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Discurso do presidente da
República, Luiz Inácio Lula da Silva, na solenidade comemorativa
aos 125 anos da imigração libanesa no Brasil
São
Paulo-SP, 31 de março de 2005
Como diria um matuto brasileiro,
eu vou suspender a minha nominata, porque tem muita gente e
todos já foram citados, para poder dedicar um pouco mais de
discurso aos companheiros libaneses. Peço desculpas.
Queria apenas citar o governador Geraldo Alckmin,
O prefeito José Serra,
E cumprimentar a todos os demais companheiros da mesa,
deputados, senadores,
Demais secretários de Estado,
Deputados estaduais,
Secretários municipais,
Vamos ver a nossa ligação com o
mundo árabe. Eu me chamo Silva; meu médico chama-se Kalil; meu
cirurgião chama-se Cutait; o hospital se chama Sírio-Libanês. Ao
mesmo tempo, para provar que eu sou amigo dos libaneses, eu fui
obrigado a assistir a morte de um carneiro, comer um coração
cru, tomar arak com hortelã e com pão sírio. E ainda tive que
comer outras coisas que eu não posso falar aqui.
Eu visitei o Líbano em dezembro de 2003. Quero confessar a
vocês, primeiro, um sonho: visitar o Líbano. Porque durante
muitos anos víamos na imprensa brasileira a guerra do Líbano, os
ataques que o Líbano sofria, a destruição do Líbano e a mais
extraordinária surpresa que eu tive foi de ver a alegria do povo
libanês, ou seja, o brasileiro que viaja para o Líbano não fará
diferença, a não ser da língua, da alegria do povo libanês para
o povo brasileiro. Não fará nenhuma diferença.
A arquitetura do Líbano é alegre. As coisas que têm no Líbano
são alegres, portanto, eu acho, meu querido representante do
presidente Lahoud, que o Líbano, que está sofrendo neste
momento, precisa continuar o seu processo de reconstrução. E,
dentro desse processo de reconstrução, o meu desejo de poder,
antes de terminar o meu mandato, inaugurar a Casa Brasil, em
Beirute, porque da mesma forma que os libaneses fazem parte da
cultura do Brasil, eu quero que o Brasil faça parte da cultura
libanesa, ou seja, é uma recíproca ao carinho que recebemos
durante muito tempo.
Depois, eu tive o prazer de receber aqui o presidente Lahoud, em
fevereiro de 2004, e receber o meu querido amigo Hariri, em
junho de 2003, aqui, no Brasil. Foi o primeiro momento, o
estreitamento da minha relação com as mais altas autoridades
libanesas. E, confesso a vocês, que o Líbano perdeu um grande
dirigente, perdeu um homem de bem, perdeu um homem que
acreditava na democracia, um homem que acreditava no Líbano, um
homem que acreditava nos valores do humanismo, nos valores mais
importantes que nós carregamos dentro de nós.
Eu penso que quem conheceu o Hariri, sabe perfeitamente bem o
que ele poderia representar para o processo democrático no
Oriente Médio, para o processo democrático no mundo árabe.
De qualquer forma, Deus é mais poderoso do que todos nós e
decide, às vezes, coisas que não temos como evitar. Mas, não
tenho dúvida de que, esteja ele onde estiver, estará pensando
que um dia o Oriente Médio poderá viver em paz, em
tranqüilidade, podendo usufruir da riqueza que Deus deu àquela
região do planeta Terra.
Eu não estou aqui para participar da comemoração dos 125 anos,
não sei se é só isso, não sei se já não tinham libaneses
infiltrados no navio em que Cabral chegou aqui... Também, nós
não tínhamos um serviço de inteligência naquela época, portanto,
não há nada registrado. Nem o Félix existia ainda.
Cento e vinte e cinco anos de imigração libanesa para o Brasil!
Venho a esta Casa celebrar um evento muito, mas muito especial.
Celebro a trajetória de um povo de múltiplos talentos e de
sentido empreendedor tão vasto quanto os oceanos que atravessou
ao longo de sua história. Os libaneses sempre foram uma nação
universal. Levaram sua energia e seus conhecimentos aos quatro
cantos do mundo. Mas reservaram carinho especial para o Brasil.
Aqui fizeram seu segundo lar. Só isso explica que no Brasil
existam duas vezes mais descendentes de libaneses do que a
população total do Líbano.
Os primeiros imigrantes vindos deste país chegaram ao Brasil
trazendo sonhos de construir uma nova vida, de liberdade e
dignidade. E ajudaram a construir, aqui, uma nova nação.
Ao longo de todos esses anos, contribuíram para enriquecer e
moldar nossa cultura. Integraram-se a todas as esferas da
sociedade brasileira. Espalharam-se por todo o país.
Acompanharam a expansão do Brasil.
Primeiro, como mascates, exploraram espaços desconhecidos de
nossa geografia. Depois, como engenheiros, médicos, escritores,
cientistas, empresários ou homens públicos, ampliaram nosso
horizonte cultural e político.
Os primeiros libaneses que chegaram ao Brasil trouxeram não
apenas sua força de trabalho e a vontade de vencer. Em sua
bagagem veio também um forte sentimento de tolerância que lhes
permitiu adaptar-se a um ambiente tão distinto de sua terra
natal. Sua solidariedade e hospitalidade se fundiram e
reforçaram a vocação brasileira para o entendimento, a
convivência e o espírito público. Essas virtudes explicam a
presença tão significativa dos libaneses na vida nacional.
Foram essas mesmas qualidades que levaram o imigrante libanês
Antônio Emílio Lopes a oferecer sua quinta a Dom João, quando da
chegada da família imperial ao Brasil, em 1808. Nessa mansão,
que se transformou no Paço Imperial do Rio de Janeiro, nasceu
Dom Pedro II. Esse episódio, possivelmente, explique porque
nosso imperador tenha visitado duas vezes o Líbano, que chamava
carinhosamente de o “País dos Cedros”. Movido pelo
reconhecimento da dívida que temos em relação à gente libanesa,
fui ao “País dos Cedros”.
Desde D. Pedro, um chefe de Estado brasileiro não visitava o
Líbano e o Oriente Médio.
Meus amigos e minhas amigas,
Queremos levar a todo o mundo um testemunho.
Que todos conheçam não apenas o papel dos libaneses para a
construção do Brasil, mas sobretudo o ambiente de harmonia e
tolerância entre raças e religiões que aqui ajudaram a forjar.
Assim como seus ancestrais que vieram para o Brasil, os
libaneses de hoje também estão dando um exemplo de maturidade
democrática em sua terra natal. Souberam cicatrizar as feridas e
transpor divisões acumuladas ao longo de 15 anos de conflito,
para alcançar a reconciliação política e a estabilização
econômica.
Quero prestar aqui uma homenagem ao saudoso primeiro ministro
Rafik Hariri. Recebi-o em Brasília e experimentei sua calorosa
hospitalidade em Beirute. Foi homem de diálogo e de visão.
Dedicou sua vida aos interesses de seu povo e aos valores
maiores da humanidade. Trouxe esperança a um povo oprimido pela
violência.
Sua ação política e empresarial lançou as bases do verdadeiro
renascimento que atualmente vive o Líbano. Sua generosidade e
otimismo oferecem resposta exemplar à insensatez e ao ódio
daqueles que recorrem à violência gratuita e indiscriminada.
Num mundo marcado pelas ameaças do armamentismo e do
fundamentalismo, os libaneses, no presente e no passado, são um
exemplo do quanto o mundo árabe contribuiu e pode contribuir
para os desafios de um mundo interdependente.
Não podemos aceitar uma visão distorcida dos povos do Oriente
Médio, que se alimenta de preconceitos e ignora a história. Que
se deixa influenciar pelo radicalismo intolerante de grupos
minoritários. Ela esquece a contribuição fundamental da cultura
e da ciência árabes para a civilização ocidental de que o Brasil
é parte.
Os comerciantes libaneses e os navegantes árabes, mais do que
quaisquer outros, difundiram o conhecimento que enriqueceu nossa
cultura ocidental. Trouxeram para o mundo europeu invenções
decisivas para a própria descoberta das Américas.
Com seu amor pelo conhecimento, preservaram para a posteridade a
sabedoria clássica. Foram os pais da primeira onda da
globalização, estabelecendo um diálogo cultural e comercial que
aproximou o Ocidente e o Oriente.
Estou convencido de que o Oriente Médio poderá voltar a
desempenhar esse papel de construtor de pontes entre
civilizações. E o Líbano está mostrando este caminho. O país
está se credenciando como facilitador do diálogo entre
palestinos e israelenses e elemento-chave na consolidação da paz
em toda a região.
Senhoras e senhores,
O Brasil, dentro de suas possibilidades, tem buscado apoiar
também esse processo de reincorporação plena do Mundo Árabe ao
convívio internacional. Esta é a mensagem fundamental que
queremos transmitir na Cúpula América do Sul - Países Árabes,
que vamos realizar, em Brasília, nos dias 10 e 11 de maio deste
ano. Ela oferecerá oportunidade para intensificar os vínculos e
lançar o diálogo entre os países latinos e árabes.
A lógica do diálogo, da cooperação e do comércio é a única
resposta capaz de suplantar a irracionalidade da violência e dos
extremismos.
Queremos que o Líbano seja nosso parceiro privilegiado nessa
nova aventura, iniciada por nossos patrícios, de encurtar
distâncias e ligar povos.
Conforme já disse em minha visita a Beirute, nós, brasileiros,
somos orgulhosos da madura democracia que conquistamos e do
ambiente de diversidade em que vivemos.
Os imigrantes libaneses trouxeram para o Brasil seu empenho por
uma sociedade justa, onde todos possam progredir por conta do
próprio esforço.
É esse também o empenho do meu governo. Estamos reduzindo as
desigualdades sociais e buscando, para todos os brasileiros,
condições de vida mais dignas.
Sei que podemos seguir contando com o entusiasmo, confiança e
espírito empreendedor dos descendentes de libaneses para
construir um país mais próspero, mais justo e, sobretudo, um
país de todos.
Tenho certeza também de que a comunidade libanesa no Brasil, de
que tanto nos orgulhamos, continuará a cumprir o papel essencial
de elo de ligação entre dois povos, duas culturas, dois mundos.
Meus amigos e minhas amigas,
Nós aprendemos na vida cotidiana que, nem sempre, aqueles que
estão mais próximos são verdadeiros companheiros. A história
cristã nos ensina que nem todo irmão é um bom companheiro. Abel
e Caim é o exemplo mais vivo disso. Mas também a história nos
ensina que todo bom companheiro sempre será um grande irmão. E,
eu acho que o que existe entre nós, brasileiros e libaneses, é
mais do que uma imigração: é uma cumplicidade. Porque, nós não
somos irmãos como Abel e Caim, nós somos companheiros de verdade
em busca de uma única causa: justiça social, liberdade e
democracia no mundo.
Muito obrigado e meus parabéns a todos os libaneses no Brasil.
Fonte:
Agência Brasil
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