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Choques da
Civilização |
Análise |
A Política
Mundial das Civilizações
Estado-núcleo e Conflitos de Linha de Fratura
No mundo que está surgindo, Estados e grupos não fazem aliança
contra terceiros. Mas essas relações de interesse serão frias
e muitas vezes hostis. As relações intercivilizacionais se
parecerão com uma “paz fria”, guerra fria, guerra comercial,
quase-guerra, paz inquieta, coexistência competitiva. O choque
de civilizações é o conflito tribal numa escala mundial.
Os choques ocorrem de duas formas:
(nível local) – conflitos de linha de fratura entre Estados
vizinhos de civilizações diferentes, entre grupos de
civilizações diferentes dentro de um mesmo Estado e entre
grupos que estão tentando criar novo Estado com os destroços
do antigo.
(nível macro) – conflitos de Estados-núcleos ocorrendo entre
os principais Estados de civilizações diferentes. As
diferenças culturais aguçam os conflitos. É impossível que
seja usado a força militar, exceto no Oriente Médio e no
subcontinente indiano. As guerras entre Estados-núcleos só
podem ocorrer: a) a partir da escalada de conflitos de linha
de fratura entre grupos locais; b) decorrente de mudanças na
balança mundial de poder entre “guerras hegemônicas” entre
potências em ascensão e em declínio. Podemos pensar na China
se contrapondo aos EUA, Índia e Rússia. A passagem da Pax
Britannica para a Pax Americana só se deu pacificamente devido
à afinidade cultural o que não ocorre entre Ocidente e China.
O Islã e o Ocidente
As relações entre Islamismo e Cristianismo foram conflituosas,
cada um é o Outro do outro. Apesar de períodos de coexistência
pacífica, deu-se quase sempre uma guerra fria e em vários
momentos uma “guerra fria”. Em 14 séculos, o Islã é a única
civilização que pôs em dúvida a sobrevivência do Ocidente. 50%
das guerras que envolveram pares de Estados de religião
diferentes no período de 1820 e 1925 foram guerras entre
muçulmanos e cristãos.
As raízes dos conflitos advêm de algumas diferenças. O
Islamismo concebe um estilo de vida que transcende e une
religião e política, e a concepção cristã ocidental claramente
separar os reinos de Deus e César. Mas também algumas
similitudes acirraram os conflitos: ambas são religiões
monoteístas (vendo o mundo de forma dualista: nós-e-eles);
universalistas (uma única fé verdadeira a qual devem aderir
todos os homens); missionárias (acreditando na obrigação da
conversão dos não crentes a essa fé verdadeira). Além disso,
Islamismo e Cristianismo, têm uma visão teleológica da
História.
O nível de conflito violento entre o Islamismo e o
Cristianismo variou influenciado por crescimento e declínio
demográfico, desenvolvimento econômico, mudanças tecnológicas
e intensidade de dedicação religiosa. Os conflitos no final do
século XX se devem: a) crescimento populacional muçulmano
(jovens desempregados); b) ressurgimento islâmico; c)
ressentimento muçulmano frente os esforços simultâneos do
Ocidente para universalizar seus valores e instituições, para
manter sua superioridade econômica e militar e para intervir
nos conflitos do mundo muçulmano; d) o colapso do comunismo
que acabou com um inimigo comum do Ocidente e Islã; e)
crescentes contatos, escancarando nova percepção da própria
identidade diferente da do outro.
Podemos resumir as causas dos renovados conflitos entre Islã e
Ocidente nas questões fundamentais de poder e cultura. O
controle de território que já foi uma das questões principais
deu lugar a questões com proliferação de armamentos, direitos
humanos e democracia, migração, terrorismo fundamentalista
islâmico e intervenção ocidental. Há sinais inequívocos entre
a ética ocidental judaico-cristã e o movimento de
revitalização islâmica.
O repúdio da influência européia e norte-americana sobre a
sociedade, a política e a moral locais geraram nos anos 80 e
90 uma tendência antiocidental e conseqüente reação contra a “ocidentoxicação”,
uma reafirmação do Islã. Se no meio do século XX líderes
islâmicos defendiam uma ocidentalização, nos 25 anos finais do
século XX percebe-se que os mesmos acentuam-se as diferenças
entre as civilizações, a superioridade de sua cultura e a
necessidade de manter a integridade dessa cultura contra o
ataque ocidental. Eles vêem a cultura ocidental como
materialista, corrupta, decadente, imoral e sedutora. Aos
olhos muçulmanos, o secularismo, irreligiosidade e, portanto,
a imoralidade ocidentais são males piores do que o
cristianismo ocidental, que os produziu. “Nós somos
diferentes. Nós temos origens diferentes, uma história
diferente. Por conseguinte, temos direito a futuros
diferentes”.
Os governos pró-ocidentais no Islã deram lugar a governos
menos identificados com o Ocidente ou explicitamente
antiocidentais. Os amigos íntimos do Ocidente no mundo
islâmico são dependentes militar ou economicamente dos EUA.
Já no Ocidente, percebemos o cultivo ideológico de uma
“crescente ameaça islâmica”. O Islã é visto como fonte de
proliferação nuclear, terrorismo e, na Europa, imigrantes
indesejados. Deve-se destacar que ameaças percebidas também
ensejaram uma justificativa para a manutenção de substancial
presença militar dos Eua na Europa.
Após a revolução iraniana de 1997, desenvolveu-se uma
quase-guerra entre o Islã e o Ocidente. Essa quase-guerra tem
sido do ponto de vista militar sobretudo uma guerra de
terrorismo versus poder aéreo, os islâmicos se aproveitando da
abertura da sociedade ocidental e os ocidentais se valendo do
seu poderio militar.
De acordo com o autor, os protestos contra a violência
antiocidental inexistem por completo nos países muçulmanos e
os governos europeus e a opinião pública apóiam e raramente
criticam as ações dos EUA contra os adversários muçulmanos
(afirmações questionáveis quando analisamos a intervenção no
Iraque – 2003).
Ásia, China e EUA
O cadinho de civilizações
As mudanças econômicas na Ásia têm grande importância no
cenário mundial da segunda metade do século XX. Acredita-se
que as redes econômicas em expansão iriam assegurar a paz e a
harmonia entre as nações. Para o autor, o crescimento
econômico cria instabilidade política, por alterar a balança
de poder entre as nações. O intercâmbio econômico põe as
pessoas em contato, não de acordo.
O desenvolvimento econômico asiático está perturbando a
política internacional, pois: 1) o desenvolvimento econômico
habilita os Estados asiáticos a expandir sua capacidade
militar; 2) desenvolvimento econômico aumenta a intensidade de
conflito entre as sociedades asiáticas e o Ocidente; 3) o
crescimento da China aumenta sua influência na região.
A Ásia Oriental sozinha contém sociedades que pertencem a 6
civilizações japonesa, sínica, ortodoxa, budista, muçulmana e
ocidental e Ásia Oriental acrescenta o hinduísmo. Em meados de
90, a Ásia Oriental incluía uma democracia estável, várias
democracias novas e instáveis, 4 das 5 ditaduras comunistas,
além de governos militares, ditaduras pessoais e sistemas
autoritários. O autor afirma que diferente da Europa (com EU,
OTAN, Conselho da Europa etc) não há nada similar na Ásia
Oriental.
Na Ásia Oriental, os conflitos herdados da Guerra Fria estão
sendo suplementados e suplantados por outros possíveis
conflitos. Disputas territoriais não resolvidos como Rússia e
Japão ou China de um lado e Rússia e Índia do outro.
O dinamismo econômico, as disputas territoriais, as
rivalidades reativadas e as incertezas políticas alimentaram
aumentos significativos nos orçamentos militares.
As guerras-frias Ásia - EUA
No final dos 80 e início dos 90, os relacionamentos entre EUA
e os países asiáticos foram se tornando cada vez mais
antagônicos.
O ponto principal de problemas entre Japão e EUA é as relações
econômicas. Cada controvérsia comercial ficava mais aguda que
a anterior. A opinião pública de cada um dos países foi
assumindo uma disposição menos favorável para com o outro. As
imagens do Japão na mídia popular, nas publicações de
não-ficção e nos romances populares ficaram cada vez mais
significativas. E assim, candidatos norte-americanos à
presidência descobriram que advogar uma linha dura em questão
que afetavam as relações Japão-EUA caía bem aos eleitores.
As relações China-EUA ficaram cada vez mais antagônicas, sendo
tratados muitas vezes como uma nova guerra-fria. As
autoridades chinesas denunciavam constantemente intromissão
americana nos assuntos chineses. Cada lado acusava o outro: os
EUA afirmavam que a China violara entendimento sobre a
exportação de mísseis, direitos de propriedade intelectual e
trabalho de detentos; segundo os chineses, os EUA violaram
entendimento ao permitir que Lee (Taiwan) viajasse nos EUA e
ao vender caças para Taiwan. O crescente antagonismo entre
China e os EUA foi em parte impulsionado pela política interna
em ambos países.
Assim, ao longo de uma década, as relações dos EUA se
deterioram tanto como Japão como com a China. A maior
interação entre as sociedades asiáticas e os EUA multiplicou
questões e os assuntos nos quais os interesses podiam se
chocar; o fim da Guerra-fria retirou interesses comuns que
ligavam EUA e as potências asiáticas; e o desenvolvimento
econômico dos países da Ásia Oriental alterou a balança de
poder entre eles e os EUA.
De acordo com o autor, as fontes de conflito estão nas
diferenças fundamentais de sociedade e cultura. Reverberados
na economia, geraram controvérsias quanto ao superávit
comercial japonês e a resistência do Japão aos produtos e
investimentos norte-americanos. De fato, a economia japonesa é
única porque a sociedade japonesa é não-ocidental de um modo
único.
A política americana nos anos 90 em relação à Ásia demonstra
uma paulatina adaptação à alterada balança de poder.
Primeiramente, separaram questões onde poderia influenciar das
questões conflituosas. Em segundo lugar, os EUA fizeram
concessões esperando mesma atitude dos asiáticos. De acordo
com o autor, as concessões estado-unidenses foram
interpretadas pelos asiáticos como fraquezas a serem
exploradas. Em terceiro lugar, acordos redigidos de forma
ambígua levavam EUA e Japão a se crerem como “vencedores”,
mantendo tudo como antes.
Alterações na balança de poder e diferenças na cultura levaram
as sociedades asiáticas a se unirem pelos seus interesses
contra os EUA.
Enfim, pode-se perceber que os conflitos EUA x China cobriram
uma gama muito mais ampla de questões que Japão x EUA. E isso
se deve a questões fundamentais de poder. China não aceita a
hegemonia americana no mundo e EUA não aceitam a hegemonia
chinesa na Ásia.
Hegemonia chinesa: contrabalançar e atrelar-se
Há várias possibilidades de relações internacionais na Ásia
Oriental do início do século XXI, mas a mais possível é a
reversão ao seu padrão unipolar tradicional, com uma
hierarquia de poder centrada em Pequim. Isso pode acontecer se
a China continuar mantendo altos níveis de crescimento
econômico e sua unidade na era pós-Deng. A história, a
cultura, as tradições, as dimensões, o dinamismo econômico e
auto-imagem da China são fatores que impulsionam para assumir
uma posição hegemônica na Ásia Oriental. No final dos anos 80
(até os dias de hoje), a China começou a converter seus
crescentes recursos econômicos em poder militar e influência
política.
A China abandonou o apoio que dava a manutenção de uma
presença militar norte-americana na Ásia Oriental e começou a
se opor a isso. Concomitantemente, a China têm demonstrado
desconforto com o aumento do poder militar japonês. De
qualquer forma, a hegemonia chinesa na Ásia Oriental
provavelmente não envolverá uma expansão de controle
territorial através do emprego direto da força armada, mas
dependerá do apoio dos países da região.
De modo geral, os Estados podem reagir ao surgimento de uma
nova potência: contrabalançando a potência que surge e, se
necessário, indo a guerra para derrotá-la (podendo fazer isso
isoladamente ou em coligação com outros Estados); ou então os
Estados podem tentar atrelar-se à potência que surge, se
acomodar a ela e assumir uma posição secundária ou
subordinada. Ao contrabalançar o poder, os Estados podem
desempenhar um papel primário ou secundário. De acordo com o
autor, a China definiu os EUA como o seu inimigo principal e
assim a inclinação norte-americana predominantemente será a de
agir como contrabalançador primário e evitar a hegemonia
chinesa.
Se os EUA de fato quiserem impedir a dominação da Ásia
Oriental pela China, precisarão redirecionar sua aliança com o
Japão para essa finalidade, desenvolver estreitos laços
militares com outras nações asiáticas e aumentar sua presença
militar na Ásia. Se os EUA não estiverem dispostos a lutar
contra a hegemonia chinesa, terão que abrir mão do seu
universalismo e se conformar com uma redução acentuada de sua
capacidade de moldar os acontecimentos na Ásia. Os EUA são
muitas mais capazes de se mobilizar diretamente contra uma
ameaça existente do que de contrabalançar uma contra a outra
(Japão x China), duas ameaças em potencial.
Dentro da China, o atrelar-se parece ter sido muito mais
importante em comparação com o contrabalanceamento do que na
Europa. Os chineses não mostraram apreços por concepções de
segurança multipolares nem mesmo multilaterais. De modo geral,
os asiáticos estão dispostos a aceitar a hierarquia nas
relações internacionais. Esse modelo contrasta de forma
espetacular com o modelo europeu de equilíbrio de poder. Nos
anos 90, praticamente todas as nações da Ásia Oriental, afora
China e Coréia do Norte, expressavam seu apoio à manutenção de
uma presença militar norte-americana, mas na prática (exceto o
Vietnã) todas elas tendiam a se acomodar com a China.
A ascensão da China criará um grande desafio para o Japão e os
japoneses estão profundamente divididos quanto a que
estratégias devem usar. O núcleo de qualquer esforço
significativo para contrabalançar e conter a China teria que
ser a aliança nipo-norte-americana. Mas na ausência de uma
grande e improvável demonstração de determinação e empenho dos
EUA, é provável que o Japão trate de se acomodar com a China.
Tal como os chineses, os japoneses vêem a política
internacional em termos hierárquicos, porque assim é sua
política interna. O comportamento japonês quanto a alianças
tem sido basicamente o de se atrelar, não o de contrabalançar.
À medida que diminui o envolvimento norte-americano na Ásia,
aumentam as vozes no Japão para uma “reasitização” aceitando
como inevitável à hegemonia chinesa.
De acordo com o autor, a hegemonia chinesa reduzirá a
instabilidade e os conflitos na Ásia Oriental.
O legado confuciano da China, com a ênfase que atribui a
autoridade, ordem, hierarquia e supremacia da coletividade
sobre o indivíduo, cria obstáculos à democratização. No
entanto, o crescimento econômico está criando no sul da China
níveis cada vez mais elevados de riqueza, uma burguesia
dinâmica, o acúmulo de poder econômico fora do controle
governamental e uma classe média em rápida expansão. Além
disso, o povo chinês está cada vez mais envolvido com o mundo
exterior em termos de comércio, investimentos e instrução.
Tudo isso cria uma base social para um movimento na direção do
pluralismo político.
A opção para a Ásia está entre o poder contrabalançando ao
custo de conflitos ou a paz obtida ao preço da hegemonia.
Civilizações e Estados-núcleos: alinhamento que surgem
De acordo com o autor, enquanto prosseguirem os ímpetos
demográfico e econômico asiático, os conflitos entre Ocidente
e as civilizações desafiantes serão mais fundamentais para a
política mundial do que outras linhas divisórias. As relações
entre os EUA, de um lado, e a China, o Japão e outros países
asiáticos, do outro, terão uma feição altamente conflituosa, e
poderá eclodir uma grande guerra se os EUA contestarem a
ascensão da China como potência hegemônica na Ásia.
Nessas condições, a conexão confuciano-islâmica será mantida e
talvez se amplie e se aprofunde. No centro dessa conexão,
situam-se as íntimas relações entre Paquistão, Irã e China. A
cooperação entre os três países incluiu diálogos regulares
entre autoridades políticas, militares e burocráticas, bem com
esforços conjuntos numa variedade de campos civis e militares.
As culturas desses países oferecem um veículo para a expressão
de queixas pelas quais o Ocidente é em parte responsabilizado
– um Ocidente cuja dominação política, militar, econômica e
cultural é cada vez mais ressentida num mundo em que os países
sentem que não tem mais que aturar isso de ninguém.
O entusiasmo por uma estreita aliança antiocidental dos países
confucianos e islâmicos tem sido um tanto silencioso por parte
da China. Os conflitos da China com o Ocidente significam que
ela dará valor a parcerias com outros países antiocidentais,
dos quais o maior número e os mais influentes provêm do Islã.
Além disso, as necessidades crescentes da China em petróleo
provavelmente a impelirão a expandir suas relações com Irã,
Iraque e Arábia Saudita.
As relações de outras civilizações e seus Estados-núcleos com
o Ocidente, bem como os seus desafiantes, passarão por grandes
variações. As civilizações latino-americana e a africana
carecem de Estados-núcleos, têm sido dependentes do Ocidente e
são relativamente fracas militar e economicamente (embora isso
esteja mudando rapidamente no caso da América Latina). Os
latino-americanos podem não gostar da dominação militar
norte-americana, mas não demonstram nenhuma intenção em
contestá-la. As principais questões conflituosas entre a
América Latina e o Ocidente, este último significando na
prática os EUA, são imigração, drogas e terrorismo relacionado
com drogas, e integração econômica. No entanto, as diferenças
entre o Ocidente e a América Latina continuam sendo pequenas
se comparadas com as que existem entre o Ocidente e outras
civilizações.
As relações do Ocidente com a África deveriam envolver níveis
de conflito apenas ligeiramente mais altos, basicamente por
causa da fraqueza da África. Contudo, há algumas questões
importantes. A África do Sul não abandonou um programa para
desenvolver armas nucleares e é possível que um governo
pós-apartheid venha a produzir um novo arsenal nuclear para
garantir seu papel como Estado-núcleo da África. Parece que um
processo de desocidentalização em longo prazo está em
andamento na África.
Isso não acontece com as três civilizações oscilantes (Índia,
Rússia e China). Seus Estados-núcleos são atores importantes
nos assuntos mundiais e geralmente têm um relacionamento
misto, ambivalente e variável com o Ocidente e os desafiantes.
A Rússia e a China poderiam unidas fazer pesar de forma
decisiva a balança euro-asiática contra o Ocidente. Já uma
Rússia trabalhando intimamente com o Ocidente proporcionaria
um contrapeso adicional à conexão confuciano-islâmica no
contexto de questões mundiais e reacenderia na China seus
receios de Guerra Fria quanto a uma invasão vinda do Norte.
Entretanto, a Rússia também tem problemas com ambas essas
civilizações vizinhas. Caso surja um acordo não é provável que
a Rússia ou o Ocidente representem uma ameaça à segurança um
do outro.
No período imediatamente posterior ao fim da Guerra Fria, as
relações russo-chinesas ficaram muito mais cooperativas. A
Rússia encontrou na China um cliente ansioso e de grande porte
para seu equipamento e tecnologias militares. Para ambos os
países, uma conexão russo-chinesa é um meio de contrabalançar
o poderio e o universalismo ocidentais. A sobrevivência em
longo prazo dessa conexão depende sobretudo do grau em que a
ascensão da China à hegemonia na Ásia ameace os interesses
russos dos pontos de vista econômico, demográfico e militar.
As relações da Rússia com o Islã são moldadas pela herança
histórica de séculos de expansão. A Rússia tentou com muito
empenho manter sua influência política, econômica e militar
nas repúblicas da Ásia Central. Preocupações de segurança
constituem incentivo adicional para a cooperação com a China,
a fim de conter “a ameaça islâmica” na Ásia Central, são
também parte dos motivos principais para a reaproximação da
Rússia com o Irã. A Rússia tem fornecido material bélico e em
troca espera, de modo explícito, que o Irã contenha a
disseminação do fundamentalismo na Ásia Central.
Durante a Guerra Fria, a Índia era aliada da URSS e travou uma
guerra contra a China e várias contra o Paquistão. Suas
relações com o Ocidente, especialmente com os EUA, eram
distantes. No mundo pós-Guerra Fria, as relações da Índia com
o Paquistão provavelmente continuarão muito conflituosas por
causa da Caxemira. Na medida em que o Paquistão consiga obter
o apoio de outros países muçulmanos, as relações da Índia com
o Islã serão, em geral, difíceis. Com o término da Guerra
Fria, os esforços da China para estabelecer relações amistosas
com seus vizinhos se estenderam à Índia e assim diminuíram as
tensões entre as duas. É improvável, porém, que essa tendência
continue por muito tempo, tendo em vista as relações da China
com o Paquistão. A Índia se esforçará por emergir não só como
um centro de poder independente no mundo multipolar, mas
também como um contrapeso ao poderio e influência da China. A
Índia considerará claramente do seu interesse manter seu
íntimo relacionamento com a Rússia. Além da proliferação de
armamentos, outras questões entre a Índia e os EUA abrangeram
direitos humanos, Caxemira e a liberalização econômica.
Entretanto, com o passar do tempo, as relações Estados
Unidos-Paquistão e seus interesses em comum na contenção da
China provavelmente aproximarão mais a Índia e os EUA
A bipolaridade relativamente simples da Guerra Fria está dando
lugar aos relacionamentos muito mais complexos de um mundo
multipolar e multicivilizacional.
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