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Choques da
Civilização |
Análise |
Dividindo à Mesa
Daniel Jesus
INTRODUÇÃO
Imaginemos uma reunião com
representantes das principais nações do mundo. E que nesse
encontro, estes distintos cavalheiros tenham uma semana para
resolver três questões: o comércio internacional da soja, a
Copa do Mundo de 2006, e a situação de uma pequena vila
africana que precisa de auxílio internacional urgente, caso
contrário, todos os moradores irão morrer em menos de um mês.
Após uma semana de encontros exaustivos durante manhã, tarde,
e até mesmo durante a noite, é bem provável que nossos
ilustres representantes ainda estejam buscando condições para
assinar um acordo interessante para todos da comercialização
da soja. Um mês depois, talvez eles decidam remarcar a reunião
sobre a soja. No segundo encontro, quem sabe eles firmem metas
para entrar em vigor em algum mês de 2005. Num terceiro
encontro, conversem sobre a Copa de 2006. E é lógico, não
haveria mais a necessidade de um quarto encontro, afinal, a
vila africana não precisava mais da ajuda deles.
Pode parecer alguma piada,
mas a forma como nossos governantes e representantes de
organizações internacionais lidam com os problemas da política
internacional é algo próximo da estória acima. É difícil
explicar como homens que estudaram nas melhores universidades
de seus países, possuem todo o suporte econômico,
comunicacional e tecnológico da atualidade possam se perder em
meio as principais necessidades dos nossos tempos. Apoiados
nos interesses econômicos, parecem esconder a dificuldade, ou
a falta de interesse, de solucionar questões envolvendo a vida
humana. Nos últimos anos, guerras localizadas em diferentes
pontos do planeta têm tirado o sono dos maiores especialistas
no assunto. Todas essas guerras fugiram ao controle do maior
órgão internacional criado para resolvê-las, a ONU. Mas por
que essa dificuldade de negociar com as nações?
Talvez a grande questão não seja conhecer apenas a nação como
Estado, mas levar em conta o seu povo também. Na antigüidade,
os povos iam às guerras lutar pela integridade da sua cultura,
e isso fez os gregos combaterem, entre tantos, os persas. O
Estado Nação conduz os homens à guerra para lutar por terras,
petróleo, enfim, interesses do Estado. A política
internacional se acostumou as resoluções assinadas, os acordos
entre países, a vitória de um estado sobre outro. Desde a
segunda guerra, havia um certo “consenso” quanto ao conceito
de guerra justa, e os conflitos nos quais deveria se intervir
imediatamente. Mesmo quando a opinião pública ia contra a
ofensiva militar, os especialistas respaldavam de todas as
maneiras a sua importância. Todavia, de alguns anos para cá,
eles parecem ter perdido a certeza característica do seu
discurso. Afinal, as guerras deixaram de envolver apenas
questões de Estado, e passaram para o duelo entre interesses
étnicos também. Muitas vezes, representadas por conflitos
internos entre grupos que procuram se sobrepor à outros.
As questões internacionais da
atualidade estão sendo mal interpretadas pelo desconhecimento
do “outro”, pela falta de um profundo estudo etnológico. A
etnologia é uma forma de se conhecer os grupos que se
caracterizam por uma ligação cultural, sangüínea ou
ideológica. E desse estudo é possível compreender um pouco
mais como estes se relacionam com os grupos a sua volta. Com
todas as diferenças e interesses, como absorver todas elas e
não ferir, privilegiar ou subjugar a autodeterminação de um
determinado grupo em relação ao outro? Essa é a grande questão
que a etnologia vem estudando e procurando desvendar, se é que
isso é possível. Entender uma cultura diferente e respeitá-la
sem comparações com a nossa própria cultura pode ser uma
tarefa mais complicada do que imaginamos. Se pensarmos que a
ONU, a maior organização internacional, e os EUA, um país de
liderança mundial, não conseguem compreender as diferenças do
globo, o que pensar do restante? A ONU teve problemas em se
posicionar nas últimas questões internacionais nas quais
esteve envolvida, não soube como conciliar o interesse de
todas as partes. Os EUA anunciaram ao mundo que estariam
libertando diversos povos das mãos de tiranos e terroristas,
mas hoje em dia não estão muito certo se essas pessoas
gostariam desse tipo de “liberdade americana”.
A política internacional está
relacionada à homens que se encontram para defender os
interesses do seu próprio país. Mas infelizmente, isso vem
limitando a sua área de atuação. Enquanto os fortes da Europa
se reúnem em convenções luxuosas, os miseráveis da África se
aglutinam para receber qualquer migalha que venha dos porões
internacionais. A situação é conhecida, e parece até que já
estamos acostumados a ela. Conhecer outras etnias é
fundamental para saber onde estamos no mundo. E isso vale para
todos nós. O problema é que num país onde as pessoas sofrem
com educação, saúde, moradia, saneamento básico... fica
difícil falar sobre etnologia. Mas essa consciência pode ser
bem favorável até mesmo para quem luta para sobreviver dentro
do seu próprio espaço. E daí surge a importância de movimentos
como o Fórum de Porto Alegre, onde grupos se reúnem para
conhecer seus objetivos e diferenças. Esse tipo de encontro
fortalece pequenos grupos diferentes que lutam por melhorias
comuns e o respeito por suas distinções. O mais interessante é
que as culturas não são fixas, elas se modificam e interagem
com outras culturas. A globalização dá a falsa impressão de
que a cultura mundial é uma só, comum para todos os homens.
Nos faz acreditar que todos bebemos o mesmo refrigerante e por
isso vivemos iguais. Todavia, as culturas se isolam, e uma
delas pode até acabar se perdendo nessa relação. Enquanto a
interação equilibrada entre as culturas é saudável,
enriquecedor e ecológico.
A ecologia pode ser muito bem
empregada num sentido muito mais amplo do que estamos
acostumados a vê-la. Ela é a interdependência fundamental
entre todos os fenômenos e o perfeito entrosamento dos
indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da
natureza.
MUNDO DIVIDIDO
A Segunda Guerra trouxe
grandes mudanças ao mundo em todos os sentidos. Se as bombas e
os conflitos deixaram marcas de destruição imediatas, a
reorganização política do globo ainda está em processo. Por
incrível que pareça, o processo anterior à guerra, de
Imperialismo, deu início ao desmoronamento dos grandes
impérios. Dali em diante, o Estado (a metrópole européia)
estaria acima de qualquer império local. Se esse processo nos
leva ao fim da Idade Média na Europa, grandes impérios
orientais e africanos foram mutilados por decisões arbitrárias
das potências européias no início do século passado. Nessa
grande reforma agrária, a África foi repartida como uma colcha
de retalhos. Linhas horizontais e verticais definiram grandes
“fazendas” para as metrópoles. Na Índia, a festa foi ainda
mais divertida, primeiro a Inglaterra juntou reinos distintos
sobre sua bandeira. Mais tarde, um homem trancado num quarto
dividiu o mapa e criou a Índia e o Paquistão. Agora, fica mais
fácil entender o problema da Caxemira.
Hitler levou a Alemanha a
lutar pela superioridade da raça ariana. Como resposta, o
mundo se juntou para derrubá-lo. No final de 45, dois blocos
repartiram o globo, capitalismo e comunismo. O primeiro bloco,
defendia um modelo econômico antigo e voltado para o acúmulo
de bens materiais. O segundo, era uma reação ao capitalismo,
que visava um processo de mudança radical na estrutura da
sociedade, com uma divisão social mais justa, voltada para os
trabalhadores. Em pouco tempo, obrigadas ou não, a maior parte
das nações mundiais se ligaram à um bloco ou outro. Ou pelo
menos, escolheram um lado para o qual torcer.
Todas as individualidades
foram suprimidas. O capitalismo espalha a liberdade através
dos seus produtos enlatados para o mundo todo. E o comunismo
padronizava a sociedade para manter a igualdade. Todos os
grupos que se unissem através de cultura, raça ou língua
estavam subjugados ao modelo econômico vigente em sua região.
O mais importante durante boa parte do século XX foi a
preservação de um determinado modelo econômico. Políticos eram
tirados do poder, ditadores financiados, as táticas visavam a
vitória de um bloco sobre o outro. O mundo capitalista cheio
de diferenças e disparidades reunia EUA e México como membros
de um mundo livre. Enquanto o bloco comunista tinha como
símbolo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas,
diversos países pelo mesmo objetivo. Grupos étnicos não
importavam, a única coisa relevante era saber de que lado
estavam, do lado deles ou do nosso lado.
MOVIDO PELO MEDO
Durante cerca de setenta
anos, o fantasma da revolução social e o poderio militar russo
atemorizaram os governos ocidentais. A política internacional
se resumia ao confronto contra a ameaça soviética. A OTAN é a
prova mais concreta desse medo de um ataque nuclear russo, o
que diga-se de passagem, nunca teve base na realidade. O
capitalismo sofreu fortes golpes no século passado, mas
ironicamente, parece ter se mantido firme graças ao
socialismo.
A lista dos problemas
enfrentados pela burguesia é extensa, mas vamos ficar com
apenas alguns exemplos: duas guerras mundiais, quebra da bolça
de 29, instauração do regime comunista sobre um terço da
população mundial. A Alemanha nazista atacava duramente o
regime liberal, por pouco o mundo desenvolvido capitalista
liberal não se limita aos EUA. Todavia, o Exército Vermelho
foi fundamental para derrubar o nazismo e preservar a Europa
ocidental do fascismo. Enquanto o capitalismo procurava
resolver a crise, políticos iam a Moscou aprender lições de
economia. A palavra plano, tão comum para os projetos
governamentais soviéticos, já está incutida na política
ocidental. Durante esses anos, o socialismo parecia crescer
bem mais rápido que o capitalismo. Se os países desenvolvidos
ficavam preocupados com essa situação, os subdesenvolvidos
admiravam os avanços na saúde e educação do bloco comunista.
O mundo capitalista se viu
obrigado a reformar a casa. Os comunistas, ameaça social,
foram perseguidos, e os governantes passaram a se concentrar
na previdência e no bem-estar social, dinheiro para os pobres
e emprego pleno. Foram anos de distribuição de renda e ganhos
trabalhistas sem precedentes. De alguma forma, Stalin foi bom
para o povo Ocidental. Se todos estivessem satisfeitos,
ninguém ousaria fazer uma revolução social. E a tática deu
certo, mesmo que movida pelo medo. É bem verdade, que essa
lógica não foi empregada no mundo subdesenvolvido, e por esse
motivo, o discurso social e o medo de revoltas populares ainda
é tão forte nessa região. Enquanto os trabalhadores europeus
lutam para reduzir a jornada de trabalho, os sul-americanos
ainda lutam por empregos.
COMUNISMO: ASCENSÃO E QUEDA
A Revolução Russa é um marco
na história da humanidade. Pois, ela afetou diretamente todo o
sistema internacional. Ludwig von Mises, reconhecidamente
contrário ao comunismo referiu-se ao socialismo como, “o
movimento de reforma mais poderoso jamais ocorrido na
história, a primeira tendência ideológica que não se limitou a
um segmento da humanidade, mas contou com o apoio de todas as
raças, nações, religiões e civilizações”. Países se unirem em
prol ou contra o comunismo, mas ele era o tema central. O
capitalismo precisou se modificar para enfrentar a ameaça
vermelha. O proletariado mostrava sua força e tinha a
oportunidade de criar um mundo melhor para todos, mais igual e
justo. Todavia, a idéia comum a qualquer governante acabou
prevalecendo, controle. Para manter a estabilidade econômica e
gerar o desenvolvimento, o governo acabou controlando todas as
formas de produção, a área política, econômica, social e
enquadrou o povo em regras de conduta. A igualdade tinha seu
preço.
Os socialistas atuais têm
consciência de que a Rússia perdeu o rumo da Revolução em
vários pontos. O controle absoluto do Estado não é a forma
mais eficiente de se promover o desenvolvimento do coletivo. A
pluralidade de partidos e instituições não diluem o poder do
Estado, mas o reforçam perante a sociedade. Além do mais,
revoluções tendem a não ter o mesmo impacto quando impostas
por uma força externa, carecem de legitimidade, a Polônia foi
um exemplo. Os países do Leste Europeu ainda não eram
suficientemente desenvolvidos economicamente para arcar os
custos de uma reorganização social. Outras nações enfrentaram
duras guerras internas e nunca haviam experimentado uma forma
democrática de governo.
Marx e Engels haviam feito
uma série de ressalvas quanto as dificuldades do projeto
comunista, mas na prática esses avisos parecem ter sido
ignorados. O socialismo tinha de ajustar as diferenças do
capitalismo e não apenas mudar a forma do controle, tirar da
burguesia e passá-la para um corpo burocrático representativo
do proletariado. O controle é fundamental nessa mediação, mas
não a opressão utilizada pelos comunistas. As relações sociais
têm que ser entendidas como algo mais complexo do que uma
negociação entre patrão e empregado.
Em sua campanha presidencial
de 88, Bush pai desejou ver “uma América mais bondosa e
amável”. As pessoas gostam dessa preocupação humanitária.
Agora, se Bush viu essa América ou não já é outra história.
Ralph Miliband enfatiza que “um dos piores aspectos dos
regimes comunistas tem sido a sua aparente indiferença aos
valores humanos, sua insensibilidade burocrática, seu recurso
à ação arbitrária”. E essa idéia de controle e opressão
marcaram o regime soviético e o mundo comunista de tal forma,
que o fim do comunismo foi encarado como uma luta pela
liberdade. Norberto Bobbio escreveu sobre as quatro liberdades
reivindicadas simultaneamente no final do comunismo. A
liberdade no sentido de democracia, referente ao homem moderno
tem quatro aspectos que surgiram com as conquistas da
sociedade: a liberdade individual (direito de não ser preso
arbitrariamente e de ser julgado a partir de regras
definidas); liberdade de imprensa e opinião; liberdade de
reunião; e por fim, liberdade de associação, o direito de
formar sindicatos e partidos livres do governo. E todas elas
resultam na liberdade política que garante o cidadão o direito
de participar das decisões coletivas que lhe dizem respeito.
Todas elas parecem ter faltado ao mundo comunista.
Um aspecto extremamente
relevante é que mesmo com o fim do bloco comunista, ficaram as
seqüelas. Diversos ensaios sobre o mundo depois da queda do
muro de Berlim se limitaram ao aspecto econômico da história,
ao homem enquanto empregado e peça de um sistema máquina de
produção. Como exemplo, o excelente livro, “Depois da Queda”
(Ed. Paz e Terra), organizado por Robin Blackburn, trás
ensaios de doze intelectuais que expõem o seu ponto de vista
sobre o colapso do comunismo a partir de 1989. Todos eles
refletem sobre o processo de ascensão e queda do modelo
comunista. Os textos trazem palavras chaves como: mercado;
produção; proletário; bens; economia; estado; sindicato;
capitalismo; e socialismo. Mas onde estão cultura, multidão e
etnologia? O futuro dos pequenos grupos étnicos da ex-URSS, a
modificação em sua cultura, o estado do povo russo nessa
fragmentação política não parece ter aguçado a curiosidade.
Vivemos na era do mercado, as suas leis e interesses
prevalecem. A ecologia ainda é um processo. Atualmente, os
jornais estão incertos quando escrevem sobre a China, que
cresce a passos largos na economia, mas pouco se sabe sobre os
chineses. Eufóricos, os homens de negócio desejam criar bases
naquele imenso mercado econômico em expansão. Enquanto os
estudiosos ainda tentam entender como políticas e posturas
antagônicas funcionam nesse país.
NOVOS OBJETIVOS
Atualmente, três
características remexeram todo o sistema: o definhar do
Estado; o internacionalismo; e a igualdade. Poucos acreditam
que o capitalismo liberal venha a prosperar mais que o
comunismo. O capitalismo ganhou tempo, mas não é definitivo. O
Estado ainda é o maior protetor da economia nacional, mas vem
dando sinais de fraqueza nesse processo. As comunidades ou
grandes blocos econômicos de Estados estão se tornando
necessárias para que todos possam caminhar pra frente. Essa
troca de postura, a cooperação ao invés da competição, está
sendo gradual mas já parece ter sido absorvida pela maioria.
Afinal, muitos países se chocaram com a postura autoritária e
protecionista que o atual governo americano vem adotando em
diversas áreas. Esses blocos reforçam a ação internacional. A
comunidade européia abriu a porta para empresas e de quebra
permitiu a passagem de cultura, conhecimento, informação,
idéias entre os seus países membros. O resultado dessa
abertura pode ser uma igualdade diferente daquela pregada pela
globalização. Para que os mais ricos possam crescer e garantir
as suas riquezas, os mais pobres também devem crescer. Esse
pensamento simples pode garantir a todos, sem distinção,
condições básicas de educação, saúde... evitando gastos
extraordinários com segurança, saúde, saneamento básico... A
Comunidade Européia equilibrou os países membros e evitou que
os espanhóis corressem para Alemanha em busca de melhores
salários.
Fazer a divisão de riquezas
não é tarefa simples nem imediata. A simples divisão
igualitária entre membros de uma mesma comunidade talvez
deixasse muitos mais pobres e não resolvesse o problema em
definitivo. A política internacional tem hoje um outro
problema a roubar-lhe o sono. Dezenas de países do terceiro
mundo não conseguirão em hipótese alguma reverter o quadro de
miséria em que se encontram. Apoiá-los requer investir
quantidades absurdas de dinheiro sem se preocupar com o
retorno financeiro, um pensamento que não faz parte do
mercado. Abandoná-los a própria sorte e ignorá-los pode ser
mais fácil e mais barato, pode ser. Todavia, imigrantes e
terroristas se fazem impossíveis de serem ignorados e
representam custos altíssimos para os países ricos. Ou seja,
querendo ou não, uma hora os ricos terão de gastar dinheiro
com os pobres. E quanto mais se evitar o investimento na
igualdade, mais caro será o processo de isolamento. Seguindo
essa linha, Jürgen Habermas escreveu:
“A esperança da humanidade de
emancipar-se da sua incapacidade – da qual ela mesma tem culpa
– e de circunstâncias vergonhosas da vida, não perdeu a sua
força. Mas purificou-se através da consciência da falibilidade
e da percepção histórica de que muito já teria sido alcançado
se um equilíbrio suportável para os desfavorecidos fosse
mantido – e sobretudo se esse equilíbrio pudesse ser
estabelecido nos continentes destruídos.”
A ecologia (no sentido da
preservação da natureza) vem avisando que os recursos globais
não resistirão muito tempo a exploração do mercado. A ecologia
(cultural) é um meio equilibrado de se preservar todas as
partes. Os movimentos de oposição (sindicais, políticos ou de
classe) vão precisar desse equilíbrio para atrair membros.
Enquanto o homem do terceiro mundo ainda luta por direitos
tradicionais requeridos por esses movimentos, mas já mostra
sinais de cansaço e evasão. O homem do mundo desenvolvido,
principalmente os jovens, o chamado proletariado
pós-industrial tem novos objetivos. Esse trabalhador é
desempregado, trabalha ocasionalmente, por temporada ou em
tempo parcial. Não pode nem quer se identificar com o seu
trabalho ou lugar no processo de produção. Boa parte dessas
pessoas não quer um emprego tradicional. O trabalho está
destinado a uma pequena parcela da vida dessas pessoas, elas
querem aproveitar outras atividades sociais, ter mais
autonomia e criatividade no trabalho, mesmo que isso
signifique menores rendimentos. Os jovens buscam uma
identidade profissional derivada da “auto-realização”, uma
atividade criativa e socialmente útil. A competição do mercado
perde espaço para o equilíbrio e a liberdade individual.
ANEXO: CRENÇAS PRÓPRIAS
É comum ouvirmos,
principalmente no Brasil, uma série de revelações sobre as
“verdadeiras” intenções dos EUA na região do Golfo. Muitos
falam de interesses financeiros, desejo de tomar o controle
das maiores reservas de petróleo mundial, e que no fundo, esse
movimento contra o “eixo do mal” não passa de uma verdadeira
fachada. Na verdade, esse se tornou o discurso comum no
Brasil, e quem afirmar o contrário corre o risco de ser
enviado pro Iraque apoiar as tropas americanas. Mas será que
nós conhecemos suficientemente a cultura americana para
fazermos afirmações tão certeiras assim? Pois, se querem
saber, temos diferenças culturais bem fortes. Apesar de
assistirmos Friends, calçarmos Nike, e adorarmos as batatas do
McDonalds, nossa cultura (católica, portuguesa, com
influências africanas e francesas) é bem diferente da cultura
(protestante, anglo-saxônica, com influências germânicas)
deles. O interesse econômico condiz com a invasão iraquiana,
mas e o Afeganistão, e os avisos à Coréia do Norte?
Muito de um país pode ser
revelado a partir da sua produção cultural. O cinema
norte-americano é a maior vitrine dessa cultura, e nele é
claramente expressa essa idéia de salvação e proteção mundial
por parte americana. A atual política internacional dos EUA
parece cada vez mais isolada do sistema internacional. Ela
atua por vontade própria, para proteger o mundo, não existe
mais o diálogo para saber se o mundo quer esse tipo de
proteção.
Se um país acredita que a
liberdade está ligada ao progresso econômico. Se ele acredita
que deve ajudar o mundo, e que ele é o maior dentro dos seus
parâmetros, ele vai lutar para que o mundo seja uma cópia sua,
dentro dos limites que a relação de mercado sempre impôs: um
deve ser mais forte que o outro. Colocando em pratos limpos,
libertar o Iraque significa inseri-lo dentro desse modelo, e
com certeza, isso significa utilizar o petróleo ali existente
de forma mais segura ao interesse do capitalismo ocidental.
Não me julguem como defensor desse modelo, isso serve para
mostrar que ele faz sentido e vai muito além de uma
conspiração maléfica para dominar as reservas energéticas. Ele
está ligado a uma cultura que desconhece profundamente as
outras culturas. E essa está longe de ser uma característica
exclusiva da cultura norte-americana, ou será que nós
brasileiros conhecemos profundamente os índios da Amazônia ou
nossos vizinhos latino-americanos? Se alguém dúvida dessa
opinião, saiba que não a tomei por admiração aos EUA, mas da
Conferência Pattens de 66, na universidade de Indiana,
proferida pelo professor convidado Dexter Perkins para
professores e alunos, organizada em livro, “A Diplomacia de
Uma Nova Era” (ed. Record). Essa pode não ser a opinião
majoritária nos EUA, mas pelo menos é uma opinião acadêmica e
se parece bem próxima com a implementada pela política
internacional do governo americano. Como exemplo, vejamos as
suas considerações sobre a América Latina (pg.155)
“Os mercados norte-americanos
são indispensáveis; mas os termos do comércio são um motivo
freqüente de irritação. As principais exportações dos estados
latino-americanos são de matérias-primas, cujos preços têm
sido historicamente sujeitos a freqüentes e às vezes violentas
oscilações. Não podemos, é claro, ser culpados por isso, mas
nós somos criticados quando a alta de preços nos Estados
Unidos aumenta o custo dos artigos que a América Latina compra
neste país, enquanto o declínio nos preços das matérias-primas
que os estados latino-americanos vendem resulta em perda nas
suas exportações.
Além do mais, existe uma
lenda, não necessariamente restrita à América Latina de que o
capitalismo norte-americano é uma ameaça para o
desenvolvimento de outros países. Eu digo “lenda” porque a
exportação de capital norte-americano para países estrangeiros
tem feito mais bem do que mal. (Os canadenses podem ser
testemunhas disso). No entanto não é estranho que algumas
repúblicas do sul, especialmente as mais pobres, encarem com
certa apreensão o poderio dos homens de negócios
norte-americanos como justificativa para sua atitude. Pode-se
dizer com razão, atualmente, que o certo para a América Latina
seria acolher o capital norte-americano, regulamentá-lo e
tributá-lo ao ponto de atender aos interesses do estado
recebedor; mas razão nem sempre impera, e não tem sido difícil
para a propaganda de esquerda influir no espírito
latino-americano.
A hostilidade ao capital
norte-americano, onde existe, é reforçada pela situação social
de muitos, ou talvez da maioria dos países latino-americanos.
O abismo existente entre ricos e pobres na maioria desses
países, o egoísmo de muitos elementos das classes dominantes,
tomados como um todo (é claro que existem muitos casos de
preocupação individual), a miséria dos cortiços nas cidades e
das condições de vida dos camponeses – tudo isso é um campo
fértil para a inquietação, que encontra nos Estados Unidos um
alvo de desconfiança, aversão, ou até mesmo ódio. Não podemos
dizer que esse sentimento seja característico da maioria; mas
existe numa minoria e pode ser manipulado pelos que buscam
mudanças sociais drásticas. Portanto um dos temas desse
capitulo será a questão do que já foi feito, para ajudar as
nações do sul no desenvolvimento de suas economias e sua ordem
social.”
Dexter inicia o livro
explicando que o povo americano sempre foi um povo pacífico e
dedicado aos seus problemas locais. Mas as constantes
revoluções sociais, as guerras mundiais e a irresponsabilidade
comunista lhes obrigou a tomar a frente do cenário mundial e
levar ao mundo as suas lições de paz e prosperidade. Seus
exemplos passam por números que demonstram como o exército
americano nunca foi uma prioridade até a segunda guerra
mundial. A partir dali, a sua ajuda internacional foi
fundamental para a recuperação do mundo ocidental, e durante a
guerra fria, o mais importante era evitar com que os abusos do
comunismo chegassem ao mundo livre. Apesar de que, para Dexter,
o grande responsável pelas brutalidades da União Soviética era
Stalin, afinal a Rússia “tinha uma população dócil, que se
submetia a drásticas medidas de controle”. Suas análises
internacionais chegam até o Brasil na época da ditadura: “É
verdade que no Brasil, depois de um período de inflação
desenfreada e de esquerda irresponsável, um governo militar
tem procurado abrir caminho para uma ordem econômica mais
radical.”
Em seu último capítulo, o
professor Perkins traça um panorama das ações americanas no
mundo e conclui a importância de todas essas ações para a
constituição do mundo livre, seja quais forem as suas
conseqüências imediatas. O que para muitos brasileiros pode
soar como ironia, não é um livro provocativo escrito para
desmoralizar o mundo diante dos EUA. É fruto da pesquisa de
uma autoridade, reconhecida internacionalmente, em história da
diplomacia norte-americana, autor de diversos livros, formado
por Cambridge e presidente do Conselho da Fundação Harvard de
1951 a 1956. Mas será que ele está certo? E também, será que
está errado? Para muitos, ele pode ser considerado louco. Mas
será que a atual política internacional norte-americana parece
ter posições diferentes das apresentadas pelo professor
Perkins? Uma ideologia pode acreditar e defender o que pode
ser um absurdo para outra. Isso se torna preocupante quando
vai além dos limites da sua fronteira e essa idéia é imposta
para todos. Então, agora mais do que nunca, vale rezar para
que a crença norte-americana funcione o mais rápido possível.
“Deus Salve a América” e ilumine sua política internacional,
ou nós estamos roubados.
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