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Leituras no
Império |
Análise |
Entrevista com
Muniz Sodré
Muniz Sodré, professor doutor
titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, um dos principais teóricos de Comunicação da
América Latina, comenta o conceito Império de Hardt e Negri.
PET-ECO: COMO
O CONCEITO DE IMPÉRIO SE RELACIONA À TEORIA DA COMUNICAÇÃO?
Muniz Sodré: O que estudiosos
como Negri e Hardt estão chamando de "Império" não é uma idéia
original deles. O livro Claros e Escuros (Sodré, 1999) cita
alguns autores que levantaram essa questão. Peter Sloterdijk
em Caso a Europa Desperte (sem edição brasileira) tem uma tese
de que, na verdade, a história da Europa é uma reencenação do
sacro Império romano germânico e que a idéia do "Império"
sempre esteve em alguns países importantes da Europa, como
Alemanha, Espanha, França, Portugal e o próprio Estados
Unidos, que é sub-continente europeu do ponto de vista
civilizatório.
A realidade "Império" e essa
palavra imperialismo sempre estiveram nos movimentos de
esquerda, no movimento revolucionário, nos anos 60 e 70.
Sempre se apontou para o domínio americano como uma forma de
Império, mas a palavra imperialismo antes era apenas "uma
metáfora de poder". Hoje, com a perda da bipolaridade de poder
e o desmoronamento da União Soviética, os EUA são,
efetivamente, digamos, donos do mundo em termos militares,
econômicos e comerciais. Mas eles têm também uma hegemonia -
dominação de consenso, usando o termo de Gramsci - em termos
de ideologia, por disseminação dos bens de consumo, de
cultura, por telecomunicações e por mídia. Mas como é que a
idéia de "Império" se liga à mídia?
Primeiramente, por meio do
consumo, que é uma forma de administração da sociedade urbana.
Segundo, pelo controle da informação mundial. Ora, quando você
tem um programa como o "ECHELOL", que é capaz de interceptar
pela Internet 3 bilhões de mensagens por dia, significa acabar
com a sonhada liberdade na Internet. Não há liberdade, não há
privacidade real. A maior parte dos produtos eletrônicos que
se consome é fabricada nos EUA e aperfeiçoada pelos japoneses,
mas vem dos EUA. Portanto, o "Império" se liga à mídia porque
a mídia é a ponta do iceberg, é comercial, industrial e
econômica. É o império da comunicação transformado em
informação e em dados. Essa avalanche de sentido, essa
avalanche semiótica, constitui a face midiática do Império
americano.
PET-ECO: A PARTIR DOS AUTORES
CITADOS NO LIVRO "CLAROS E ESCUROS", COMO VOCÊ TRABALHA ESSE
CONCEITO DO IMPÉRIO?
Muniz Sodré: Eu trabalhei
isso brevemente no livro. Na verdade, eu quis mostrar como é
que uma forma pode persistir na História. Eu estava preocupado
com o patrimonialismo brasileiro. O Estado brasileiro é
transplante do estado patrimonial português, que é o estado da
Segunda Dinastia de Avis, a dinastia responsável pelo
descobrimento. Continuamos no estado patrimonialista, isto é,
um Estado que é regido como se fosse a "casa da mãe Joana",
com as mesmas elites que descendem dos capitães donatários, os
antigos donos do poder. Usei a categoria de Raymundo Faoro (Os
donos do poder, 1975). Como é que isso persiste? Em 500 anos,
nós podemos dizer que o Estado continua patrimonialista.
Eu procurei mostrar como as
classes dominantes reinterpretam as formas passadas,
administrando a nova realidade econômica, tecnológica. É uma
forma que persiste na História. No caso, é o patrimonialismo,
que é reger a coisa pública como se fosse negócio de família.
Ainda tento mostrar que o patrimonialismo cultural é uma forma
de cooptação. E o que interessa é que a forma continue. Para
explicar a persistência dessa forma, trouxe como exemplo o
fato de a Europa estar sempre reinterpretando a forma
"Império" para se adequar ao poder deles: o poder colonial,
depois o poder econômico, depois passa para os EUA.
PET-ECO: ENTÃO ESSE
PATRIMONIALISMO SERIA UMA FORMA DE O IMPÉRIO ESTAR PRESENTE NO
CONTEXTO HISTÓRICO BRASILIEIRO...
Muniz Sodré: Não, esse
patrimonialismo não tem a ver com o "Império". O imperialismo
existe hoje como uma reinterpretação da antiga forma
"Império". E o patrimonialismo que existe hoje é uma
reinterpretação das classes dirigentes da forma patrimonial.
Eu fiz uma analogia entre um e outro, mas não vinculei.
PET-ECO: MAS ENTÃO COMO O
IMPÉRIO ESTARIA PRESENTE NO CONTEXTO HISTÓRICO BRASILEIRO?
Muniz Sodré: Neste caso, é
dominação militar e econômica pura e simplesmente. Aí, o
patrimonialismo tem que "dobrar a espinha" ideologicamente. A
dominação econômica e militar se faz só num primeiro momento.
Por exemplo, entra na sua casa o Mike Tyson e diz: "Olha, eu
vou te bater", e você com esse físico, diz, "Bom, pode bater".
Você não vai ganhar daquele cara, então, você se submete. Ele
entra na sua casa, come sua comida, mas tem uma hora que ele
vai ter que dormir, e dormindo, não tem Mike Tyson. Com isso,
você o liquida fácil. Nenhum poder se sustenta o tempo inteiro
pela força. Mas suponha que o Mike Tyson convença você de que
essa é a coisa justa a fazer, afinal ele é campeão do mundo e
vai te ensinar boxe... Então você começa: "Mas que cara
simpático! Me ensinou a bater em gente e, além do mais, ele
merece. Eu sou amigo do campeão do mundo!". Daqui a pouco,
você está servindo-o de bom grado, aí ele pode dormir em paz.
Você continua trabalhando por ele. Ele passou do poder pura e
simplesmente, para um outro tipo de poder que é a hegemonia, a
dominação do consenso, a servidão voluntária. Você quer servir
o Mike Tyson, você quer ser dominado por ele e isso é
ideológico. E a maior parte do poder é ideológico. São os
efeitos do poder.
Convenceram historicamente as
mulheres que elas são fisicamente frágeis. Mentira, porque a
mulher não é fisicamente mais frágil que o homem. Exatamente
por isso ela não desenvolve músculos no interior da coxa e nos
braços. Então, ela perde na queda de braço para qualquer
garoto, mas não perde na porrada porque não tem medo de se
ferir. Quem ganha na briga é quem é mal, só ganha quem é mal.
Porque assim sai do mito, sai da ideologia, da fragilidade
física. O que eu quero dizer com isso? É que o poder é da
ordem do convencimento, da ordem da ideologia. Há um momento
em que o poder é força, e o seu último recurso é a força, mas
a força não pode ser exercida o tempo inteiro. Então, o
império americano são os efeitos do "Império" e esses efeitos
são impostos pela mídia: são o consumo. O "Império" hoje é
imaterial. Não tem mais o soldado romano, americano, aqui
dentro, com as armas. O poder é imaterial, o "Império" é
imaterial.
PET-ECO: TEM FALTADO UMA
CERTA MALDADE AOS MOVIMENTOS DE CONTRA-CULTURA, OS QUAIS HARDT
E NEGRI CHAMAM DE A FORÇA DA MULTIDÃO, PARA SOBREPOR O
IMPÉRIO?
Muniz Sodré: Os movimentos de
contra-cultura têm uma dinâmica de grande fermentação e depois
são facilmente recuperados, seja pela indústria, seja até pelo
crime. Veja, por exemplo, a questão da droga: a maconha nos
anos 60 e 70 era romântica, os hippies fumavam maconha. Só que
hoje, a droga virou uma relação de domínio, domínio de grupos
alternativos e marginais, e uma nova forma de poder. Então, a
inocência da maconha acabou, porque ela tem uma conexão forte
com a cocaína, que, por sua vez tem com os grupos de dominação
criminal da cidade. Pode parecer dramático, mas é real. São
forças contra, forças paralelas que parecem o Estado. São
impiedosos, cruéis e não servem de modo nenhum ao conjunto da
vida social. Eu, por exemplo, acho maconha uma bosta, mas faz
menos mal do que nicotina. Não sei o motivo, porque não fumei
nicotina, nem fumei maconha... não tolero fumaça. Sou
absolutamente contra. Nos anos 60 e 70, não era contra, hoje
eu acho problemático. Então, o que num determinado momento
pode ser criativo, noutro é extremamente reacionário, já foi
absorvido. Da mesma forma, todo movimento contra-cultural dos
anos 70 foi absorvido pela mídia, a música popular foi
absorvida. A contra-cultura não tem força real de oposição a
não ser em seu estado nascente. É preciso ser alguma coisa a
mais do que cultura, é preciso ser política, é preciso ser
econômica.
Veja só, eu acho os
movimentos reativos contra-culturais fortes e interessantes,
pois utilizam a Internet, a modernização da mídia, por não
terem imediatamente nenhum objetivo, digamos assim, de
derrubar uma instituição, revolucionar e tomar de assalto.
Eles são a gota d'água na construção com atitude que, por
exemplo, converge para o Fórum Social Mundial (Porto Alegre,
2002). Toda aquela discussão serve pra quê? Qual foi a medida
que se tomou depois? Nenhuma! No entanto, é extremamente
importante, porque tudo aquilo converge para uma tomada de
atitude. Mostra-se coletivamente que outro caminho é possível,
outro tipo de vida é possível. Logo, num mundo sem utopias,
sem saídas, sem pontos de fugas, mostrar que outra atitude é
possível é importante, e é por isso que a gente ainda fala,
que as pessoas falam.
PET-ECO: QUAL SERIA ENTAO
ESSA ATITUDE, ESSE CAMINHO?
Muniz Sodré: Primeiramente, a
atitude de que você não pode viver sob a égide exclusiva do
mercado. Portanto, existe um novo vetor de poder e dominação
que é o mercado. Mídia mais mercado, não é mídia isolado, é
mercado! Mídia enquanto fala do mercado. O mercado, que é
definido por moeda, por valor de troca, não responde pela
perfeita integração do sujeito na polis, na cidade-estado. Ao
mesmo tempo, você não pode abrir mão do mercado, porque nele
há um vetor de poder, de dominação grande. Então, que atitude
é essa? É a atitude de recusar o absoluto do mercado. Não é
recusar o mercado. É recusar o que no mercado se apresenta
como absoluto.
PET-ECO: SERIA, PORTANTO, UMA
ATITUDE NEGATIVA. E QUAL A PROPOSTA, A ALTERNATIVA
CONSTRUTIVA?
Muniz Sodré: A alternativa é
redefinir o mercado. Sempre houve mercado. Mercado é apenas
uma das formas possíveis de troca econômica. Existem formas de
reciprocidade, de cooperativismo que não necessariamente
colocam valor de troca no topo da hierarquia das trocas
possíveis. Em um livro como "A grande transformação - as
origens da nossa época" [Rio de Janeiro:Campus, 2000] de Karl
Polanyi, mostra-se que o mercado tal qual ele existe não é
natural, ele se consolidou a partir do século XIX e há outras
formas de troca econômica, não necessariamente como a forma
que o mercado atual vê. Então, quando se mostra uma atitude,
mostra-se também uma maneira de recusar o mercado, porque esse
mercado também é para poucos. A maioria da população esta sob
os efeitos da dominação do mercado, mas não vive plenamente a
economia monetária. Foi isso que o Schwartz [Roberto] disse:
"Você vive numa economia monetária sem moeda".
PET-ECO: VOCE COLOCA SEMPRE O
"IMPÉRIO" COMO SENDO NORTE-AMERICANO E NO PREFACIO DO LIVRO
IMPÉRIO, HARDT E NEGRI DESMISTIFICAM UM POUCO ESSA IDEIA DOS
EUA COMO TODO PODEROSO DO MUNDO. VOCE ACREDITA QUE OS EUA
ESTARIAM NO TOPO DO "IMPERIO"?
Muniz Sodré: Eu acho que os
EUA estariam no topo. Entretanto, ele não é só americano. O
"Império" é um produto da civilização européia, e os EUA são
uma irradiação da civilização européia. Compõem o "Império" o
G7, ou seja, a Alemanha, a França, a Inglaterra, o Japão, os
Tigres Asiáticos. Claramente não são apenas os EUA como país,
mas uma rede multinacional. Eu diria que o "Império" é o
centro do capital.
PET-ECO: E NÓS? NÃO FAZEMOS
PARTE DO "IMPÉRIO"?
Muniz Sodré: Nós somos
súditos. Estamos na periferia do capital. O Império é o
capital voando, volátil, e quando baixa ele está em rede, que
nos controla, e nós vivemos sob os efeitos dele. Quem é que
nós repetimos efetivamente? Os EUA. Então, talvez a face
visível do Império, e contra a qual mais se possa lutar, seja
a dos EUA como nação. E, nesse momento, tudo isso que o Hardt
e o Negri escreveram pode mudar rapidamente, porque é uma fase
desse "Império" que coincide com a globalização. A
globalização tal como nós conhecemos até agora está acabando.
Portanto, é uma coisa que digo nesse meu livro Antropológica
do Espelho (Vozes, 2002): a globalização é mais um postulado
do que um fato; é mais uma coisa que se prediga que uma
realidade. Porque é realidade pra poucos países, não é a
globalização do mundo. É dominação. Mas o discurso da
globalização, que todo mundo conhece, está acabando.
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