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Leituras no
Império |
Análise |
Era Metamoderna
Daniel Jesus
O futuro do
Império e os seus próximos passos podem perder a importância,
se o homem não se conscientizar dos efeitos que a sociedade
moderna produziu sobre o planeta. A evolução do processo da
modernidade, a legitimação do poder representativo e os
processos de acumulação do capitalismo determinaram as
conseqüências do mundo atual. O resultado é um processo
desencadeado pelo Ocidente, que hoje, através do Império,
atinge toda e qualquer comunidade. As soluções para o futuro
só podem alcançar o êxito, se abraçadas pela multidão e
entendidas em meio aos seus interesses múltiplos e diversos. O
homem precisa conhecer a si mesmo, para entender, respeitar e
colocar em prática, os seus ideais.
O ser humano moderno sofreu o impacto de grandes mudanças que
o colocaram em meio à questões sem solução até hoje. Todas as
mudanças provocadas pela modernidade, dividiram o caminho do
homem na tensão entre se deixar levar pelas forças imanentes
do desejo e da associação, ou se entregar ao poder da
autoridade impositiva do Estado. Essa dúvida, presente em
nossa sociedade até hoje, é uma construção do mundo ocidental,
proveniente da Europa. Todavia, através dos mecanismos
coloniais, imperialistas e de globalização, os resultados da
modernidade se encontram implícitos na maioria das regiões do
globo. E foram esses mecanismos que garantiram e garantem até
hoje, as condições necessárias para a implementação da
soberania moderna, seja ela empregada da maneira que for.
Tudo teve
início quando o homem adquiriu uma visão experimental da
ciência, e se reconheceu como ser dotado de conhecimento e de
ação. Era o início de um movimento que viria a consolidar,
séculos mais tarde, a era da ciência, da tecnologia e do
conhecimento. Através da qual, os seres humanos superariam o
estágio da fé cega. Entretanto, a essa nova descoberta
seguiu-se uma contra - revolução, que por não poder destruir o
conhecimento adquirido, procurou dominá-lo e conter a busca do
homem pelo conhecimento. Todas as descobertas anteriores,
ligadas à tríade força - desejo - amor, foram relativizadas e
consideradas apenas mediante parâmetros pré - estabelecidos. O
pacto que consolidou o domínio da busca do homem pelo
conhecimento, acabou retirando a força da multidão, e
garantindo a sobrevivência "pacífica" da humanidade através de
um soberano representativo, autônomo e transcendental.
Esse é o
modelo de soberania moderna que foi útil para o absolutismo
monárquico, mas que na verdade, pode ser aplicado na
monarquia, na oligarquia e na democracia. O contrato social de
Rosseau garantiu que a vontade geral proviesse da alienação
das vontades isoladas para que a soberania do Estado pudesse
atuar. Um segundo elemento fundamental para sustentação da
soberania moderna, e garantir-lhe a expansão global, foi o
capitalismo e todas as suas conseqüências intrínsecas. A
afirmação do mercado como fundamento dos valores de reprodução
social foram essenciais e ainda são, a base da sociedade
moderna. As conseqüências desse movimento podem ser vistas em
países "dominados" por banqueiros, empresários e pela mídia. A
importância da acumulação tornou o interesse individual mais
importante do que qualquer ideal coletivo. E reduziu a função
do Estado, que Abraham Lincoln defendia ser "do povo", a
missão de proteger os acúmulos individuais em nome da economia
nacional. Um governante benevolente, sem identificações ou
desejos pessoais, preconizado por Sócrates e Platão, na forma
de um rei filósofo, não existe. As "democracias" atuais são
incapazes de fazer emergir homens próximos dessa descrição, do
gabarito de Abraham Lincoln, Martin Luther King, Ho Chi Minh,
Mahatma Gandhi ou Nelson Mandela, considerados referências.
Conscientes das poderosas estruturas de dominação, que
acompanham as funções progressistas de soberania nacional,
muitos deles anunciaram os perigos da equação nacionalismo e
modernização política e econômica.
As
conseqüências dessa busca pela acumulação estão presentes em
todos os livros de história. Povos escravizados e divididos,
culturas excluídas e destruídas. Barbaridades cometidas em
nome do povo, através das ações de Estados que visavam apenas
o lucro. A pregação da modernidade e das vantagens produzidas
pela cultura capitalista "ensinou" diversos povos a repudiar a
modernidade. E a situação do planeta está cada vez pior. A
economia exclui milhões de homens. O eco - sistema se
desequilibra com o aquecimento global, a poluição e a escassez
dos recursos naturais. As democracias corrompidas não parecem
mais servir de referência aos seus cidadãos. Ao nível
individual, medos, doenças como depressão, câncer, problemas
cardíacos gerados pelo stress e pela insegurança, dependências
provenientes do consumo de drogas, revelam o mal - estar da
maioria. O Ocidente é o maior responsável por essa situação.
Pois ela é resultado da sua exploração descontrolada,
direcionada apenas a satisfação das suas necessidades.
Em outras
épocas, civilizações dominantes surgiram e decaíram através de
forças de ruptura externa, que buscavam interagir com o seu
meio de ação. A queda do Império Romano e as perdas do Império
Chinês se deram pela invasão desse "outro", chamado de
bárbaro. Mas hoje o problema é completamente diferente, pela
primeira vez, o Império é global. Não existe uma força externa
e nem mesmo um representante único por essa dominação do
Império. A sociedade como um todo parece prisioneira de uma
engrenagem Imperial. A situação torna-se ainda mais difícil,
quando determinados grupos da multidão preocupam-se apenas em
defender os seus egoísmos e pressionar o todo em prol dos seus
próprios interesses. A luta torna-se desordenada, e o Império
parece cada vez mais antagônico: simultaneamente mais próximo
de uma ruptura e com uma estrutura mais fortificada. Existe
muita incerteza acerca do futuro do Império, se ele caíra ou
será ainda mais presente. Mas a multidão precisa
conscientizar-se da sua responsabilidade, pois do contrário, o
planeta não será capaz de sustentar nenhuma das duas
possibilidades.
Uma solução
poderia ser dada através da retomada da análise do homem pelo
próprio homem, iniciada na descoberta do ser dotado de
conhecimento e ação. Uma busca ainda mais profunda por esse
conhecimento da natureza humana. E a partir daí, a mudança do
homem para transformá-lo interiormente e possibilitar-lhe um
poder. A tomada do poder pelo homem. Não de um poder
proporcionado por uma instituição exclusiva. Mas um poder
acessível a todos de maneira idêntica, universal. Capaz de
utilizar as próprias redes do Império para transmitir esse
conhecimento a todos. Esse conhecimento abriria as portas para
uma nova era, uma era metamoderna.
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