Resenha

Cultura e Imperialismo
Rogério Martins de Souza

“É a arte e a ciência. Retire-as ou desgaste-as
e não existirá mais império. O império segue
a arte e não vice-versa, como supõem os ingleses.”
(William Blake)

Sem dúvida um dos principais romances realistas modernos é Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Temos ali a história de um homem europeu, náufrago numa ilha distante, povoada por nativos indolentes e selvagens, que cria para si mesmo um feudo naquela terra desconhecida e primitiva, para enfim voltar, alguns anos depois, à civilização. Vejamos: até que ponto um romance como esse não influenciou corações e mentes na Europa, que se considerava a si própria a região mais desenvolvida no mundo, o ápice da espécie humana? Indo um pouco mais além: como os estereótipos expostos acima (“nativo indolente”, “selvagem”, “primitivo”, “civilização”) não eram reconhecidos como o senso comum entre a sociedade européia nos séculos XVIII e XIX?

Esses estereótipos, ao lado de figuras de retórica como “oriente misterioso” e “espírito africano”, entre outras, estiveram presentes nas grandes narrativas de romances ingleses e franceses, que ajudaram a consolidar idéias defendidas pela política imperialista de países como a Inglaterra e França. Em seu livro “Cultura e imperialismo”, Edward Said nos mostra como os pressupostos imperialistas influenciaram a cultura e os grandes romances de sua época, fazendo com que a soberania européia se estendesse não só às armas, mas também à maneira de pensar e à própria imaginação dos dominadores e dominados. O legado imperial de anos de colonialismo ainda hoje continua a afetar – em todas as práticas sociais, políticas e ideológicas – as relações entre o Ocidente e o mundo por ele colonizado.

Em 1978, o palestino Edward Said ganhou fama internacional ao escrever o clássico “Orientalismo”, no qual rompia com os estudos pós-coloniais inspirados no marxismo para abraçar as teses de Foucault. Até então ninguém ousara interpretar a história como uma luta pela linguagem, e sim como uma luta de classes, como Marx e seus seguidores queriam. O sucesso desse livro pode ser revelado no subtítulo presente em sua edição brasileira: “O Oriente como invenção do Ocidente”. Said insistia que o discurso constitutivo da civilização ocidental enquanto tal havia definido o Oriente como o Outro civilizacional perigoso e inferiorizado, de tal modo que essa dialética negativa ajudara em grande parte na constituição da civilização européia. Assim, o negro africano, o indiano e mesmo o branco irlandês eram vistos não apenas como diferentes, mas como a completa negação do branco europeu. Eram o seu reverso. Para um senhor de escravos, corrompido por esse imaginário colonial, os nativos não poderiam compreender sentimentos como bondade e compaixão, que lhes provocavam ódio; enquanto açoites, insultos e outros abusos lhes provocavam gratidão, afeição e apego inviolável. Antonio Negri faz coro com a explicação de Said ao informar: o mal, a barbárie e a licenciosidade do Outro colonizado tornam possíveis a bondade, a civilidade e o decoro europeu [1]. Ou, nas palavras de Sartre: “Não há nada mais coerente que um humanismo racista; o europeu só se tornou homem após gerar escravos e monstros”.

Em “Cultura e imperialismo”, o autor amplia a argumentação contida em “Orientalismo”, descrevendo as relações do Ocidente metropolitano com suas colônias e tentando entender, até que ponto, grandes romances como “O coração das trevas”, de Joseph Conrad, “Kim”, de Rudyard Kipling ou “Passagem para a Índia”, de E.M. Foster, consciente ou inconscientemente, ajudaram a disseminar os pressupostos colonialistas. Ao relacionar o prazer estético de grandes obras como parte intrínseca do processo imperial, Said procura dizer que este novo aspecto a ser estudado, relacionando cultura e política, longe de reduzir, na verdade aprofunda nossa compreensão dessas obras. É necessário, segundo o autor, enxergar a história e a cultura de maneira não monolítica, descompartimentalizada, sem separações ou distinções reducionistas.

Uma das realizações do imperialismo foi a de aproximar o mundo. Na introdução de seu livro, Said nos diz: “Todas as culturas estão mutuamente imbricadas; nenhuma é pura e única, todas são híbridas e heterogêneas, extremamente diferenciadas, sem qualquer monolitismo”. Para o autor, isso vale tanto para os Estados Unidos contemporâneos quanto para o mundo árabe moderno, em que restrições ao “não-americanismo” e ameaças ao arabismo são ainda comuns. Numa segunda parte do livro, o autor vai em busca de autores nas colônias que ousaram contestar a política imperial, inclusive aqueles que buscaram nos ideais da Revolução Francesa fontes para as lutas por independência em seus territórios ocupados. Ou como o personagem Caliban, presente em “A tempestade” de Shakespeare, influenciou poetas nas lutas pela libertação no Caribe.

Moldando o passado

No primeiro capítulo de Cultura e imperialismo, “Territórios sobrepostos, histórias entrelaçadas”, Edward Said parte de um famoso ensaio crítico do poeta T.S. Elliot – “nenhum poeta, nenhum artista ou qualquer arte, tem seu pleno significado sozinho” – para discutir a idéia central presente em Elliot: a maneira como formulamos o passado molda nossa compreensão e nossas concepções do presente. Partindo daí, relata como na Guerra do Golfo de 1990-91 o confronto entre o Iraque e os Estados Unidos foi resultado de duas histórias fundamentalmente opostas, cada qual usada pelo establishment oficial do respectivo país em benefício próprio.

Não há dúvidas de que hoje temos muitos estudos críticos, de historiadores e demais teóricos que se debruçaram sobre os efeitos de décadas e mais décadas do imperialismo; porém, se em larga escala foram debatidas questões ligadas à política e economia, deu-se muito pouca atenção ao papel privilegiado, para Said, da cultura na experiência imperial moderna. Se hoje é difícil encontrar um cidadão norte-americano, europeu, latino-americano, africano, indiano etc, que não tenha sido afetado pelos impérios do passado, isso se deve pelo imperialismo ter lançado as bases do que agora é, de fato, um mundo inteiramente global, segundo o autor: “As comunicações eletrônicas, o alcance mundial do comércio, da disponibilidade dos recursos, das viagens, das informações sobre os padrões climáticos e mudanças econômicas unificaram até mesmo os locais mais remotos do mundo. Esse conjunto de padrões foi, a meu ver, possibilitado e inaugurado pelos impérios modernos”.

Grande parte dessa ideologia imperial, presente também em livros didáticos nas escolas do Terceiro Mundo, esteve presente nos romances realistas modernos, que sustentaram de maneira quase imperceptível o consentimento da sociedade com a expansão ultramarina. O que o autor está querendo demonstrar é como a dominação imperial ocorreu além do plano econômico e político, manifestando-se em outro nível de grande importância, o da cultura nacional, que tendemos a apresentar como algo asséptico, um campo de monumentos intelectuais imutáveis.

Não se deve, portanto, separar objetivos imperiais e arte nacional, como muitos acadêmicos ainda o fazem. Para Said,

(...) perder de vista ou ignorar o contexto nacional e internacional das representações, digamos, que Dickens fez dos homens de negócios vitorianos, e enfocar apenas a coerência interna de seus papéis nos romances do autor é perder uma ligação essencial entre sua ficção e o mundo histórico dessa ficção.
Deve-se atentar para a necessidade de contextualização, algo importantíssimo na compreensão da obra de arte. “E compreender essa ligação não significa reduzir ou diminuir o valor dos romances como obra de arte: pelo contrário, devido à sua concretude, devido a suas complexas filiações a seu quadro real, eles são mais preciosos como obras de arte”.

Voltamos aqui ao real objetivo deste capítulo – as histórias entrelaçadas das diferentes culturas. Se, hoje, há uma consciência bem maior do caráter híbrido das culturas – não existe cultura una, longe de serem monolíticas, as culturas mais adotam elementos “estrangeiros”, alteridades e diferenças do que os excluem conscientemente –, países com pretensões imperiais como a França e Inglaterra tentaram “esconder” esse caráter heterogêneo, como nota Said a partir de estudos como Black Athena (Atena negra), de Martins Bernal,e The invention of tradicion (A invenção da tradição), de Eric Hobsbawn. De início sabia-se que a civilização grega tinha raízes na cultura egípcia, semita e várias outras meridionais e orientais, mas no decorrer do século XIX ela foi remodelada como uma cultura “ariana”, na qual foram ocultas ou eliminadas suas raízes semitas e africanas. Como os próprios escritores gregos reconheciam abertamente o passado híbrido de sua cultura, os filólogos europeus contraíram o hábito ideológico de passar por cima dessas passagens embaraçosas, sem as comentar, em prol de uma suposta pureza ática. Não à toa, um filósofo como Nietzsche provocou polêmica ao apontar a fusão, em O nascimento da tragédia, entre o elemento apolíneo da sobriedade clássica e as forças dionisíacas, mais sombrias e instintivas, que seriam responsáveis pela grande arte grega. No século XIX, o mundo clássico era sagrado; seus ideais de justiça, cultura e democracia, ainda que deturpados, favoreciam a imagem que as nações emergentes faziam de si mesmas [2].

Uma dessas contradições discutidas por Said está na brilhante análise que ele faz do romance O coração nas trevas, de Joseph Conrad. Conrad, um expatriado polonês convertido em funcionário do sistema imperial, diferenciava-se de outros escritores coloniais justamente porque tinha consciência do que fazia. Said expõe, em duas visões sobre a obra, a contradição de um escritor consciente dos danos impostos pelo imperialismo, mas incapaz de externar uma alternativa àquele processo. Pelos olhos de Marlow, o personagem principal, ele parece dizer: a independência é coisa de brancos e europeus; os povos subjugados devem ser dominados; a ciência, a erudição, toda a história vêm do ocidente. Segundo Said,

a limitação trágica de Conrad é que, mesmo podendo enxergar com clareza que o imperialismo, em certo nível, consistia essencialmente em pura dominação e ocupação de territórios, ele não conseguia concluir que o imperialismo teria de terminar para que os ‘nativos’ pudessem ter uma vida livre da dominação européia. Como indivíduo de seu tempo, Conrad não podia admitir a liberdade para os nativos, apesar de suas sérias críticas ao imperialismo que os escravizava.

Moldando o passado, voltando aos arquivos culturais, Said observa que é hora de os estudos de literatura comparada relerem o passado não de forma unívoca, mas em contraponto, ou seja, com a consciência simultânea da história metropolitana que está sendo narrada e daquelas outras histórias contra (e junto com) as quais atua o discurso dominante. É hora de dar voz aos estudos das antigas colônias, relacionando, por exemplo, o estudo da história africana com os ensaios da África na Inglaterra.

Visões do império

Em grande parte das obras inglesas e francesas do século XIX e começo do XX há alusões aos fatos imperiais. O imperialismo era uma visão consolidada na cultura desses países. Nas tramas romanescas, os fatos do império estão associados à possessão sistemática, aos espaços vastos e desconhecidos, ao exotismo de seus habitantes, entre outros estereótipos. Filhos mais novos caídos em desgraça são enviados para as colônias, parentes pobres mais velhos vão para lá tentar recuperar fortunas perdidas, jovens em busca de aventura vão à procura de entretenimento e romances. O próprio personagem Robinson Crusoé não existiria sem a missão colonizadora que lhe permite criar um novo mundo “europeu” nos pontos remotos e agrestes da África, Pacífico e Atlântico.

Neste capítulo, Said discute a pouca quantidade de estudos que tentam, como ele, relacionar cultura e política imperial, fazendo até com que bibliógrafos de grandes escritores cometam esses “lapsos” em seus ensaios. Em termos práticos, Said reforça a importância do que ele chama de “leitura em contraponto”, ou seja, ler um texto entendendo que o que está envolvido quando um autor mostra, por exemplo, que uma fazenda colonial de cana-de-açúcar é considerada importante para um determinado estilo de vida na Inglaterra.

O livro estudado por Edward Said aqui é bem representativo de suas pretensões. Publicado em 1814, Mansfield Park, de Jane Mansfield, conta a história de uma família num isolado e campestre casarão inglês (o Mansfield Park do título), que para se sustentar depende dos recursos do imperialismo. A propriedade é uma fazenda de cana com trabalho escravo (que seria abolido só em 1830) e um dos proprietários é um senhor imperial em Antígua, no Caribe. Ao abordar Fanny, a senhora de Mansfield Park, Said encontra a ligação sem a qual não haveria o romance:

Ela vê com clareza que ter e governar Mansfield Park é ter e governar uma propriedade imperial em íntima, para não dizer inevitável, associação com ela. O que assegura a tranqüilidade doméstica e a atraente harmonia de uma é a produtividade e a disciplina regrada da outra.
Não tão forte como na Inglaterra, a influência do imperialismo na França se fez notar de maneira mais esporádica, mas sem deixar de criar marcas delimitadas em sua cultura. Foi Lukács quem primeiro notou a enorme influência da trajetória de Napoleão sobre os heróis romanescos na literatura francesa. Julien Sorel, o herói trágico de O vermelho e o negro, é completamente dominado por suas leituras de Napoleão e suas campanhas imperiais. Porém a principal colônia francesa, a Argélia, é lembrada com certa indiferença pelo protagonista em uma única referência no romance, quando Sorel imagina ser a vida parisiense de sua amada Mathilde mais arriscada do que uma viagem à Argélia.

É certo que não só os romances funcionavam como sustentáculo dos interesses imperialistas. Em especial na França, um segundo veículo de apropriação cultural dos interesses franceses foi o conjunto de novas ciências, possibilitadas originalmente pelas aventuras napoleônicas no Egito. Napoleão, em sua viagem ao Egito, não se furtou em levar consigo inúmeros pesquisadores, comandados por Champollion, os quais escreveriam suas impressões na série Description de l’Egypt, dando subsídios a ciências nascentes como a arqueologia. Professores recrutados no império para lecionar nas colônias eram unânimes em lembrar aos alunos da superioridade racial e cultural das metrópoles. Exposições “universais” européias com modelos de aldeias e vilas coloniais eram expostas à elite ocidental como microcosmos do domínio imperial mais amplo. Num caso extremo, zoológicos humanos corriam partes da Europa e também os Estados Unidos, onde nativos eram enquadrados em celas como animais dos modernos zoológicos, reforçando o exotismo com que aqueles povos deveriam ser vistos, segundo o império.

Voltando ao Egito, o autor se detém na ópera Aída, de Verdi. Parte de seu caráter imensamente popular até hoje está em retratar um Oriente (no caso o Egito) essencialmente exótico, distante e antigo, onde os europeus podem se permitir certas exibições de força. Said reproduz aqui sua experiência como crítico musical, combinando-a com a leitura em contraponto e contextualizando a obra-prima de Verdi, para mostrá-la como um empreendimento não sobre o imperialismo, mas pertencente à dominação imperial. Particularmente interessante é a reconstituição de toda a história da elaboração de Aída, do convite a Verdi na Itália à encenação da ópera no Egito. Em entrevista ao jornalista brasileiro Edney Silvestre, publicada no livro Contestadores, Said disse que Verdi escreveu a ópera como resultado de uma série de forças que só poderiam ter vindo de um império:

Quediva (o governante egípcio) queria uma ópera italiana, escrita em estilo francês, sobre um assunto egípcio, para uma certa ocasião – a abertura da ópera que seria honrada por vários europeus que lá iriam, como a imperatriz da França, para celebrar os laços com o Egito –, um acontecimento cultural totalmente em termos europeus. Vi isso como parte do domínio que o império tinha sobre a imaginação nativa. Era sobre o Egito antigo, não o Egito moderno. Nenhum egípcio estava presente na estréia de Aída (...)
Contribuindo para alimentar o exotismo com que nós, ocidentais, sempre encaramos o Oriente, Said volta-se para a chamada “invenção da tradição”. Por invenção da tradição entende-se a criação de territórios imaginários e orientalizados saídos da pena de escritores como Rudyard Kipling, como a Índia de romances como Kim. A historiografia indiana tradicional, com sua ênfase em crônicas e biografias históricas, era largamente ignorada. Quando começaram a governar a Índia, os ingleses criaram uma nova historiografia do passado indiano – uma maneira incisiva de propagar os interesses imperialistas. Também estudado por Edward Said, o escritor franco-argelino Albert Camus foi outro grande autor que não escapou desse longo discurso colonial criado pelo império. Os estereótipos e o preconceito com que cita os argelinos em sua obra são, infelizmente, deixados de lado por seus críticos, que preferem interpretar sua literatura como, segundo Said, sobre a “condição humana”.

Resistência e oposição

Neste capítulo Edward Said afirma que se deve levar em conta a persistente disparidade de poder entre o Ocidente e o não-Ocidente, se quisermos levar em conta as formas de cultura (como o romance, a poesia e a ópera) em que essa diferença é externada. O autor está preocupado com a intenção, por parte de algumas metrópoles, em dissimular a situação de poder antes evidente nas colônias, e também de estudar até que ponto a experiência da parte mais forte se sobrepõe à do mais fraco e estranhamente depende dela.

Hoje o estudioso pode se debruçar sobre a cultura e o imperialismo dos séculos anteriores com um manancial bem maior de teoria – desconstrução, estruturalismo, marxismo, análise dos discursos, a perspectiva é bastante ampla. E uma das inverdades históricas que pouco a pouco vem sendo derrubada é a crença de que não houve resistência às invasões patrocinadas pelos impérios e a conseqüente colonização. O ponto comum nos estudos sobre povos ou períodos cientes da desigualdade é que o povo sofre. Ou como diz Said: “Os clássicos gregos serviram aos humanistas italianos, franceses e ingleses sem a incômoda interposição dos gregos de carne e osso”. E por mais que os colonizadores queiram negar, sob argumentos de missão civilizacional, ou que a intromissão em assuntos da colônia só traria benefícios aos nativos, Said responde por meio de obras analisadas: sempre houve alguma resistência e oposição aos colonizadores. Um dos vários mitos que caem por terra na análise é o do “nativo indolente”, ou seja, a crença difundida pelos senhores de terra de que os habitantes das colônias só entendiam a linguagem da força. Para Said e historiadores pós-coloniais, a própria “indolência” nativa, ou a recusa dos nativos em trabalhar, não deixava de ser uma tentativa de resistência aos desmandos do açoite.

Mesmo durante as duas grandes guerras mundiais do século XX, eram raros os ingleses e franceses que achavam que algo poderia mudar em relação ao imperialismo; como vimos, o senso comum entre a sociedade metropolitana era de que aqueles povos deveriam ser tutelados permanentemente pelos impérios. Mas logo após a 2º Guerra Mundial o mundo começou a se descolonizar. A relação entre colonizador e colonizado foi alvo de forças globais antes incipientes e agora poderosas: igrejas, as Nações Unidas, o marxismo, a União Soviética e os Estados Unidos. Num mundo polarizado entre países capitalistas e comunistas, havia agora dois lados no mundo imperialista: entre senhores do império e colonos revoltosos.

Edward Said divide o que chama de “cultura da resistência” em dois períodos. Primeiro, a resistência primária, literalmente a luta contra a opressão colonial; depois a resistência secundária, ou melhor, ideológica, quando se procura descobrir e repatriar tudo aquilo que fora suprimido. Nos escritores pós-imperiais do Terceiro Mundo, o nativo outrora silencioso fala e age em território tomado do colonizador. Eles têm, enfim, a noção de serem prisioneiros em sua própria terra. Nesse ponto, são sintomáticas as versões de O coração nas trevas, em The river between, de Ngugi wa Thiongo, no qual o homem branco perde importância para a natureza e o rio caudaloso; ou A tempestade, de Shakespeare, visto pelo caribenho Aimé Césaire em Une tempête como uma tentativa de reexplorar o mito do excluído, presente na figura de Caliban: “O principal é ser capaz de ver que o Caliban de Césaire tem uma história possível de desenvolvimento, crescimento e maturidade a que apenas os europeus pareciam ter direito.”

Três grandes temas da cultura de resistência ao colonialismo são analisados por Said. O primeiro é o direito de ver a história da comunidade como um todo coerente e integral. Devolver a nação aprisionada a si mesma. Em segundo lugar está a idéia de que a resistência, longe de ser uma simples reação ao imperialismo, é um modo alternativo de conceber a história humana. E em terceiro, há um visível afastamento do nacionalismo separatista em direção a uma visão mais integrada da comunidade e da libertação humana.

Said parte para a obra do poeta irlandês William Butler Yeats, artista de um país europeu renegado como “bárbaro” pelos próprios europeus. Importante aqui é nos voltarmos para o contexto da obra de Yeats – nessa época a Europa atravessava um eurocentrismo incontido e implacável, segundo Said, que contaminava até escritores e artistas avançados, mulheres, o operariado, com um fervor imperialista que aumentava de intensidade à medida que a concorrência entre as várias potências européias e americanas aumentava em brutalidade e controle insensato –, para discutir aspectos contraditórios de sua poesia. Ao lado de alguns autores africanos e caribenhos, Yeats exprimia a dificuldade de partilhar uma língua com o senhor imperial; e, no entanto, sob muitos aspectos, ele fazia parte da Ascendência Protestante, com uma lealdade no mínimo ambígua com a Irlanda.

Chegamos então ao ponto em que Said define como “viagem para dentro”, ou seja, o esforço consciente para ingressar no discurso da Europa e do Ocidente, para se misturar a ele, tranformá-lo, fazer com que reconheça histórias marginalizadas, suprimidas ou esquecidas. Se até trinta ou quarenta anos atrás não havia estudos sobre a literatura africana em universidades européias e americanas, hoje há toda uma gama de críticos e pesquisadores que estudam obras da África. Para Said, é importante distingüir os anticolonialistas – que adotam a posição humanitária contrária à exploração colonial, mas sem questionar a superioridade da raça branca (como os filósofos do Iluminismo) e os antiimperialistas, preocupados com a opressão de fato. O mesmo eurocentrismo que era cultuado com fervor na Europa influenciava os povos colonizados (não custa repetir, na escola eles aprendiam que o europeu era superior), que procuravam se modernizar imitando o estilo europeu moderno, relacionado com o “progresso”.

A estrada para a independência seria um caminho árduo, mas a era da resistência antiimperialista acabaria por confirmar – descarte as guerras culturais, nacionalismos e batalhas ideológicas – o fim da pretensão européia de guiar e instruir o não-europeu.

O imperialismo não acabou

Seria ingenuidade supor que a dominação dos países mais ricos sobre os mais pobres acabou. Se antes o imperialismo se impunha pela força, hoje seu poderio se reflete nas relações econômicas, culturais e políticas entre os chamados Primeiro e Terceiro Mundos. Nesse último capítulo, Said nos mostra como toda a herança de vínculos que liga países como Índia e Inglaterra ou Argélia e França ainda acontece. Um novo e imenso contingente de africanos, muçulmanos e centro-americanos de antigos território coloniais agora vive em metrópoles européias. O colapso da União Soviética, o fim da Guerra Fria e a ascensão dos Estados Unidos como última superpotência redefiniram o mapa mundial.

Said demonstra como os Estados Unidos passaram a ocupar o lugar das antigas potências coloniais logo após a Segunda Grande Guerra; porém não como uma “potência imperial”, mas difundindo pelos quatro cantos do mundo a idéia de “responsabilidade mundial” perante as outras nações. Ele cita o escritor Richard Barnet, autor de um livro em que revela ter ocorrido, todos os anos entre 1945 e 1967, uma intervenção militar por parte dos EUA em algum lugar do Terceiro Mundo. Nas palavras de vários críticos do imperialismo, os Estados Unidos continuam a ser um país que tenta ditar suas regras de lei e paz para todo o mundo.

Um dos principais aliados dos Estados Unidos nesta nova dominação foram os meios de comunicação, que se especializaram na tática, segundo Noam Chomski, de “fabricar o consenso”, ou seja, fazer com que o americano médio acredite que cabe a “nós” (os EUA) reparar os males do mundo, deixando de lado as contradições e incoerências. Ou, como afirmou mais um crítico, “os Estados Unidos adoravam achar que tudo o que eles queriam era exatamente o que queria a espécie humana”. Não deixa de ser instigante comparar essa frase com outra, das mais recorrentes entre Bush e Tony Blair para justificar a invasão do Iraque pelas tropas anglo-americanas em 2003: “Eles invejam a nossa democracia”. Será que a democracia ocidental, com todas as suas contradições, é realmente invejada pela cultura árabe ou muçulmana?

Um exemplo de como a mídia pode virar um cavalo de batalha nas mãos dos senhores da guerra está na recente polêmica sobre o último livro de John Le Carré, Absolute Friends [3]. O autor inglês, consagrado por leitores na Europa e Estados Unidos por suas tramas de espionagem sobre a Guerra Fria, como O espião que saiu do frio, transferiu sua nova trama para o cenário de um mundo com uma única superpotência, em que denuncia os excessos que, a seu ver, os Estados Unidos estariam cometendo em sua cruzada antiterrorista. Isso incomodou a imprensa inglesa – que em grande parte apoiou a invasão do Iraque –, fazendo com que seu livro fosse recebido sob severas críticas. O Times e o Daily Tellegraph rejeitaram o livro; enquanto apenas o Independent, único jornal inglês ao se posicionar claramente contra a guerra, elogiou. Era sintomático que uma mídia capitaneada por novos barões da comunicação em escala mundial, como Rupert Murdoch, visse com maus olhos um autor famoso entre seus compatriotas que ousara escrever um romance contrário à doutrina Bush.
Os meios de comunicação são fundamentais para a cultura doméstica, diz Said.

Enquanto a cultura européia, um século atrás, estava associada à presença de um homem branco diretamente dominante – e portanto, capaz de causar uma certa resistência – agora temos de acréscimo uma presença internacional dos meios de comunicação, a qual se insinua, muitas vezes em nível subliminar, num campo fantasticamente amplo.
Aqui, a expressão “imperialismo cultural” ganha pertinência quando vista numa perspetiva global.

Said demonstra, tomando como exemplo um livro de Herbert Schiller, Culture, Inc (Cultura S.A.), que todos os departamentos da cultura, não só os noticiários, foram invadidos ou cercados por um pequeno círculo de empresas privadas. O sistema da mídia internacional, representado pelos grandes conglomerados internacionais, tem feito, na realidade, aquilo que pretendiam fazer as nações idealistas ou ideológicas de coletividade, de comunidades imaginárias. Esse sistema mundial possui uma tendência institucionalizada de gerar imagens transnacionais desproporcionais que agora estão reorientando o discurso e o processo social internacional.

Nesse sentido, importante é a reflexão sobre dois termos propagados à exaustão pela mídia desde a década de 1980, “terrorismo” e “fundamentalismo”, ou seja, imagens que carecem de definição ou conteúdo preciso, mas significam, segundo Said, “aprovação e poder moral para quem as utiliza, incriminação e acuamento moral para quem for assim designado”. O imaginário transnacional divulgado pela mídia (principalmente a americana) veicula a imagem do não-ocidental, seja ele árabe, africano, asiático ou latino-americano como alguém não-confiável, sem preparo intelectual, preguiçoso, misterioso, sensual, enfim, o retrato do exotismo (ou algo de que o homem branco evita enxergar em si mesmo). Em recente entrevista [4], a editora da revista “Cadernos do Terceiro Mundo”, Beatriz Bissio deu um depoimento sobre a tendência preconceituosa da mídia em classificar conflitos entre povos africanos como “lutas entre tribos”, e que corrobora as teses de Edward Said:

A mídia em geral trabalha, lamentavelmente, com simplificações. Uma simplificação que é feita no sentido de descontextualizar. O fato é apresentado como começado e terminado em si mesmo. Seria o caso de perguntar se é correto falar em ‘tribo’ ? O que significa isso? Ou são culturas... porque ‘tribo’ para nós já tem uma conotação pejorativa. No momento em que você descontextualiza o problema, você tira a capacidade do leitor ou do telespectador em entender a saída. E aí você passa a achar que são culturas sem valores, primitivas, que a única coisa que sabem é ficar em guerra umas com as outras (...).
Hoje em dia, o mapa intercontinental de nosso planeta se encontra profundamente multifacetado, em grande parte como consequência do imperialismo. Grandes intelectuais como Sartre, Raymond Williams e Foucault não estão mais entre nós. Conceitos como o pós-modernismo – que diagnosticava o fim das grandes narrativas e a ascenção dos tecnocratas – tomaram a dianteira nas discusões acadêmicas, ao passo que o os estudos sobre as culturas híbridas ganham proeminência vindas de teóricos originários do Terceiro Mundo, como o jamaicano Stuart Hall e o mexicano Nestor García Canclini. As metrópoles (mais na Europa, é certo) a cada dia abrem mais espaço à visão do Outro, e isto é de extrema importância para que tenhamos um mundo menos conflituoso. Segundo Edward Said, hoje ninguém é uma coisa só.

Rótulos como indiano, mulher, muçulmano ou americano não passam de pontos de partida que, seguindo-se uma experiência concreta, mesmo que breve, logo ficam para trás. O imperialismo consolidou a mescla de cultura e identidades em escala global; mas seu pior e mais paradoxal legado foi permitir que as pessoas acreditassem que eram apenas, sobretudo, exclusivamente brancas, pretas, ocidentais ou orientais.
Cultura e imperialismo se encerra com um aviso que deveria ser lido pelos dirigentes das várias nações em guerra pelo globo, um apelo que visa combater a noção de cultura una e monolítica. Afora o medo e o preconceito, não se deve continuar a insistir na separação e distinção entre as culturas (aqui entendida como toda a longa tradição dos povos, seus idiomas e culturas diferentes), como se toda a existência humana se reduzisse a isso. A sobrevivência, de fato, está na percepção de que as culturas são inevitavelmente interligadas. Ou, como dizia um poeta, “riquezas são diferenças”.

Notas

[1] A Dialética da Soberania Colonial, em Império, de Antonio Negri e Michael Hardt

[2] Nietzsche em 90 minutos, de Paul Strathern

[3] Mais um inimigo para a Doutrina Bush, em O Globo, 23 de dezembro de 2003

[4] Jornal Fazendo Media, 1º quinzena de agosto de 2003

Autor: Rogério Martins é aluno do Mestrado em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com defesa prevista para dezembro/2004.

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