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Imigração Européia e Identidade Nacional nas
Imagens das Elites Argentinas (1850 – 1914)
O texto de Fernando J. Devoto
traça um panorama do processo migratório argentino entre 1850 e
1914, com seus problemas, repercussões e as principais medidas
do Estado, na tentativa de promover o desenvolvimento e a
unidade cultural e identitária.
O processo de imigração promoveu substanciais mudanças na
configuração social, política e cultural da Argentina,
entretanto, é importante ressaltar que o alto índice de
imigrantes (que chegava a aproximadamente 70% da população em
grandes cidades) deveu-se mais à combinação de condições
macro-estruturais nas economias atlânticas (com estratégias
“microssociais” dos próprios habitantes) do que às políticas
públicas formuladas pelo Estado Argentino.
Outro ponto importante de discussão é o fato de que uma
transformação social com alicerce na imigração era algo desejado
por uma classe de intelectuais argentinos, que viam na imigração
européia a peça chave para o “progresso” argentino. Essa classe
de intelectuais eram a geração de 1837, para quem as décadas
posteriores à revolução Argentina somente haviam provado o
fracasso da geração revolucionária em tirar o país do atrasado
em que o deixara a ordem colonial espanhola. Para eles, era
preciso mais do que independência política e um projeto de uma
ordem jurídica moderna.
Apesar de concordarem quanto à importância da imigração européia
para a constituição sócio-cultural da Argentina, os intelectuais
argentinos pensavam sua participação de maneiras bem diferentes.
Algumas correntes de pensamento devem ser destacadas.
JUAN BAUTISTA ALBERDI
O projeto de Alberdi foi o mais radical elaborado pelos
intelectuais argentinos e surgiu no momento da queda de Rosas.
Seu lema era “Governar é Povoar e Povoar é Civilizar”. Para ele,
a população Argentina precisava ser civilizada, e esse era o
papel a ser desempenhado pelo imigrante europeu.
Segundo Alberdi, todo o esforço de transformação da Argentina
seria inútil se não se conseguisse mudar radicalmente as
características de sociedade atrasada, mediante uma mudança de
caráter cultural nos nativos (que, na visão de Alberdi, eram os
atores responsáveis – mesmo que inocentemente – pelo “atraso”).
A imigração européia seria o novo ator; que possibilitaria a
implantação de novos hábitos e comportamentos, que, através do
convívio, seriam logo “imitados” e “apreendidos” pelos
argentinos.
É interessante notar que Alberdi parte do pressuposto de que
haverá uma simples passagem de “civilidade”, e não uma troca ou
interação (o “europeu desenvolvido” não será sequer influenciado
pelo “argentino atrasado”). Também se deve lembrar que, para o
pensador, o papel da imigração era mais vasto do que
simplesmente fornecer mão-de-obra ou força de trabalho; era o de
“civilizar” o povo argentino. Era, portanto, importantíssimo que
os imigrantes fossem não só da Europa, mas da Europa
“desenvolvida” e não da arcaica – cuja incorporação faria pouco
mais do que reproduzir hábitos já existentes.
DOMINGO SARMIENTO
Embora sua proposta fosse conceitualmente diferente, pode-se
dizer que era tão radical quanto à de Alberdi. Sarmiento (que
governou o país de 1868 a 1874) via em Chilvicoy, uma colônia
agrícola de Buenos Aires, o modelo da futura Argentina.
Em seu projeto, os imigrantes também eram os protagonistas de
uma mudança, mas no sentido de que seriam a mão-de-obra para uma
agricultura cujo poder de transformação seria extraordinário, já
que eliminaria o verdadeiro inimigo da civilização e do
progresso: o deserto (áreas não-povoadas ou não utilizadas de
alguma forma pela população).
Sarmiento buscava reduzir as distâncias para reduzir a carência
de sociabilidade, de civilização. Acreditava também na educação
(não no “imigrante desenvolvido”) como fator transformador da
“mentalidade” Argentina.
Percebe-se então, que, ao contrário de Alberdi, Sarmiento não
julgava necessário um “tipo” específico de imigrante, pois o
processo de transformação se daria através da educação, uma vez
que o problema de povoamento fosse resolvido. “A Nova identidade
Argentina seria, assim, filha do triunfo da cidade sobre o
campo, da sociedade sobre o isolamento, da agricultura sobre a
pecuária, das luzes (produto da educação) sobre as trevas”.
BARTOLOMÉ MITRE
Mitre, que governou a Argentina de 1861 a 1867, era menos
radical que os demais: acreditava na importância da imigração,
mas não para construir um novo país, mas para integrar-se ao já
existente. Enquanto que para Sarmiento o futuro da Argentina era
substancialmente agrário, para Mitre a nação Argentina ideal era
personificada em Buenos Aires.
Para explicar como Mitre via o papel do imigrante, deve se
ressaltar que a Argentina possuía um caráter de exceção no
tocante a seu processo colonial, pois era desde sua origem terra
de imigração (ao contrário de seu grande vizinho), pois nunca
apresentara densa população indígena. Por isso, o papel dos
imigrantes, segundo este intelectual, era servir de “selo”; para
legitimar e reforçar um destino de grandeza, integrando-se ao
curso de uma identidade histórico-cultural pré-existente.
COMO FOI REALMENTE A ONDA MIGRATÓRIA
A onda migratória, que chegaria nos anos posteriores à
Argentina, teve pouco a ver com os programas originais dos
intelectuais argentinos. Essa migração teve origem nas
oportunidades de trabalho e desenvolvimento, nas redes de
informação e assistência entre os imigrantes e às expectativas
no ponto de partida.
A imigração teve início logo após as guerras civis, que
encurtaram a mão-de-obra disponível nas cidades litorâneas. Após
a queda de Rosas, a Argentina vivenciou um forte momento de
imigração (gerado pela leva anterior, inclusive). Enquanto isso,
as elites argentinas colocavam políticas de incentivo aos
imigrantes, preocupando mais com o tão esperado desenvolvimento
com base nos imigrantes do que com as possíveis conseqüências
negativas desse processo.
“A questão do progresso - e não a da identidade nacional – era o
ponto principal da agenda do núcleo das elites argentinas”.
PROBLEMAS DA ONDA MIGRATÓRIA
Na década de 1880 o ingresso de imigrantes europeus na Argentina
atingiu índices muito elevados, a ponto de no qüinqüênio de
1881-1886 o número de imigrantes ter dobrado em relação ao
qüinqüênio anterior. A partir dessa nova conjuntura, o que se
pôde observar foi que da perspectiva das classes dominantes
argentinas esse número crescente de imigrantes no país era visto
como algo insatisfatório, pois elas acreditavam que isso iria
gerar problemas de identidade nacional. Tendo esse tipo de
pensamento, alguns intelectuais da época desenvolveram trabalhos
que buscavam analisar os efeitos, quase sempre negativos, dessa
avalanche imigratória.
O primeiro desses intelectuais foi Sarmiento. Para embasar seus
estudos, ele visitou colônias agrícolas de Santa Fé e observou
que lá existiam divisões por comunidades nacionais e religiosas.
Como causas dessas divisões ele apontou o demasiado apego dos
imigrantes à identidade de origem, a resistência deles em
assumirem a cidadania Argentina e em se interessarem pelos
assuntos do país. Outro aspecto percebido por Sarmiento foi
referente à educação, uma vez que várias das comunidades de
Santa Fé haviam multiplicado suas escolas de modo a tentar dar
uma educação não Argentina aos jovens e às crianças, mas sim a
educação referente ao país de origem dos imigrantes. Sarmiento
observou esse fenômeno principalmente nas comunidades de
italianos, que criaram escolas para educar “italianamente” seus
descendentes. Por isso, Sarmiento dizia que a educação não
estava cumprindo sua missão eficaz de unir a população em prol
de uma unidade Argentina. Ele ainda sustentava que a imigração
européia não estava tendo resultados positivos, pelo contrário,
só estava contribuindo para agravar a questão na qual se
discutia se realmente haveria uma nação Argentina. Por fim, a
lógica de Sarmiento também possuía uma idéia extremamente
negativa a respeito do núcleo original de formação da Argentina,
espanhóis, índios e negros, o qual o estudioso culpava pelos
problemas do país.
Outro intelectual cujos trabalhos e opiniões foram muito aceitos
e respeitados pelos grupos dominantes da Argentina foi Alberdi.
Tendo uma visão mais otimista que Sarmiento a respeito do papel
dos imigrantes europeus na sociedade Argentina, Alberdi
acreditava que os imigrantes trariam mudanças favoráveis para o
país. Para sustentar sua tese, ele escreve a biografia de um
imigrante vindo de Massachusetts, William Wheelwright, no qual
as virtudes transformadoras da imigração foram encarnadas no seu
“personagem”, descrito como um indivíduo exemplar. Alberdi
defendia a seleção da imigração, enfatizando as vantagens dos
anglo-saxões. Essa idéia de Alberdi de se promover uma política
de imigração seletiva e a idéia anterior de Sarmiento, que via
na educação um meio de se consolidar uma unidade, eram
compartilhadas por outros membros da elite, que as encaravam
como verdadeiras soluções para os problemas trazidos com a
imigração.
No final da década de 1870 vários trabalhos foram orientados no
sentido de promover a imigração de grupos oriundos da parte mais
adiantada da Europa. O objetivo disso foi afetar a imigração de
grupos italianos, pois eles, por serem numerosos e pouco terem
se integrado à sociedade Argentina, eram tratados sob suspeita
de vir a se tornar uma quinta coluna, ou seja, de se rebelarem
contra a Argentina a favor da Itália, que estava passando por
seu processo de unificação.
Já no intervalo de 1887 a 1889 o que se notabilizou foi a
política de promoção de imigração subsidiada, através da qual os
imigrantes chegavam à Argentina por meio do adiantamento das
passagens, geralmente patrocinado pelo governo. Essa política
reorientou o fluxo migratório, na medida em que se por um lado
os italianos ficaram excluídos dessas concessões, por outro os
espanhóis passaram a receber a maioria das passagens
subsidiadas, uma vez que nesse período começou a se difundir a
idéia, anteriormente abominada pela maioria dos intelectuais
entre os quais destacava-se Sarmiento, de que a Argentina
deveria ser povoada com pessoas da própria raça. O que se
verificou foi que no final da década de 1890, dificuldades
financeiras fizeram com que a política de apoio à imigração
subsidiada sucumbisse.
Em relação aos problemas gerados pela maciça imigração européia,
de acordo com intelectuais e com membros da classe dominante, é
possível mencionar: a questão da inexistência de uma identidade
nacional Argentina; o fato de as comunidades imigrantes poderem
constituir quintas colunas potenciais, ameaçando a integridade
do território argentino; a existência de um certo
intervencionismo ou, pelo menos, ativismo diplomático dos
Estados de origem dos imigrantes perante as comunidades
imigrantes e perante, em alguns casos, ao próprio Estado
argentino.
Para solucionar esses problemas, no final dos anos de 1880, é
elaborado um programa para reformar os planos de estudo das
escolas nacionais. Passando a ser dado grande peso ao ensino de
história da Argentina como forma de imprimir à educação um
caráter nacional.. Já em termos jurídicos, surge também um
conjunto de iniciativas que propunham naturalizar
automaticamente todos os estrangeiros. Isso gerou uma oposição
dos governos europeus e das elites dirigentes, que estava
temerosa da ascensão social de alguns estrangeiros
recém-chegados. Apesar disso, o que se constatou nesse momento
foi que tanto as reformas educacionais continuaram sem rumo
definido, quanto o fato do projeto de naturalização dos
imigrantes europeus continuou a ser discutido sem, contanto,
obter resultados concretos.
PROBLEMAS DA IMIGRAÇÃO
No início do século XX, a Argentina deixou de ver os imigrantes
como classes trabalhadoras para a economia e passou a
enxergá-los como classes possivelmente perigosas. Esse medo pode
ser facilmente observado através da aprovação de uma lei em 1902
que permitia que o Pudesse Executivo expulsasse qualquer
estrangeiro considerado perigoso.
Apesar disso, no período compreendido entre o início do século e
a Primeira Guerra Mundial foi considerado o apogeu da imigração
européia na Argentina. A percentagem de imigrantes com relação
ao total da população era de 25% em 1895, já em 1914 esses
números atingiram 30%. Apesar da maior parte dos imigrantes
virem da Espanha e da Itália, a origem do fluxo havia se
diversificado, existindo, nesse momento, muitos imigrantes
vindos da Rússia, os quais eram considerados exóticos por Juan
Alsina.
Segundo Alsina, antigo diretor de imigrações, havia uma
distinção entre migrações preferíveis, neutras e não-desejáveis
(ou exóticas). Eram consideradas preferíveis as raças
compatíveis, dando-se prioridade às raças latinas e sobretudo
italianos, especialmente os do Norte. Era irônico, portanto, que
as elites perseguissem sempre ideais migratórios que
correspondiam a fluxos cujo momento de apogeu já havia passado e
que, quando eram predominantes, despertavam todo tipo de
apreensões.
Somada ao problema da reconstrução de uma identidade nacional,
aflorava a problemática social, constituída pelo aumento dos
grupos ativistas anarquista que eram ligados aos imigrantes,
segundo a elite. Também na perspectiva da classe dominante, os
imigrantes não teriam porque promover agitações sociais, uma vez
que o mito da terra promissão era bastante difundido na
Argentina. Dessa forma, essa desordem só poderia ser promovida
por agitadores estrangeiros, sob a ótica elitista.
Junto à questão social, surgia a preocupação com os efeitos não
desejados da crescente urbanização. Assim, os imigrantes também
eram culpados por esses problemas, uma vez que, antes de sua
chegada, isso não existia. Entretanto, o que não era analisado,
era o fato de os imigrantes não terem se instalado no campo
devido à consolidação dos latifúndios, sobrando para os
imigrantes a única opção de dirigirem-se para as cidades.
Frente a isso, as questões da naturalização dos imigrantes e da
reconstrução de uma disciplina social receberam diferentes
propostas de solução. As vertentes variavam desde uma a atuação
repressiva sobre os grupos alternativos, chegando a expulsão de
estrangeiros considerados indesejáveis, até a adoção de uma
vasta reforma social e política voltada para a integração desses
grupos. Houve, até mesmo, respostas que unissem as duas
vertentes.
Todas essas opções poderiam resolver o problema do conflito
social ou da instabilidade política, mas não o da nacionalidade
Argentina, o que só seria atingido através da invenção de uma
tradição e impô-la por intermédio dos instrumentos de que o
Estado dispunha.
A CONSTRUÇÃO DA NACIONALIDADE ARGENTINA
A tríade formada por Educação Pública, participação política e
Serviço Militar constituíram a seqüência argumentativa
responsável pela formação do povo argentino. A Educação Pública
seria responsável pela argentinização, enquanto que o Serviço
Militar imporia o Amor a Bandeira, e a Reforma Política faria do
voto o exercício da cidadania.
A discussão sobre a obrigatoriedade do serviço militar em 1901
era defendida como uma maneira de “refundir numa única todas as
raças que representam os indivíduos que vêm sentar-se no lar
argentino.” (Cantón). Ao exercito caberia o papel de formação do
cidadão argentino pela efetiva naturalização dos filhos dos
imigrantes.
A reforma política de 1911, promovida pelo presidente Roque
Saenz Pena, tinha como núcleo central a instauração do voto
obrigatório. Isso integraria de maneira definitiva os filhos dos
imigrantes e fecharia o ciclo, iniciado pela escola e pelo
exército, para a formação da identidade argentina.
A reforma educacional trouxe a imposição de uma visão de mundo
para legitimar a ordem social. Segundo Ramos Mejía, a formação
da nacionalidade começa com a vontade dos imigrantes e se
consolida com os filhos consumidores da liturgia. Durante o
período em que presidiu o “Consejo Nacional de Educación”
(1908-1913), Ramos Mejía impõe uma campanha sistêmica de
educação patriótica. A liturgia pedagógica adquire um caráter
mais sistêmico e os conteúdos são reformulados. O currículo
passa a ter maior carga de castelhano, história e geografia
argentinas. Um relato sobre o passado foi criado com o objetivo
de “moldar intelectualmente” os argentinos.
Essa nova leitura do passado, operada pela inversão do
sentimento (Revalorização da cultura hispânica, indígena e
criolla), contraria a antiga concepção do imigrante civilizador
de 1837, reduzindo ou anulando este papel transformador. Este
novo período coincide com o declínio das escolas étnicas
italianas.
Dentre os formuladores dessa nova leitura ganham destaque:
- García e González – Idéia de tradição original a qual os
imigrantes se integravam, podendo ser criolla (segundo García)
ou até Pré-Colombiana (para González).
- Mitre – Sugere a excepcionalidade do povo argentino no
contexto Ibero-Americano, devido as suas peculiaridades
geográficas, raciais e sociais, tendo o criollo como principal
sujeito histórico.
CULTURA DO CENTENÁRIO
Em torno do centenário, alguns literatos procuram um novo
retrato para o nacionalismo cultural argentino. Esses autores
tentam buscar um agente positivo, alternativo ao imigrante,
através de três vertentes: As Raízes Indo-Americanas (Ricardo
Rojas), a Tradição Hispano-Católica (Manuel Galvéz) e o Criollo
transformado em Gaúcho (Leopoldo Lugones).
Em “La restauración nacionalista” , Rojas estuda a educação
patriótica em países europeus e propõe a conciliação entre
nativos e imigrantes mediante a educação patriótioca. A
introdução das culturas indo-americanas gerou certa resistência
no contexto ibero-americano.
Manuel Galvéz sugere o resgate de tradição hispânica e católica
para promover a reconciliação entre o hispânico e a identidade
do argentino. Esta proposta alcança boa ressonância devido ao
aumento da imigração espanhola sobre a italiana neste período. O
retorno do Espanhol como um produto cultural apreciado na época
do centenário, mostrava ser um antídoto eficaz para os males
produzidos por outra imigrações.
Além de Gálvez e Rojas, o centenário contou com outra figura
importante: Leopoldo Lugones. O Poeta e ensaísta argentino
abraçou diferentes ideologias, indo desde o socialismo
anarquista até o culto à democracia, chegando finalmente ao
nacionalismo extremo. Na época em que militava pelo socialismo,
chegou a juntar-se com outro escritor famoso, José Ingenieros,
mas, por fim, acabaram adotando posturas diferentes.
Lugones era contrário à imigração e achava necessário o resgate
da tradição nacional que, segundo ele, não estaria ligada nem à
linha hispano-católica, e nem à indígena, mas sim à figura do
criollo retransformado no gaúcho. Esse gaúcho ao qual ele se
referia era um personagem comum no cotidiano rural. Fruto da
miscigenação do crioulo com o índio, o gaúcho era um tipo
simples, comum às regiões dos pampas existentes no sul do
Brasil, no Uruguai e na Argentina. Sempre montado em seu cavalo,
o gaúcho tinha por tarefa cuidar da pecuária, atividade
amplamente desenvolvida nessa região.
Para melhor ilustrar essa figura, o escritor recorreu ao poema
épico “Martín Fierro”, de José Hernández, revalorizando-o e
buscando construir, a partir dele, uma mitologia nacional. A
defesa dessa obra foi feita em uma série de conferências
reunidas depois num volume intitulado El payador. O que o
patriótico escritor tentava mostrar era que o camponês europeu
não era agente da civilização, mas sim um ser inferior, um
servo, enquanto o gaúcho, ao contrário, era um homem superior na
sua coragem e bravura, sempre livre sobre o seu cavalo,
destemido e poderoso. Dificilmente seria possível subestimar a
influência que essa mitologia teria nas gerações seguintes.
O centenário foi ainda marcado por outros pensamentos e
pensadores e, por essa razão, o termo pluralidade é o que melhor
caracteriza essa época. Enquanto Lugones defendia a sua
mitologia nacional, autores como José Ingenieros e intelectuais
socialistas continuavam a acreditar na velha dualidade fundadora
civilização-barbárie. Insistiam em que a civilização estava do
lado da imigração européia. Em certo sentido, o que o “espírito
do Centenário” inaugura então é uma tensão, sobretudo nas elites
culturais, nas formas de perceber e valorizar os componentes da
identidade argentina. Entretanto, apesar das discussões sobre
imigração e identidade nacional, o tema naturalização não chega
a ser abordado por essas elites, tendo sido apenas discutido por
socialistas e católicos.
Os socialistas eram favoráveis à naturalização porque viam nos
imigrantes um potencial mercado eleitoral que só se efetivaria
uma vez que, adotada a cidadania argentina, esses imigrantes
pudessem votar. Para o partido também era importante que os
imigrantes, a partir da naturalização, lutassem contra as
tendências de conservação da identidade cultural, lingüística e
jurídica da nação de origem, e abraçassem o “internacionalismo”
da causa socialista.
A Igreja também se posicionou a favor da naturalização, uma vez
que era hostil às ordens religiosas estrangeiras e ao surgimento
de pastorais específicas para grupos étnicos diferentes,
preferindo que estes se somassem ao catolicismo. Acreditavam,
portanto, na integração dos imigrantes também no âmbito
religioso.
CONCLUSÃO
Ao historiador não cabe olhar para o passado e questionar se as
teorias sobre a imigração e a identidade nacional estavam certas
ou não. Importante é que ele as encare como pontos de vista a
cerca de uma mesma situação que, na época, suscitava muitas
dúvidas e incertezas. Um desses diferentes pontos de vista era o
das elites imigrantes que também olhavam para as elites nativas
com certa “desconfiança”. Além disso, essas elites chegaram a
polemizaram com outras comunidades estrangeiras em defesa das
vantagens e virtudes de seu grupo. Agiam como se fossem menos
estrangeiros do que os imigrantes mais recentes e rivalizavam
com os mesmos por acreditar que sua chegada perturbaria a
situação argentina.
Após a Guerra de Cuba e a Primeira Guerra Mundial, algumas
características dos imigrantes mudaram. Isso porque toda a
situação européia se alterou com os acontecimentos dessa época.
A exemplo disso está o fato de na Guerra de Cuba, por exemplo,
as elites espanholas terem feito uma coleta entre seus membros
para comprar e doar um barco ao governo espanhol. Os europeus e,
conseqüentemente, os imigrantes do novo século possuíam muito
mais arraigadas em si as noções de nacionalismo e patriotismo.
Um dos fatores determinantes para isso foi o aumento da
alfabetização, colocando os italianos em contato direto com a
pedagogia cívica das escolas. Outro fator importante foi a
disseminação, pela Europa, do clima de exaltação “imperialista”
em virtude dos acontecimentos e do processo de expansão do
sufrágio. Esse interesse pelas coisas da nação se refletiu na
expansão da imprensa étnica.
Uma vez terminada a análise do texto também fica clara outra
situação que envolve os imigrantes: determinados grupos sociais
levavam vantagem com relação à integração com o povo argentino.
Imigrantes ingleses ou franceses, por exemplo, eram muito mais
facilmente aceitos pela sociedade porque eram tidos como membros
de civilizações mais avançadas. Mesmo sendo pessoas que, em seu
país de origem, não possuíam nenhum prestígio, ao chegarem à
Argentina eles tinham a possibilidade de ascender muito na
escala social, chegando até mesmo ao cargo de presidente da
república.
Com relação à visão dos imigrantes, é interessante perceber que
a imagem que as elites italianas imigrantes tinham com relação à
integração com a sociedade argentina em muito se parecia com a
imagem tida pelos membros da elite nativa. Eles também
rejeitavam o fato e buscavam se fechar em pequenas comunidades,
sendo que muitos se consideravam “hóspedes” na nova terra.
Entretanto, apesar desse isolamento inicial, fontes revelam que
o processo de integração social era muito mais acentuado do que
pretendiam os discursos das elites. Os filhos dos imigrantes
rompiam ou esqueciam os laços com a pátria-mãe, perdiam a língua
de origem e se argentinizavam aceleradamente. Diante do fato,
muitos observadores ressaltavam que, às vezes, nada havia de
mais hostil para o próprio grupo imigratório do que seus
descendentes.
Essa situação foi causada por diversos motivos. Um deles é o
fato de que os grupos étnicos não eram homogêneos em seu
interior, havendo conflitos internos que faziam diminuir sua
capacidade de pressão sobre a sociedade. Apesar de os imigrantes
buscarem manter vivas suas tradições e costumes através da
concentração em grupos isolados, as escolas étnicas começaram a
perder adesão a partir do final do século XIX, tendo os filhos
desses imigrantes ido para escolas do governo.
Além disso, ao mesmo tempo em que as elites comunitárias
lançavam mão de festas cívicas, comemorações onomásticas,
manifestações e mitologia patriótica para manterem viva sua
cultura, as elites argentinas, por outro lado, se utilizavam de
parafernálias semelhantes para argentinizar esses imigrantes. A
investida das elites comunitárias surtiu efeito sobre os
imigrantes, mas, em compensação, foi menos efetiva sobre os
descendentes. Estes acabaram se argentinizando naturalmente,
desertando em grande número das associações étnicas.
Antes da Primeira Guerra Mundial a Argentina realmente possuía
uma sociedade culturalmente plural, com diferentes identidades
que se superpunham. Entretanto não havia conflito efetivo entre
as diferentes nacionalidades, como as elites acreditavam que
haveria. As diferenças foram vividas e aceitas no cotidiano,
isso sem contar que cerca da metade dos imigrantes retornou ao
seu país de origem.
Por fim, conclui-se que “as apreensões das elites nativas eram
ou prematuras ou diretamente desmedidas”. O panorama real foi o
de uma multipluralidade pacífica que durou muitos anos e que
apresenta resquícios até hoje na própria população argentina
(boa parte da população da capital, por exemplo, é descendente
direta de imigrantes). A questão real é que, como bem colocou
William Thomas, “se as pessoas perceberem um fato como real,
independentemente de que ele o seja ou não, ele é real em seus
efeitos”. E assim foi com as elites argentinas: elas ficaram tão
ansiosas e temerosas com relação ao processo de construção da
identidade nacional e de imigração que acabaram criando uma
tradição intelectual que norteou novas políticas para resolver
um problema menos complexo e assustador do que lhes parecia ser.
GRUPO – TURMA 2003/02
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Vinicius Chaves Limoeiro – Hab. Publicidade e Propaganda
(102.057.305).
BIBLIOGRAFIA
- FAUSTO, Boris - Fazer a América: a Imigração em Massa para a
América Latina. EDUSP. São Paulo, 2000.
- BARSA – Encyclopaedia Britannica do Brasil. São Paulo, 1993.
- HERNÁNDEZ, José - Martín Fierro. Editorial Letras.
Montevideo-Uruguai, 1969.
-
http://www.iau.edu.uy/uruguay/cultura/gaucho.htm
-
http://www.ambitoweb.com/servicios/poemsa/a_lugones.asp
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