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Leituras no
Império |
Análise |
A Constituição
Política do Presente
Lauro Barboza Neto
1.1- Ordem
mundial:
A problemática do Império
reside na existência de uma ordem mundial expressa como
formação jurídica. Para entender a constituição dessa ordem,
deve-se abandonar as hipóteses de que seu surgimento teria
ocorrido a partir de uma interação espontânea de forças
globais heterogêneas ou através de uma teoria conspiratória da
globalização.
Despidos de pré-conceitos
parte-se à análise dos processos constitucionais da ordem
imperial, marcados pela transição do direito soberano dos
Estados-nação, que representam a antiga ordem internacional em
crise, para o direito imperial e o estabelecimento de uma
ordem supranacional. Nesse contexto, é de fundamental
importância a transformação do papel da ONU, inicialmente
responsável pela composição de uma ordem jurídica
internacional, primeiramente européia e depois global. A
partir do momento em que a organização reconhece e legitima a
soberania dos Estados individuais, mas transfere o direito
soberano para um centro supranacional, há uma realidade do
direito situada acima do Estado-nação que possibilita a
formação de uma ordem mundial.
A construção material do
sistema imperial se dá a partir da constitucionalização de um
poder supranacional. Através da mudança da produção
capitalista contemporânea aliada às relações globais de poder,
torna-se viável o projeto de unir poder econômico ao político,
materializando uma ordem capitalista. Os processos de
globalização atuam como fonte de definições jurídicas,
tendendo a projetar uma configuração única supranacional de
poder político. Assim, o imperialismo entre as nações é
substituído por um novo registro de autoridade, única, e um
projeto original de produção de normas e instrumentos legais
de coerção que fazem valer contratos e resolvem conflitos.
As configurações jurídicas de
constituição do Império fornecem um bom índice do processo de
constituição imperial. Em Roma, o conceito de Império unia
categorias jurídicas e valores éticos universais, constituindo
um poder unitário que produzia paz social e verdades éticas.
Na Renascença, entretanto, há uma ruptura e um desenvolvimento
em separado do direito internacional em busca da ordem por
meio de tratados e do ideal de paz perpétua que tinha de unir
direito e eticidade.
Já na pós-modernidade, há
sintomas de mudanças da constituição material biopolítica de
nossas sociedade, não só no plano internacional, mas também no
plano interno de cada país. As transformações jurídicas
apontam para mudanças na constituição material da ordem e
poder mundiais que revelam o renascimento do Império. O seu
novo conceito jurídico envolve tendências de direito de
englobamento total de espaço e tempo.
Há também um interesse no
conceito e eficácia de guerra justa, não mais porém limitado
ao direito de um Estado de ir à guerra diante de uma ameaça.
Agora, a guerra justa já não é mais um mecanismo de defesa ou
resistência, tornando-se justificável em si mesmo. Com isso,
há uma banalização do inimigo que é tornado absoluto como uma
ameaça total à ordem ética. A legitimidade do aparelho militar
se dá desde que ele esteja eticamente fundamentado e sua ação
mostre eficácia na conquista da paz e ordem desejadas.
No modelo de autoridade
imperial, tudo parece se encaminhar para a paz, para o
equilíbrio e fim dos conflitos. No entanto, crises e
desavenças parecem avançar o processo de integração e demandam
uma autoridade central capaz de contê-los. Nesse momento, o
Império é convocado a nascer com base na sua capacidade de
resolver conflitos. Sua eficácia está muito menos na sua força
do que na capacidade de colocar essa força a serviço da paz e
do direito, mantendo o equilíbrio sistêmico.
Sua obrigação primeira é
ampliar o domínio dos consensos que dão apoio a seu próprio
poder. Para tanto, apóia-se num modelo jurídico caracterizado
pela hegemonia sobre práticas como método, prevenção e
discurso, valendo-se de armas eficientes como normatividade,
sanção e repressão. Isso se dá através do direito de polícia
baseado no emprego da repressão, da prevenção e da força
retórica, visando a reconstrução do equilíbrio social. Essa
capacidade de criar e manter a ordem, de definir a demanda das
intervenções e de mobilizar elementos necessários à resolução
de vários arranjos em crise, evidencia uma legitimação
recíproca e simultânea do sistema imperial e da força de
polícia.
A partir do processo de
constituição imperial, a lei supranacional tende a
superdeterminar a lei nacional, fazendo com que elas funcionem
coincidentemente. Em ambas esferas, direito de polícia fundado
na prática da guerra justa é justificado por valores
universais e o direito de intervenção permite que as
autoridades imperiais intervenham em nome de qualquer espécie
de emergência e princípios éticos. Nossos conceitos de ética,
moral e justiça já fazem parte do contexto imperial, por mais
virtual que possa parecer a ordem global, e os novos conceitos
de direito.
1.2- Produção biopolítica:
Uma vez entendida a
problemática do Império no que tange sua formação judaica,
parte-se para uma análise de transformação material do
paradigma de governo e dos meios e forças de produção.
A transição da sociedade
disciplinar de confinamento para a de controle de redes
flexíveis e flutuantes, de corpos e máquinas, de mecanismos de
comando "democráticos", é marcado pelas transformações das
tecnologias em algo que permite à sociedade o reconhecimento
biopoder. Por biopoder entende-se a forma de poder que regula
a vida social por dentro, acompanhando-a, interpretando-a e a
rearticulando. O que está em jogo é a produção e reprodução da
própria vida e o poder biopolítico como controle que se
estende por todo corpo social, estabelecendo uma relação mútua
de multiplicação das forças sociais.
Nesse sentido, o Império
constitui um paradoxo da pluralidade e da multiplicidade, pois
o mesmo poder que unifica e envolve todos elementos da vida
social, revela um novo contexto de pluralidade e
singularização. Logo, a relação não medida entre poder e
subjetividades a partir do uso eficaz do direito como método
através do Estado de exceção e das técnicas de polícia,
reflete que o direito imperial não consegue atingir o biopoder
em todos aspectos materiais, representando apenas parcialmente
o projeto da nova constituição da ordem mundial.
Deve-se, portanto, entender o
contexto biopolítico a serviço de uma nova acumulação
capitalista de valor, no centro do mecanismo de exploração.
Nessa ótica, máquinas sociais produzem, através de diversas
montagens e aparelhos, os sujeitos e objetos que constituem o
mundo. O ser social é ao mesmo tempo substância ontológica da
produção social e sujeito responsável por sua produtividade
(produção criativa de valores, relações sociais, afetos,
formações) que marca a transição da força de trabalho
produtivo (material) para a força de trabalho intelectual e
comunicativa (imaterial).
Revela-se o problema das
novas configurações de subjetividades, em seu potencial de
exploração e revolução, como o conhecimento, a comunicação e a
linguagem. A partir dessa nova realidade, o trabalho imaterial
na economia contemporânea tende a ser baseado em três
aspectos: comunicativo de produção industrial, ligado a redes
de informação; interativo de análise simbólica e resolução de
problemas; e de produção e manipulação de afetos
(produtividade do corpóreo, do somático), importante no
contexto de produção biopolítica. A nova figura do corpo
biopolítico se torna estrutura e linguagem por se constituída
por uma multidão de corpos singulares e determinados que
buscam relação.
Analisando os elementos
políticos e soberanos que constituem a máquina imperial,
percebemos que instituições reguladoras, de finança e comércio
(ONU, GATT, FMI, etc.) contribuem para educação e formação de
uma elite administrativa do Império. A nova estruturação
biopolítica do mundo faz com que corporações transacionais
decidam sobre os fluxos de mão-de-obra, mercadorias e
recursos, alocando-os geograficamente no mercado de acordo com
seus interesses. As atividades dessas corporações articulam
territórios e populações, organizando o capital no espaço
global.
Grandes potências industriais
e financeiras produzem não só mercadorias como também
subjetividades (necessidades, relações sociais, corpos e
mentes) e produtores. A produção de produtores se dá na forma
de uma relação interativa em que a vida trabalha para a
produção e a produção trabalha para a vida. A comunicação
segue o mesmo raciocínio na medida em que ajuda a organizar o
processo de globalização, sendo ao mesmo tempo produto e
produtor, causa e efeito.
As indústrias de comunicação
não só organizam a produção num novo espaço global, como
também legitimam o seu poder de autoridade através da
linguagem, que integra o imaginário e o simbólico para
eficácia de seu funcionamento. A legitimação do Império por
sua vez, se deu através da transformação dessas indústrias em
máquina do novo modo de produção, sujeito que produz sua
própria imagem de autoridade. A comunicação e o contexto
biopolítico são coexistentes e inseparáveis.
A máquina imperial é
autovalidante, sistêmica e eficaz à medida que torna
irrelevantes as contradições, equilibrando ou ao menos
reduzindo as complexidades. O Império apresenta um projeto de
cidadania universal, aumentando sua intervenção em todos os
elementos das relações comunicativas e dissolvendo identidades
e histórias.
Essas intervenções são
manifestações da máquina imperial num mundo unificado pela
estrutura de produção e comunicação (terreno ilimitado das
atividades, singularização e ação simbólica das ações e
conexão da ação com todo o bios). Elas são feitas inicialmente
com o auxílio de instrumentos morais (ONG's, meios de
comunicação, entidades religiosas), dentre os quais destaca-se
a atuação das organizações não governamentais.
Essas ONG's baseiam-se num
princípio ético e moral para projetar obras de socorro e
proteção aos direitos humanos. A ação dessas entidades
humanitárias as transforma nos mais poderosos instrumentos
para garantir a paz, uma vez que travam uma "guerra justa" sem
armas para identificar as necessidades humanas e supri-las. Na
medida em que denunciam publicamente os inimigos, antecipam o
poder de intervenção imperial pacificadora e produtiva da
justiça.
A intervenção moral dá
subsídios à intervenção militar como ação de polícia
determinada unilateralmente pelos EUA com o apoio de seus
aliados para combater os inimigos do Império. Exemplos disso
são os conflitos étnicos que produzem um material social
maleável para o controle, determinando novas localizações e
relações sociais através de políticas que facilitem a
constituição do Império. A prevenção moral que antecede a
repressão policial das máfias, facilitando o seu controle
também serve como prova que a intervenção moral abre caminhos
para intervenção militar.
Como a constituição do
Império ainda está se efetivando, o poder de polícia antecipa
os tribunais e cumpre o seu papel de justiça, baseado nas
regras desses tribunais. Quando essa constituição já for
suficientemente avançada, esses tribunais deverão ser
transformados em corporação judicial que determine a relação
da ordem moral com o poder de polícia e o mecanismo de
soberania imperial. Enquanto não se atinge o estágio máximo de
consolidação imperial, há intervenções sempre excepcionais,
apesar de contínuas, através do poder de polícia para a
manutenção da ordem interna e formação moral, normativa e
institucional do Império.
A justificação para o uso
dessas forças militares, assim como para o exercício da
justiça e a cobrança de impostos que ocupa uma posição
marginal, baseia-se num Estado de exceção permanente. O poder
imperial reside no poder virtual, com centro e margens
trocando constantemente de posição. Há uma soberania
descontínua e virtual sob a forma de uma máquina de altíssima
tecnologia para controlar o evento marginal que se tem
mostrado eficaz na resolução de problemas mundiais.
A gênese imperial possui uma
racionalidade em funcionamento que constitui a história do
gerenciamento industrial e dos usos políticos da tecnologia,
nos situando no cerne do contexto biopolítico e de suas
tecnologias. O modo de legitimação do poder imperial se dá
pela mistura de elementos típicos de poder tradicional, de uma
extensão do poder burocrático adaptado fisiologicamente ao
contexto biopolítico e de uma racionalidade surgida através de
um poder da singularização do todo e da eficácia das
intervenções imperiais.
1.3 - Alternativas dentro
do Império
Mas não só as indústrias de
comunicação foram responsáveis pela instauração e legitimação
do Império. Vale destacar também a ação do proletariado que
diante do objetivo imperialista de dividir o mundo em campos
opostos com zonas conflitantes lançou-se em revoltas contra as
estruturas de poder modernas. Essas revoltas das massas e o
desejo de libertação da multidão em relação às modernas
máquinas de poder, muitas vezes constituíram uma luta contra o
nacionalismo, colonialismo e imperialismo e apontaram para uma
globalização das relações que em última instância determinaram
a construção do Império.
Deve-se inferir que o Império
representa um avanço e é bom em si mesmo na medida em que
deixou para trás os regimes políticos e de poder modernos,
aumentando também o potencial de libertação eliminando o
colonialismo e o imperialismo. Apesar disso, houve um
agravamento nas relações de exploração capitalista, assim como
da opressão racial e geográfica.
A partir da percepção desse
acentuamento, a esquerda passa a encarar a constituição do
Império como sinais de derrota e privação, adotando uma
estratégia "de local" baseada na análise política da
localização das lutas que preconiza que as resistências devem
defender o local. Deve também haver a construção de barreiras
contra os fluxos aceleradores de capital, uma vez que a
dominação capitalista se dá em escala global.
Contudo, essa posição
localista é falsa e prejudicial, pois repousa na oposição
entre local e global, em que o primeiro seria responsável pela
heterogeneidade e diferença, enquanto o outro provoca
homogeneidade e identidade indiferenciada. No entanto, deve-se
levar em conta que em ambos os casos tratam-se de regimes de
produção, de identidade ou diferença e homogeneização ou
heterogeneização, dependendo das diferentes redes de fluxos e
obstáculos.
A falsa concepção esquerdista
torna-se prejudicial, pois identifica o inimigo erroneamente e
o mascara, impedindo a luta contra as relações globais
imperiais na medida em que se busca um lado de fora e a pureza
das relações políticas, enquanto a solução seria procurar as
alternativas reais e o poder de libertação dentro do próprio
Império calcados no poder da multidão global. É necessário
usar o poder da multidão, que de certa forma ajudou a
constituir o Império para dar fim à miséria e à exploração
localizadas da modernidade, como condição de possibilidade de
libertação dentro do próprio Império.
Para isso, é necessário dar
fim também à base ontológica imperial alicerçada na produção e
reprodução do ser. Hardt e Negri apresentam duas alternativas:
uma, crítica e desconstrutiva que seria uma desconstrução
ideológica e material através da derrubada das linguagens
hegemônicas e das estruturas; a outra, construtiva e
ético-política que busca transformar os processos de produção
de subjetividade em uma alternativa sócio-política, um novo
poder constituinte, recusando qualquer concepção determinista
de desenvolvimento histórico e qualquer celebração "racional"
de resultado.
Ainda no que tange às forças
esquerdistas, é importante lembrar que na modernidade, o
internacionalismo proletário era antinacionalista,
supranacional e global, na medida em que os trabalhadores
estavam apoiados em necessidades e desejos comuns, relegando a
segundo plano as identidades nacionais, responsáveis pela
manutenção de suas diferenças. A solidariedade internacional
combatia o Estado-nação como agente-chave da exploração
capitalista, pretendendo a construção de uma comunidade global
em que um proletariado único se visse livre da dominação.
Esse internacionalismo
proletário obteve êxito através de ciclos internacionais de
luta, baseados na greve geral e na insurreição contra o
Estado, que eram difundidos internacionalmente e fortaleciam o
processo de libertação. Exemplos disso foram a Primeira
Internacional, a formação de organizações políticas e
sindicais socialistas e as lutas antiimperialistas que
souberam usar a linguagem para "traduzir" informações e
efetuar esses eventos em série.
Essas lutas das massas
representaram a criatividade do desejo, utopias da experiência
vivida e obras da historicidade como potência, antecedendo os
processos de globalização do capital e o nascimento do
Império. As expressões da força do trabalho ativo encontraram
a libertação da multidão na globalização, uma vez que ela
desterritorializa as estruturas de exploração e controle
modernas. Contraditoriamente, houve a constituição de um
proletariado global com realização de seu projeto, apesar de
sua derrota.
Há que se salientar que no
Império, a composição da classe proletária como operariado
industrial hegemônico nas análises econômicas e nos movimentos
políticos já não é uma realidade. Fazem parte desse
proletariado todas as classes exploradas pelo capitalismo,
compondo um todo seccionado e estratificado de acordo com a
heterogeneidade dos diversos elementos de produção ativos que
estão dentro do capital e que o sustentam.
Houve também transformações
nas lutas proletárias, que apontam para um novo tipo de
solidariedade e militância, visando a combater a exploração.
Essas lutas são agora específicas e isoladas, características
de problemas regionais, não constituindo um ciclo nem
repercutindo como antes nas outras zonas do globo. Como
exemplos desse novo tipo de luta são o Intifada, o levante de
Chiapas, a série de greves na França em 95 e na Coréia do Sul
em 96.
Apesar das perdas em
extensão, duração e comunicabilidade, essas lutas ganharam em
intensidade, revelando problemas próprios da nova configuração
da regulamentação capitalista imperial. Portanto, embora
reflitam circunstâncias locais e imediatas, essas batalhas
apresentam questões de relevância supranacional, pois de
locais, atingem o nível global para atacar a constituição
imperial em sua generalidade. Reunindo aspectos
sócio-econômicos e político-culturais, assumem um caráter
biopolítico e constituinte, em busca de novos espaços públicos
e novas formas de comunidade.
Entretanto, essas novas
formas de lutas podem parecer antigas e ultrapassadas por não
poderem comunicar-se, apesar de serem hiperexpostas nos meios
de comunicação. Dentre os obstáculos que impedem a divulgação
dessas lutas destacam-se a ausência de reconhecimento de um
inimigo comum que se deve combater e de uma linguagem comum de
lutas que possa traduzir a expressão particular de cada uma
numa linguagem cosmopolita. Para solucionar esses problemas,
teríamos que esclarecer que a natureza do inimigo comum está
na ordem global do Império, para assim buscar uma alternativa
político, e construir uma nova linguagem comum que facilite a
comunicação, baseada nas diferenças, uma comunicação de
singularidades
Há, porém, um ponto positivo
nessa incomunicabilidade: os movimentos de revolta passam a
ser espontâneos, não esperando qualquer tipo de ajuda ou
auxílio externo. Na medida em que o capital estende suas redes
globais de produção e controle, as revoltas se intensificam em
cada ponto, dirigindo-se diretamente para o centro virtual do
Império. Esse centro virtual pode ser atacado de qualquer
parte, a partir da globalização das relações econômicas e
culturais, formulando uma estratégia de contrapoder
constituinte que emerge de dentro do próprio Império. Em
contrapartida, a reação imperial ocorre no sentido de
controlar essas revoltas, impedindo que ocorram de novo. No
entanto, elas são importantes na medida em que permitem ao
poder imperial perceber as falhas e limites do sistema,
corrigindo-os e descobrindo quais mecanismos de globalização
são viáveis.
A força da multidão configura
novas formas de resistência e novas subjetividades que ao
mesmo tempo que anti-sistêmicos, são positivas, pois
desenvolvem seus próprios projetos constituintes. Já o
contexto biopolítico imperial é marcado por uma frustração e
instabilidade jurídicas na tentativa de destruir os antigos
valores que serviram de referência à lei pública
internacional.
É a metáfora imperial da
águia de duas cabeças, em que a primeira seria uma estrutura
jurídica e um poder constituído, construídos pela máquina de
comando biopolítico, sempre sujeitos a contradições e crises,
nunca alcançando os valores de paz e ordem. A outra seria a
multidão plural de subjetividade de globalização produtivas e
criadoras, marcada por uma imprevisibilidade das seqüências
dos eventos que na medida em que aceleram sua temporalidade e
ocorrem simultaneamente, podem constituir uma ameaça aos
equilíbrios imperiais. O movimento criador da constituição
confere um novo sentido de ser na constituição do Império, ou
ao menos aparece com um paradigma alternativo.
Manifesto Político
Althusser faz uma comparação
entre o Príncipe e o Manifesto Comunista, percebendo em ambos
uma teleologia materialista que define o político como
movimento da multidão e o fim como autoprodução do sujeito. No
entanto, Marx concebe que a organização crescente do
proletariado moderno acarreta a criação do partido comunista
do próprio comunismo, enquanto Maquiavel busca um aparelho
democrático capaz de ligar o sujeito (multidão) e o objeto (o
príncipe e o Estado livre).
Já Hardt e Negri, entendem
que no contexto imperial, há um paradoxo em que as forças
sociais tendem a ser ativadas como forças produtivas, mas ao
mesmo tempo são submetidas a uma dominação global abstrata e
insensível ao sentido dos aparelhos de reprodução da vida. Uma
solução para o problema teria de juntar melhor o sujeito (a
multidão) e o objeto (a libertação cosmopolita) e colocá-los
num processo de autoprodução. As armas necessárias para a
construção de uma nova sociedade residem no potencial da
multidão para sabotar e destruir com sua própria força o
Império.
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