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Cultura e Imperialismo
Rogério Martins de Souza
“É a arte e a ciência. Retire-as
ou desgaste-as
e não existirá mais império. O império segue
a arte e não vice-versa, como supõem os ingleses.”
(William Blake)
Sem dúvida um dos principais
romances realistas modernos é Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.
Temos ali a história de um homem europeu, náufrago numa ilha
distante, povoada por nativos indolentes e selvagens, que cria
para si mesmo um feudo naquela terra desconhecida e primitiva,
para enfim voltar, alguns anos depois, à civilização. Vejamos:
até que ponto um romance como esse não influenciou corações e
mentes na Europa, que se considerava a si própria a região mais
desenvolvida no mundo, o ápice da espécie humana? Indo um pouco
mais além: como os estereótipos expostos acima (“nativo
indolente”, “selvagem”, “primitivo”, “civilização”) não eram
reconhecidos como o senso comum entre a sociedade européia nos
séculos XVIII e XIX?
Esses estereótipos, ao lado de figuras de retórica como “oriente
misterioso” e “espírito africano”, entre outras, estiveram
presentes nas grandes narrativas de romances ingleses e
franceses, que ajudaram a consolidar idéias defendidas pela
política imperialista de países como a Inglaterra e França. Em
seu livro “Cultura e imperialismo”, Edward Said nos mostra como
os pressupostos imperialistas influenciaram a cultura e os
grandes romances de sua época, fazendo com que a soberania
européia se estendesse não só às armas, mas também à maneira de
pensar e à própria imaginação dos dominadores e dominados. O
legado imperial de anos de colonialismo ainda hoje continua a
afetar – em todas as práticas sociais, políticas e ideológicas –
as relações entre o Ocidente e o mundo por ele colonizado.
Em 1978, o palestino Edward Said ganhou fama internacional ao
escrever o clássico “Orientalismo”, no qual rompia com os
estudos pós-coloniais inspirados no marxismo para abraçar as
teses de Foucault. Até então ninguém ousara interpretar a
história como uma luta pela linguagem, e sim como uma luta de
classes, como Marx e seus seguidores queriam. O sucesso desse
livro pode ser revelado no subtítulo presente em sua edição
brasileira: “O Oriente como invenção do Ocidente”. Said insistia
que o discurso constitutivo da civilização ocidental enquanto
tal havia definido o Oriente como o Outro civilizacional
perigoso e inferiorizado, de tal modo que essa dialética
negativa ajudara em grande parte na constituição da civilização
européia. Assim, o negro africano, o indiano e mesmo o branco
irlandês eram vistos não apenas como diferentes, mas como a
completa negação do branco europeu. Eram o seu reverso. Para um
senhor de escravos, corrompido por esse imaginário colonial, os
nativos não poderiam compreender sentimentos como bondade e
compaixão, que lhes provocavam ódio; enquanto açoites, insultos
e outros abusos lhes provocavam gratidão, afeição e apego
inviolável. Antonio Negri faz coro com a explicação de Said ao
informar: o mal, a barbárie e a licenciosidade do Outro
colonizado tornam possíveis a bondade, a civilidade e o decoro
europeu [1]. Ou, nas palavras de Sartre: “Não há nada mais
coerente que um humanismo racista; o europeu só se tornou homem
após gerar escravos e monstros”.
Em “Cultura e imperialismo”, o autor amplia a argumentação
contida em “Orientalismo”, descrevendo as relações do Ocidente
metropolitano com suas colônias e tentando entender, até que
ponto, grandes romances como “O coração das trevas”, de Joseph
Conrad, “Kim”, de Rudyard Kipling ou “Passagem para a Índia”, de
E.M. Foster, consciente ou inconscientemente, ajudaram a
disseminar os pressupostos colonialistas. Ao relacionar o prazer
estético de grandes obras como parte intrínseca do processo
imperial, Said procura dizer que este novo aspecto a ser
estudado, relacionando cultura e política, longe de reduzir, na
verdade aprofunda nossa compreensão dessas obras. É necessário,
segundo o autor, enxergar a história e a cultura de maneira não
monolítica, descompartimentalizada, sem separações ou distinções
reducionistas.
Uma das realizações do imperialismo foi a de aproximar o mundo.
Na introdução de seu livro, Said nos diz: “Todas as culturas
estão mutuamente imbricadas; nenhuma é pura e única, todas são
híbridas e heterogêneas, extremamente diferenciadas, sem
qualquer monolitismo”. Para o autor, isso vale tanto para os
Estados Unidos contemporâneos quanto para o mundo árabe moderno,
em que restrições ao “não-americanismo” e ameaças ao arabismo
são ainda comuns. Numa segunda parte do livro, o autor vai em
busca de autores nas colônias que ousaram contestar a política
imperial, inclusive aqueles que buscaram nos ideais da Revolução
Francesa fontes para as lutas por independência em seus
territórios ocupados. Ou como o personagem Caliban, presente em
“A tempestade” de Shakespeare, influenciou poetas nas lutas pela
libertação no Caribe.
Moldando o
passado
No primeiro capítulo de Cultura
e imperialismo, “Territórios sobrepostos, histórias
entrelaçadas”, Edward Said parte de um famoso ensaio crítico do
poeta T.S. Elliot – “nenhum poeta, nenhum artista ou qualquer
arte, tem seu pleno significado sozinho” – para discutir a idéia
central presente em Elliot: a maneira como formulamos o passado
molda nossa compreensão e nossas concepções do presente.
Partindo daí, relata como na Guerra do Golfo de 1990-91 o
confronto entre o Iraque e os Estados Unidos foi resultado de
duas histórias fundamentalmente opostas, cada qual usada pelo
establishment oficial do respectivo país em benefício próprio.
Não há dúvidas de que hoje temos muitos estudos críticos, de
historiadores e demais teóricos que se debruçaram sobre os
efeitos de décadas e mais décadas do imperialismo; porém, se em
larga escala foram debatidas questões ligadas à política e
economia, deu-se muito pouca atenção ao papel privilegiado, para
Said, da cultura na experiência imperial moderna. Se hoje é
difícil encontrar um cidadão norte-americano, europeu,
latino-americano, africano, indiano etc, que não tenha sido
afetado pelos impérios do passado, isso se deve pelo
imperialismo ter lançado as bases do que agora é, de fato, um
mundo inteiramente global, segundo o autor: “As comunicações
eletrônicas, o alcance mundial do comércio, da disponibilidade
dos recursos, das viagens, das informações sobre os padrões
climáticos e mudanças econômicas unificaram até mesmo os locais
mais remotos do mundo. Esse conjunto de padrões foi, a meu ver,
possibilitado e inaugurado pelos impérios modernos”.
Grande parte dessa ideologia imperial, presente também em livros
didáticos nas escolas do Terceiro Mundo, esteve presente nos
romances realistas modernos, que sustentaram de maneira quase
imperceptível o consentimento da sociedade com a expansão
ultramarina. O que o autor está querendo demonstrar é como a
dominação imperial ocorreu além do plano econômico e político,
manifestando-se em outro nível de grande importância, o da
cultura nacional, que tendemos a apresentar como algo asséptico,
um campo de monumentos intelectuais imutáveis.
Não se deve, portanto, separar objetivos imperiais e arte
nacional, como muitos acadêmicos ainda o fazem. Para Said,
(...) perder de vista ou ignorar o contexto nacional e
internacional das representações, digamos, que Dickens fez dos
homens de negócios vitorianos, e enfocar apenas a coerência
interna de seus papéis nos romances do autor é perder uma
ligação essencial entre sua ficção e o mundo histórico dessa
ficção.
Deve-se atentar para a necessidade de contextualização, algo
importantíssimo na compreensão da obra de arte. “E compreender
essa ligação não significa reduzir ou diminuir o valor dos
romances como obra de arte: pelo contrário, devido à sua
concretude, devido a suas complexas filiações a seu quadro real,
eles são mais preciosos como obras de arte”.
Voltamos aqui ao real objetivo deste capítulo – as histórias
entrelaçadas das diferentes culturas. Se, hoje, há uma
consciência bem maior do caráter híbrido das culturas – não
existe cultura una, longe de serem monolíticas, as culturas mais
adotam elementos “estrangeiros”, alteridades e diferenças do que
os excluem conscientemente –, países com pretensões imperiais
como a França e Inglaterra tentaram “esconder” esse caráter
heterogêneo, como nota Said a partir de estudos como Black
Athena (Atena negra), de Martins Bernal,e The invention of
tradicion (A invenção da tradição), de Eric Hobsbawn. De início
sabia-se que a civilização grega tinha raízes na cultura
egípcia, semita e várias outras meridionais e orientais, mas no
decorrer do século XIX ela foi remodelada como uma cultura
“ariana”, na qual foram ocultas ou eliminadas suas raízes
semitas e africanas. Como os próprios escritores gregos
reconheciam abertamente o passado híbrido de sua cultura, os
filólogos europeus contraíram o hábito ideológico de passar por
cima dessas passagens embaraçosas, sem as comentar, em prol de
uma suposta pureza ática. Não à toa, um filósofo como Nietzsche
provocou polêmica ao apontar a fusão, em O nascimento da
tragédia, entre o elemento apolíneo da sobriedade clássica e as
forças dionisíacas, mais sombrias e instintivas, que seriam
responsáveis pela grande arte grega. No século XIX, o mundo
clássico era sagrado; seus ideais de justiça, cultura e
democracia, ainda que deturpados, favoreciam a imagem que as
nações emergentes faziam de si mesmas
[2].
Uma dessas contradições discutidas por Said está na brilhante
análise que ele faz do romance O coração nas trevas, de Joseph
Conrad. Conrad, um expatriado polonês convertido em funcionário
do sistema imperial, diferenciava-se de outros escritores
coloniais justamente porque tinha consciência do que fazia. Said
expõe, em duas visões sobre a obra, a contradição de um escritor
consciente dos danos impostos pelo imperialismo, mas incapaz de
externar uma alternativa àquele processo. Pelos olhos de Marlow,
o personagem principal, ele parece dizer: a independência é
coisa de brancos e europeus; os povos subjugados devem ser
dominados; a ciência, a erudição, toda a história vêm do
ocidente. Segundo Said,
a limitação trágica de Conrad é que, mesmo podendo enxergar com
clareza que o imperialismo, em certo nível, consistia
essencialmente em pura dominação e ocupação de territórios, ele
não conseguia concluir que o imperialismo teria de terminar para
que os ‘nativos’ pudessem ter uma vida livre da dominação
européia. Como indivíduo de seu tempo, Conrad não podia admitir
a liberdade para os nativos, apesar de suas sérias críticas ao
imperialismo que os escravizava.
Moldando o passado, voltando aos arquivos culturais, Said
observa que é hora de os estudos de literatura comparada relerem
o passado não de forma unívoca, mas em contraponto, ou seja, com
a consciência simultânea da história metropolitana que está
sendo narrada e daquelas outras histórias contra (e junto com)
as quais atua o discurso dominante. É hora de dar voz aos
estudos das antigas colônias, relacionando, por exemplo, o
estudo da história africana com os ensaios da África na
Inglaterra.
Visões do
império
Em grande parte das obras
inglesas e francesas do século XIX e começo do XX há alusões aos
fatos imperiais. O imperialismo era uma visão consolidada na
cultura desses países. Nas tramas romanescas, os fatos do
império estão associados à possessão sistemática, aos espaços
vastos e desconhecidos, ao exotismo de seus habitantes, entre
outros estereótipos. Filhos mais novos caídos em desgraça são
enviados para as colônias, parentes pobres mais velhos vão para
lá tentar recuperar fortunas perdidas, jovens em busca de
aventura vão à procura de entretenimento e romances. O próprio
personagem Robinson Crusoé não existiria sem a missão
colonizadora que lhe permite criar um novo mundo “europeu” nos
pontos remotos e agrestes da África, Pacífico e Atlântico.
Neste capítulo, Said discute a pouca quantidade de estudos que
tentam, como ele, relacionar cultura e política imperial,
fazendo até com que bibliógrafos de grandes escritores cometam
esses “lapsos” em seus ensaios. Em termos práticos, Said reforça
a importância do que ele chama de “leitura em contraponto”, ou
seja, ler um texto entendendo que o que está envolvido quando um
autor mostra, por exemplo, que uma fazenda colonial de
cana-de-açúcar é considerada importante para um determinado
estilo de vida na Inglaterra.
O livro estudado por Edward Said aqui é bem representativo de
suas pretensões. Publicado em 1814, Mansfield Park, de Jane
Mansfield, conta a história de uma família num isolado e
campestre casarão inglês (o Mansfield Park do título), que para
se sustentar depende dos recursos do imperialismo. A propriedade
é uma fazenda de cana com trabalho escravo (que seria abolido só
em 1830) e um dos proprietários é um senhor imperial em Antígua,
no Caribe. Ao abordar Fanny, a senhora de Mansfield Park, Said
encontra a ligação sem a qual não haveria o romance:
Ela vê com clareza que ter e governar Mansfield Park é ter e
governar uma propriedade imperial em íntima, para não dizer
inevitável, associação com ela. O que assegura a tranqüilidade
doméstica e a atraente harmonia de uma é a produtividade e a
disciplina regrada da outra.
Não tão forte como na Inglaterra, a influência do imperialismo
na França se fez notar de maneira mais esporádica, mas sem
deixar de criar marcas delimitadas em sua cultura. Foi Lukács
quem primeiro notou a enorme influência da trajetória de
Napoleão sobre os heróis romanescos na literatura francesa.
Julien Sorel, o herói trágico de O vermelho e o negro, é
completamente dominado por suas leituras de Napoleão e suas
campanhas imperiais. Porém a principal colônia francesa, a
Argélia, é lembrada com certa indiferença pelo protagonista em
uma única referência no romance, quando Sorel imagina ser a vida
parisiense de sua amada Mathilde mais arriscada do que uma
viagem à Argélia.
É certo que não só os romances funcionavam como sustentáculo dos
interesses imperialistas. Em especial na França, um segundo
veículo de apropriação cultural dos interesses franceses foi o
conjunto de novas ciências, possibilitadas originalmente pelas
aventuras napoleônicas no Egito. Napoleão, em sua viagem ao
Egito, não se furtou em levar consigo inúmeros pesquisadores,
comandados por Champollion, os quais escreveriam suas impressões
na série Description de l’Egypt, dando subsídios a ciências
nascentes como a arqueologia. Professores recrutados no império
para lecionar nas colônias eram unânimes em lembrar aos alunos
da superioridade racial e cultural das metrópoles. Exposições
“universais” européias com modelos de aldeias e vilas coloniais
eram expostas à elite ocidental como microcosmos do domínio
imperial mais amplo. Num caso extremo, zoológicos humanos
corriam partes da Europa e também os Estados Unidos, onde
nativos eram enquadrados em celas como animais dos modernos
zoológicos, reforçando o exotismo com que aqueles povos deveriam
ser vistos, segundo o império.
Voltando ao Egito, o autor se detém na ópera Aída, de Verdi.
Parte de seu caráter imensamente popular até hoje está em
retratar um Oriente (no caso o Egito) essencialmente exótico,
distante e antigo, onde os europeus podem se permitir certas
exibições de força. Said reproduz aqui sua experiência como
crítico musical, combinando-a com a leitura em contraponto e
contextualizando a obra-prima de Verdi, para mostrá-la como um
empreendimento não sobre o imperialismo, mas pertencente à
dominação imperial. Particularmente interessante é a
reconstituição de toda a história da elaboração de Aída, do
convite a Verdi na Itália à encenação da ópera no Egito. Em
entrevista ao jornalista brasileiro Edney Silvestre, publicada
no livro Contestadores, Said disse que Verdi escreveu a ópera
como resultado de uma série de forças que só poderiam ter vindo
de um império:
Quediva (o governante egípcio) queria uma ópera italiana,
escrita em estilo francês, sobre um assunto egípcio, para uma
certa ocasião – a abertura da ópera que seria honrada por vários
europeus que lá iriam, como a imperatriz da França, para
celebrar os laços com o Egito –, um acontecimento cultural
totalmente em termos europeus. Vi isso como parte do domínio que
o império tinha sobre a imaginação nativa. Era sobre o Egito
antigo, não o Egito moderno. Nenhum egípcio estava presente na
estréia de Aída (...)
Contribuindo para alimentar o exotismo com que nós, ocidentais,
sempre encaramos o Oriente, Said volta-se para a chamada
“invenção da tradição”. Por invenção da tradição entende-se a
criação de territórios imaginários e orientalizados saídos da
pena de escritores como Rudyard Kipling, como a Índia de
romances como Kim. A historiografia indiana tradicional, com sua
ênfase em crônicas e biografias históricas, era largamente
ignorada. Quando começaram a governar a Índia, os ingleses
criaram uma nova historiografia do passado indiano – uma maneira
incisiva de propagar os interesses imperialistas. Também
estudado por Edward Said, o escritor franco-argelino Albert
Camus foi outro grande autor que não escapou desse longo
discurso colonial criado pelo império. Os estereótipos e o
preconceito com que cita os argelinos em sua obra são,
infelizmente, deixados de lado por seus críticos, que preferem
interpretar sua literatura como, segundo Said, sobre a “condição
humana”.
Resistência e oposição
Neste capítulo Edward Said
afirma que se deve levar em conta a persistente disparidade de
poder entre o Ocidente e o não-Ocidente, se quisermos levar em
conta as formas de cultura (como o romance, a poesia e a ópera)
em que essa diferença é externada. O autor está preocupado com a
intenção, por parte de algumas metrópoles, em dissimular a
situação de poder antes evidente nas colônias, e também de
estudar até que ponto a experiência da parte mais forte se
sobrepõe à do mais fraco e estranhamente depende dela.
Hoje o estudioso pode se debruçar sobre a cultura e o
imperialismo dos séculos anteriores com um manancial bem maior
de teoria – desconstrução, estruturalismo, marxismo, análise dos
discursos, a perspectiva é bastante ampla. E uma das inverdades
históricas que pouco a pouco vem sendo derrubada é a crença de
que não houve resistência às invasões patrocinadas pelos
impérios e a conseqüente colonização. O ponto comum nos estudos
sobre povos ou períodos cientes da desigualdade é que o povo
sofre. Ou como diz Said: “Os clássicos gregos serviram aos
humanistas italianos, franceses e ingleses sem a incômoda
interposição dos gregos de carne e osso”. E por mais que os
colonizadores queiram negar, sob argumentos de missão
civilizacional, ou que a intromissão em assuntos da colônia só
traria benefícios aos nativos, Said responde por meio de obras
analisadas: sempre houve alguma resistência e oposição aos
colonizadores. Um dos vários mitos que caem por terra na análise
é o do “nativo indolente”, ou seja, a crença difundida pelos
senhores de terra de que os habitantes das colônias só entendiam
a linguagem da força. Para Said e historiadores pós-coloniais, a
própria “indolência” nativa, ou a recusa dos nativos em
trabalhar, não deixava de ser uma tentativa de resistência aos
desmandos do açoite.
Mesmo durante as duas grandes guerras mundiais do século XX,
eram raros os ingleses e franceses que achavam que algo poderia
mudar em relação ao imperialismo; como vimos, o senso comum
entre a sociedade metropolitana era de que aqueles povos
deveriam ser tutelados permanentemente pelos impérios. Mas logo
após a 2º Guerra Mundial o mundo começou a se descolonizar. A
relação entre colonizador e colonizado foi alvo de forças
globais antes incipientes e agora poderosas: igrejas, as Nações
Unidas, o marxismo, a União Soviética e os Estados Unidos. Num
mundo polarizado entre países capitalistas e comunistas, havia
agora dois lados no mundo imperialista: entre senhores do
império e colonos revoltosos.
Edward Said divide o que chama de “cultura da resistência” em
dois períodos. Primeiro, a resistência primária, literalmente a
luta contra a opressão colonial; depois a resistência
secundária, ou melhor, ideológica, quando se procura descobrir e
repatriar tudo aquilo que fora suprimido. Nos escritores
pós-imperiais do Terceiro Mundo, o nativo outrora silencioso
fala e age em território tomado do colonizador. Eles têm, enfim,
a noção de serem prisioneiros em sua própria terra. Nesse ponto,
são sintomáticas as versões de O coração nas trevas, em The
river between, de Ngugi wa Thiongo, no qual o homem branco perde
importância para a natureza e o rio caudaloso; ou A tempestade,
de Shakespeare, visto pelo caribenho Aimé Césaire em Une tempête
como uma tentativa de reexplorar o mito do excluído, presente na
figura de Caliban: “O principal é ser capaz de ver que o Caliban
de Césaire tem uma história possível de desenvolvimento,
crescimento e maturidade a que apenas os europeus pareciam ter
direito.”
Três grandes temas da cultura de resistência ao colonialismo são
analisados por Said. O primeiro é o direito de ver a história da
comunidade como um todo coerente e integral. Devolver a nação
aprisionada a si mesma. Em segundo lugar está a idéia de que a
resistência, longe de ser uma simples reação ao imperialismo, é
um modo alternativo de conceber a história humana. E em
terceiro, há um visível afastamento do nacionalismo separatista
em direção a uma visão mais integrada da comunidade e da
libertação humana.
Said parte para a obra do poeta irlandês William Butler Yeats,
artista de um país europeu renegado como “bárbaro” pelos
próprios europeus. Importante aqui é nos voltarmos para o
contexto da obra de Yeats – nessa época a Europa atravessava um
eurocentrismo incontido e implacável, segundo Said, que
contaminava até escritores e artistas avançados, mulheres, o
operariado, com um fervor imperialista que aumentava de
intensidade à medida que a concorrência entre as várias
potências européias e americanas aumentava em brutalidade e
controle insensato –, para discutir aspectos contraditórios de
sua poesia. Ao lado de alguns autores africanos e caribenhos,
Yeats exprimia a dificuldade de partilhar uma língua com o
senhor imperial; e, no entanto, sob muitos aspectos, ele fazia
parte da Ascendência Protestante, com uma lealdade no mínimo
ambígua com a Irlanda.
Chegamos então ao ponto em que Said define como “viagem para
dentro”, ou seja, o esforço consciente para ingressar no
discurso da Europa e do Ocidente, para se misturar a ele,
tranformá-lo, fazer com que reconheça histórias marginalizadas,
suprimidas ou esquecidas. Se até trinta ou quarenta anos atrás
não havia estudos sobre a literatura africana em universidades
européias e americanas, hoje há toda uma gama de críticos e
pesquisadores que estudam obras da África. Para Said, é
importante distingüir os anticolonialistas – que adotam a
posição humanitária contrária à exploração colonial, mas sem
questionar a superioridade da raça branca (como os filósofos do
Iluminismo) e os antiimperialistas, preocupados com a opressão
de fato. O mesmo eurocentrismo que era cultuado com fervor na
Europa influenciava os povos colonizados (não custa repetir, na
escola eles aprendiam que o europeu era superior), que
procuravam se modernizar imitando o estilo europeu moderno,
relacionado com o “progresso”.
A estrada para a independência seria um caminho árduo, mas a era
da resistência antiimperialista acabaria por confirmar –
descarte as guerras culturais, nacionalismos e batalhas
ideológicas – o fim da pretensão européia de guiar e instruir o
não-europeu.
O
imperialismo não acabou
Seria ingenuidade supor que a
dominação dos países mais ricos sobre os mais pobres acabou. Se
antes o imperialismo se impunha pela força, hoje seu poderio se
reflete nas relações econômicas, culturais e políticas entre os
chamados Primeiro e Terceiro Mundos. Nesse último capítulo, Said
nos mostra como toda a herança de vínculos que liga países como
Índia e Inglaterra ou Argélia e França ainda acontece. Um novo e
imenso contingente de africanos, muçulmanos e centro-americanos
de antigos território coloniais agora vive em metrópoles
européias. O colapso da União Soviética, o fim da Guerra Fria e
a ascensão dos Estados Unidos como última superpotência
redefiniram o mapa mundial.
Said demonstra como os Estados Unidos passaram a ocupar o lugar
das antigas potências coloniais logo após a Segunda Grande
Guerra; porém não como uma “potência imperial”, mas difundindo
pelos quatro cantos do mundo a idéia de “responsabilidade
mundial” perante as outras nações. Ele cita o escritor Richard
Barnet, autor de um livro em que revela ter ocorrido, todos os
anos entre 1945 e 1967, uma intervenção militar por parte dos
EUA em algum lugar do Terceiro Mundo. Nas palavras de vários
críticos do imperialismo, os Estados Unidos continuam a ser um
país que tenta ditar suas regras de lei e paz para todo o mundo.
Um dos principais aliados dos Estados Unidos nesta nova
dominação foram os meios de comunicação, que se especializaram
na tática, segundo Noam Chomski, de “fabricar o consenso”, ou
seja, fazer com que o americano médio acredite que cabe a “nós”
(os EUA) reparar os males do mundo, deixando de lado as
contradições e incoerências. Ou, como afirmou mais um crítico,
“os Estados Unidos adoravam achar que tudo o que eles queriam
era exatamente o que queria a espécie humana”. Não deixa de ser
instigante comparar essa frase com outra, das mais recorrentes
entre Bush e Tony Blair para justificar a invasão do Iraque
pelas tropas anglo-americanas em 2003: “Eles invejam a nossa
democracia”. Será que a democracia ocidental, com todas as suas
contradições, é realmente invejada pela cultura árabe ou
muçulmana?
Um exemplo de como a mídia pode virar um cavalo de batalha nas
mãos dos senhores da guerra está na recente polêmica sobre o
último livro de John Le Carré, Absolute Friends
[3]. O autor
inglês, consagrado por leitores na Europa e Estados Unidos por
suas tramas de espionagem sobre a Guerra Fria, como O espião que
saiu do frio, transferiu sua nova trama para o cenário de um
mundo com uma única superpotência, em que denuncia os excessos
que, a seu ver, os Estados Unidos estariam cometendo em sua
cruzada antiterrorista. Isso incomodou a imprensa inglesa – que
em grande parte apoiou a invasão do Iraque –, fazendo com que
seu livro fosse recebido sob severas críticas. O Times e o Daily
Tellegraph rejeitaram o livro; enquanto apenas o Independent,
único jornal inglês ao se posicionar claramente contra a guerra,
elogiou. Era sintomático que uma mídia capitaneada por novos
barões da comunicação em escala mundial, como Rupert Murdoch,
visse com maus olhos um autor famoso entre seus compatriotas que
ousara escrever um romance contrário à doutrina Bush.
Os meios de comunicação são fundamentais para a cultura
doméstica, diz Said.
Enquanto a cultura européia, um século atrás, estava associada à
presença de um homem branco diretamente dominante – e portanto,
capaz de causar uma certa resistência – agora temos de acréscimo
uma presença internacional dos meios de comunicação, a qual se
insinua, muitas vezes em nível subliminar, num campo
fantasticamente amplo.
Aqui, a expressão “imperialismo cultural” ganha pertinência
quando vista numa perspetiva global.
Said demonstra, tomando como exemplo um livro de Herbert
Schiller, Culture, Inc (Cultura S.A.), que todos os
departamentos da cultura, não só os noticiários, foram invadidos
ou cercados por um pequeno círculo de empresas privadas. O
sistema da mídia internacional, representado pelos grandes
conglomerados internacionais, tem feito, na realidade, aquilo
que pretendiam fazer as nações idealistas ou ideológicas de
coletividade, de comunidades imaginárias. Esse sistema mundial
possui uma tendência institucionalizada de gerar imagens
transnacionais desproporcionais que agora estão reorientando o
discurso e o processo social internacional.
Nesse sentido, importante é a reflexão sobre dois termos
propagados à exaustão pela mídia desde a década de 1980,
“terrorismo” e “fundamentalismo”, ou seja, imagens que carecem
de definição ou conteúdo preciso, mas significam, segundo Said,
“aprovação e poder moral para quem as utiliza, incriminação e
acuamento moral para quem for assim designado”. O imaginário
transnacional divulgado pela mídia (principalmente a americana)
veicula a imagem do não-ocidental, seja ele árabe, africano,
asiático ou latino-americano como alguém não-confiável, sem
preparo intelectual, preguiçoso, misterioso, sensual, enfim, o
retrato do exotismo (ou algo de que o homem branco evita
enxergar em si mesmo). Em recente entrevista
[4], a editora da
revista “Cadernos do Terceiro Mundo”, Beatriz Bissio deu um
depoimento sobre a tendência preconceituosa da mídia em
classificar conflitos entre povos africanos como “lutas entre
tribos”, e que corrobora as teses de Edward Said:
A mídia em geral trabalha, lamentavelmente, com simplificações.
Uma simplificação que é feita no sentido de descontextualizar. O
fato é apresentado como começado e terminado em si mesmo. Seria
o caso de perguntar se é correto falar em ‘tribo’ ? O que
significa isso? Ou são culturas... porque ‘tribo’ para nós já
tem uma conotação pejorativa. No momento em que você
descontextualiza o problema, você tira a capacidade do leitor ou
do telespectador em entender a saída. E aí você passa a achar
que são culturas sem valores, primitivas, que a única coisa que
sabem é ficar em guerra umas com as outras (...).
Hoje em dia, o mapa intercontinental de nosso planeta se
encontra profundamente multifacetado, em grande parte como
consequência do imperialismo. Grandes intelectuais como Sartre,
Raymond Williams e Foucault não estão mais entre nós. Conceitos
como o pós-modernismo – que diagnosticava o fim das grandes
narrativas e a ascenção dos tecnocratas – tomaram a dianteira
nas discusões acadêmicas, ao passo que o os estudos sobre as
culturas híbridas ganham proeminência vindas de teóricos
originários do Terceiro Mundo, como o jamaicano Stuart Hall e o
mexicano Nestor García Canclini. As metrópoles (mais na Europa,
é certo) a cada dia abrem mais espaço à visão do Outro, e isto é
de extrema importância para que tenhamos um mundo menos
conflituoso. Segundo Edward Said, hoje ninguém é uma coisa só.
Rótulos como indiano, mulher, muçulmano ou americano não passam
de pontos de partida que, seguindo-se uma experiência concreta,
mesmo que breve, logo ficam para trás. O imperialismo consolidou
a mescla de cultura e identidades em escala global; mas seu pior
e mais paradoxal legado foi permitir que as pessoas acreditassem
que eram apenas, sobretudo, exclusivamente brancas, pretas,
ocidentais ou orientais.
Cultura e imperialismo se encerra com um aviso que deveria ser
lido pelos dirigentes das várias nações em guerra pelo globo, um
apelo que visa combater a noção de cultura una e monolítica.
Afora o medo e o preconceito, não se deve continuar a insistir
na separação e distinção entre as culturas (aqui entendida como
toda a longa tradição dos povos, seus idiomas e culturas
diferentes), como se toda a existência humana se reduzisse a
isso. A sobrevivência, de fato, está na percepção de que as
culturas são inevitavelmente interligadas. Ou, como dizia um
poeta, “riquezas são diferenças”.
Notas
[1] A Dialética
da Soberania
Colonial, em Império, de Antonio Negri e Michael Hardt
[2] Nietzsche em 90 minutos, de Paul Strathern
[3] Mais um inimigo para a Doutrina Bush, em O Globo, 23 de
dezembro de 2003
[4] Jornal Fazendo Media,
1º quinzena de agosto de 2003
Autor: Rogério Martins é aluno do Mestrado em
Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, com defesa prevista para
dezembro/2004.
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