|
|
O Brasil como país de destino
para imigrantes
Resenha do texto de Elda
Evangelina González Martínez, no livro de FAUSTO, Boris (org.),
“Fazer a América”. SP: EDUSP, 2000.
O objetivo do artigo é
dar um panorama geral da emigração espanhola para o Brasil. Para a
pesquisa, a autora utilizou como fonte inventários de consulados,
reportagens de jornais da época e estatística brasileiras e espanholas.
Ela constatou que o Brasil não era o principal destino dos espanhóis que
imigravam para a América. A maioria deles iam para Argentina ou Cuba (82%
entre 1882 e 1930).
Foi a partir de 1880 que os espanhóis começaram a migrar para o Brasil. O
motivo da nova orientação foi a política imigratória executada pelo Brasil
durante esse período, constituindo-se como principal fator de atração.
Esta política implicava numa propaganda, generalizada, sobre os benefícios
de vir para o Brasil. Entre eles, destacava-se a possibilidade de viajar
de graça.
A etapa de migração maciça para o Brasil abrange as décadas de 1880 a
1930. A partir dessa data, o fluxo de imigração cai devido ao “crash”
econômico de 1929, a Guerra Civil Espanhola e o pós-guerra.
Região de Origem dos Imigrantes
Os imigrantes espanhóis no Brasil vieram de diversas regiões da Espanha,
principalmente da Galícia e de Andaluzia. Os galegos estão entre os
primeiro povos que emigraram para o Brasil. Fontes portuguesas já
indicavam a existência de 53 migrantes galegos no Rio de Janeiro entre
1853 e 1860. A maioria se assentou nas capitais e nos centros urbanos,
sendo em sua maioria indivíduos do sexo masculino.
Os 'andaluzes' emigraram quase exclusivamente em grupos familiares,
optando por tarefas rurais no interior de São Paulo. A emigração dos
andaluzes foi facilitada e estimulada por duas Agências de Recrutamento no
porto de Gibraltar, a de Antunes dos Santos e a de Francisco Cepeda. Ambos
os contratantes enviavam seus emissários ao interior da Península para
fazerem propaganda e o posterior recrutamento, levando os grupos
familiares até a cidade de La Línea de la Concepción, onde aguardavam a
chegada do navio. O mecanismo de partida do país englobava a participação
de ganchos (emissários enviados a diversas províncias), contratantes,
donos de pensões ou hotéis e supostos policiais.
Durante o século XIX, os andaluzes emigravam para o norte da África,
trabalhando na colheita de cereais, uvas, azeitonas, tomates, batatas ou
no cultivo de esparto (planta utilizada na fabricação de cestas). Esses
trabalhadores costumavam voltar depois da colheita. Essas migrações foram
interrompidas a partir de 1881 devido a rebeliões na Argélia contra os
colonos. É nesse momento que surge a oportunidade de emigrar para o
Brasil, com os ganchos oferecendo passagens gratuitas. Esse apelo
sensibilizava os andaluzes, compostos por famílias muito pobres,
dependentes da agricultura e da mineração, com baixos salários e péssimas
condições de vida.
Na fase de emigração
maciça para o Brasil, os espanhóis utilizaram principalmente portos
estrangeiros para embarque. Devido à dificuldade de controlar a saída dos
emigrantes pelo porto de Gibraltar, ao intenso fluxo de emigração e às
informações sobre a péssima situação dos colonos no Brasil, o Consejo
Superior de Emigración criou uma série de leis restritivas. Entre elas a
proibição da emigração subsidiada (1910); proibição da atividade dos
ganchos (1912); criação do departamento de inspeção de emigração em
Gibraltar e tribunais em La Línea de La Concepción e em Algeciras. Em
1924, uma lei estabeleceu pena de prisão para os que estivessem envolvidos
com agências de emigração, recrutamento, propaganda, expedição de
passagens e vistos ou reservas de viagem (exceto mediante o pagamento de
uma fiança especial à Dirección General de Emigración).
|
 |
Regiões de
assentamento de espanhóis no Brasil
Belém, Pará (até 1960) - Eram em sua maioria galegos e vinham para
os Núcleos Coloniais criados pelo governo brasileiro para o
desenvolvimento da agricultura. Em 1912, muitos desses espanhóis já haviam
abandonado suas terras em Belém e saído rumo ao Rio de Janeiro, São Paulo
ou Buenos Aires. Isso ocorreu devido à dificuldade de encontrar
compradores para as terras e à péssima condição em que viviam.
Salvador, Bahia - Salvador concentrava 96% dos imigrantes espanhóis
da Bahia, a maioria proveniente da Galícia. Os galegos, como em outros
centros urbanos, concentravam-se no comércio de mercearias, padarias e
restaurantes. Os imigrantes chegavam como trabalhadores comuns e muitos
conseguiam inclusive se tornar proprietários. Além disso, quase a
totalidade das casas de penhores eram de espanhóis. Existia também a
presença de imigrantes de outras regiões da Espanha como Pontevedra (Puente
Caldelas, Fornelos de Montes e La Lama) e Orense. Era uma maioria
masculina e que conseguiu estabelecer correntes migratórias entre sua
região de origem e Salvador.
Rio de Janeiro - A maioria galegos, tinham um comportamento
econômico igual ao de outras localidades onde se instalaram. Muitos se
tornarem proprietários de casas de importação de produtos alimentícios e
de “secos e molhados”. É também grande a participação desses indivíduos na
construção civil e também trabalham como mecânicos, motoristas, alfaiates
e cabeleireiros. Esses imigrantes fundaram várias associações como o
Centro Español, Casa de Galícia, Sociedad Hijos del distrito de Arbo etc.
São Paulo (imigrantes nas fazendas) - A maior parte dos imigrantes
espanhóis se instalaram em São Paulo, onde predominaram os andaluzes
(60%), seguidos pelos galegos (20%). O galegos se dirigiram principalmente
para os grandes núcleos urbanos e, em sua maioria, chegaram ao Brasil por
conta própria. Por outro lado, a maioria dos imigrantes, principalmente
andaluzes, vieram para as fazendas de café em São Paulo. O maior fator de
atração era a possibilidade de viajar de graça. Assim, quem não tinha
dinheiro para ir para Argentina, Uruguai ou Cuba, vinha de graça para o
Brasil. E mesmo com a proibição espanhola da emigração subsidiada para o
Brasil, os espanhóis continuavam a emigrar, principalmente os andaluzes,
localizados próximos a Gibraltar. O período quantitativamente mais forte
de emigração foi de 1910-1914.
Em São Paulo 75% dos espanhóis se instalaram nas regiões de Araraquarense
e Noroeste. Eles estavam comprometidos em trabalhar nas fazendas do
interior, onde a qualidade de vida e trabalho eram degradantes. Esses
imigrantes vinham para o Brasil com suas famílias, o que dificultava seu
retorno à Espanha. No entanto, existem relatos de que alguns espanhóis
conseguiram prosperar poupando dinheiro na sua passagem pelas fazendas. Em
1932, os italianos eram os imigrantes com maior número de propriedades em
São Paulo, seguidos pelos portugueses e pelos espanhóis. Em muitos casos,
a prosperidade se dava quando os imigrantes se dirigiram para novas zonas
produtoras de café, áreas de incorporação tardia ao cultivo.
Existia também outro tipo de imigrante espanhol: os que chegavam com
dinheiro para se estabelecerem como pequenos proprietários nos Núcleos
Coloniais que o estado havia fundado. Mas a porcentagem de espanhóis
nesses núcleos era pequena - 8,39% do conjunto de estrangeiros nos
núcleos.
São Paulo (imigrantes nos centros urbanos) - Entre 1931 e 1933, a capital
de São Paulo contava aproximadamente com 50 mil residentes espanhóis. No
mercado de trabalho, os espanhóis dedicavam-se predominantemente a
trabalhos manuais. Outros se dedicavam à indústria - eram tecelões,
fiandeiros, sapateiros, carpinteiros e mecânicos. Muitos galegos
tornaram-se proprietários de cafés, restaurantes e hotéis. No comércio, os
espanhóis se destacavam em fundições, cristaleria artística, serrarias,
compra e venda de cereais, frutas frescas e secas, importação de azeite,
vinhos e conserva de peixe.
Em 1953, o jornal La Nación publicava uma extensa reportagem sobre as
firmas espanholas no Brasil. No entanto, percebemos que a colônia
espanhola na capital ainda não ocupava uma posição de peso na economia. E
ainda não existia nenhuma empresa que se comparasse às de outros
estrangeiros.
Com relação à organização regional da colônia, os espanhóis formaram uma
série de instituições, tal como a Sociedad Española de Socorros Mutuos
(que ainda existe), o Centro Gallego, a Federación Española, o Grupo
Hispano Americano e o Centro Republicano. Essas associações tinham uma
grande fragilidade econômica devido ao pequeno número de associados.
Nas cidades do interior de São Paulo, a população urbana concentrava-se na
indústria ferroviária. Os imigrantes trabalhavam na instalação e
manutenção das vias férreas e na condução dos trens, principalmente nas
cidades de Campinas, Jundiaí, Sorocaba e Piracicaba. Em Santos, existia um
importante núcleo de trabalhadores espanhóis. O censo de 1913 apontava
que, dos 39.802 residentes, 8.343 eram espanhóis, em sua maioria
provenientes da Galícia.
Muitos deles eram operários do cais, mais havia também condutores de
veículos, comerciantes e agricultores. No cais, muitos operários espanhóis
trabalhavam como estivadores e ensacadores de café. Em 1899, houve uma
greve de estivadores que contou com a participação desses espanhóis.
Novamente, em 1912, uma nova mobilização de trabalhadores do cais foi
seguida de repressão policial e expulsão do país de vários dirigentes.
Também nesse período acontecia uma greve de motoristas e carreteiros com
igual conseqüência. Nesse contexto, vários espanhóis foram deportados.
No trabalho do português Everardo Dias - Histórias das lutas Sociais no
Brasil – há uma descrição de um conflito de março de 1921. Dias destaca
que a maioria dos trabalhadores do cais eram “portugueses, espanhóis e
brasileiros de cor”.
Autor: Esther dos Santos Medeiros (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji. voltar
para o canal Terrítorios
voltar
para HOME
|