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Choques da
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A Etnologia na
Política Internacional
Daniel Jesus
PREFÁCIO
O ensaio de Daniel Moynihan
procura apontar a relação da etnologia e do nacionalismo na
política internacional, de que maneira as doutrinas de
autodeterminação nacional, podem oferecer a fórmula para quase
todos os tipos de conflitos. E a ignorância que ainda existe
entre pessoas que deveriam entender claramente a força e o
significado da etnologia. O livro é baseado numa palestra dada
pelo Senador Moynihan em Oxford, em 29 de Novembro de 1991.
Mas, apesar de tudo, continua bastante atual para nossa
realidade internacional.
O elemento que motivou tanto
a palestra como o livro foi o colapso da União Soviética e o
da República Federativa Socialista da Iugoslávia. Quando um
Império se parte, as conseqüências posteriores estão quase
sempre relacionadas à violência. Surpreendentemente, a queda
do comunismo como ideologia vigente, entre 89 e 90, foi
bastante pacífica. Em eventos subsequentes a violência foi
manifestada. E as razões estiveram na maioria das vezes
ligadas à políticas etnológicas, antagonismos étnicos e
competição entre grupos distintos. Em Paraíso Perdido, de
Milton, Pandemonium é a capital do inferno, e é habitada por
demônios que acreditam terem as melhores intenções em mente. A
força do nacionalismo e a Autodeterminação nacional estão em
moda hoje em certas regiões do planeta, e estão intimamente
ligadas as decisões do Império.
O autor não parece muito
preocupado com a origem ou com definições precisas acerca da
etnologia, seu objetivo parece ser o de posicioná-la na
Política Internacional. E o faz a partir de interpretações de
forças e eventos. O termo etnologia sugere um estudo das
diferenças de raça e língua, decisivas para determinar a
identidade de um grupo. Todavia, certos conflitos envolvem
grupos rivais da mesma raça e língua, como ocorreu na
Iugoslávia. A história ensina quem é o seu amigo, e a
segurança se torna o maior elo de identidade, acima da cor,
língua ou religião.
A Política Internacional
norte-americana também é objeto de estudo no texto. Ela
estaria baseada na crença de que não há nada de errado com as
pessoas no mundo, apenas com os seus governos. Uma visão um
tanto “ingênua” para se observar uma situação bem mais
complexa, e que pode dar margem à erros de proporções
significativas. Considerando a relevância dessa questão, o
Senador aponta, no último capítulo, a importância da ONU se
posicionar de forma mais atuante em conflitos de
Autodeterminação nacional.
INTRODUÇÃO
A primeira questão de Daniel
Moynihan é definir o verdadeiro tema de sua palestra:
discursar sobre o melhor entendimento entre nações ou o melhor
entendimento das nações? Ele escolhe o segundo como pontapé
inicial para a resolução do problema. Mas o que é uma nação?
Não existe uma única resposta precisa, apesar do conceito
nação ser crucial para o fim das guerras. “Walker Connor,
seguindo Marx Weber, define a nação como um grupo de pessoas
que acreditam se relacionarem através do parentesco. É a maior
parte do grupo que compartilha essa crença”. Um fator
importante é que a formação da nação não é um evento, mas sim,
um processo. Em certos casos, podem se passar séculos até que
uma consciência nacional se espalhe por todas as classes de
uma sociedade.
O próximo passo é alcançado
quando essa Nação se torna um Estado. Uma nação com seu
próprio território. E é assim que o nacionalismo do século XIX
se caracteriza, com por exemplo: a unificação da Itália e a da
Alemanha. Eugen Weber fez um estudo sobre o processo de
formação do Estado Francês, Peasants into Frenchmen: The
Modernization of Rural France, 1870 – 1914, na época em que o
francês era considerado um idioma estrangeiro para metade da
população francesa.
A maioria dos estudos sobre
imigração de Europeus do Sul e Sudeste para América revela que
estes vieram a aprender algo sobre suas nacionalidades apenas
ao chegarem nos Estados Unidos. Essa é uma evidência de que os
Europeus só vieram a reconhecer certas nações muito tempo após
os seus surgimentos. E talvez ainda hajam certos problemas. “O
Nacionalismo Europeu surgiu como um exercício de combinar
pessoas com Estados”. Em diversas partes da Europa, as pessoas
não conseguiram entender essa divisão, muitas estavam
acostumadas aos grandes reinos. “Virtualmente toda a África e
a maior porção da Ásia e Europa foi feita de Estados que um
dia fizeram parte de vastos Impérios, agora partidos. A
maioria fala diversos idiomas, tem regiões distintas e
disputas internas (...) Esses Estados são ‘Nações’ como
definimos o termo? Claramente que não. Mas eles são Estados.
Membros de uma organização de estados, para problemas
intrincados, chamada Nações Unidas”.
A nação termina por ser a
forma mais “elevada” de um grupo étnico, denotando a
consciência de uma ligação ancestral. A nação evita declarar
guerra a uma outra nação, mas os grupos étnicos lutam o tempo
todo, pois essa é a forma que eles encontram para entrar nas
questões da política internacional.
Em 1992, Mikhail Gorbachev
falou aos membros do Congresso Americano o perigo das etnias
totalitárias dominarem o mapa geopolítico que estava surgindo
da antiga União Soviética, e pediu todo o apoio possível para
que as democracias pudessem ajudar na manutenção da ordem. Os
conflitos étnicos estavam espalhados por outras regiões
também. A política internacional se via completamente
dividida. O autor cita um artigo da revista The Economist que
relata todos os esforços europeus para uma intervenção de paz
na Iugoslávia. Mas um ministro inglês afirmou: “você não pode
ter homens para estabelecer a paz, se não há paz para ser
estabelecida”. E não havia motivo para pânico: “os otimistas
já apontaram que isso não é 1914”. O problema é que eles
disseram o mesmo em 1914, e se outras medidas tivessem sido
tomadas, talvez 1914 não tivesse sido da maneira como
conhecemos hoje. O resultado foi uma crise dos Estados
Europeus que veio se prolongando de 1914 até 1989, e que o
autor acredita poder ser resolvida a partir de uma nova ordem
mundial baseada em velhos princípios legais.
Mesmo num país distante dos
problemas europeus, como os EUA, a questão da identidade não é
bem definida. Muitos tentavam defender a pureza anglo -
saxônica do povo americano, mas Mr. Dooley observou que “um
anglo – saxão ... é um alemão que esqueceu quem são seus
pais”. “Enquanto as pessoas se entendiam pela multiplicidade,
as elites americanas ofereciam apenas três identidades. Nós
poderíamos ser germânicos, anglo – saxões, ou americanos”.
Acreditava-se que a mistura de diversas etnias em um mesmo
Estado, dentro do modelo de vida Americano, seria capaz de
minimizar as diferenças, gerando uma sociedade homogênea, mas
isso não ocorreu.
Quanto ao que esperar ou o
que acreditar? Harold R. Isaacs escreveu: “Nós giramos num
centrifugador, nos jogando pra fora social e politicamente, e
ao mesmo tempo, forças centrípetas nos pressionam todos juntos
mais e mais numa mesma massa a cada ano. O poder mundial está
mais concentrado e mais difuso do que antes... Nós entramos na
era pós – industrial após dois terços do mundo mal ter acabado
de emergir da era pré – industrial...”
1 – ETNOLOGIA COMO
DISCIPLINA
A etnologia é um assunto que
tem sido ignorado. Para muitos, as relações étnicas entraram
em declínio. Nos EUA, a ligação étnica era algo atrasado, a
idéia de ser americano deveria estar acima de todas as
identidades anteriores. Estas são correntes que perduram desde
o período colonial. Sir Henry Sumner Maine descreveu que em
sociedades primitivas a ligação sangüínea é a base da
comunidade nas funções políticas. Enquanto, as sociedades
modernas estão relacionadas pelo território, uma inovação
revolucionária.
O Marxismo acreditava que a
etnologia deveria dar passagem para a internacionalização do
proletariado. Todas as diferenças culturais eram aceitáveis,
mas a classe social, uma categoria econômica, era a verdadeira
determinação da identidade. Muitos trabalhos acadêmicos vieram
questionar esse modelo de relação social, com destaque para
Hobsbawm, Nations and Nationalism. Os questionamentos teriam o
objetivo de alertar para o fato de que as sociedades são muito
mais complexas do que as divisões em classes. Na verdade, os
etnólogos passaram a estudar os casos olhando para etnologia e
para as classes. John Dollard criou uma matriz entre classes e
etnologia, Caste and Class in a Southern town (1937). A classe
é medida no eixo horizontal, e a etnologia no eixo vertical,
de onde surgem quatro grupos: Classe Alta e grupo Étnico
Dominante; Classe Baixa e grupo Étnico Dominante; Classe Alta
e grupo Étnico Dominado; Classe Baixa e grupo Étnico Dominado.
Em 1963, o autor iniciou um
estudo com Nathan Glazer, que procuraria ir além da grande
mistura e entender a vida dos negros, porto-riquenhos, judeus,
italianos e irlandeses da cidade de Nova York. Seu trabalho
estaria relacionado a expectativa liberal, e paralelamente ao
Marxismo, um desafio para os círculos intelectuais da época.
Glazer tinha certeza de que Marx errou, e que tudo que
seguisse seu modelo também daria errado. O livro conclui com a
seguinte nota: “A religião e a raça definirão o próximo
estágio na evolução dos americanos. Mas a nacionalidade
americana ainda está sendo formada: seu processo é misterioso,
e a sua forma definitiva, se é que ela existe, ainda é
desconhecida”.
A maioria dos estudiosos
americanos desse campo tem ligações com o pensamento Marxista.
Ou são defensores do marxismo, ou anti – marxistas convictos.
Das duas formas, eles acabam amarrados ao conceito de
proletariado internacional, e esquecem de observar a diferença
que se apresenta nas ruas.
Um exemplo profético pode ser
encontrado no artigo, “Nacionalismo ou Classe? Questões acerca
do potencial dos símbolos políticos”, de Daniel Bell, 28 anos,
publicado no jornal, The Student Zionist, um jornal produzido
na Universidade de Chicago em 1947. Um ano antes da criação do
Estado de Israel. O inicio do artigo detalha a situação
política na Palestina, a relação entre árabes e judeus. Os
dois grupos precisam conviver juntos mesmo com suas
diferenças. Posições procuram delinear caminhos de convivência
para ambos os lados, mas cada posição resguarda seus próprios
símbolos de identificação. Para os Hashomer, a consciência de
classe é forte o bastante para unir árabes de classe baixa e
trabalhadores judeus. Para os Ichud, o liberalismo e suas
promessas de paz são o suficiente para unir homens de bem.
Para outros grupos sionistas a emoção do nacionalismo é o
maior potencial para criação de um grupo coeso.
Os primeiros olhavam para um
estado trabalhador de Árabes e Judeus. O grupo Ichud, formado
pela classe média e por intelectuais também acreditava num
estado bi – nacional. Mas nenhuma das duas formas deu certo.
Os dois grupos não se entenderam. Um estado judeu foi criado e
saiu em busca de alianças externas: “se o nacionalismo ainda é
a chave para ações políticas, então uma política de alianças
nacionais pode ser necessária para sobrevivência. Isso pode
requerer uma maior afinidade com a Inglaterra ou os Estados
Unidos”. Essa conclusão veio de um estudante de 1947.
Com o tempo, a etnologia
acabou se tornando um campo de estudo com avanços
significativos. E se antes, o desconhecimento acerca do que se
passava na União Soviética era motivo para pânico e previsões
absurdas, atualmente os estudos etnológicos possibilitam
maiores alternativas de reflexão. Em 1979, a revista Newsweek
publicou um artigo que tratava do fim da União Soviética como
uma grande explosão nuclear, que poderia acabar com o mundo.
Uma referência a perda do controle dos mísseis dentro dos
estados. O mundo não explodiu, e quatro países do bloco
socialista (Rússia, Ukrania, Bielorússia e Kasaquistão) se
comprometeram a controlar a redução das armas. Antes disso,
mísseis e terroristas circularam pelo mundo sem que os EUA
soubessem exatamente o que fazer.
Alguns dados são utilizados
para mostrar que o regime soviético vivia tentando crer e
fazer com que os outros acreditassem nas idéias da revolução
de 1917. O comunismo teria morrido a muito tempo, mas levaria
tempo até que essa notícia atingisse as regiões mais
distantes. É necessário uma ou duas gerações até que todos
compreendam o que ocorreu. Demograficamente, números da década
de 70 mostram uma das maiores diferenças mundiais na
expectativa de vida entre homens e mulheres, um aumento na
taxa de mortalidade infantil, e posteriormente, uma queda na
expectativa de vida masculina para 63 anos. Ou seja, a
sociedade soviética estava desabando. E finalmente, os
problemas étnicos. Nos anos 70, o número no pedido de
emigração de judeus soviéticos aumentou tanto que passou a
caracterizar um movimento em massa. Esse teria sido o
principal motivo que levou a União Soviética a tentar
deslegitimizar o Estado de Israel na ONU. Era o movimento de
pessoas que se identificavam mais com sua religião do que com
seu Estado. Se os judeus tinham esse sentimento, por que os
outros grupos também não teriam? Se esse sentimento podia vir
da religião, poderia vir da língua, e da nacionalidade também.
Em resumo, não haveria um homem soviético.
Existem dezenas de livros
acerca da experiência soviética. Todavia, Milton Gordon
adverte existirem diferenças entre a posição do conflito
étnico ter derrubado o comunismo e o meio pelo qual o colapso
econômico permitiu as tensões étnicas virem a superfície, as
duas têm implicações diferentes para teoria étnica. Na
verdade, nós estaríamos bem próximos do evento, e como
ocidentais, muito distantes, para ter algum julgamento
definitivo.
O autor levou a questão dos
problemas na União Soviética para o Senado e para onde mais
pudesse ser ouvido, mas não obteve resposta alguma. Ele
escreveu para o New York Times, em 21 de dezembro de 1986:
“Num estreito porém intensamente ativo círculo aqui (em
Washington) tem surgido uma obsessão com a expansão do
comunismo, o que não está ocorrendo de fato. Alguma outra
coisa está acontecendo em locais onde nós achamos ver uma
ameaça comunista: um conflito étnico convulsivo. Mas parecemos
não ter habilidades para enxergar isso.”
“Na minha opinião, temos lido
de forma profundamente errônea os eventos mundiais. Temos
prestado muita atenção com geopolítica e esquecido de questões
sobre economia política.”
Enquanto isso, o governo
norte-americano investia milhões em armamentos, equipando-se
contra a expansão do comunismo. A CIA investigava o envio de
armas do regime marxista da Nicarágua para os guerrilheiros
comunistas de El Salvador. Era formado um grande aparato
contra todo o movimento que colocasse em risco os EUA, efeitos
de uma Guerra Fria que estava completamente arruinada. Em The
United States and the End of Cold War, John Lewis Gaddis conta
quando, em 1985, foi convidado para fazer parte de um grupo de
especialistas que se encontrariam periodicamente para analisar
a política externa americana em relação à União Soviética.
John ficou desapontado com a reunião. Os participantes não
conseguiam focalizar nada além dos próximos meses, e nem
apontar nada novo. Após ouvir durante horas aquela discussão,
John sugeriu que todos olhassem adiante com a possibilidade do
fim da Guerra Fria. E se questionassem como eles agiriam
então, o que iria substituir essa situação? Um silêncio
embaraçoso teve lugar, até que um diplomata respeitado disse:
“Nunca se passou por nenhum de nós de que isto venha acabar.”
Através de outros casos e de
outras pessoas ligadas ao governo americano, o autor continua
citando exemplos de que era possível prever o fim da Guerra
Fria, mas, todos preferiam fechar os olhos para os fatos. E
conclui afirmando que o futuro econômico poderia ter sido
outro, tanto para os EUA quanto para União Soviética, se os
governantes tivessem encarado a situação de forma mais séria.
A conseqüência é um vazio político que gera comunidades sem
nenhum vínculo, mais inclinadas a choques e confrontos por
ideais cada vez mais individuais e específicos.
Uma questão interessante é o
fato atual dos Estados parecerem ser mais antigos e
necessários para manutenção dos relacionamentos étnicos entre
comunidades. E os Estados parecem estar se aproveitando disso
para falar sempre em atender os interesses de um determinado
grupo, os apelos das minorias e não mais as necessidades do
coletivo.
O grande problema é como
absorver. Os conflitos locais do século XX refletiram no mundo
todo e produziram uma revisão nos conceitos da política
internacional. As lutas entre grupos diferentes eram similares
pela característica da autodeterminação de uma determinada
etnia sobre outra. Com todas as diferenças e interesses, como
absorver todas elas e não ferir, privilegiar ou subjugar a
autodeterminação de um determinado grupo em relação ao outro?
Essa é a grande questão que a etnologia vem estudando e
procurando desvendar, se é que isso é possível.
2 – SOBRE A “AUTODETERMINAÇÃO DAS PESSOAS”
Até algum tempo atrás, o
estudo do professor Isaac, “Identidade do Grupo Base: Os
Ídolos da Tribo”, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts,
era considerado uma idéia isolada. Mas, em 1972, os
professores reunidos na Conferência sobre etnologia começaram
a encará-lo como urgência. “Isaac enfatizou o meio psicológico
pelo qual a identidade do grupo se manifesta: ‘É possível se
dizer que em todos os casos a função da identidade do grupo
base tem relação crucial com dois ingredientes chaves na
personalidade e na experiência de vida de cada indivíduo: seu
senso de pertencimento e a qualidade da sua auto-estima’. Ele
escreveu em seus estudos: Um indivíduo pertence ao seu grupo
base de forma profunda e literal ao sentir que nele ele não
está sozinho, o que não é tudo, mas é o que muitos seres
humanos temem ficar. Ele não apenas não está sozinho... ele
também não pode ser recusado ou rejeitado... Isto é a casa no
sentido de Robert Frost, o lugar onde, quando você tem que ir
até lá, eles fazem você entrar.”
A autodeterminação das tribos
é um direito adquirido pelas Nações Unidas, na manutenção da
paz e da segurança internacional. E na garantia de relações
amigáveis entre as nações, baseadas no respeito aos princípios
dos direitos iguais e da autodeterminação. Porém, o mais
difícil é conseguir atingir os dois objetivos ao mesmo tempo.
Em 1991, as leis internacionais foram trazidas a tona no
Conselho de Segurança da ONU. Na Guerra do Golfo, além dos
conflitos no Kuwait, as forças iraquianas aproveitaram para
atacar diversas etnias contrárias ao regime dominante dentro
do próprio território iraquiano. O resultado foi a Resolução
688, que condenava a atitude iraquiana, e o discurso de
“direito de intervenção” baseado nos princípios das leis
humanitárias. O professor de direito internacional Mario
Bettati, da Universidade de Paris, escreveu: “Ao aprovar a
Resolução 688 em 5 de abril de 1991, o Conselho de Segurança
das Nações Unidas alcançou um novo patamar no direito
internacional. Pela primeira vez, foi aprovado o direito de
interferir em assuntos humanitários nos até agora assuntos
internos de Estados membros.” O Conselho de Segurança
encontrou uma forma de agir diretamente num conflito étnico
baseando-se em brechas nas regras que priorizam a paz
internacional. Todavia, o artigo 2 enfatiza que nenhum
elemento contido naquela carta pode autorizar as nações Unidas
a intervir em problemas internos de um determinado Estado. O
problema tomou essas proporções porque muitos curdos estavam
atravessando a fronteira do Iraque para se proteger, e o
Conselho de Segurança considerou que o problema já havia
tomado proporções internacionais.
Está não foi a última vez que
os curdos foram atacados e apelaram pela sua autodeterminação,
e mesmo após a Resolução 688, outras etnias continuaram
sofrendo o mesmo tipo de opressão. Mas como resolver esse tipo
de conflito que se refere tanto a paz internacional quanto a
problemas estritamente internos de estados reconhecidos? As
Nações Unidas falam em Estados e Pessoas, o respeito entre
Estados e a autodeterminação das Pessoas. Mas quem são essas
Pessoas? Elas realmente fazem parte desse Estado? E as suas
etnias, onde ficam nesse contexto? Uma forma de se estudar as
etnologias é a língua. Um estudo recente contabilizou 1.670
línguas faladas no mundo. O que poderia significar um enorme
de crescimento no número de membros das Nações Unidas. Mas os
problemas em reconhecer certos grupos estão longe de serem
solucionados.
Os EUA foram guerra do Golfo
e lutaram pelo fim do sofrimento dos curdos e kuwaitianos, mas
mantém a ilha de Porto Rico como prisioneira a aproximadamente
100 anos. Assim como fazem com o Alaska, e a Grã-Bretanha com
a Irlanda do Norte. A autodeterminação sempre esteve nos
projetos desses países, os EUA sempre procuraram valorizar a
liberdade e o direito de escolha, mas colocá-lo em prática em
seu próprio quintal parece ser um grande desafio. O autor não
chega a citar, mas nosso país também não tem coragem de
enxergar a situação dos indígenas e dos negros da forma que
deveria.
A autodeterminação é um
assunto que tem sido elemento essencial em qualquer discussão
acerca de nações e seus conflitos internos e externos. Foi
assim que a Guerra Civil Americana foi descrita por James M.
McPherson, “The Battle Cry of Freedom”, um duelo entre as
forças do norte e do sul com a mesma bravura e pelo mesmo
objetivo. Assim foi na Segunda Guerra também. Primeiro, os
alemãs lutaram pela sua autodeterminação, e depois, os
conquistados pelos alemães lutaram em nome de suas
autodeterminações.
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