Cidade: qual é a
estimativa do tamanho da comunidade italiana no Brasil? E quais
são seus pontos de maior concentração?
Pietro
Petraglia: Fala-se, segundo dados do Ministério das
Relações Exteriores da Itália, que existem aproximadamente vinte
e cinco milhões de ítalo-brasileiros. Destes, uma pequena - mas
significativa -parte, cerca de oitocentos mil, são italianos que
vivem no Brasil. No país, a maior concentração está em São Paulo
(considerada a Itália fora da Europa), no Rio de Janeiro e no
Rio Grande do Sul.
Etni-Cidade: A
comunidade conta com muitas instâncias organizacionais, como
templos, associações e clubes? Quais as organizações e datas
comemorativas mais relevantes para a comunidade?
Pietro
Petraglia: Existem muitas entidades com fins
sócio-culturais e econômicos. Existem câmaras de comércio
ítalo-brasileiras, institutos italianos de cultura, associações
que promovem o aprendizado da língua italiana, outras que
promovem o folclore... Poderia citar entidades como a Sociedade
Italiana de Beneficência e Mútuo Socorro, fundada há 150 anos,
com um hospital (Hospital Italiano, localizado no Grajaú) que
atende a italianos e brasileiros, além de prestar um serviço
social importante para a comunidade carente das proximidades.
Existem ainda muitas associações regionais em atividade. Em
Santa Teresa, por exemplo, temos a Associação Calabresa,
que realiza festas típicas, promovendo a culinária e as
tradições da região da Calábria, de onde veio a maior parte dos
imigrantes radicados no Rio de Janeiro.
Datas comemorativas, temos
muitas ligadas à religião, como o 2 de agosto, dia de Nossa
Senhora dos Anjos, quando a colônia originária da cidade de
Sacco, na província de Salerno, costuma realizar eventos em
homenagem a esta santa muito cultuada na região. Na primeira
semana de maio, temos o dia de São Francesco di Paola, quando
milhares de pessoas se reúnem na igreja do santo na Barra da
Tijuca, com caravanas de diversos lugares. No dia 2 de junho,
comemora-se o dia da República Italiana, uma festa de todos,
organizada normalmente pelos Consulados italianos. Em São Paulo
temos grandes eventos que acontecem também ao longo do ano. As
grandes festas populares como o dia de Nossa Senhora de
Aqueropita ou San Genaro, têm divulgação nacional e são
considerados dos maiores eventos do país. Tem a festa da Polenta
no Espírito Santo. Tem queijos e vinhos por todo o país, que tem
seu ponto forte na Festa da Uva de Caxias do Sul, onde a
celebração da uva atrai além de outros italianos e brasileiros,
milhares de turistas estrangeiros. E por aí vai. A herança
cultural italiana é muito rica e cheia de histórias. As
constantes confraternizações servem para reencontrar as origens,
os velhos amigos, as velhas histórias, a culinária, a música, o
culto...
Etni-Cidade: Quais os
meios de comunicação intracomunitária, quais as mídias que a
comunidade tem?
Pietro
Petraglia: A comunidade italiana aqui no Brasil é
bastante organizada e articulada. Fazemos grande uso da mídia.
Existem, por exemplo, diversos boletins associativos, revistas,
jornais e outras publicações periódicas, programas de rádio e
até estações de rádio voltadas exclusivamente para a comunidade,
programa de televisão, páginas na internet, etc. Isto
principalmente nas regiões onde os italianos se concentram, Rio
e São Paulo, mas também em outras regiões do país.
Etni-Cidade: Como
classificaria a receptividade desta mídia na comunidade (vendas,
distribuição, público-alvo)? Qual a importância desta mídia na
comunidade?
Pietro
Petraglia: O jornal Comunità Italiana surgiu em março
do ano de 1994, com tiragem inicial de dois mil exemplares, em
papel jornal, preto e branco, com apenas doze páginas a
princípio. Depois de quase 11 anos de trabalho e caminhada com o
crescente envolvimento da nossa comunidade, o Comunitá Italiana
se transformou na principal mídia da comunidade italiana no
país.
Etni-Cidade: Quais os
principais temas tratados por esta mídia?
Pietro
Petraglia: Os assuntos tratados são os mais variados,
abrangendo temas relacionados ao Brasil e à Itália, obviamente,
mas com destaque especial para atualidade e cultura.
Etni-Cidade: Como é a
relação da comunidade italiana com a sociedade brasileira? Qual
é o grau de inserção da primeira na segunda?
Pietro
Petraglia: Desde sempre, os brasileiros acolheram
muito bem os italianos. Existiram períodos difíceis como a
substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes
italianos ou durante o período da grande guerra, quando muitos
imigrantes perderam posses e diversas associações tiveram de
fechar suas portas. Mas os imigrantes mostraram seu valor e
logo, com perseverança e toda a bagagem cultural, conseguiram
conquistar um importante espaço na sociedade brasileira. Afinal,
na formação do povo brasileiro, a mestiçagem européia contribuiu
não somente para a delinear a forma física, mas principalmente
para levar o país a melhores condições de vida. Hoje temos no
governo federal nomes como Mantega e Furlan, entre outros, e até
mesmo a primeira dama, Dona Marisa, descendente de italianos.
Etni-Cidade: Existe um
relacionamento estabelecido entre a sua comunidade italiana no
Brasil e em outros países?
Pietro
Petraglia: Existem diversas entidades internacionais
e inúmeros congressos, em todo o mundo, que acontecem com temas
comuns aos imigrantes italianos em diversos países. Dessa forma
o intercâmbio é extremamente forte e agora, contando também com
o advento da internet, existe ainda mais facilidade para
estabelecer esta comunicação. A comunidade italiana do Brasil é
irmã de todas as comunidades italianas no exterior e o inverso
também é verdadeira. Há uma relação de troca e cooperação mútua.
Etni-Cidade: Quais
foram/são as principais fontes de financiamento para a criação
desta mídia?
Pietro
Petraglia: No início, para fundarmos o Comunitá
Italiana eu, que estava então com 18 anos, e meu sócio, Julio
Vanni, na época com 67 anos, precisamos fazer um grande
investimento pessoal. Muito maior da parte dele, aliás. Mas,
também desde o início, o interesse dos membros da comunidade foi
muito grande, e várias pessoas fizeram doações em benefício do
projeto. Em conseqüência deste interesse, conseguimos o apoio de
patrocinadores, que foi crescendo conforme o jornal foi se
expandindo e aumentando as vendas. Além disso, claro, há o valor
direto das vendas e dos assinantes, que hoje somam alguns
milhares de pessoas por todo o país e também na Itália, onde o
jornal também é distribuído.
Etni-Cidade: Qual é a
contribuição da comunidade nesta mídia?
Pietro
Petraglia: Existe uma grande interação. Como eu disse
acima, o interesse da comunidade neste verdadeiro veículo de
intercâmbio é bastante grande. Muitas pessoas nos mandam
sugestões e opinam sobre as matérias. Temos também diversos
leitores que se tornaram colaboradores enviando textos e
críticas. É perceptível que a comunidade quer fazer parte, que
se envolve com os temas abordados nas edições.
Etni-Cidade: Qual foi a
principal razão motivadora para a criação da revista?
Pietro
Petraglia: Nós queríamos principalmente aumentar o
relacionamento entre os integrantes da comunidade italiana, não
só no estado do Rio de Janeiro, como em todo o país e, em última
instância, no exterior também. Além disso, queríamos ser a voz
deste segmento junto aos poderes constituídos.
voltar
para o canal Freqüências
voltar
para HOME
|