PET-ECO: "NO IMPÉRIO NENHUMA
SUBJETIVIDADE ESTÁ DO LADO DE FORA E TODOS OS LUGARES FORAM
AGRUPADOS NUM NÃO-LUGAR GERAL". CONSIDERANDO ESSA AFIRMAÇÃO DE
HARDT E NEGRI E O PAPEL DE DESTAQUE DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
NA CONFIGURAÇÃO DO CENÁRIO MUNDIAL E NA CONSTITUIÇÃO DO
INTELECTO GERAL, COMO A NOÇÃO DE IMPÉRIO DARIA CONTA DAS
PESSOAS E COMUNIDADES ISOLADAS (COMO ALDEIAS INDÍGENAS, TRIBOS
AFRICANAS, MONGES TIBETANOS, ABORÍGINES ETC) QUE SE ORGANIZAM
APARENTEMENTE FORA DO MECANISMO IMPERIAL?
César Bolaño: Creio que Negri e Hardt não
explicam isso. Eu levantei um questionamento ainda mais grave,
no meu texto, quando apontei a insuficiência da análise do
fundamentalismo, visto como pós-moderno. Na verdade, a
impressão que fica na leitura do livro é que os autores têm
inclusive consciência das limitações da perspectiva
pós-moderna que adotam. Como fica patente na citação que fazem
do Jameson, um bom autor, marxista, que também assume o
conceito de pós-modernidade, como é comum à esquerda
norte-americana, de forma muito estratégica. Em todo caso, eu
sou da opinião de que é preciso levar em consideração que se
trata de autores cujas insuficiências é preciso apontar,
claro, como eu procurei fazer, mas sem deixar de considerar as
contribuições que eles também nos trazem, diferentemente, por
exemplo, de outros pós-modernistas, como Baudrillard, que não
têm nada de construtivo a nos oferecer. O maior problema do
Negri, a meu ver, é a sua rejeição feroz à dialética.
PET-ECO: A MAIORIA DAS VEZES QUE UMA
DISCUSSÃO SOBRE O IMPÉRIO É INICIADA, LEVANTA-SE A QUESTÃO DA
IGUALDADE E LIBERDADE COM O PODER NAS MÃOS DA MULTIDÃO. VOCÊ
ACREDITA QUE, CONSIDERANDO A FLUIDEZ INERENTE AO IMPÉRIO, O
PODER REALMENTE POSSA SER ALCANÇADO E CONTROLADO PELA
MULTIDÃO? COMO ISSO ACONTECERIA?
César Bolaño: Eu não gostaria de entrar em
discussões filosóficas, que estão fora do meu alcance, como o
debate sobre o conceito spinoziano de multidão. O que eu
observo, na teoria do Negri e do Hardt, é que a solução
concreta a que eles chegam, após questionar o conceito de
classe social, ligado à "modernidade", à "dialética" etc., é
nitidamente inferior, no sentido que vocês apontam, do que o
conceito que se pretende criticar. Eu próprio, em diferentes
ocasiões, tenho defendido a necessidade de se pensar a chamada
Terceira Revolução Industrial, como Marx pensou as duas
anteriores, em termos de um processo de subsunção do trabalho
(no meu caso, de subsunção do trabalho intelectual) no
capital. O que significa que o referencial da classe social
permanece válido, ainda que a atual classe trabalhadora seja
radicalmente distinta daquela empiricamente existente no
século XIX ou no século XX.
PET-ECO: SOBRE O PODER DA MULTIDÃO, VOCÊ
MESMO LEVANTA A QUESTÃO DA COMUNIDADE ISLÂMICA AFIRMANDO QUE
ELA NÃO PODE SER ANALISADA FORA DA MULTIDÃO. DE QUE FORMA
SUBJETIVIDADES ANTAGÔNICAS (COMO MUÇULMANOS E JUDEUS) PODERIAM
CONFIGURAR UMA MULTIDÃO HOMOGÊNEA DE NTERESSE COMUM?
César Bolaño: Eu não uso o conceito de
multidão. Se eu fiz essa afirmação, foi no bojo de uma crítica
à visão dos autores sobre o problema, crítica que vai no
sentido do que foi apontado na resposta anterior. Eu acho que
o que une judeus, cristãos e muçulmanos é o fato de todos
estarem submetidos a um mesmo sistema de dominação e
exploração do trabalho. Reconheço que a questão cultural e das
identidades é fundamental (tenho defendido isso no interior da
economia política), mas não é possível entender nada sem a
crítica da economia política.
PET-ECO: TENDO EM VISTA O ATUAL ESTADO DE
NIILISMO POLÍTICO OBSERVÁVEL EM TODO O MUNDO, COMO O INDIVÍDUO
SE TORNARIA SUJEITO DA MULTIDÃO?
César Bolaño: O sujeito da política não é o
individuo, mas a classe social.
PET-ECO: A MAIORIA DAS PESSOAS QUE COMPÕEM A
MULTIDÃO NUNCA TERÁ ACESSO AOS TRABALHOS SOBRE IMPÉRIO. NA SUA
OPINIÃO, COMO O MEIO ACADÊMICO PODERIA UTILIZAR ESSE
CONHECIMENTO EM BENEFÍCIO DA COMUNIDADE E NÃO FAZER DELE UM
LIVRO RESERVADO A BIBLIOTECA DE POUCOS?
César Bolaño: O meio acadêmico é composto de
trabalhadores intelectuais, que precisam conscientizar-se do
seu papel histórico, como todos os trabalhadores, e utilizar a
sua subjetividade não apenas a serviço do Estado e do capital,
mas também para contribuir na criação de um mundo novo.