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Choques da
Civilização |
Análise |
A dinâmica
das Guerras de Linha de Fratura
As guerras de linha de fratura têm diferentes etapas
(intensificação, expansão, contenção, interrupção e,
raramente, solução) que geralmente se dão em forma seqüencial,
mas que podem por vezes se superpor e se repetir. Assim como
outros conflitos comunitários, essas guerras tendem a adquirir
vida própria e a se repetir na forma de ataque e retaliação.
Elas podem ser denominadas também de “guerras de identidade”,
uma vez que na medida em que avançam, os grupos envolvidos no
conflito procuram fortalecer suas identidades (uma em oposição
à outra), fomentando suas afinidades étnicas e religiosas.
Isso faz com que o outro grupo ou a outra civilização passe a
ser visto(a) como inimigo(a) e propagador(a) do mal.
Para isso, é fundamental a participação de radicais que, à
medida que as guerras evoluem, derrotam os moderados, que não
conseguem assumir metas mais limitadas logo de início por meio
de negociações, assumindo o comando dessas guerras e querendo
alcançar objetivos mais extremistas, valendo-se para tanto da
violência. No entanto, esses radicais não conseguem se
sustentar permanentemente, pois, à proporção que os custos com
mortes e destruição aumentam sem resultados efetivos, os
moderados tendem a ganhar força novamente para substituírem a
violência pelas negociações.
Durante a guerra, as identidades múltiplas tendem a
desaparecer, passando a predominar a que for mais relevante ao
conflito, quase sempre determinada pela religião, que
possibilita uma justificativa mais tranqüilizadora e forte
para a luta contra inimigos “sem deus”. É na comunidade
religiosa ou civilizacional que o grupo envolvido no conflito
encontra maior apoio, pois só podem receber assistência de
seus afins civilizacionais. É por isso que essas guerras são,
por definição, guerras locais entre grupos locais, mas com
conexões mais amplas, promovendo as identidades
civilizacionais entre os que delas participam.
Isso porque, cada lado do conflito é incentivado a enfatizar a
sua identidade civilizacional em oposição à do outro, o que
amplia a guerra local, pois cada grupo se vê combatendo não
apenas um outro grupo étnico local, mas outra civilização.
Dessa forma, a derrota significaria a necessidade de a própria
civilização congregar seu apoio no conflito, estendendo as
conseqüências dessas guerras a vários segmentos da humanidade,
uma vez que de locais, essas guerras passam a significar uma
guerra de religiões, um choque de civilizações.
Na medida em que essas guerras se intensificam, cabe a cada
lado depredar cada vez mais a imagem dos seus adversários, a
fim de que sejam tidos como subumanos, o que seria
suficientemente legítimo para exterminá-los. Dessa forma,
passam a ser justificáveis também assassinatos em massa,
torturas, estupros e expulsões de civis, tudo em nome da
segurança de uma civilização que é colocada em risco devido à
maldade da outra. Além disso, os símbolos e artefatos da
cultura adversária, como museus e bibliotecas, passam a ser
alvos, fazendo com que nessas guerras entre culturas, a
cultura sai perdendo.
Civilizações que se congregam: países afins e diásporas
No período pós-Guerra Fria, o conflito isolado de
superpotências deu lugar a inúmeros conflitos comunitários
que, envolvendo grupos de civilizações diferentes, tendem a se
expandir e entrar numa escalada, na medida em que cada lado
tenta congregar o apoio de países e grupos que pertencem à sua
civilização (seja oficial ou não, ostensivo ou clandestino,
material humano, diplomático, financeiro, simbólico ou
militar). Quanto maior for a duração do conflito, maior também
a tendência de países afins se envolverem nos papéis de apoio,
contenção e mediação, o que aumenta o potencial para a
escalada.
Nessas guerras, que se dão de baixo para cima, há três
diferentes níveis de envolvimento. No primeiro nível, estão os
Estados ou grupos locais que se combatem e matam uns aos
outros, no secundário, os Estados diretamente relacionados com
as partes primárias e no terciário, os Estados mais afastados
do combate em si, mas com laços civilizacionais com os
participantes, freqüentemente comportando os Estados-núcleos
de suas respectivas civilizações. A participação desses
Estados de diferentes níveis no conflito também é diferente:
apesar de apoiarem os participantes do primeiro nível, os
governos nos segundo e terceiro níveis têm interesse em conter
os combates e de não se envolver diretamente. Assim, tentam
conter os Estados de primeiro nível e induzi-los a moderar
seus objetivos, negociando com os Estados de níveis
correspondentes do outro lado para evitar que uma guerra loca
se torne mais ampla, envolvendo os Estados-núcleos.
Dessa forma, o apoio mais direto e forte aos participantes de
primeiro nível vêm das comunidades da diáspora que se
identificam intensamente com a causa de seus afins. Essas
comunidades podem ter um impacto relevante no desfecho da
guerra, já que contribuem com ajuda externa sob a forma de
dinheiro, armas ou voluntários que, mesmo em quantidades
modestas, são significativas dadas também as quantidades
reduzidas de armas e pessoas envolvidas no nível primário.
Como se param as guerras de linha de fratura
As guerras de linha de fratura são intermitentes, marcadas por
freqüentes tréguas, cessar-fogos, armistícios, mas raramente
terminam de modo permanente por tratado abrangentes de paz que
solucionam questões políticas fundamentais. Isso porque elas
têm raízes em conflitos profundos de linha de fratura que
provêm de proximidade geográfica, religiões e culturas
diferentes, estruturas sociais separadas e recordações
históricas das duas sociedades, envolvendo relações
antagônicas duradouras entre grupos de civilizações
diferentes. Esses conflitos podem desaparecer brutal e
rapidamente se um grupo extermina outro, mas, normalmente, o
conflito prossegue seguido de repetidos períodos de violência.
Mesmo as pausas temporárias nessas guerras dependem da
exaustão dos participantes primários e da participação de
outro nível com interesse e força para obrigar as partes em
luta a dialogarem. Chega um momento em que a quantidade
excessiva de mortos e refugiados e a grande destruição das
cidades. No entanto, essas paradas apenas habilitam ambos os
lados a descansarem e restaurarem suas forças e, quando um dos
lados se vê mais fortalecido, a guerra recomeça. Por isso, é
importante a mediação de participantes de outro nível que não
se deixem se envolver pelo distanciamento cultural, pelos
ódios intensos e pela violência mútua.
Os conflitos que envolvem países ou grupos com uma cultura
comum podem ser resolvidos por uma terceira parte
desinteressada que comungue dessa cultura, tendo a confiança
de ambas as partes para achar uma solução baseada nos valores
dessa cultura. O mesmo não acontece em conflitos que envolvem
culturas diferentes, pois para ambos os lados não há partes
desinteressadas que inspirem a confiança de ambos os lados.
Nem mesmo os organismos internacionais são aceitos, pois
carecem da capacidade de impor custos ou de oferecer
benefícios às partes.
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