Resenha

 

Imigração Européia e Identidade Nacional nas Imagens das Elites Argentinas (1850 – 1914)

O texto de Fernando J. Devoto traça um panorama do processo migratório argentino entre 1850 e 1914, com seus problemas, repercussões e as principais medidas do Estado, na tentativa de promover o desenvolvimento e a unidade cultural e identitária.

O processo de imigração promoveu substanciais mudanças na configuração social, política e cultural da Argentina, entretanto, é importante ressaltar que o alto índice de imigrantes (que chegava a aproximadamente 70% da população em grandes cidades) deveu-se mais à combinação de condições macro-estruturais nas economias atlânticas (com estratégias “microssociais” dos próprios habitantes) do que às políticas públicas formuladas pelo Estado Argentino.

Outro ponto importante de discussão é o fato de que uma transformação social com alicerce na imigração era algo desejado por uma classe de intelectuais argentinos, que viam na imigração européia a peça chave para o “progresso” argentino. Essa classe de intelectuais eram a geração de 1837, para quem as décadas posteriores à revolução Argentina somente haviam provado o fracasso da geração revolucionária em tirar o país do atrasado em que o deixara a ordem colonial espanhola. Para eles, era preciso mais do que independência política e um projeto de uma ordem jurídica moderna.

Apesar de concordarem quanto à importância da imigração européia para a constituição sócio-cultural da Argentina, os intelectuais argentinos pensavam sua participação de maneiras bem diferentes. Algumas correntes de pensamento devem ser destacadas.

JUAN BAUTISTA ALBERDI

O projeto de Alberdi foi o mais radical elaborado pelos intelectuais argentinos e surgiu no momento da queda de Rosas. Seu lema era “Governar é Povoar e Povoar é Civilizar”. Para ele, a população Argentina precisava ser civilizada, e esse era o papel a ser desempenhado pelo imigrante europeu.

Segundo Alberdi, todo o esforço de transformação da Argentina seria inútil se não se conseguisse mudar radicalmente as características de sociedade atrasada, mediante uma mudança de caráter cultural nos nativos (que, na visão de Alberdi, eram os atores responsáveis – mesmo que inocentemente – pelo “atraso”). A imigração européia seria o novo ator; que possibilitaria a implantação de novos hábitos e comportamentos, que, através do convívio, seriam logo “imitados” e “apreendidos” pelos argentinos.

É interessante notar que Alberdi parte do pressuposto de que haverá uma simples passagem de “civilidade”, e não uma troca ou interação (o “europeu desenvolvido” não será sequer influenciado pelo “argentino atrasado”). Também se deve lembrar que, para o pensador, o papel da imigração era mais vasto do que simplesmente fornecer mão-de-obra ou força de trabalho; era o de “civilizar” o povo argentino. Era, portanto, importantíssimo que os imigrantes fossem não só da Europa, mas da Europa “desenvolvida” e não da arcaica – cuja incorporação faria pouco mais do que reproduzir hábitos já existentes.

DOMINGO SARMIENTO

Embora sua proposta fosse conceitualmente diferente, pode-se dizer que era tão radical quanto à de Alberdi. Sarmiento (que governou o país de 1868 a 1874) via em Chilvicoy, uma colônia agrícola de Buenos Aires, o modelo da futura Argentina.

Em seu projeto, os imigrantes também eram os protagonistas de uma mudança, mas no sentido de que seriam a mão-de-obra para uma agricultura cujo poder de transformação seria extraordinário, já que eliminaria o verdadeiro inimigo da civilização e do progresso: o deserto (áreas não-povoadas ou não utilizadas de alguma forma pela população).

Sarmiento buscava reduzir as distâncias para reduzir a carência de sociabilidade, de civilização. Acreditava também na educação (não no “imigrante desenvolvido”) como fator transformador da “mentalidade” Argentina.

Percebe-se então, que, ao contrário de Alberdi, Sarmiento não julgava necessário um “tipo” específico de imigrante, pois o processo de transformação se daria através da educação, uma vez que o problema de povoamento fosse resolvido. “A Nova identidade Argentina seria, assim, filha do triunfo da cidade sobre o campo, da sociedade sobre o isolamento, da agricultura sobre a pecuária, das luzes (produto da educação) sobre as trevas”.

BARTOLOMÉ MITRE

Mitre, que governou a Argentina de 1861 a 1867, era menos radical que os demais: acreditava na importância da imigração, mas não para construir um novo país, mas para integrar-se ao já existente. Enquanto que para Sarmiento o futuro da Argentina era substancialmente agrário, para Mitre a nação Argentina ideal era personificada em Buenos Aires.

Para explicar como Mitre via o papel do imigrante, deve se ressaltar que a Argentina possuía um caráter de exceção no tocante a seu processo colonial, pois era desde sua origem terra de imigração (ao contrário de seu grande vizinho), pois nunca apresentara densa população indígena. Por isso, o papel dos imigrantes, segundo este intelectual, era servir de “selo”; para legitimar e reforçar um destino de grandeza, integrando-se ao curso de uma identidade histórico-cultural pré-existente.

COMO FOI REALMENTE A ONDA MIGRATÓRIA

A onda migratória, que chegaria nos anos posteriores à Argentina, teve pouco a ver com os programas originais dos intelectuais argentinos. Essa migração teve origem nas oportunidades de trabalho e desenvolvimento, nas redes de informação e assistência entre os imigrantes e às expectativas no ponto de partida.

A imigração teve início logo após as guerras civis, que encurtaram a mão-de-obra disponível nas cidades litorâneas. Após a queda de Rosas, a Argentina vivenciou um forte momento de imigração (gerado pela leva anterior, inclusive). Enquanto isso, as elites argentinas colocavam políticas de incentivo aos imigrantes, preocupando mais com o tão esperado desenvolvimento com base nos imigrantes do que com as possíveis conseqüências negativas desse processo.

“A questão do progresso - e não a da identidade nacional – era o ponto principal da agenda do núcleo das elites argentinas”.

PROBLEMAS DA ONDA MIGRATÓRIA

Na década de 1880 o ingresso de imigrantes europeus na Argentina atingiu índices muito elevados, a ponto de no qüinqüênio de 1881-1886 o número de imigrantes ter dobrado em relação ao qüinqüênio anterior. A partir dessa nova conjuntura, o que se pôde observar foi que da perspectiva das classes dominantes argentinas esse número crescente de imigrantes no país era visto como algo insatisfatório, pois elas acreditavam que isso iria gerar problemas de identidade nacional. Tendo esse tipo de pensamento, alguns intelectuais da época desenvolveram trabalhos que buscavam analisar os efeitos, quase sempre negativos, dessa avalanche imigratória.

O primeiro desses intelectuais foi Sarmiento. Para embasar seus estudos, ele visitou colônias agrícolas de Santa Fé e observou que lá existiam divisões por comunidades nacionais e religiosas. Como causas dessas divisões ele apontou o demasiado apego dos imigrantes à identidade de origem, a resistência deles em assumirem a cidadania Argentina e em se interessarem pelos assuntos do país. Outro aspecto percebido por Sarmiento foi referente à educação, uma vez que várias das comunidades de Santa Fé haviam multiplicado suas escolas de modo a tentar dar uma educação não Argentina aos jovens e às crianças, mas sim a educação referente ao país de origem dos imigrantes. Sarmiento observou esse fenômeno principalmente nas comunidades de italianos, que criaram escolas para educar “italianamente” seus descendentes. Por isso, Sarmiento dizia que a educação não estava cumprindo sua missão eficaz de unir a população em prol de uma unidade Argentina. Ele ainda sustentava que a imigração européia não estava tendo resultados positivos, pelo contrário, só estava contribuindo para agravar a questão na qual se discutia se realmente haveria uma nação Argentina. Por fim, a lógica de Sarmiento também possuía uma idéia extremamente negativa a respeito do núcleo original de formação da Argentina, espanhóis, índios e negros, o qual o estudioso culpava pelos problemas do país.

Outro intelectual cujos trabalhos e opiniões foram muito aceitos e respeitados pelos grupos dominantes da Argentina foi Alberdi. Tendo uma visão mais otimista que Sarmiento a respeito do papel dos imigrantes europeus na sociedade Argentina, Alberdi acreditava que os imigrantes trariam mudanças favoráveis para o país. Para sustentar sua tese, ele escreve a biografia de um imigrante vindo de Massachusetts, William Wheelwright, no qual as virtudes transformadoras da imigração foram encarnadas no seu “personagem”, descrito como um indivíduo exemplar. Alberdi defendia a seleção da imigração, enfatizando as vantagens dos anglo-saxões. Essa idéia de Alberdi de se promover uma política de imigração seletiva e a idéia anterior de Sarmiento, que via na educação um meio de se consolidar uma unidade, eram compartilhadas por outros membros da elite, que as encaravam como verdadeiras soluções para os problemas trazidos com a imigração.

No final da década de 1870 vários trabalhos foram orientados no sentido de promover a imigração de grupos oriundos da parte mais adiantada da Europa. O objetivo disso foi afetar a imigração de grupos italianos, pois eles, por serem numerosos e pouco terem se integrado à sociedade Argentina, eram tratados sob suspeita de vir a se tornar uma quinta coluna, ou seja, de se rebelarem contra a Argentina a favor da Itália, que estava passando por seu processo de unificação.

Já no intervalo de 1887 a 1889 o que se notabilizou foi a política de promoção de imigração subsidiada, através da qual os imigrantes chegavam à Argentina por meio do adiantamento das passagens, geralmente patrocinado pelo governo. Essa política reorientou o fluxo migratório, na medida em que se por um lado os italianos ficaram excluídos dessas concessões, por outro os espanhóis passaram a receber a maioria das passagens subsidiadas, uma vez que nesse período começou a se difundir a idéia, anteriormente abominada pela maioria dos intelectuais entre os quais destacava-se Sarmiento, de que a Argentina deveria ser povoada com pessoas da própria raça. O que se verificou foi que no final da década de 1890, dificuldades financeiras fizeram com que a política de apoio à imigração subsidiada sucumbisse.

Em relação aos problemas gerados pela maciça imigração européia, de acordo com intelectuais e com membros da classe dominante, é possível mencionar: a questão da inexistência de uma identidade nacional Argentina; o fato de as comunidades imigrantes poderem constituir quintas colunas potenciais, ameaçando a integridade do território argentino; a existência de um certo intervencionismo ou, pelo menos, ativismo diplomático dos Estados de origem dos imigrantes perante as comunidades imigrantes e perante, em alguns casos, ao próprio Estado argentino.

Para solucionar esses problemas, no final dos anos de 1880, é elaborado um programa para reformar os planos de estudo das escolas nacionais. Passando a ser dado grande peso ao ensino de história da Argentina como forma de imprimir à educação um caráter nacional.. Já em termos jurídicos, surge também um conjunto de iniciativas que propunham naturalizar automaticamente todos os estrangeiros. Isso gerou uma oposição dos governos europeus e das elites dirigentes, que estava temerosa da ascensão social de alguns estrangeiros recém-chegados. Apesar disso, o que se constatou nesse momento foi que tanto as reformas educacionais continuaram sem rumo definido, quanto o fato do projeto de naturalização dos imigrantes europeus continuou a ser discutido sem, contanto, obter resultados concretos.

PROBLEMAS DA IMIGRAÇÃO

No início do século XX, a Argentina deixou de ver os imigrantes como classes trabalhadoras para a economia e passou a enxergá-los como classes possivelmente perigosas. Esse medo pode ser facilmente observado através da aprovação de uma lei em 1902 que permitia que o Pudesse Executivo expulsasse qualquer estrangeiro considerado perigoso.

Apesar disso, no período compreendido entre o início do século e a Primeira Guerra Mundial foi considerado o apogeu da imigração européia na Argentina. A percentagem de imigrantes com relação ao total da população era de 25% em 1895, já em 1914 esses números atingiram 30%. Apesar da maior parte dos imigrantes virem da Espanha e da Itália, a origem do fluxo havia se diversificado, existindo, nesse momento, muitos imigrantes vindos da Rússia, os quais eram considerados exóticos por Juan Alsina.

Segundo Alsina, antigo diretor de imigrações, havia uma distinção entre migrações preferíveis, neutras e não-desejáveis (ou exóticas). Eram consideradas preferíveis as raças compatíveis, dando-se prioridade às raças latinas e sobretudo italianos, especialmente os do Norte. Era irônico, portanto, que as elites perseguissem sempre ideais migratórios que correspondiam a fluxos cujo momento de apogeu já havia passado e que, quando eram predominantes, despertavam todo tipo de apreensões.

Somada ao problema da reconstrução de uma identidade nacional, aflorava a problemática social, constituída pelo aumento dos grupos ativistas anarquista que eram ligados aos imigrantes, segundo a elite. Também na perspectiva da classe dominante, os imigrantes não teriam porque promover agitações sociais, uma vez que o mito da terra promissão era bastante difundido na Argentina. Dessa forma, essa desordem só poderia ser promovida por agitadores estrangeiros, sob a ótica elitista.

Junto à questão social, surgia a preocupação com os efeitos não desejados da crescente urbanização. Assim, os imigrantes também eram culpados por esses problemas, uma vez que, antes de sua chegada, isso não existia. Entretanto, o que não era analisado, era o fato de os imigrantes não terem se instalado no campo devido à consolidação dos latifúndios, sobrando para os imigrantes a única opção de dirigirem-se para as cidades.

Frente a isso, as questões da naturalização dos imigrantes e da reconstrução de uma disciplina social receberam diferentes propostas de solução. As vertentes variavam desde uma a atuação repressiva sobre os grupos alternativos, chegando a expulsão de estrangeiros considerados indesejáveis, até a adoção de uma vasta reforma social e política voltada para a integração desses grupos. Houve, até mesmo, respostas que unissem as duas vertentes.

Todas essas opções poderiam resolver o problema do conflito social ou da instabilidade política, mas não o da nacionalidade Argentina, o que só seria atingido através da invenção de uma tradição e impô-la por intermédio dos instrumentos de que o Estado dispunha.

A CONSTRUÇÃO DA NACIONALIDADE ARGENTINA

A tríade formada por Educação Pública, participação política e Serviço Militar constituíram a seqüência argumentativa responsável pela formação do povo argentino. A Educação Pública seria responsável pela argentinização, enquanto que o Serviço Militar imporia o Amor a Bandeira, e a Reforma Política faria do voto o exercício da cidadania.

A discussão sobre a obrigatoriedade do serviço militar em 1901 era defendida como uma maneira de “refundir numa única todas as raças que representam os indivíduos que vêm sentar-se no lar argentino.” (Cantón). Ao exercito caberia o papel de formação do cidadão argentino pela efetiva naturalização dos filhos dos imigrantes.

A reforma política de 1911, promovida pelo presidente Roque Saenz Pena, tinha como núcleo central a instauração do voto obrigatório. Isso integraria de maneira definitiva os filhos dos imigrantes e fecharia o ciclo, iniciado pela escola e pelo exército, para a formação da identidade argentina.

A reforma educacional trouxe a imposição de uma visão de mundo para legitimar a ordem social. Segundo Ramos Mejía, a formação da nacionalidade começa com a vontade dos imigrantes e se consolida com os filhos consumidores da liturgia. Durante o período em que presidiu o “Consejo Nacional de Educación” (1908-1913), Ramos Mejía impõe uma campanha sistêmica de educação patriótica. A liturgia pedagógica adquire um caráter mais sistêmico e os conteúdos são reformulados. O currículo passa a ter maior carga de castelhano, história e geografia argentinas. Um relato sobre o passado foi criado com o objetivo de “moldar intelectualmente” os argentinos.

Essa nova leitura do passado, operada pela inversão do sentimento (Revalorização da cultura hispânica, indígena e criolla), contraria a antiga concepção do imigrante civilizador de 1837, reduzindo ou anulando este papel transformador. Este novo período coincide com o declínio das escolas étnicas italianas.

Dentre os formuladores dessa nova leitura ganham destaque:

- García e González – Idéia de tradição original a qual os imigrantes se integravam, podendo ser criolla (segundo García) ou até Pré-Colombiana (para González).

- Mitre – Sugere a excepcionalidade do povo argentino no contexto Ibero-Americano, devido as suas peculiaridades geográficas, raciais e sociais, tendo o criollo como principal sujeito histórico.

CULTURA DO CENTENÁRIO

Em torno do centenário, alguns literatos procuram um novo retrato para o nacionalismo cultural argentino. Esses autores tentam buscar um agente positivo, alternativo ao imigrante, através de três vertentes: As Raízes Indo-Americanas (Ricardo Rojas), a Tradição Hispano-Católica (Manuel Galvéz) e o Criollo transformado em Gaúcho (Leopoldo Lugones).

Em “La restauración nacionalista” , Rojas estuda a educação patriótica em países europeus e propõe a conciliação entre nativos e imigrantes mediante a educação patriótioca. A introdução das culturas indo-americanas gerou certa resistência no contexto ibero-americano.

Manuel Galvéz sugere o resgate de tradição hispânica e católica para promover a reconciliação entre o hispânico e a identidade do argentino. Esta proposta alcança boa ressonância devido ao aumento da imigração espanhola sobre a italiana neste período. O retorno do Espanhol como um produto cultural apreciado na época do centenário, mostrava ser um antídoto eficaz para os males produzidos por outra imigrações.

Além de Gálvez e Rojas, o centenário contou com outra figura importante: Leopoldo Lugones. O Poeta e ensaísta argentino abraçou diferentes ideologias, indo desde o socialismo anarquista até o culto à democracia, chegando finalmente ao nacionalismo extremo. Na época em que militava pelo socialismo, chegou a juntar-se com outro escritor famoso, José Ingenieros, mas, por fim, acabaram adotando posturas diferentes.

Lugones era contrário à imigração e achava necessário o resgate da tradição nacional que, segundo ele, não estaria ligada nem à linha hispano-católica, e nem à indígena, mas sim à figura do criollo retransformado no gaúcho. Esse gaúcho ao qual ele se referia era um personagem comum no cotidiano rural. Fruto da miscigenação do crioulo com o índio, o gaúcho era um tipo simples, comum às regiões dos pampas existentes no sul do Brasil, no Uruguai e na Argentina. Sempre montado em seu cavalo, o gaúcho tinha por tarefa cuidar da pecuária, atividade amplamente desenvolvida nessa região.

Para melhor ilustrar essa figura, o escritor recorreu ao poema épico “Martín Fierro”, de José Hernández, revalorizando-o e buscando construir, a partir dele, uma mitologia nacional. A defesa dessa obra foi feita em uma série de conferências reunidas depois num volume intitulado El payador. O que o patriótico escritor tentava mostrar era que o camponês europeu não era agente da civilização, mas sim um ser inferior, um servo, enquanto o gaúcho, ao contrário, era um homem superior na sua coragem e bravura, sempre livre sobre o seu cavalo, destemido e poderoso. Dificilmente seria possível subestimar a influência que essa mitologia teria nas gerações seguintes.

O centenário foi ainda marcado por outros pensamentos e pensadores e, por essa razão, o termo pluralidade é o que melhor caracteriza essa época. Enquanto Lugones defendia a sua mitologia nacional, autores como José Ingenieros e intelectuais socialistas continuavam a acreditar na velha dualidade fundadora civilização-barbárie. Insistiam em que a civilização estava do lado da imigração européia. Em certo sentido, o que o “espírito do Centenário” inaugura então é uma tensão, sobretudo nas elites culturais, nas formas de perceber e valorizar os componentes da identidade argentina. Entretanto, apesar das discussões sobre imigração e identidade nacional, o tema naturalização não chega a ser abordado por essas elites, tendo sido apenas discutido por socialistas e católicos.

Os socialistas eram favoráveis à naturalização porque viam nos imigrantes um potencial mercado eleitoral que só se efetivaria uma vez que, adotada a cidadania argentina, esses imigrantes pudessem votar. Para o partido também era importante que os imigrantes, a partir da naturalização, lutassem contra as tendências de conservação da identidade cultural, lingüística e jurídica da nação de origem, e abraçassem o “internacionalismo” da causa socialista.

A Igreja também se posicionou a favor da naturalização, uma vez que era hostil às ordens religiosas estrangeiras e ao surgimento de pastorais específicas para grupos étnicos diferentes, preferindo que estes se somassem ao catolicismo. Acreditavam, portanto, na integração dos imigrantes também no âmbito religioso.

CONCLUSÃO

Ao historiador não cabe olhar para o passado e questionar se as teorias sobre a imigração e a identidade nacional estavam certas ou não. Importante é que ele as encare como pontos de vista a cerca de uma mesma situação que, na época, suscitava muitas dúvidas e incertezas. Um desses diferentes pontos de vista era o das elites imigrantes que também olhavam para as elites nativas com certa “desconfiança”. Além disso, essas elites chegaram a polemizaram com outras comunidades estrangeiras em defesa das vantagens e virtudes de seu grupo. Agiam como se fossem menos estrangeiros do que os imigrantes mais recentes e rivalizavam com os mesmos por acreditar que sua chegada perturbaria a situação argentina.

Após a Guerra de Cuba e a Primeira Guerra Mundial, algumas características dos imigrantes mudaram. Isso porque toda a situação européia se alterou com os acontecimentos dessa época. A exemplo disso está o fato de na Guerra de Cuba, por exemplo, as elites espanholas terem feito uma coleta entre seus membros para comprar e doar um barco ao governo espanhol. Os europeus e, conseqüentemente, os imigrantes do novo século possuíam muito mais arraigadas em si as noções de nacionalismo e patriotismo. Um dos fatores determinantes para isso foi o aumento da alfabetização, colocando os italianos em contato direto com a pedagogia cívica das escolas. Outro fator importante foi a disseminação, pela Europa, do clima de exaltação “imperialista” em virtude dos acontecimentos e do processo de expansão do sufrágio. Esse interesse pelas coisas da nação se refletiu na expansão da imprensa étnica.

Uma vez terminada a análise do texto também fica clara outra situação que envolve os imigrantes: determinados grupos sociais levavam vantagem com relação à integração com o povo argentino. Imigrantes ingleses ou franceses, por exemplo, eram muito mais facilmente aceitos pela sociedade porque eram tidos como membros de civilizações mais avançadas. Mesmo sendo pessoas que, em seu país de origem, não possuíam nenhum prestígio, ao chegarem à Argentina eles tinham a possibilidade de ascender muito na escala social, chegando até mesmo ao cargo de presidente da república.

Com relação à visão dos imigrantes, é interessante perceber que a imagem que as elites italianas imigrantes tinham com relação à integração com a sociedade argentina em muito se parecia com a imagem tida pelos membros da elite nativa. Eles também rejeitavam o fato e buscavam se fechar em pequenas comunidades, sendo que muitos se consideravam “hóspedes” na nova terra. Entretanto, apesar desse isolamento inicial, fontes revelam que o processo de integração social era muito mais acentuado do que pretendiam os discursos das elites. Os filhos dos imigrantes rompiam ou esqueciam os laços com a pátria-mãe, perdiam a língua de origem e se argentinizavam aceleradamente. Diante do fato, muitos observadores ressaltavam que, às vezes, nada havia de mais hostil para o próprio grupo imigratório do que seus descendentes.

Essa situação foi causada por diversos motivos. Um deles é o fato de que os grupos étnicos não eram homogêneos em seu interior, havendo conflitos internos que faziam diminuir sua capacidade de pressão sobre a sociedade. Apesar de os imigrantes buscarem manter vivas suas tradições e costumes através da concentração em grupos isolados, as escolas étnicas começaram a perder adesão a partir do final do século XIX, tendo os filhos desses imigrantes ido para escolas do governo.

Além disso, ao mesmo tempo em que as elites comunitárias lançavam mão de festas cívicas, comemorações onomásticas, manifestações e mitologia patriótica para manterem viva sua cultura, as elites argentinas, por outro lado, se utilizavam de parafernálias semelhantes para argentinizar esses imigrantes. A investida das elites comunitárias surtiu efeito sobre os imigrantes, mas, em compensação, foi menos efetiva sobre os descendentes. Estes acabaram se argentinizando naturalmente, desertando em grande número das associações étnicas.

Antes da Primeira Guerra Mundial a Argentina realmente possuía uma sociedade culturalmente plural, com diferentes identidades que se superpunham. Entretanto não havia conflito efetivo entre as diferentes nacionalidades, como as elites acreditavam que haveria. As diferenças foram vividas e aceitas no cotidiano, isso sem contar que cerca da metade dos imigrantes retornou ao seu país de origem.

Por fim, conclui-se que “as apreensões das elites nativas eram ou prematuras ou diretamente desmedidas”. O panorama real foi o de uma multipluralidade pacífica que durou muitos anos e que apresenta resquícios até hoje na própria população argentina (boa parte da população da capital, por exemplo, é descendente direta de imigrantes). A questão real é que, como bem colocou William Thomas, “se as pessoas perceberem um fato como real, independentemente de que ele o seja ou não, ele é real em seus efeitos”. E assim foi com as elites argentinas: elas ficaram tão ansiosas e temerosas com relação ao processo de construção da identidade nacional e de imigração que acabaram criando uma tradição intelectual que norteou novas políticas para resolver um problema menos complexo e assustador do que lhes parecia ser.

GRUPO – TURMA 2003/02

Débora Gares – Hab. Jornalismo (102.036.503).
Marcelo Murras Vieira – Hab. Publicidade e Propaganda (100.133.147).
Nathalia Dionísio Rodrigues – Hab. Publicidade e Propaganda (102.044.239).
Talita da Siqueira Marçal – Hab. Jornalismo (102.044.603).
Vinicius Chaves Limoeiro – Hab. Publicidade e Propaganda (102.057.305).

BIBLIOGRAFIA

- FAUSTO, Boris - Fazer a América: a Imigração em Massa para a América Latina. EDUSP. São Paulo, 2000.

- BARSA – Encyclopaedia Britannica do Brasil. São Paulo, 1993.

- HERNÁNDEZ, José - Martín Fierro. Editorial Letras. Montevideo-Uruguai, 1969.

- http://www.iau.edu.uy/uruguay/cultura/gaucho.htm

- http://www.ambitoweb.com/servicios/poemsa/a_lugones.asp

voltar para o canal Mosaico

voltar para HOME

 



Etni-cidade