Choques da Civilização

Análise

Etni-Cidade e Política nas Relações Internacionais
Mônica da Silva Ribeiro

A etnicidade é sempre amplamente discutida no meio acadêmico, mas é tida, na maioria das vezes, como somente um conceito. Esquece-se de relacioná-la com o contexto histórico político, econômico e social das relações mundiais.

Alguns acontecimentos recentes, como os atentados de 11 de setembro de 2001, a guerra do Afeganistão e a guerra do Iraque mostraram mais uma vez a centralidade dos problemas de etnicidade e de segurança na política internacional, bem como a complexidade de suas dinâmicas.

Simultaneamente a esses fatos, percebe-se uma certa perplexidade a respeito do funcionamento e do papel desempenhado pelas organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Como esses organismos agem em relação a esses conflitos?

Torna-se, então, evidente que é preciso estudar esses acontecimentos de política internacional não mais apenas como conflitos político-econômicos e ideológicos, mas também como conflitos étnicos, englobando, nessa caracterização, as diferentes culturas, religiões, crenças, costumes e o desenvolvimento social dos povos.

Por isso, é fundamental, nesse sentido, discutir o modo como os Estados se organizam para lidar com esses novos problemas surgidos no final do século XX, e que parecem constituir a tônica predominante dos primeiros anos do século XXI. Nesse sentido, as novas alianças e políticas de defesa e de ataque são fundamentais, bem como um entendimento do fenômeno da “guerra étnica”: o que a constitui, suas dinâmicas, implicações e o que observar quando se trata de analisá-las.

A introdução à política internacional, os problemas de diferenciações étnicas e a forma como os estados se organizam para enfrentá-los constituem o ponto básico de compreensão da dinâmica mundial nos dias atuais. Para tal entendimento, tornam-se importantes as principais abordagens sobre os problemas internacionais de segurança.

Além disso, a discussão consistente das questões envolvidas em guerras, crises e disputas internacionais é fundamental para a percepção dos reais motivos dos conflitos e da relação (ou não) da questão étnica.

Dentro dessa perspectiva, deve-se situar o papel das Nações Unidas e outros arranjos regionais de segurança na política internacional, percebendo a que interesses essas organizações realmente atendem. Os interesses de todas as nações do mundo são levados em consideração da mesma forma? A partir dessa análise, podemos compreender o papel e as dinâmicas políticas de alianças internacionais.

Nos últimos anos, conflitos como os ocorridos em Kosovo, Timor-Leste e na Chechênia, por exemplo, só para citar alguns, dominaram a política internacional, deslocando o centro de gravidade para terras distantes, que passam por problemas inerentes à definição dos caracteres de nacionalidade e de constituição étnica.

As afinidades entre estas crises são bastante claras, se considerarmos que todas estão associadas à questão da redefinição dos limites espaciais e territoriais do pós-guerra fria; ao desmantelamento de Estados pequenos, médios ou grandes, com todos os comprometimentos culturais e étnicos que são acarretados a partir desse fato; e à possibilidade das nações que estão surgindo se afirmarem como Estados reconhecidos internacionalmente.

Outro ponto ligado à questão da política internacional que precisa ser mais bem discutido diz respeito aos direitos humanos. A violação dos direitos humanos por parte dos Estados também constitui grave problema internacional, e está quase que umbilicalmente ligada à etnicidade. O desrespeito às características dos povos que apresentam uma dinâmica diferente da sua deve acarretar em limitações à soberania dos Estados transgressores. Mas, isso realmente acontece? Ou será que tais limitações só se aplicam em determinados casos?

Para sua eficácia, a política de defesa da liberdade e dos direitos humanos deve ter a confiança da opinião pública, e para isso, é essencial que seja coerente. É o comportamento das nações frente a esse novo desafio é que vai decidir se tal coerência vai ou não ser possível.

Sob a designação de direitos humanos pode-se destacar a defesa de princípios de respeito pela liberdade e integridade física das pessoas e das comunidades humanas, bem como dos direitos políticos e econômicos que lhe estão associados. O direito de expressão, reunião, associação e o direito ao livre empreendimento também constituem esse pacote. Resumindo, trata-se da defesa da liberdade. Só que essa liberdade deve ser vista como ampla e irrestrita, não se limitando à “liberdade ocidental”.

Num período em que a liberdade vem sendo constantemente massacrada, é fundamental trabalhar a questão da sua defesa. Tal preocupação deve estar no centro da ação da comunidade internacional, destacando a liberdade das diferenças étnicas.

As ditaduras que dominaram o século passado, e que ainda dominam esse, apesar de muitas vezes se revestirem de democracias, dificultam ou mesmo impedem o respeito aos direitos humanos das diferentes nações que constituem o globo. As pretensas democracias revelam ainda uma grande fragilidade nesse ponto.

Essas democracias, que tem a liberdade como bandeira principal, se preocupam com a sua própria liberdade, esquecendo-se da liberdade do outro. Para garantir tal procedimento, vários instrumentos são utilizados, como ameaças militares, políticas e diplomáticas ao considerados “inimigos da liberdade”.

Nesse sentido, os interesses econômicos, políticos e étnicos falam mais alto, e as solidariedades que se criam são solidariedades ideológicas ou étnicas, entre semelhantes, excluindo o diferente. As relações estabelecidas são interessadas em garantir o status quo dominante. É bastante natural notarmos, nesse processo, a concorrência entre essas democracias, que desejam preservar ou aumentar a sua influência política, cultural ou econômica.

Dentro dessa perspectiva, as relações entre as nações são, de forma geral, mais um fator de divisão e exclusão dos interesses mundiais do que um traço de união na defesa dos valores comuns de ética e liberdade.

Para uma mudança fundamental na situação internacional seria necessária uma reflexão sistemática sobre os pontos apresentados, de forma a se perceber e a analisar o modo de agir das ditaduras totalitárias e das democracias totalitárias que permeiam nossa sociedade global até os dias de hoje, construindo-se assim uma real liberdade a partir de um novo conceito de democracia, social, política, econômica e, especialmente, étnica.

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