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Choques da
Civilização |
Análise |
Economia,
Demografia e as Civilizações Desafiadoras
Esse capítulo trata dos desafios ao Ocidente das civilizações
islâmica e asiática. Enquanto o desafio islâmico está calcado
no amplo ressurgimento cultural, social e político do
Islamismo e na rejeição aos valores e instituições ocidentais,
o desafio asiático, que se manifesta em todas as civilizações
da Ásia Ocidental, enfatiza suas diferenças culturais com o
Ocidente e algumas semelhanças, freqüentemente associadas ao
Confucionismo. Ambas as civilizações ressaltam a superioridade
sobre a cultura ocidental: o argumento asiático se fundamenta
no crescimento econômico e o islâmico no crescimento
populacional e na mobilização social, o que causa um impacto
desestabilizador sobre a política mundial. Se por um lado o
crescimento econômico fortalece os governos asiáticos, na
medida em que dá a eles estímulos e recursos para serem mais
exigente em seus relacionamentos com outros países, por outro,
o crescimento populacional cria uma ameaça para os governos
muçulmanos e para as sociedades não-muçulmanas, uma vez que
proporciona massa de recrutamento para o fundamentalismo, o
terrorismo, a subversão e a imigração.
A afirmação asiática
O desenvolvimento econômico da Ásia Ocidental começou no
Japão, na década de 50, e se estendeu aos Quatro Tigres e
depois para a China, Malásia, Tailândia e Indonésia, e está se
firmando nas Filipinas, no Vietnã e na Índia. Houve também uma
expansão do comércio internacional, primeiramente, entre a
Ásia e o resto do mundo e depois dentro da Ásia, contrastando
com o modesto crescimento das economias européia e
norte-americana assim como o estagnação que se espalhou por
grande parte do mundo.
Como conseqüência desse desenvolvimento econômico, está se
alterando o equilíbrio de poder entre a Ásia Oriental e o
Ocidente, especialmente entre ela e os E.U.A. Esse crescimento
econômico gera autoconfiança, á que a riqueza é vista como
prova de virtude, como demonstração de superioridade moral e
cultura. Nesse sentido, os asiáticos orientais realçam o
caráter próprio de sua cultura e alardeiam a superioridade de
seus valores, de seu estilo de vida em comparação com os do
Ocidente, além de serem cada vez menos receptivas às
exigências e aos interesses dos Estados Unidos, com a
capacidade cada vez maior de resistir às suas pressões e às de
outros países ocidentais.
A industrialização e crescimento que acompanharam o fenômeno
da reafirmação do valor da cultura asiática em comparação com
a do Ocidente produziram uma articulação entre os asiáticos
orientais que pode ser denominado de “afirmação asiática”.
Essa “afirmação asiática está alicerçado em quatro pontos
principais primeiramente, o crescimento econômico estimula nas
sociedades asiáticas uma sensação de poder e uma afirmação de
sua capacidade de enfrentar o Ocidente; em segundo lugar, os
asiáticos acreditam que esse êxito econômico é um produto da
cultura asiática, que é superior à do Ocidente, decadente
cultural e socialmente; além disso, apesar de reconhecerem as
diferenças entre as sociedades e as civilizações asiáticas, os
asiáticos orientais sustentam que também existem importantes
aspectos em comum como a ênfase à parcimônia, à família, ao
trabalho e à disciplina; por último, os asiáticos orientais
sustentam que o seu desenvolvimento e os seus valores são
modelos que outras sociedades não-ocidentais deveriam seguir,
e que o próprio Ocidente deveria adotar a fim de se renovar.
Esse último ponto revela a necessidade de promover um
“globalismo do Pacífico” que molde de forma decisiva a ficção
da nova ordem mundial. Isso mostra que o crescente
autoconfiança da Ásia Oriental deu lugar a um emergente
universalismo asiático, baseado inicialmente no êxito material
e, posteriormente na afirmação cultural.
O Ressurgimento Islâmico
O Ressurgimento Islâmico é um amplo movimento intelectual,
cultural, social e político que predomina em todo o mundo
islâmico, constituindo um esforço dos muçulmanos por encontrar
a “solução” não nas ideologias ocidentais, mas no Islamismo.
Por sua vez, o Islamismo deve ser seguido não apenas como uma
religião, mas como um estilo de vida, como uma fonte de
identidade, sentido, estabilidade, legitimidade,
desenvolvimento, poder e esperança diante do mundo moderno.
Dessa forma, o Ressurgimento Islâmico aceita a modernidade,
mas rejeita a cultura ocidental, afetando os muçulmanos em
todos os países e a maioria dos aspectos da sociedade e da
política na maioria dos países muçulmanos. Isso implica
esforços para reinstituir a legislação islâmica, em vez da
legislação ocidental, a maior utilização de linguagem e
simbolismo religiosos, a expansão do ensino islâmico, a maior
observância dos códigos islâmicos de comportamento social e
uma maior participação em cerimônias religiosas, o domínio por
grupos islâmicos da oposição aos governos seculares em
sociedades muçulmanas, e a expansão dos esforços por
desenvolver uma solidariedade internacional entre os Estados e
as sociedades islâmicas.
O Ressurgimento Islâmico pode ser comparado à Reforma
protestante, na medida em que ambos são reações à estagnação e
à corrupção das instituições existentes, advogando uma volta
para uma forma mais pura e mais exigente de sua religião,
pregando o trabalho, a ordem e a disciplina e atraindo as
pessoas da classe média emergente e dinâmica. Além disso,
ambos são movimentos complexos, com variantes diversas e com
um espírito central de reforma universal. No entanto, esses
movimentos diferem quanto ao impacto, já que a Reforma ficou
essencialmente limitada à Europa Setentrional, enquanto o
Ressurgimento atingiu quase todas as sociedades muçulmanas,
conquistando um engajamento e um apoio crescentes por todo o
mundo, com a islamização tendendo a ocorrer primeiro no âmbito
cultural e depois nas esferas social e política.
Na maioria dos países, um elemento central da islamização foi
o desenvolvimento de uma organização social islâmica e a
captura de organizações persistentes por grupos islâmicos, em
que os fundamentalistas islâmicos dedicaram uma atenção
especial tanto à abertura de escolas islâmicas quanto à
expansão da influência islâmica nas escolas públicas. Assim,
os grupos islâmicos trouxeram à realidade uma “sociedade
civil” islâmica que ultrapassava e muitas vezes suplantava, em
amplitude e em atuação, as instituições freqüentemente débeis
da sociedade civil secular. Já as manifestações políticas do
Ressurgimento têm sido menos amplas do que as sociais e
culturais, não recebendo apoio de forma geral, das elites
rurais, dos camponeses e dos idosos.
Seus adeptos são de forma majoritária, pessoas mais jovens,
com grande mobilidade e orientadas para a modernidade,
provenientes em grande parte de três grupos: seu núcleo é
composto por estudantes e intelectuais que formaram os quadros
militantes e as tropas de choque dos movimentos
fundamentalistas, enquanto as pessoas de classe média urbana
compunham o grosso dos seus membros ativos, além dos
contingentes que migraram recentemente para as cidades,
necessitados dos serviços sociais prestados pelas organizações
fundamentalistas islâmicas. A força do Ressurgimento e a
atração dos movimentos fundamentalistas islâmicos induziu os
governos a promoverem as instituições e práticas islâmicas,
bem como a incorporarem símbolos e as práticas islâmicas aos
seus regimes, que significou afirmar ou reafirmar o caráter
islâmico de seus Estados e sociedades.
O Ressurgimento Islâmico é, ao mesmo tempo, um produto da
modernização e um esforço para lidar com ela. Suas causas
subjacentes – urbanização, mobilização social, níveis mais
elevados de alfabetização e educação, comunicações e consumo
da mídia intensificados e uma interação expandida com a
cultura ocidental e outras culturas – minam os laços
tradicionais e criam uma alienação e uma crise de identidade.
Os símbolos, compromissos e crenças islâmicas satisfazem essas
necessidades psicológicas, enquanto as organizações de
assistência islâmicas satisfazem as necessidades sociais,
culturais e econômicas dos muçulmanos colhidos pelo processo
de modernização. O Ressurgimento é também uma resposta ao
impacto do Ocidente. Como as soluções ocidentais fracassaram
para os muçulmanos, eles sentiram a necessidade de voltar para
suas raízes e confiar nas idéias, práticas e instituições
islâmicas, para através delas orientarem a modernização.
Além disso, o Ressurgimento foi estimulado e alimentado pelo
surto do petróleo dos anos 70, que aumentou enormemente a
riqueza e o poder de muitas nações muçulmanas e habilitou-as a
fazer retroceder as relações de dominação e subordinação que
tinham existido com o Ocidente. Os governo saudita, líbio e
outros utilizaram sua riqueza em petróleo para estimular e
financiar a revitalização muçulmana, e a riqueza muçulmana
levou os muçulmanos a passarem do fascínio pela cultura
ocidental para um profundo envolvimento na sua própria cultura
e para uma disposição de assegurar o lugar e a importância do
islã em sociedades não-islâmicas. Da mesma forma que a riqueza
ocidental tinha anteriormente sido vista como prova da
superioridade da cultura ocidental, a riqueza do petróleo foi
vista como prova da superioridade do islã.
Apesar da pressão provocada pelos aumentos dos preços do
petróleo nos anos 80 ter se desfeito, o crescimento
populacional continuou promovendo o ressurgimento, baseado no
binômio tamanho da população e mobilidade social. Essa
combinação tem três conseqüências políticas significativas.
Primeiramente, as pessoas jovens são os protagonistas dos
protestos, da instabilidade, da reforma e da revolução. Dessa
forma, a juventude do Islã está deixando sua marca no
Ressurgimento, na medida em que fornece os recrutas para as
organizações e os movimentos políticos fundamentalistas
islâmicos. Além disso, a quantidade de pessoas na faixa dos 20
anos de idade à procura de emprego irá se expandir e a rápida
expansão da alfabetização nas sociedades árabes também cria um
hiato entre a geração mais nova alfabetizada e uma geração
mais velha em grande parte analfabeta e, desse modo, produz
“uma dissociação entre conhecimento e poder” capaz de “gerar
pressão sobre o sistema político”.
Por fim o crescimento populacional islâmico é um importante
fato que contribui para os conflitos ao longo das fronteiras
do mundo islâmico, entre muçulmanos e outros povos. A pressão
populacional, combinada com a estagnação econômica, promove a
migração muçulmana para a sociedade ocidental e outras não
ocidentais, elevando a imigração à condição de um problema nas
mesmas. A justaposição de um povo crescendo pouco ou estagnado
de outra cultura gera pressões por ajustes econômicos e/u
políticos em ambas as sociedades.
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