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Diferentes
Itálias: entre operários e proprietários
Resenha do texto de Zuleika Maria Forcione
Alvim acerca do “Brasil italiano”, no livro de FAUSTO, Boris
(org.), “Fazer a América”. SP: EDUSP, 2000.
A corrente migratória italiana representou
42% (1,4 milhões) do total de imigrantes que se dirigiram ao
Brasil entre 1870 e 1920. Sua expressividade numérica e a
conseqüente marca deixada por essa nacionalidade na cultura
brasileira cunharam ao grupo a denominação de “o imigrante”.
Essa maciça entrada de italianos coincidiu
com o período em que o governo brasileiro não poupou esforços
para atrair mão-de-obra para o país devido à conjuntura nacional
da época. Havia o desejo de povoar as regiões sulinas com vistas
a protegê-la contra a cobiça dos vizinhos latinos e o anseio dos
grandes fazendeiros em manter uma política agrária calcada na
grande propriedade e na agricultura de exportação.
Houve, ainda, muitas “desculpas” com a
finalidade de justificar o incentivo à imigração européia, tal
como o branqueamento da raça e a necessidade de forjar uma nação
mais civilizada e de construir um país onde o binômio
senhor/escravo fosse amenizado com a introdução de pequenos
proprietários.
Com relação ao povoamento das regiões
sulinas, o imigrante seria um pequeno proprietário de terras.
Contudo, o governo não tinha verbas suficientes para arcar com
as despesas de translado e assentamento desse tipo de imigrante.
O mau treinamento dos funcionários no gerenciamento dos núcleos,
a demora na demarcação dos lotes e na abertura de estradas e a
ausência de hospedarias para abrigar essas pessoas imediatamente
após a sua chegada foram fatores que forçaram muitos embarcados
com o destino ao Sul a esperar seis meses ou até mesmo um ano
para serem levados aos locais de trabalho; enquanto isso, o
governo era obrigado a manter essas famílias, aumentando ainda
mais seus gastos.
Incentivos agrícolas
O período que vai de 1870 a 1885 foi o
último em que o Governo tentou trazer imigrantes para o Brasil
com destino à pequena propriedade. Em 1867, o Governo passou a
garantir, além da viagem paga desde o Porto do Rio de Janeiro
até o núcleo colonial, a atribuição de um lote de terra a cada
família de imigrante, a ser escolhido por seu responsável, que
poderia ser o pai ou uma pessoa mais velha; alojamentos para os
camponeses em casas provisórias, enquanto aguardavam a
construção de suas moradias definitivas; e a cessão de um pedaço
de terra já desmatado para a plantação de gêneros de
subsistência, além do fornecimento de sementes, instrumentos de
trabalho e mantimentos gratuitos durante os primeiros dez dias.
Os lotes podiam ser pagos em cinco
prestações anuais. Os colonos tinham, além disso, o direito de
trabalhar como assalariados três vezes por semana, durante os
primeiros seis meses, em obras públicas - construção de
estradas, limpeza de rios etc. Era uma forma de obter algum
dinheiro.
Ao lado dessas medidas que visavam a
melhoria do sistema de colonização, o Governo firmou, em 1874,
um contrato com Caetano Pinto, importante agente da SPI
(Sociedade Promotora da Imigração), para a introdução de cem mil
imigrantes no período de dez anos.
Foi da Itália setentrional, sobretudo do
Vêneto, que saiu um significativo percentual de emigrantes para
o Brasil, desmontando, assim, o mito de que a maioria era
oriunda do Sul. Essa região forneceu, entre 1870 e 1920, 30% do
total de emigrados para o País. A saída ocorreu somente quando
suas propriedades não ofereceram mais recursos para a
sobrevivência do grupo.
Assentamentos no Sul
O imigrante vêneto pertencia ao universo
dos pequenos proprietários e arrendatários. Isto é, não eram
camponeses destituídos de qualquer capital. Essas famílias eram
formadas por 12 ou até 15 elementos que traziam por hábito o de
trabalhar juntos a terra que lhes pertenciam; a autoridade
máxima dentro da família era o pai que, em caso de morte, era
substituído pelo filho. E foi, principalmente, esse perfil de
imigrante que veio povoar a região Sul do Brasil.
Os três estados componentes da região Sul
receberam imigrantes italianos. Porém, o Rio Grande do Sul foi
o que recebeu o maior número (43,25% do total), nascendo,
assim, inúmeras colônias dessa nacionalidade, que mais tarde
dariam origem a cidades como Bento Gonçalves, Garibaldi, Antônio
Prado e muitas outras.
Os primeiros grupos que nessas terras
desembarcaram padeceram em sua chegada devido à total ausência
de infra-estrutura e de qualquer tipo de assistência. Nada
havia além da floresta a ser derrubada e índios que ali
residiam. Esses, por sua vez, viam-se expulsos de suas terras
com a chegada dos estrangeiros.
Em Santa Catarina, além de terem de lutar
contra as doenças, muitas vezes fatais, causadas pela falta de
adaptação aos alimentos e ao clima, os italianos sofriam a
hostilidade dos alemães que já ocupavam aquelas terras.
No Paraná, muitos núcleos de italianos não
conseguiram se desenvolver devido à já rotineira falta de
infra-estrutura local e de dinheiro para atender às primeiras
necessidades. A colônia que melhor se desenvolveu nesse estado
foi a de Novo Tirol, hoje Santa Maria, devido à proximidade da
cidade de Curitiba, que serviu de área de venda dos produtos
feitos na colônia e de área de abastecimento para os colonos.
Mãos italianas na expansão ferroviária
Os imigrantes italianos recém-chegados às
terras sulinas precisavam da ajuda dos negros e dos caboclos que
lhes ensinaram a técnica da queimada, forneceram-lhes os
primeiros alimentos e ajudaram nas construções das casas.
Enquanto não tomavam posse definitiva de suas terras, eles
trabalharam na construção das estradas de ferro e acabaram tendo
um papel fundamental na expansão ferroviária brasileira. Como
conseqüência dessa atividade, surgiram pelas mãos dos italianos
inúmeras serrarias, o que possibilitou uma nova maneira de
inserção na sociedade de adoção.
Os recém-chegados voltavam-se à cultura de
subsistência dado o isolamento em que se encontravam,
impossibilitando, assim, a comercialização de seus produtos. A
paisagem sulina foi infestada de pequenos lotes onde os cereais
básicos da dieta italiana dominavam, ao lado de verduras de
todas as espécies. Ajudados pelo clima e pela concentração, eles
acabaram por reconstruir um mundo muito similar ao pátrio, o que
deu ao Sul do país características bastante peculiares. Hoje,
não só a produção agrícola ainda apresenta características de
policultura, como também grande parte do parque industrial
permanece nas mãos de famílias imigrantes, responsáveis pelo
desenvolvimento do setor na região.
São Paulo: O Maior Pólo de Atração
O café paulista, exportado para o mundo
todo, atraía capital e exigia, para sua reprodução, um número
cada vez maior de trabalhadores agrícolas. A abolição do
trabalho escravo em 1888 aumentou essa necessidade. São Paulo
passou a representar um refúgio certeiro para 'desvalidos' de
outros países. E foi nesse contexto que, principalmente,
'desvalidos' italianos advindos do Sul e da região Meridional da
Itália aqui aportaram. Destituídos de qualquer propriedade, eram
chamados de braccianti, cujo único capital eram os braços
para a lavoura de café. Houve, ainda, italianos advindos do
Vêneto.
Do total de italianos que se dirigiram ao
Brasil, entre 1870 e 1920, 70% dos 1,4 milhões tiveram São Paulo
como destino. Entre as diferentes atividades econômicas
desempenhadas no estado, criou-se uma Itália cafeicultora, uma
pequeno-proprietária, uma de trabalhadores da indústria e ainda,
em menor escala, uma Itália ligada ao setor terciário, onde
comerciantes, costureiras, garçons, alfaiates, músicos e
mascates foram figuras obrigatórias em todas as cidades
paulistas.
Itália cafeicultora
Os contratos de trabalho estabelecidos na
lavoura cafeeira estavam calcados na mão-de-obra familiar. Para
o fazendeiro, o contrato familiar possibilitava um excedente de
mão-de-obra com o trabalho de mulheres e crianças, que lhe
custava menos que o de trabalhadores individuais. Isso convinha
aos imigrantes italianos por ser uma forma de trabalho próxima à
desenvolvida no país de origem. Além disso, o trabalho de todos
era a única possibilidade de sobrevivência do grupo. Havia,
portanto, um interesse recíproco entre trabalho e trabalhadores.
Muitos italianos, depois de terem
trabalhado algum tempo como colonos, optaram pelo contrato de
empreiteiro, pois era o único capaz de propiciar-lhes no fim do
período contratual um certo pecúlio, com o qual podiam abrir uma
pequena casa comercial ou comprar um pedaço de terra para
iniciar sua vida de proprietário.
Contudo, foi para a modalidade “colonos”
que a maioria dos italianos se dirigiu, sobretudo quando a
corrente migratória passou a ser alimentada pelos mais pobres,
as pequenas famílias de braccianti. Esse tipo de contrato
exigia do imigrante quatro ou cinco carpas anuais no café, que
ele mesmo deveria colher, e ainda obrigava-o a prestar serviços
gratuitos na fazenda quando fossem necessários. Em
contrapartida, permitia ao contratado semear feijão e milho por
conta própria entre as fileiras de café, enquanto este não
crescesse.
Numa família típica de imigrantes
lavradores, a mulher e as crianças com menos de doze anos
recebiam parte dos rendimentos. A conjugação do esforço de todos
os membros da família era a oportunidade de juntarem alguma
poupança, sustentando o sonho de montar o pequeno negócio,
comprar um lote de terra ou mesmo voltar à pátria.
Acostumados ao trato com escravos, os
fazendeiros paulistas tiveram de passar por um processo de
adaptação ao trabalhador livre. Os primeiros imigrantes sofreram
maus-tratos e raramente viam a cor do dinheiro. O pagamento ao
qual tinham direito não passava, por vezes, de uma quantia
hipotética, representada por vales - um valor descontado pelas
compras que eram obrigados a fazer nos armazéns das fazendas.
Muitos colonos se endividavam para obter
gêneros de primeira necessidade e viam-se obrigados a permanecer
na fazenda até saldarem suas dívidas. Além disso, o custo da
passagem marítima subsidiada pelos fazendeiros era também
cobrado dos imigrantes se resolvessem abandonar o trabalho e
partir para a cidade ou para outra fazenda. Tudo isso culminou
em revoltas e fugas em massa das fazendas para as cidades ou
para o país de origem.
Itália
pequeno-proprietária
Tempos depois, quando alguns colonos
conseguiram juntar suas economias, foi estabelecida uma Itália
pequeno-proprietária no Brasil. Dois tipos de propriedades
surgiram: as primeiras se estabelecem em terras oriundas da
divisão de antigas fazendas já exauridas pelo café (em torno de
Campinas e nas vizinhanças da margem direita do Rio Tietê); mais
tarde, pequenos sitiantes ocuparam áreas ainda por desbravar,
onde as terras custavam menos devido à total falta de
infra-estrutura.
Em 1905, o número de propriedades em mãos
de italianos era de 5.197; em 1920, esse número saltou para
11.815. As famílias numerosas tinham mais facilidade de passar
da categoria de "colonos" para a de pequeno-proprietário. Para
as famílias menores, que eram a maioria, essa passagem era muito
mais difícil.
Após dez ou quinze anos no Brasil, podemos
afirmar que cerca de 15% dos italianos residentes no estado de
São Paulo haviam chegado ao patamar de pequeno-proprietário.
Essas propriedades, quando bem situadas, como as da região
araraquarense, acabaram sendo beneficiadas pelo desenvolvimento
da região como um todo, o que levou muitos italianos a ocuparem
lugar de destaque em várias dessas cidades.
Itália operária
Em 1901, dos 50 mil trabalhadores
empregados na indústria paulista, 90% eram italianos. E, ainda,
em 1920, sabe-se que de cada quatro habitantes da cidade um era
estrangeiro, e que os italianos representavam mais de 40% desse
total. Não há dúvidas de que o contingente italiano significou
muito no crescimento sem precedentes que a cidade conheceu a
partir de 1890. Com isso, criou-se um exército de reserva para
que a indústria nascente conhecesse sua primeira expansão.
Foi em São Paulo que parte dessa corrente
migratória conheceu as longas jornadas de trabalho, a má
alimentação, os salários reduzidos - enfim, tudo o que
caracterizou a classe operária em todo o mundo, no início da
industrialização. No ramo das confecções, as "minorias"
representavam mais de 75% da mão-de-obra. Mulheres e crianças
representavam um grande atrativo aos empregadores por terem a
mesma carga horária, exercerem as mesmas funções dos homens e
receberem salários mais baixos.
As moradias eram sempre localizadas nos
piores lugares da cidade, nas áreas várzeas sujeitas a
inundações do Tamanduateí ou do Tietê. É assim que vemos nascer
bairros como a Mooca, Brás, Bom Retiro, entre outros, de fortes
características operárias. Em meio a todas essas adversidades e
mais a carestia dos gêneros de primeira necessidade, surgiram as
primeiras greves. Nas reivindicações dos trabalhadores, aparecem
as exigências de melhores salários e condições de trabalho mais
humano, diminuição da jornada para oito horas, fim das multas,
regulamentação do trabalho feminino e infantil, repouso semanal,
pagamento de salários em dia, entre outras.
As mulheres tiveram importância nos
movimentos grevistas, com destaque para a greve de fevereiro de
1901, onde seiscentas operárias da fábrica de tecidos Sant'Anna
protestaram contra o efetivo rebaixamento do salário mediano.
Entre 1901 e 1914, entraram em greve na capital paulista 26
estabelecimentos têxteis, alimentares, de confecção e vestuário,
indústrias cuja mão-de-obra era predominantemente feminina.
A greve dos ferroviários, liderada pelo
italiano Manuel Pisani, foi um dos atos de maior repercussão no
movimento operário. Formou-se um Comitê de Defesa Proletária que
pleiteava, além da baixa dos preços dos gêneros alimentícios,
uma redução de 50% nos aluguéis.
Os imigrantes que lideraram o movimento
operário paulista do inicio do século foram verdadeiros agentes
da comunicação. Implantaram sistemas de divulgação de seus
ideais e contribuíram para organizar os trabalhadores na luta. A
presença de uma imprensa ativa em língua estrangeira foi marcada
pela fundação do jornal La Giustizia.
Itália comerciante
Durante os primeiros 20 anos deste século,
acordar pela manhã na cidade de São Paulo significava
praticamente o mesmo que acordar numa cidade italiana. Os
italianos estavam presentes no dia-a-dia paulistano com seus
jornais, na figura do motorista do bonde, do vizinho, do
vendedor, do leiteiro, do jornaleiro, entre outros.
Muitos dos que escaparam do destino de
vestirem o macacão de operário empregavam-se no comércio. O
setor terciário representava um terreno fértil para os
imigrantes uma vez que a burguesia nativa, empenhada primeiro na
agricultura e depois na indústria nascente, pouca atenção
dispensava ao setor comercial, abrindo uma brecha para aqueles
que tinham um ofício ou eram mestres na arte de vender.
Conclusão
O papel do italiano na população
brasileira é inconteste. Sua influência, mais detectada no Sul
do país - onde a reconstrução de pequenas "Itálias" foi marcante
- é responsável até hoje pela organização social dos núcleos
italianos ali reinantes. Não é o caso de São Paulo, onde essa
presença se diluiu na imensidão que a metrópole atingiu, mas
que, procurada com atenção, nos traz de volta diferentes "Itálias"
aqui recriadas.
Autora: Paula de Carvalho Pimentel (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
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