Leituras no Império

Análise

Entrevista com César Bolanõ

PETECO entrevistou César Ricardo Siqueira Bolaño, professor doutor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe. Bolaño é autor do artigo O Império contra-ataca que comenta o sistema imperial baseado no princípio jurídico de uma soberania supranacional, a partir da análise feita por Hardt e Negri.

PET-ECO: "NO IMPÉRIO NENHUMA SUBJETIVIDADE ESTÁ DO LADO DE FORA E TODOS OS LUGARES FORAM AGRUPADOS NUM NÃO-LUGAR GERAL". CONSIDERANDO ESSA AFIRMAÇÃO DE HARDT E NEGRI E O PAPEL DE DESTAQUE DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NA CONFIGURAÇÃO DO CENÁRIO MUNDIAL E NA CONSTITUIÇÃO DO INTELECTO GERAL, COMO A NOÇÃO DE IMPÉRIO DARIA CONTA DAS PESSOAS E COMUNIDADES ISOLADAS (COMO ALDEIAS INDÍGENAS, TRIBOS AFRICANAS, MONGES TIBETANOS, ABORÍGINES ETC) QUE SE ORGANIZAM APARENTEMENTE FORA DO MECANISMO IMPERIAL?

César Bolaño: Creio que Negri e Hardt não explicam isso. Eu levantei um questionamento ainda mais grave, no meu texto, quando apontei a insuficiência da análise do fundamentalismo, visto como pós-moderno. Na verdade, a impressão que fica na leitura do livro é que os autores têm inclusive consciência das limitações da perspectiva pós-moderna que adotam. Como fica patente na citação que fazem do Jameson, um bom autor, marxista, que também assume o conceito de pós-modernidade, como é comum à esquerda norte-americana, de forma muito estratégica. Em todo caso, eu sou da opinião de que é preciso levar em consideração que se trata de autores cujas insuficiências é preciso apontar, claro, como eu procurei fazer, mas sem deixar de considerar as contribuições que eles também nos trazem, diferentemente, por exemplo, de outros pós-modernistas, como Baudrillard, que não têm nada de construtivo a nos oferecer. O maior problema do Negri, a meu ver, é a sua rejeição feroz à dialética.

PET-ECO: A MAIORIA DAS VEZES QUE UMA DISCUSSÃO SOBRE O IMPÉRIO É INICIADA, LEVANTA-SE A QUESTÃO DA IGUALDADE E LIBERDADE COM O PODER NAS MÃOS DA MULTIDÃO. VOCÊ ACREDITA QUE, CONSIDERANDO A FLUIDEZ INERENTE AO IMPÉRIO, O PODER REALMENTE POSSA SER ALCANÇADO E CONTROLADO PELA MULTIDÃO? COMO ISSO ACONTECERIA?

César Bolaño: Eu não gostaria de entrar em discussões filosóficas, que estão fora do meu alcance, como o debate sobre o conceito spinoziano de multidão. O que eu observo, na teoria do Negri e do Hardt, é que a solução concreta a que eles chegam, após questionar o conceito de classe social, ligado à "modernidade", à "dialética" etc., é nitidamente inferior, no sentido que vocês apontam, do que o conceito que se pretende criticar. Eu próprio, em diferentes ocasiões, tenho defendido a necessidade de se pensar a chamada Terceira Revolução Industrial, como Marx pensou as duas anteriores, em termos de um processo de subsunção do trabalho (no meu caso, de subsunção do trabalho intelectual) no capital. O que significa que o referencial da classe social permanece válido, ainda que a atual classe trabalhadora seja radicalmente distinta daquela empiricamente existente no século XIX ou no século XX.

PET-ECO: SOBRE O PODER DA MULTIDÃO, VOCÊ MESMO LEVANTA A QUESTÃO DA COMUNIDADE ISLÂMICA AFIRMANDO QUE ELA NÃO PODE SER ANALISADA FORA DA MULTIDÃO. DE QUE FORMA SUBJETIVIDADES ANTAGÔNICAS (COMO MUÇULMANOS E JUDEUS) PODERIAM CONFIGURAR UMA MULTIDÃO HOMOGÊNEA DE NTERESSE COMUM?

César Bolaño: Eu não uso o conceito de multidão. Se eu fiz essa afirmação, foi no bojo de uma crítica à visão dos autores sobre o problema, crítica que vai no sentido do que foi apontado na resposta anterior. Eu acho que o que une judeus, cristãos e muçulmanos é o fato de todos estarem submetidos a um mesmo sistema de dominação e exploração do trabalho. Reconheço que a questão cultural e das identidades é fundamental (tenho defendido isso no interior da economia política), mas não é possível entender nada sem a crítica da economia política.

PET-ECO: TENDO EM VISTA O ATUAL ESTADO DE NIILISMO POLÍTICO OBSERVÁVEL EM TODO O MUNDO, COMO O INDIVÍDUO SE TORNARIA SUJEITO DA MULTIDÃO?

César Bolaño: O sujeito da política não é o individuo, mas a classe social.

PET-ECO: A MAIORIA DAS PESSOAS QUE COMPÕEM A MULTIDÃO NUNCA TERÁ ACESSO AOS TRABALHOS SOBRE IMPÉRIO. NA SUA OPINIÃO, COMO O MEIO ACADÊMICO PODERIA UTILIZAR ESSE CONHECIMENTO EM BENEFÍCIO DA COMUNIDADE E NÃO FAZER DELE UM LIVRO RESERVADO A BIBLIOTECA DE POUCOS?

César Bolaño: O meio acadêmico é composto de trabalhadores intelectuais, que precisam conscientizar-se do seu papel histórico, como todos os trabalhadores, e utilizar a sua subjetividade não apenas a serviço do Estado e do capital, mas também para contribuir na criação de um mundo novo.

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