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Leituras no
Império |
Análise |
Declínio e Queda
do Império
João Paulo Malerba
"O povo já
não existe, ou ainda não... o povo está ausente"
Deleuze
4.1 - Virtualidades
No Império nenhuma
subjetividade está do lado de fora, e todos os lugares foram
agrupados num "não-lugar" geral. Assim, porque todos existimos
no domínio social e político, a ontologia se torna hoje um
imperativo na filosofia política (em detrimento de uma
perspectiva transcendental).
Fora de medida (o
incomensurável)
No Império todos estamos embebidos no campo político. O ser é
articulado na sua extensão global através de um domínio
imperial que torna o político efetivamente ontológico.
"O político precisa também
ser entendido como ontológico devido ao fato de que todas as
determinações transcendentais de valor e medida que costumavam
ordenar as disposições do poder (ou melhor, determinar seus
preços, subdivisões e hierarquias) perderam a coerência. (...)
O Império dita suas leis e mantém a paz segundo um modelo de
direito pós-moderno e de lei pós-moderna, mediante
procedimentos móveis, fluidos e localizados. O Império
constitui o tecido ontológico no qual todas as relações de
poder são costuradas - relações políticas e econômicas, assim
como relações sociais e pessoais. É nesse híbrido domínio da
estrutura biopolítica do se que a estrutura interna da
constituição imperial é revelada, porque na globalidade do
biopoder toda medida fixa de valor tende a ser dissolvida, e o
horizonte imperial de poder é revelado finalmente como um
horizonte fora de medida."
Os desenvolvimentos do ser
imperial estão fora de qualquer medida pré-constituída. As
relações entre os modos de ser e os segmentos de poder são
sempre construídos de novo e variam infinitamente. Sem dúvidas
que existem altos poderes para evitar que a contingência (que
é necessária) se torne subversiva, mas esses ápices de comando
não são figuras de ordem, mas ao contrário garantem a eficácia
através da destruição (pela bomba), no julgamento (pelo
dinheiro) e no medo (pela comunicação).
Dizer que o valor está fora de medida não significa negar sua
existência. É, ao contrário, afirmar que o valor e a justiça
podem viver num mundo incomensurável e serem alimentados por
ele; serão determinados pela humanidade na sua recriação
contínua.
Além da medida (o virtual)
No Império, a construção do valor tem lugar além da medida. Se
"fora de medida" se refere a impossibilidade de o poder
calcular e ordenar em nível global, "além da medida" se refere
a vitalidade da produção, à expressão de trabalho como desejo,
e a capacidade de constituir o tecido biopolítico de baixo
para cima. Além da medida se refere a virtualidade que permeia
o Império.
"Por virtual entendemos o
conjunto de poderes para agir (ser, amar, transformar, criar)
que reside na multidão. Já vimos como o conjunto virtual de
poderes da multidão é construído por lutas e consolidado em
desejo. Agora precisamos investigar como o virtual pode
exercer pressão nas bordas do possível, e assim tocar no real.
A passagem do virtual através do possível para o real é ato
fundamental de criação. Trabalho ativo é o que constrói a
passagem do virtual para o real; é o veículo da possibilidade.
O trabalho (...) aparece como atividade social geral. O
trabalho é excesso produtivo com relação à ordem existente e
às regras de sua reprodução. Esse excesso produtivo é ao mesmo
tempo resultado da força coletiva da emancipação e substância
da nova virtualidade social das capacidades de produção e
libertação do trabalho."
O trabalho hoje é produto dos
poderes do conhecimento, do afeto, da ciência e da linguagem;
é atividade produtiva de um intelecto geral e de um corpo
geral fora de medida; é singular por ser domínio do corpo e
cérebro da multidão e universal na medida em que o desejo
expresso na virtualidade é uma coisa de todos. Esse poder de
agir constituído por trabalho, inteligência, paixão e afeto
formam um poder constituinte. O comum se singulariza e cada
trabalho singularizado continuamente cria novas construções
comuns.
Esse aparato ontológico além da medida é um poder expansivo,
um poder de liberdade, construção ontológica e disseminação
onilateral. Isso demonstra o caráter positivo do não-lugar e a
irreprimibilidade da ação comum além da medida. A
expansividade onilateral do poder de agir demonstra a
capacidade de destruir os valores que descem do reino
transcendental da medida, mas também de criar novos valores. A
transformação da virtualidade em realidade reside nesse reino
além da medida.
Parasita
No tocante à virtualidade da multidão, o governo imperial
aparece como a carcaça vazia de um parasita. Não que as ações
imperiais sejam ineficazes, mas agem a fim de manter a lacuna
entre virtualidade e possibilidade. Os investimentos imperiais
são negativos. Sua eficácia é reguladora e não constituinte,
mesmo quando tem efeitos duradouros. Os poderes de bomba, do
dinheiro e do éter comunicativo que estão na mão do governo
imperial, são destrutivos ou seja, são poderes de negação. A
resistência da multidão é anterior ao poder. As intervenções
imperiais acontecem no ritmo dos atos de resistência e acabam
por impulsionar mais resistência. O Império não é uma
realidade positiva.
"O comando imperial nada
produz que seja vital ou ontológico. Da perspectiva
ontológica, o comando imperial é puramente negativo e passivo.
Certamente o poder está em toda parte, mas está em toda parte
porque em toda parte está em jogo o nexo entre virtualidade e
possibilidade, um nexo que é província exclusiva da multidão.
O poder imperial é o resíduo negativo, o recuo da operação da
multidão; é um parasita que tira sua vitalidade da capacidade
que tem a malta de criar sempre novas fontes de energia e de
valor. Um parasita que mina a força do seu hospedeiro,
entretanto, pode pôr em risco sua própria existência. O
funcionamento do poder imperial está inelutavelmente ligado ao
seu declínio."
Nomadismo e miscigenação
No exercício da virtualidade, a circulação precisa tornar-se
liberdade. A multidão móvel precisa conquistar cidadania
global. É positiva a luta da multidão contra a sujeição do
pertencimento a uma nação, a um povo, uma identidade que
limitam a subjetividade. Assim, nomadismo e miscigenação
aparecem como virtudes. A comunidade humana é constituída pela
circulação e é ela a primeira ação ética contra-imperial.
Intelecto geral e biopoder
A incorporação da ciência, da comunicação e da linguagem
nas forças produtivas remodelou a produção. O intelecto geral
é uma inteligência coletiva, social, criada por conhecimentos,
técnicas e know-how acumulados. Não podemos cair no perigo de
pensarmos que o intelecto geral está apenas no plano do
pensamento.
"O biopoder dá nomes a essas
capacidades produtivas da vida que são tanto intelectuais como
corpóreas. Os poderes de produção são hoje, na realidade,
inteiramente biopolíticos; em outras palavras, eles perpassam
e constituem diretamente não apenas a produção mas também todo
o domínio da reprodução. O biopoder torna-se um agente da
produção quando todo o contexto de reprodução é submetido ao
mando capitalista, ou seja, quando a reprodução e as relações
vitais que a constituem se tornam, elas próprias, diretamente
produtivas. O biopoder é outro nome da real submissão da
sociedade ao capital, e ambos são sinônimos da ordem produtiva
globalizada. A produção preenche as superfícies do Império; é
uma máquina cheia de vida, e vida inteligente, que por se
expressar na produção e reprodução, assim como na circulação
(de trabalho, afetos e linguagem), marca a sociedade com um
novo significado coletivo e reconhece virtude e civilização na
cooperação."
Inteligência e afeto fazem a
produção e a vida coincidirem no terreno em que operam. O
trabalho se vale mais e mais da reprodução social e da
produção e reprodução de corpos e cérebros.
A vida é que infunde e domina a produção. É dessa forma que o
valor está além da medida. O excesso de valor é determinado
nos afetos, no intelecto geral e no puro poder de agir. É pela
produção estar perpassada pelo afeto que a medida da
virtualidade da multidão escapa das mãos do Império.
A cooperação social e subjetiva não são mais resultado
investimento de capital, mas um poder autônomo, uma riqueza da
virtualidade. E esse poder humano como força coletiva de
cooperação marca a fim da pré-história do capitalismo.
As forças coletivas, científicas e lingüísticas da multidão
transformam as condições de produção social. No campo da
produção de subjetividade cooperativa acontece uma fundição e
hibridização do sujeito e máquina (já que esta é reconhecido
como cooperadora). Os operários passaram a "transferir seus
ataques dos instrumentos materiais de produção para a forma de
sociedade que utiliza esses instrumentos". A luta pela
definição da virtualidade maquinal é central no Império.
Chegamos num momento em que a cooperação subjetiva pode e deve
controlar ética, política e produtivamente os processos de
metamorfose maquinal.
Res Gestae/Machinae
O domínio capitalista é revelado como um período transitório.
Os poderes virtuais da multidão na pós-modernidade são sinais
do fim da autoridade capitalista e sua instituições de
soberania. Mas de que forma a virtualidade da multidão passa
pela perspectiva e se torna realidade? A resposta não vem de
uma tradição metafísica desgastada.
"Se houver solução para o
problema, só pode ser material e explosiva. Enquanto nossa
atenção foi primeiro atraída para a intensidade dos elementos
de virtualidade que constituem a multidão, agora ela deve
concentrar-se na hipótese de que essas virtualidades acumulam
e alcançam um limiar de realização adequado ao seu poder. É
nesse sentido que falamos em intelecto geral e em suas
articulações de conhecimento, afeto e cooperação; e
similarmente é neste sentido que falamos das diversas formas
do êxodo coletivo dos movimentos nomádicos da multidão que se
apossam de espaços e os renovam."
Lidamos então com duas
transições. Uma consiste no fato de que a virtualidade
totaliza os campos das res gestae. Outra se refere ao fato de
que quando as virtualidades singulares ganham autonomia se
tornam autovalorizantes. Ou seja, não apenas se recusam ser
dominadas pelos velhos sistemas de valor e exploração, mas de
fato criam suas próprias possibilidades irredutíveis. As
virtualidades singulares são o ponto de articulação entre o
possível e o real: estão fora da medida como uma arma
destrutiva (desconstrutiva na teoria e subversiva na prática)
e além da medida como poder constituinte.
4.2 - Geração e Corrupção
Ascensão e Queda
(Maquiavel)
Desde as análises da
antiguidade clássica, a noção de Império já pressupunha crise.
De Túcides a Tácito vigorou uma análise cíclica de troca de
boas pelas más formas de governo. Políbio rompe tratando do
Império Romano como a síntese das boas formas de governo,
porém continua a necessidade de superar as iminentes e
inerentes crises e declínio. Já autores iluministas como
Gibbon e Montesquieu vêm explicar como uma pressuposição
natural, determinada pelo destino cíclico da história, mas
como conseqüência à incapacidade humana de governar um espaço
e tempo ilimitados. A falta de limites do Império seria a
causa de seu declínio. Maquiavel vem nos apresentar a melhor
ilustração de Império por beber da iminência da política pura.
Para o autor o governo expansivo é impelido para frente pela
dialética das forças sociais e políticas. O Império só é
possível quando liberdade e expansão estão vinculadas e isso
acontece se, e somente se, as classes sociais são postas num
jogo aberto e contínuo de contrapoder. Para ilustrar,
Maquiavel denuncia que a destruição do Império Romano se deu
pela religião cristã anulando a participação conflituosa (e
leal) dos cidadãos.
"A alternativa é, portanto,
não entre governo e corrupção, ou entre Império e declínio,
mas entre governo socialmente enraizado e expansivo de um lado
- ou seja, governo "cívico" e "democrático" - e, de outro
lado, todas as práticas de governo que fundamentam seu poder
na transcendência e na repressão."
"Se o Império é sempre uma positividade absoluta, a realização
de um governo da multidão, e um aparato absolutamente
imanente, então ele está exposto à crises justamente no
terreno de sua definição, e não por qualquer outra necessidade
ou transcendência que se lhe oponham. (...) Hoje os mesmos
movimentos e tendências constituem tanto a ascensão como o
declínio do Império."
Finis Europae
(Wittgenstein)
Os sinais de declínio
imperial se deram nos discursos dos últimos dois séculos sobre
o fim da hegemonia européia ou sobre a crise da democracia e
triunfo da sociedade das massas. Tocqueville situa a crise
européia na impossibilidade de sua mobilidade aristocrática
organizadas nas instituições de soberania moderna acompanhar
os passos dos poderes vitais da democracia de massas. As duas
guerras mundiais, o triunfo do fascismo e o atual
ressurgimento dos mais terríveis espectros do nacionalismo e
intolerância comprovam que "a Europa está doente" (Nietzsche),
não dá mais conta da vitalidade da multidão. É boa a notícia
do enfraquecimento dos velhos poderes da Europa.
"...a denúncia de crise
revelou um lado positivo extremamente poderoso, que continha
as características fundamentais do novo Império mundial em que
estamos entrando hoje. Os agentes da crise do velho mundo
imperial tornaram-se os fundamentos do novo. A massa
indiferenciada que por sua simples presença foi capaz de
destruir a tradição moderna e seu poder transcendente aparece
agora como poderosa força produtiva, e fonte de valorização
impossível de conter. Uma nova vitalidade, quase como as
forças bárbaras que sepultaram Roma, reanima o campo de
imanência que a morte do Deus europeu nos deixou como nosso
horizonte. Toda teoria da crise do homem europeu e do declínio
da idéia de Império europeu é, em certa medida, sintoma da
nova força vital das massas, ou, como preferimos dizer, do
desejo da multidão".
Autores como Benjamin, Weber
e Carl Schmitt tentaram sem sucesso romper com a dialética e a
crise européia. Devemos mais a alguns filósofos franceses
(principalmente Deleuze, Foucault e Derrida) que reconheceram
o fim do funcionamento dialético e concentraram-se na produção
de subjetividade como resistência, violência e afirmação
positiva do ser, enfim uma resposta adequada a crise. Um poder
ontológico construído fora e contra, assim imune aos resíduos
da dialética (européia e desgastada).
Wittgenstein previu esses autores ressaltando a subjetividade
como grito de sentido deixado pela crise.
" 'Só da consciência
singularidade da minha vida surge a religião - a ciência - e a
arte.' E mais adiante: 'Esta consciência é a própria vida.
Poderia haver ética mesmo que não houvesse seres vivos além de
mim? Poderia haver uma ética se não houvesse outro ser vivo
que não eu? Se supomos que a ética é algo fundamental,
poderia. Se estou certo então não é suficiente para um
julgamento ético que um mundo seja dado. O mundo em si mesmo
não é bom nem mau... Bem e mal só entram por meio do sujeito.
E o sujeito não é parte do mundo, mas um limite do mundo.' A
alternativa é completamente dada quando, e só quando, a
subjetividade é colocada fora do mundo: "Minhas proposições
servem como elucidações da seguinte maneira: quem quer que me
entenda acabará reconhecendo-as como absurdas, quando as usar
- como degraus - para galgar além delas. (Ele precisa, por
assim dizer, jogar fora a escada depois de usá-la para subir).
Ele precisa transcender essas proposições, e então verá o
mundo corretamente.' Wittgenstein reconhece o fim de toda a
dialética possível e de qualquer significado que resida na
lógica do mundo e não em sua ultrapassagem marginal e
subjetiva."
Esses autores iluminaram a
condição de desterritorialização do Império Pós-moderno e
apresentaram a noção de que as figuras da crise e práticas do
Império são indistinguíveis. A multidão que internalizou a
mobilidade e flexibilidade do Império concebe o futuro como
possibilidade e apresenta seu poder no deserto de significado
deixado pelo Império.
América, América
O "american way of life" (ou
o sonho americano de mobilidade social e igualdade de
oportunidades) e o New Deal (aparentemente um projeto
diferente do europeu para superar a crise) não representava um
novo rumo, mas o reterritorialização do ideal europeu de
liberdade. O ideal americano era a renovação da idéia
imperial. Mesmo quando pensamos no antiamericanismo, estamos
falando da utopia americana como referência. A hegemonia
americana sobre a Europa, fundada em estruturas financeiras,
econômicas e militares, ficou parecendo natural graças a uma
série de operações culturais e ideológicas. Nova Iorque roubou
a idéia de cultura moderna e a cultura americana passou a ser
sinônimo de cultura ocidental. A referência americana se
universalizou: até mesmo a URSS de Lênin queria provar chegar
de uma outra forma nos mesmos resultados.
A idéia do Império americano como redenção da utopia é
ilusória. O Império vindouro não é americano, ou melhor, não
tem centro efetivo e localizável. O Império é distribuído em
redes, através de mecanismos móveis e articulados de controle.
"Os Estados Unidos não são o
lugar para onde a Europa ou mesmo o cidadão moderno podem
fugir para resolver sua inquietação e infelicidade; não existe
tal lugar. O modo de ir além da crise é o deslocamento
ontológico do sujeito. A mudança mais importante, portanto,
ocorre dentro da humanidade, uma vez que o fim da modernidade
também pôs fim a esperança de encontrar algo que possa
identificar o eu fora da comunidade, fora da cooperação, e
fora das relações críticas e contraditórias que cada pessoa
encontra num não-lugar, isto é, no mundo e na multidão. É aí
onde reaparece a idéia de Império, não como território, não
nas dimensões determinadas de seu tempo e espaço, e não do
ponto de vista de um povo e sua história, mas simplesmente
como a fábrica de uma dimensão humana ontológica que tende a
se tornar universal."
Crise
O Império toma forma com a
convergência entre base e estrutura ou quando a comunicação e
o trabalho imaterial se tornam força produtiva dominante. A
produção se indistingue da reprodução.
Apesar da totalidade imperial onde nenhuma subjetividade está
'fora', a exploração ainda persiste. Ela é a negativa da
cooperação. Mas conseqüentemente ativa a resistência. Assim o
declínio e queda imperial são movimentos sincrônicos.
O próprio intelecto geral é um ninho de antagonismo. A
subjetividade fica imersa na troca e na linguagem e isso mesmo
determina que não seja pacífica.
"É meia-noite numa noite de
espectros. Tanto o novo reino do Império como a nova
criatividade imaterial e cooperativa da multidão se movem nas
sombras, nada consegue iluminar o destino que nos espera.
Todavia, ganhamos um novo ponto de referência (e amanhã talvez
uma nova consciência), que consiste no fato de que o Império é
definido pela crise, que seu declínio já começou, e que por
isso, cada linha de antagonismo conduz ao evento e a
singularidade."
Geração
São dificuldades para a
teorização positiva: a) a ilusão de que o mercado e regime
capitalista são eternos e insuperáveis; b)posições teóricas
que somente admitem a substituição da forma atual de domínio
por outra cegamente anárquica. Essas duas posições não
consideram a produtividade do ser, a virtualidade biopolítica,
a própria produção de subjetividade. O desejo da multidão,
comum e produtivo, aparece como força cooperativa humana. O
mundo biopolítico é um tecer inesgotável de ações generativas,
das quais a coletiva (como nó de singularidades) é o comum.
Através do nosso trabalho e desejo nós criamos e por isso
somos senhores do mundo.
Na realidade biopolítica a decisão do soberano não pode negar
o desejo da multidão. Se o fizesse paralisaria o mundo por
negar a criação. O político tem de ceder ao amor e desejo para
que a geração ocorra.
"A geração existe, antes de
tudo, como base e motor de produção e reprodução. (...)
chegamos a um limite da virtualidade da subordinação real da
sociedade produtiva ao capital - mas justamente nesse limite a
possibilidade de geração e a força coletiva do desejo são
reveladas em todo o seu poder."
Corrupção
A corrupção é a negação da
geração. Ela rompe a cadeia do desejo e seu horizonte
biopolítico de produção, cria vazios ontológicos na vida da
multidão. É a pedra angular da dominação. Com ela o poder
imperial estende uma cortina de fumaça sobre o mundo e sob ela
comanda a multidão.
A corrupção é facilmente reconhecida por se mostrar como um
insulto. Um insulto porque é a impossibilidade de vincular
poder ao valor e denuncia a falta de ser.
As formas de corrupção são inúmeras, mas podemos
exemplifica-las: a) aquela que é opção individual que se opõe
a comunidade e a solidariedade (como a máfia); b) a
exploração, que é a corrupção da ordem produtiva. O
capitalismo quando perde sua relação com o valor (como medida
de exploração individual e como norma de progresso coletivo)
emerge como corrupção; c) corrupção que aparece nos
fundamentos da ideologia ou perversão da comunicação
lingüística; d) se utilizando da anterior o governo imperial
se vale das ameaças de terror para expandir seu poder. Há
infinitos outros exemplos, mas na base de todos existe um
processo de anulação ontológica que é definida e exercida como
a destruição da essência singular da multidão.
"Enquanto nos tempos antigos
e recentes a corrupção era definida em relação aos esquemas
e/ou relações de valor e mostrada como falsificação deles, de
tal modo que poderia, às vezes, desempenhar um papel na
mudança entre as formas de governo e a restauração de valores,
hoje, em contraste, a corrupção não pode ter um papel em
qualquer mudança das formas de governo, porque a corrupção é,
ela própria, a substância e a totalidade do Império. A
corrupção é o puro exercício do comando, sem qualquer
referência proporcional ou adequado ao mundo da vida. É
comando dirigido para destruir a singularidade da multidão
mediante sua unificação coerciva e/ou sua segmentação cruel."
A corrupção impede o avanço
além da medida dos corpos por meio da comunidade. Estamos num
paradoxo: o Império necessita da cooperação para a produção,
mas tem de controla-la (por meio da corrupção) para não ser
destruído por ela. Nossa tarefa é investigar como a corrupção
pode ceder seu controle a geração.
4.3 A multidão conta o
Império
"Não me falta comunicação; ao
contrário, temos comunicação de sobra. O que nos falta é
criação. O que nos falta é resistência ao presente"
Deleuze e Guatarri
No Império os conflitos sociais confrontam-se diretamente e
sem mediações. A grande novidade (e alternativa) é uma
multidão que se opõe diretamente ao Império, sem mediações.
As duas cidades
As revoluções do século XX
(revolução comunistas de 1917 e 1949, lutas antifascistas,
lutas de libertação) fizeram avançar e transformaram os termos
do conflito de classes, propondo as condições para uma nova
subjetividade política contra o poder imperial. Retomemos aqui
a idéia de uma multidão positiva, geradora em oposição ao
governo imperial negativo, passivo/regulador. As lutas da
multidão produziram o Império como uma inversão de sua própria
imagem.
A multidão não precisa buscar fora (ou transcendentalmente) os
meios para buscar a configuração de sujeito político; ela o
faz no trabalho imanente: possibilidade de dirigir tecnologias
e produção para sua alegria e para o crescimento de seu
próprio poder. A multidão em vez de se constituir como uma
cidade de Deus (transcendental) configura-se como uma cidade
mundana, fortalecida pelo trabalho e inatingível aos braços do
Império.
Caminhos sem fim (o
direito à cidadania global)
A mobilidade da força de
trabalho sempre foi condição básica para o capitalismo. Hoje
no Império essa mobilidade escapa ao mando capitalista e
redefine limites e meios de circulação. Movimento autônomo é o
que define o lugar próprio da multidão. E circulando a
multidão se constitui com sujeito ativo. Nesse movimento
existe um desejo de libertação que só é saciado pela
reapropriação de novos espaços, em torno das quais novas
liberdades são forjadas. Migrações em massa tornam-se
necessárias para a produção. Mas é preciso investigar como
essa multidão é organizada e redefinida como um poder positivo
e político. Podemos encontrar pistas nas ações imperiais
frente a essa movimentação. O Império precisa restringir e
isolar os movimentos espaciais das massas para impedi-las de
ganhar legitimidade política. E o faz através do
orquestramento do nacionalismo, fundamentalismo e dos poderes
militares e policiais (mais uma vez voltamos ao poder
meramente regulador das ações imperiais e do paradoxo que
envolve restrição limitada da movimentação das forças de
trabalho, já que estas são essenciais à produção). As ações da
multidão tornam-se políticas quando resistem (com a
consciência adequada) à repressão policial.
" A tarefa da multidão,
entretanto, embora seja clara no nível conceitual, continua
muito abstrata. Que práticas específicas e concretas
estimularão esse projeto político? A esta altura, não
saberíamos dizer. O que podemos ver, todavia, é um primeiro
elemento de programa político para a multidão global, uma
primeira demanda política: cidadania global. (...) ...essa
demanda política insiste na pós-modernidade do princípio
constitucional fundamentalmente moderno que vincula direito e
trabalho, e por isso contempla com cidadania o trabalhador que
cria o capital."
"[A multidão] precisa exigir o controle sobre os próprios
movimentos. As massas precisam ser capazes de decidir se,
quando e para onde se movem. (...) O direito geral de
controlar seu próprio movimento é a demanda definitiva da
cidadania global. (...) Cidadania global é o poder do povo de
se reapropriar do controle sobre o espaço e, assim, de
desenhar a nova cartografia."
Tempo e corpo (o direito a um salário social)
Entender a construção de
novas temporalidades ajudará a ver que a multidão tem o
potencial de tornar suas ações coerentes, como uma tendência
política real.
Somente na pós-modernidade rompeu-se com qualquer medida
transcendental de tempo, qualquer a priori. Agora é impossível
medir o trabalho e o tempo volta inteiramente para o a
existência coletiva e dessa maneira reside dentro da
cooperação do povo. O trabalho é atividade criadora
fundamental, através da cooperação recria o mundo.
"No contexto biopolítico do
Império (...) a produção de capital converge progressivamente
com a produção e reprodução da própria vida social; dessa
maneira, torna-se cada vez mais difícil manter distinções
entre trabalho produtivo, reprodutivo e improdutivo. O
trabalho - material ou imaterial, intelectual ou físico -
produz e reproduz a vida social, e durante o processo é
explorado pelo capital".
Isso demonstra a incapacidade
de dividir tempo de produção e tempo de reprodução, ou tempo
de trabalho e tempo de lazer: o proletariado produz em toda a
sua generalidade, em toda a parte, o dia todo.
Daí identificamos uma segunda demanda política: um salário
social e uma renda garantida para todos. Não se trata aqui do
salário família que mantém o controle nas mãos do assalariado
masculino e pressupõe a concepção falsa sobre trabalho que é
ou não produtivo. O salário social atinge toda a multidão (até
mesmo os desempregados) na medida em que a força de trabalho
torna-se cada vez mais coletiva.
Telos (o direito à
reapropriação)
Uma vez que no domínio
imperial do biopoder a produção e a vida tendem a coincidir, a
luta de classes tem o potencial de irromper em todos os campos
da vida. Como o corpo da multidão pode configurar-se em um
telos?
"O primeiro aspecto do telos
da multidão tem a ver com os sentidos de linguagem e
comunicação. Se a comunicação se torna cada vez mais o tecido
da produção, e se a cooperação lingüística se torna cada vez
mais a estrutura da corporalidade produtiva, então o controle
do sentido e do significado lingüísticos e das redes de
comunicação constituem uma questão cada vez mais central para
a luta política."
Comunicação, produção e vida
num todo complexo e aberto de conflitos. Todos os elementos da
corrupção e exploração nos são impostos pelo regime de
produção lingüística e comunicativa: destruí-los com palavras
é tão urgente quanto faze-los com ações. Conhecimento e
comunicação devem constituir a vida mediante luta.
O segundo aspecto se concerne à questão das máquinas. Máquinas
e tecnologias são ferramentas biopolíticas dispostas em
regimes específicos de produção. Os processos de construção do
novo proletariado passam pela concepção da possibilidade de um
novo uso das máquinas e tecnologias.
O terceiro aspecto é fazer do telos um encontro de sujeitos e
um mecanismo de constituição (não mediação) da multidão.
O quarto aspecto tem a ver com a biopolítica: o político,
social, econômico e vital convivendo.
"O quinto e último aspecto
portanto tem a ver diretamente com o poder constituinte da
multidão - ou, melhor dizendo, com o produto da imaginação
criadora da multidão que configura sua própria constituição.
Esse poder constituinte torna possível a abertura contínua
para um processo de transformação radical e progressiva. Torna
concebível a igualdade e a solidariedade, essas frágeis
demandas que eram fundamentais mas continuaram sendo abstratas
ao longo da história das constituições modernas."
Assim podemos formular uma
terceira demanda da multidão: o direito a reapropriação dos
meios de produção. Essa necessidade já muito discutida assume
um novo aspecto, pois a multidão se torna cada vez mais
maquinal. Nesse contexto reapropriação significa ter livre
acesso a, e controle de, conhecimento, informação, comunicação
e afetos.
Posse
Chegamos no problema de como
se tornar sujeito da multidão, ou seja, as condições virtuais
do indivíduo precisam agora se configurar como reais numa
figura concreta.
A autonomia política e atividade produtiva da multidão serão
designadas pelo termo latino posse - poder como verbo, como
atividade; um poder de conhecimento e de ser. Posse se refere
as singularidades produtoras incapazes de se deixarem
encurralar pelo poder imperial.
"O modo de produção da
multidão vai de encontro à exploração em nome do trabalho, da
propriedade em nome da cooperação, e da corrupção em nome da
liberdade. Ele autovaloriza corpos em trabalho, reapropria-se
da inteligência produtiva mediante a cooperação, e transforma
a existência em liberdade".
Podemos apresentar três fases
da militância operária: uma primeira fase da produção
industrial anterior ao desdobramento de regimes fordiano e
taylorista marcada pela figura do operário profissional e pelo
nascimento do sindicato moderno; uma segunda que correspondeu
ao desdobramento dos regimes fordiano e taylorista e foi
definida pela massa operária com uma alternativa real ao
sistema de poder capitalista. Hoje, na fase que corresponde
aos regimes informais de produção pós-fordiano, surge a figura
do operário social. A ordem do dia conecta intelectualidade e
autovalorização das massas.
"...o poder constituinte do
trabalho pode ser expresso como autovalorização do humano (o
direito igual de cidadania para todos na esfera inteira do
mercado mundial); como cooperação (o direito de comunicar-se,
construir línguas e controlar redes de comunicação); e como
poder político, ou melhor dizendo, como a constituição de uma
sociedade na qual a base de poder é definida pela necessidade
de todos".
A cooperação invalida a
propriedade privada que, na nossa era da hegemonia do trabalho
cooperativo e imaterial, se apresenta como uma obsolescência
pútrida e tirânica. As ferramentas de produção tendem a ser
recompostas em subjetividade coletiva e na inteligência e no
afeto coletivo dos operários.
Deve haver um evento real quando a reapropriação e
auto-organização atingirem um limiar. Um momento onde a
república moderna deixa de existir surge a posse pós-moderna.
"O único evento que ainda
estamos esperando é a construção, ou melhor, a insurreição, e
uma poderosa organização. A cadeia genética é formada e
estabelecida em ontologia, o andaime é continuamente
construído e renovado pela nova produtividade cooperativa, e
dessa maneira esperamos apenas a maturação de desenvolvimento
político da posse. Não dispomos de qualquer modelo a oferecer
para esse evento. Só a multidão, pela experimentação prática,
oferecerá os modelos e determinará quando e como o possível se
torna real."
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