Choques da Civilização

Análise

Dividindo à Mesa
Daniel Jesus

INTRODUÇÃO

Imaginemos uma reunião com representantes das principais nações do mundo. E que nesse encontro, estes distintos cavalheiros tenham uma semana para resolver três questões: o comércio internacional da soja, a Copa do Mundo de 2006, e a situação de uma pequena vila africana que precisa de auxílio internacional urgente, caso contrário, todos os moradores irão morrer em menos de um mês. Após uma semana de encontros exaustivos durante manhã, tarde, e até mesmo durante a noite, é bem provável que nossos ilustres representantes ainda estejam buscando condições para assinar um acordo interessante para todos da comercialização da soja. Um mês depois, talvez eles decidam remarcar a reunião sobre a soja. No segundo encontro, quem sabe eles firmem metas para entrar em vigor em algum mês de 2005. Num terceiro encontro, conversem sobre a Copa de 2006. E é lógico, não haveria mais a necessidade de um quarto encontro, afinal, a vila africana não precisava mais da ajuda deles.

Pode parecer alguma piada, mas a forma como nossos governantes e representantes de organizações internacionais lidam com os problemas da política internacional é algo próximo da estória acima. É difícil explicar como homens que estudaram nas melhores universidades de seus países, possuem todo o suporte econômico, comunicacional e tecnológico da atualidade possam se perder em meio as principais necessidades dos nossos tempos. Apoiados nos interesses econômicos, parecem esconder a dificuldade, ou a falta de interesse, de solucionar questões envolvendo a vida humana. Nos últimos anos, guerras localizadas em diferentes pontos do planeta têm tirado o sono dos maiores especialistas no assunto. Todas essas guerras fugiram ao controle do maior órgão internacional criado para resolvê-las, a ONU. Mas por que essa dificuldade de negociar com as nações?
Talvez a grande questão não seja conhecer apenas a nação como Estado, mas levar em conta o seu povo também. Na antigüidade, os povos iam às guerras lutar pela integridade da sua cultura, e isso fez os gregos combaterem, entre tantos, os persas. O Estado Nação conduz os homens à guerra para lutar por terras, petróleo, enfim, interesses do Estado. A política internacional se acostumou as resoluções assinadas, os acordos entre países, a vitória de um estado sobre outro. Desde a segunda guerra, havia um certo “consenso” quanto ao conceito de guerra justa, e os conflitos nos quais deveria se intervir imediatamente. Mesmo quando a opinião pública ia contra a ofensiva militar, os especialistas respaldavam de todas as maneiras a sua importância. Todavia, de alguns anos para cá, eles parecem ter perdido a certeza característica do seu discurso. Afinal, as guerras deixaram de envolver apenas questões de Estado, e passaram para o duelo entre interesses étnicos também. Muitas vezes, representadas por conflitos internos entre grupos que procuram se sobrepor à outros.

As questões internacionais da atualidade estão sendo mal interpretadas pelo desconhecimento do “outro”, pela falta de um profundo estudo etnológico. A etnologia é uma forma de se conhecer os grupos que se caracterizam por uma ligação cultural, sangüínea ou ideológica. E desse estudo é possível compreender um pouco mais como estes se relacionam com os grupos a sua volta. Com todas as diferenças e interesses, como absorver todas elas e não ferir, privilegiar ou subjugar a autodeterminação de um determinado grupo em relação ao outro? Essa é a grande questão que a etnologia vem estudando e procurando desvendar, se é que isso é possível. Entender uma cultura diferente e respeitá-la sem comparações com a nossa própria cultura pode ser uma tarefa mais complicada do que imaginamos. Se pensarmos que a ONU, a maior organização internacional, e os EUA, um país de liderança mundial, não conseguem compreender as diferenças do globo, o que pensar do restante? A ONU teve problemas em se posicionar nas últimas questões internacionais nas quais esteve envolvida, não soube como conciliar o interesse de todas as partes. Os EUA anunciaram ao mundo que estariam libertando diversos povos das mãos de tiranos e terroristas, mas hoje em dia não estão muito certo se essas pessoas gostariam desse tipo de “liberdade americana”.

A política internacional está relacionada à homens que se encontram para defender os interesses do seu próprio país. Mas infelizmente, isso vem limitando a sua área de atuação. Enquanto os fortes da Europa se reúnem em convenções luxuosas, os miseráveis da África se aglutinam para receber qualquer migalha que venha dos porões internacionais. A situação é conhecida, e parece até que já estamos acostumados a ela. Conhecer outras etnias é fundamental para saber onde estamos no mundo. E isso vale para todos nós. O problema é que num país onde as pessoas sofrem com educação, saúde, moradia, saneamento básico... fica difícil falar sobre etnologia. Mas essa consciência pode ser bem favorável até mesmo para quem luta para sobreviver dentro do seu próprio espaço. E daí surge a importância de movimentos como o Fórum de Porto Alegre, onde grupos se reúnem para conhecer seus objetivos e diferenças. Esse tipo de encontro fortalece pequenos grupos diferentes que lutam por melhorias comuns e o respeito por suas distinções. O mais interessante é que as culturas não são fixas, elas se modificam e interagem com outras culturas. A globalização dá a falsa impressão de que a cultura mundial é uma só, comum para todos os homens. Nos faz acreditar que todos bebemos o mesmo refrigerante e por isso vivemos iguais. Todavia, as culturas se isolam, e uma delas pode até acabar se perdendo nessa relação. Enquanto a interação equilibrada entre as culturas é saudável, enriquecedor e ecológico.

A ecologia pode ser muito bem empregada num sentido muito mais amplo do que estamos acostumados a vê-la. Ela é a interdependência fundamental entre todos os fenômenos e o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza.

MUNDO DIVIDIDO

A Segunda Guerra trouxe grandes mudanças ao mundo em todos os sentidos. Se as bombas e os conflitos deixaram marcas de destruição imediatas, a reorganização política do globo ainda está em processo. Por incrível que pareça, o processo anterior à guerra, de Imperialismo, deu início ao desmoronamento dos grandes impérios. Dali em diante, o Estado (a metrópole européia) estaria acima de qualquer império local. Se esse processo nos leva ao fim da Idade Média na Europa, grandes impérios orientais e africanos foram mutilados por decisões arbitrárias das potências européias no início do século passado. Nessa grande reforma agrária, a África foi repartida como uma colcha de retalhos. Linhas horizontais e verticais definiram grandes “fazendas” para as metrópoles. Na Índia, a festa foi ainda mais divertida, primeiro a Inglaterra juntou reinos distintos sobre sua bandeira. Mais tarde, um homem trancado num quarto dividiu o mapa e criou a Índia e o Paquistão. Agora, fica mais fácil entender o problema da Caxemira.

Hitler levou a Alemanha a lutar pela superioridade da raça ariana. Como resposta, o mundo se juntou para derrubá-lo. No final de 45, dois blocos repartiram o globo, capitalismo e comunismo. O primeiro bloco, defendia um modelo econômico antigo e voltado para o acúmulo de bens materiais. O segundo, era uma reação ao capitalismo, que visava um processo de mudança radical na estrutura da sociedade, com uma divisão social mais justa, voltada para os trabalhadores. Em pouco tempo, obrigadas ou não, a maior parte das nações mundiais se ligaram à um bloco ou outro. Ou pelo menos, escolheram um lado para o qual torcer.

Todas as individualidades foram suprimidas. O capitalismo espalha a liberdade através dos seus produtos enlatados para o mundo todo. E o comunismo padronizava a sociedade para manter a igualdade. Todos os grupos que se unissem através de cultura, raça ou língua estavam subjugados ao modelo econômico vigente em sua região. O mais importante durante boa parte do século XX foi a preservação de um determinado modelo econômico. Políticos eram tirados do poder, ditadores financiados, as táticas visavam a vitória de um bloco sobre o outro. O mundo capitalista cheio de diferenças e disparidades reunia EUA e México como membros de um mundo livre. Enquanto o bloco comunista tinha como símbolo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, diversos países pelo mesmo objetivo. Grupos étnicos não importavam, a única coisa relevante era saber de que lado estavam, do lado deles ou do nosso lado.

MOVIDO PELO MEDO

Durante cerca de setenta anos, o fantasma da revolução social e o poderio militar russo atemorizaram os governos ocidentais. A política internacional se resumia ao confronto contra a ameaça soviética. A OTAN é a prova mais concreta desse medo de um ataque nuclear russo, o que diga-se de passagem, nunca teve base na realidade. O capitalismo sofreu fortes golpes no século passado, mas ironicamente, parece ter se mantido firme graças ao socialismo.

A lista dos problemas enfrentados pela burguesia é extensa, mas vamos ficar com apenas alguns exemplos: duas guerras mundiais, quebra da bolça de 29, instauração do regime comunista sobre um terço da população mundial. A Alemanha nazista atacava duramente o regime liberal, por pouco o mundo desenvolvido capitalista liberal não se limita aos EUA. Todavia, o Exército Vermelho foi fundamental para derrubar o nazismo e preservar a Europa ocidental do fascismo. Enquanto o capitalismo procurava resolver a crise, políticos iam a Moscou aprender lições de economia. A palavra plano, tão comum para os projetos governamentais soviéticos, já está incutida na política ocidental. Durante esses anos, o socialismo parecia crescer bem mais rápido que o capitalismo. Se os países desenvolvidos ficavam preocupados com essa situação, os subdesenvolvidos admiravam os avanços na saúde e educação do bloco comunista.

O mundo capitalista se viu obrigado a reformar a casa. Os comunistas, ameaça social, foram perseguidos, e os governantes passaram a se concentrar na previdência e no bem-estar social, dinheiro para os pobres e emprego pleno. Foram anos de distribuição de renda e ganhos trabalhistas sem precedentes. De alguma forma, Stalin foi bom para o povo Ocidental. Se todos estivessem satisfeitos, ninguém ousaria fazer uma revolução social. E a tática deu certo, mesmo que movida pelo medo. É bem verdade, que essa lógica não foi empregada no mundo subdesenvolvido, e por esse motivo, o discurso social e o medo de revoltas populares ainda é tão forte nessa região. Enquanto os trabalhadores europeus lutam para reduzir a jornada de trabalho, os sul-americanos ainda lutam por empregos.

COMUNISMO: ASCENSÃO E QUEDA

A Revolução Russa é um marco na história da humanidade. Pois, ela afetou diretamente todo o sistema internacional. Ludwig von Mises, reconhecidamente contrário ao comunismo referiu-se ao socialismo como, “o movimento de reforma mais poderoso jamais ocorrido na história, a primeira tendência ideológica que não se limitou a um segmento da humanidade, mas contou com o apoio de todas as raças, nações, religiões e civilizações”. Países se unirem em prol ou contra o comunismo, mas ele era o tema central. O capitalismo precisou se modificar para enfrentar a ameaça vermelha. O proletariado mostrava sua força e tinha a oportunidade de criar um mundo melhor para todos, mais igual e justo. Todavia, a idéia comum a qualquer governante acabou prevalecendo, controle. Para manter a estabilidade econômica e gerar o desenvolvimento, o governo acabou controlando todas as formas de produção, a área política, econômica, social e enquadrou o povo em regras de conduta. A igualdade tinha seu preço.

Os socialistas atuais têm consciência de que a Rússia perdeu o rumo da Revolução em vários pontos. O controle absoluto do Estado não é a forma mais eficiente de se promover o desenvolvimento do coletivo. A pluralidade de partidos e instituições não diluem o poder do Estado, mas o reforçam perante a sociedade. Além do mais, revoluções tendem a não ter o mesmo impacto quando impostas por uma força externa, carecem de legitimidade, a Polônia foi um exemplo. Os países do Leste Europeu ainda não eram suficientemente desenvolvidos economicamente para arcar os custos de uma reorganização social. Outras nações enfrentaram duras guerras internas e nunca haviam experimentado uma forma democrática de governo.

Marx e Engels haviam feito uma série de ressalvas quanto as dificuldades do projeto comunista, mas na prática esses avisos parecem ter sido ignorados. O socialismo tinha de ajustar as diferenças do capitalismo e não apenas mudar a forma do controle, tirar da burguesia e passá-la para um corpo burocrático representativo do proletariado. O controle é fundamental nessa mediação, mas não a opressão utilizada pelos comunistas. As relações sociais têm que ser entendidas como algo mais complexo do que uma negociação entre patrão e empregado.

Em sua campanha presidencial de 88, Bush pai desejou ver “uma América mais bondosa e amável”. As pessoas gostam dessa preocupação humanitária. Agora, se Bush viu essa América ou não já é outra história. Ralph Miliband enfatiza que “um dos piores aspectos dos regimes comunistas tem sido a sua aparente indiferença aos valores humanos, sua insensibilidade burocrática, seu recurso à ação arbitrária”. E essa idéia de controle e opressão marcaram o regime soviético e o mundo comunista de tal forma, que o fim do comunismo foi encarado como uma luta pela liberdade. Norberto Bobbio escreveu sobre as quatro liberdades reivindicadas simultaneamente no final do comunismo. A liberdade no sentido de democracia, referente ao homem moderno tem quatro aspectos que surgiram com as conquistas da sociedade: a liberdade individual (direito de não ser preso arbitrariamente e de ser julgado a partir de regras definidas); liberdade de imprensa e opinião; liberdade de reunião; e por fim, liberdade de associação, o direito de formar sindicatos e partidos livres do governo. E todas elas resultam na liberdade política que garante o cidadão o direito de participar das decisões coletivas que lhe dizem respeito. Todas elas parecem ter faltado ao mundo comunista.

Um aspecto extremamente relevante é que mesmo com o fim do bloco comunista, ficaram as seqüelas. Diversos ensaios sobre o mundo depois da queda do muro de Berlim se limitaram ao aspecto econômico da história, ao homem enquanto empregado e peça de um sistema máquina de produção. Como exemplo, o excelente livro, “Depois da Queda” (Ed. Paz e Terra), organizado por Robin Blackburn, trás ensaios de doze intelectuais que expõem o seu ponto de vista sobre o colapso do comunismo a partir de 1989. Todos eles refletem sobre o processo de ascensão e queda do modelo comunista. Os textos trazem palavras chaves como: mercado; produção; proletário; bens; economia; estado; sindicato; capitalismo; e socialismo. Mas onde estão cultura, multidão e etnologia? O futuro dos pequenos grupos étnicos da ex-URSS, a modificação em sua cultura, o estado do povo russo nessa fragmentação política não parece ter aguçado a curiosidade. Vivemos na era do mercado, as suas leis e interesses prevalecem. A ecologia ainda é um processo. Atualmente, os jornais estão incertos quando escrevem sobre a China, que cresce a passos largos na economia, mas pouco se sabe sobre os chineses. Eufóricos, os homens de negócio desejam criar bases naquele imenso mercado econômico em expansão. Enquanto os estudiosos ainda tentam entender como políticas e posturas antagônicas funcionam nesse país.

NOVOS OBJETIVOS

Atualmente, três características remexeram todo o sistema: o definhar do Estado; o internacionalismo; e a igualdade. Poucos acreditam que o capitalismo liberal venha a prosperar mais que o comunismo. O capitalismo ganhou tempo, mas não é definitivo. O Estado ainda é o maior protetor da economia nacional, mas vem dando sinais de fraqueza nesse processo. As comunidades ou grandes blocos econômicos de Estados estão se tornando necessárias para que todos possam caminhar pra frente. Essa troca de postura, a cooperação ao invés da competição, está sendo gradual mas já parece ter sido absorvida pela maioria. Afinal, muitos países se chocaram com a postura autoritária e protecionista que o atual governo americano vem adotando em diversas áreas. Esses blocos reforçam a ação internacional. A comunidade européia abriu a porta para empresas e de quebra permitiu a passagem de cultura, conhecimento, informação, idéias entre os seus países membros. O resultado dessa abertura pode ser uma igualdade diferente daquela pregada pela globalização. Para que os mais ricos possam crescer e garantir as suas riquezas, os mais pobres também devem crescer. Esse pensamento simples pode garantir a todos, sem distinção, condições básicas de educação, saúde... evitando gastos extraordinários com segurança, saúde, saneamento básico... A Comunidade Européia equilibrou os países membros e evitou que os espanhóis corressem para Alemanha em busca de melhores salários.

Fazer a divisão de riquezas não é tarefa simples nem imediata. A simples divisão igualitária entre membros de uma mesma comunidade talvez deixasse muitos mais pobres e não resolvesse o problema em definitivo. A política internacional tem hoje um outro problema a roubar-lhe o sono. Dezenas de países do terceiro mundo não conseguirão em hipótese alguma reverter o quadro de miséria em que se encontram. Apoiá-los requer investir quantidades absurdas de dinheiro sem se preocupar com o retorno financeiro, um pensamento que não faz parte do mercado. Abandoná-los a própria sorte e ignorá-los pode ser mais fácil e mais barato, pode ser. Todavia, imigrantes e terroristas se fazem impossíveis de serem ignorados e representam custos altíssimos para os países ricos. Ou seja, querendo ou não, uma hora os ricos terão de gastar dinheiro com os pobres. E quanto mais se evitar o investimento na igualdade, mais caro será o processo de isolamento. Seguindo essa linha, Jürgen Habermas escreveu:

“A esperança da humanidade de emancipar-se da sua incapacidade – da qual ela mesma tem culpa – e de circunstâncias vergonhosas da vida, não perdeu a sua força. Mas purificou-se através da consciência da falibilidade e da percepção histórica de que muito já teria sido alcançado se um equilíbrio suportável para os desfavorecidos fosse mantido – e sobretudo se esse equilíbrio pudesse ser estabelecido nos continentes destruídos.”

A ecologia (no sentido da preservação da natureza) vem avisando que os recursos globais não resistirão muito tempo a exploração do mercado. A ecologia (cultural) é um meio equilibrado de se preservar todas as partes. Os movimentos de oposição (sindicais, políticos ou de classe) vão precisar desse equilíbrio para atrair membros. Enquanto o homem do terceiro mundo ainda luta por direitos tradicionais requeridos por esses movimentos, mas já mostra sinais de cansaço e evasão. O homem do mundo desenvolvido, principalmente os jovens, o chamado proletariado pós-industrial tem novos objetivos. Esse trabalhador é desempregado, trabalha ocasionalmente, por temporada ou em tempo parcial. Não pode nem quer se identificar com o seu trabalho ou lugar no processo de produção. Boa parte dessas pessoas não quer um emprego tradicional. O trabalho está destinado a uma pequena parcela da vida dessas pessoas, elas querem aproveitar outras atividades sociais, ter mais autonomia e criatividade no trabalho, mesmo que isso signifique menores rendimentos. Os jovens buscam uma identidade profissional derivada da “auto-realização”, uma atividade criativa e socialmente útil. A competição do mercado perde espaço para o equilíbrio e a liberdade individual.

ANEXO: CRENÇAS PRÓPRIAS

É comum ouvirmos, principalmente no Brasil, uma série de revelações sobre as “verdadeiras” intenções dos EUA na região do Golfo. Muitos falam de interesses financeiros, desejo de tomar o controle das maiores reservas de petróleo mundial, e que no fundo, esse movimento contra o “eixo do mal” não passa de uma verdadeira fachada. Na verdade, esse se tornou o discurso comum no Brasil, e quem afirmar o contrário corre o risco de ser enviado pro Iraque apoiar as tropas americanas. Mas será que nós conhecemos suficientemente a cultura americana para fazermos afirmações tão certeiras assim? Pois, se querem saber, temos diferenças culturais bem fortes. Apesar de assistirmos Friends, calçarmos Nike, e adorarmos as batatas do McDonalds, nossa cultura (católica, portuguesa, com influências africanas e francesas) é bem diferente da cultura (protestante, anglo-saxônica, com influências germânicas) deles. O interesse econômico condiz com a invasão iraquiana, mas e o Afeganistão, e os avisos à Coréia do Norte?

Muito de um país pode ser revelado a partir da sua produção cultural. O cinema norte-americano é a maior vitrine dessa cultura, e nele é claramente expressa essa idéia de salvação e proteção mundial por parte americana. A atual política internacional dos EUA parece cada vez mais isolada do sistema internacional. Ela atua por vontade própria, para proteger o mundo, não existe mais o diálogo para saber se o mundo quer esse tipo de proteção.

Se um país acredita que a liberdade está ligada ao progresso econômico. Se ele acredita que deve ajudar o mundo, e que ele é o maior dentro dos seus parâmetros, ele vai lutar para que o mundo seja uma cópia sua, dentro dos limites que a relação de mercado sempre impôs: um deve ser mais forte que o outro. Colocando em pratos limpos, libertar o Iraque significa inseri-lo dentro desse modelo, e com certeza, isso significa utilizar o petróleo ali existente de forma mais segura ao interesse do capitalismo ocidental. Não me julguem como defensor desse modelo, isso serve para mostrar que ele faz sentido e vai muito além de uma conspiração maléfica para dominar as reservas energéticas. Ele está ligado a uma cultura que desconhece profundamente as outras culturas. E essa está longe de ser uma característica exclusiva da cultura norte-americana, ou será que nós brasileiros conhecemos profundamente os índios da Amazônia ou nossos vizinhos latino-americanos? Se alguém dúvida dessa opinião, saiba que não a tomei por admiração aos EUA, mas da Conferência Pattens de 66, na universidade de Indiana, proferida pelo professor convidado Dexter Perkins para professores e alunos, organizada em livro, “A Diplomacia de Uma Nova Era” (ed. Record). Essa pode não ser a opinião majoritária nos EUA, mas pelo menos é uma opinião acadêmica e se parece bem próxima com a implementada pela política internacional do governo americano. Como exemplo, vejamos as suas considerações sobre a América Latina (pg.155)

“Os mercados norte-americanos são indispensáveis; mas os termos do comércio são um motivo freqüente de irritação. As principais exportações dos estados latino-americanos são de matérias-primas, cujos preços têm sido historicamente sujeitos a freqüentes e às vezes violentas oscilações. Não podemos, é claro, ser culpados por isso, mas nós somos criticados quando a alta de preços nos Estados Unidos aumenta o custo dos artigos que a América Latina compra neste país, enquanto o declínio nos preços das matérias-primas que os estados latino-americanos vendem resulta em perda nas suas exportações.

Além do mais, existe uma lenda, não necessariamente restrita à América Latina de que o capitalismo norte-americano é uma ameaça para o desenvolvimento de outros países. Eu digo “lenda” porque a exportação de capital norte-americano para países estrangeiros tem feito mais bem do que mal. (Os canadenses podem ser testemunhas disso). No entanto não é estranho que algumas repúblicas do sul, especialmente as mais pobres, encarem com certa apreensão o poderio dos homens de negócios norte-americanos como justificativa para sua atitude. Pode-se dizer com razão, atualmente, que o certo para a América Latina seria acolher o capital norte-americano, regulamentá-lo e tributá-lo ao ponto de atender aos interesses do estado recebedor; mas razão nem sempre impera, e não tem sido difícil para a propaganda de esquerda influir no espírito latino-americano.

A hostilidade ao capital norte-americano, onde existe, é reforçada pela situação social de muitos, ou talvez da maioria dos países latino-americanos. O abismo existente entre ricos e pobres na maioria desses países, o egoísmo de muitos elementos das classes dominantes, tomados como um todo (é claro que existem muitos casos de preocupação individual), a miséria dos cortiços nas cidades e das condições de vida dos camponeses – tudo isso é um campo fértil para a inquietação, que encontra nos Estados Unidos um alvo de desconfiança, aversão, ou até mesmo ódio. Não podemos dizer que esse sentimento seja característico da maioria; mas existe numa minoria e pode ser manipulado pelos que buscam mudanças sociais drásticas. Portanto um dos temas desse capitulo será a questão do que já foi feito, para ajudar as nações do sul no desenvolvimento de suas economias e sua ordem social.”

Dexter inicia o livro explicando que o povo americano sempre foi um povo pacífico e dedicado aos seus problemas locais. Mas as constantes revoluções sociais, as guerras mundiais e a irresponsabilidade comunista lhes obrigou a tomar a frente do cenário mundial e levar ao mundo as suas lições de paz e prosperidade. Seus exemplos passam por números que demonstram como o exército americano nunca foi uma prioridade até a segunda guerra mundial. A partir dali, a sua ajuda internacional foi fundamental para a recuperação do mundo ocidental, e durante a guerra fria, o mais importante era evitar com que os abusos do comunismo chegassem ao mundo livre. Apesar de que, para Dexter, o grande responsável pelas brutalidades da União Soviética era Stalin, afinal a Rússia “tinha uma população dócil, que se submetia a drásticas medidas de controle”. Suas análises internacionais chegam até o Brasil na época da ditadura: “É verdade que no Brasil, depois de um período de inflação desenfreada e de esquerda irresponsável, um governo militar tem procurado abrir caminho para uma ordem econômica mais radical.”

Em seu último capítulo, o professor Perkins traça um panorama das ações americanas no mundo e conclui a importância de todas essas ações para a constituição do mundo livre, seja quais forem as suas conseqüências imediatas. O que para muitos brasileiros pode soar como ironia, não é um livro provocativo escrito para desmoralizar o mundo diante dos EUA. É fruto da pesquisa de uma autoridade, reconhecida internacionalmente, em história da diplomacia norte-americana, autor de diversos livros, formado por Cambridge e presidente do Conselho da Fundação Harvard de 1951 a 1956. Mas será que ele está certo? E também, será que está errado? Para muitos, ele pode ser considerado louco. Mas será que a atual política internacional norte-americana parece ter posições diferentes das apresentadas pelo professor Perkins? Uma ideologia pode acreditar e defender o que pode ser um absurdo para outra. Isso se torna preocupante quando vai além dos limites da sua fronteira e essa idéia é imposta para todos. Então, agora mais do que nunca, vale rezar para que a crença norte-americana funcione o mais rápido possível. “Deus Salve a América” e ilumine sua política internacional, ou nós estamos roubados.

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