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França questiona sua secularidade centenária devido à revolta das periferias

Por Katrin Bennhold, de Paris, para o International Herald Tribune, 20/12/2005

Na França, o centenário do modelo único e estrito de sociedade, baseado na secularidade, foi celebrado discretamente neste mês pelo governo, profundamente dividido em torno desta questão e ainda aturdido pelos recentes distúrbios dos quais participaram muitos jovens de origem norte-africana. Assim, os dirigentes evitaram cuidadosamente celebrar uma lei que repetidamente provocou aborrecimentos na comunidade relativamente grande de muçulmanos, presente no país.

Nos últimos anos, a lei sobre a separação da igreja e do Estado foi objeto de manchetes em publicações nacionais e internacionais, principalmente quando ela foi utilizada para banir o uso do véu muçulmano das escolas públicas. Adotada inicialmente em dezembro de 1905, a lei assegurou aos cidadãos plena liberdade de religião numa França predominantemente católica romana, e proibiu todo apoio financeiro e todo reconhecimento formal de toda e qualquer fé por parte do Estado.

Em nenhum outro lugar no Ocidente, esta divisão entre as Igrejas e o Estado é aplicada de modo tão escrupuloso como na França. Nas escolas públicas e nas repartições públicas está proibido o uso ostensivo de vestimentas religiosas, enquanto os funerais de Estado sempre ocorrem em igrejas não-consagradas. Além disso, uma saudação no estilo "Deus abençoe a França" no final de um discurso do presidente da República seria tão impensável quanto tirar um período de férias de sete semanas nos Estados Unidos.

O conceito francês de "laicité" (laicismo) --um termo para o qual a palavra secularismo (em inglês) é só uma tradução imperfeita-- tornou-se parte integral da identidade da República Francesa, a qual, em teoria, não enxerga nem cores nem credos. É claro, quando o presidente Jacques Chirac chama o laicismo de "um pilar do templo republicano", alguns não se furtam a afirmar que este dogma se tornou uma religião de Estado em si.

Mas os franceses andaram reavaliando o conceito, e mais ainda desde as manifestações de novembro. Um reconhecimento crescente da falta de condições e da discriminação às quais são submetidos os imigrantes e seus descendentes, muitos dos quais são muçulmanos, provocou o surgimento de apelos de todos os setores da classe política em favor de uma interpretação mais branda da lei de 1905.

À direita, o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, desafiou abertamente o banimento do véu em escolas públicas, que havia sido promovido por Chirac no ano passado. Sarkozy também fez lobby para que o Estado libere verbas com objetivo de ajudar a construir mesquitas e para a formação de imames (sacerdotes islâmicos). À esquerda, um deputado socialista, Manuel Valls, se tornou uma ponta de lança do movimento que apóia demandas similares. Ambos defenderam a idéia segundo a qual a realidade cultural e religiosa da França, país que abriga a maior comunidade muçulmana em toda a Europa, mudou em decorrência da imigração.

"Nós precisamos reexaminar o modelo francês e não ter medo de aprender a partir das experiências dos outros", estima Jean Baubérot, um sociólogo da Sorbonne em Paris, especialista em laicismo. "Reconhecer a diversidade cultural e combater a discriminação tornou-se uma prioridade hoje", acrescenta Baubérot, que dirigiu uma comissão independente encarregada pelo governo de avaliar como o conceito estava sendo aplicado.

No momento em que árvores de Natal estão se iluminando nos pátios das escolas por toda a França e que os estudantes se preparam para as férias, alguns muçulmanos reclamam de que está havendo uma política do "dois pesos e duas medidas". Lhaj-Thami, o presidente da União das Organizações Islâmicas da França, considera que a lei de 1905 não é necessariamente incompatível com o Islã, mas que ela precisa ser aplicada de maneira justa. "Em teoria, nós somos todos iguais, mas, na realidade, isso não acontece", disse Breze, que nasceu no Marrocos. "Por que a árvore de Natal é permitida, e não um discreto véu sobre a cabeça? Tudo o que nós estamos pedindo é que a França se mantenha coerente com os seus valores".

No ano passado, o banimento do véu foi recebido com incompreensão nos países europeus vizinhos, onde jovens mulheres muçulmanas não enfrentam tais restrições, e como um ultraje no mundo árabe. Contudo, as pesquisas de opinião na França mostram que uma imensa maioria da população apóia o banimento do véu assim como outras medidas de cunho secular. Segundo Martine Barthélémy, uma especialista do Instituto de Estudos Políticos, com sede em Paris, a história permite de certa forma explicar a atitude dos franceses em relação à mistura das questões religiosas com a política.

Durante séculos, a França foi assolada por guerras de religiões. Então, depois da Revolução de 1789, a Igreja Católica recusou-se a aceitar os valores da nova República, o que serviu para consolidar a convicção entre os líderes políticos de que o Estado precisava ser protegido da religião.

Já, nos Estados Unidos, onde muitos dos primeiros imigrantes se instalaram depois de fugir de perseguições religiosas na Europa, a separação das Igrejas do Estado é percebida por muitos como um meio de alcançar um objetivo oposto, diz Barthélémy, ou seja, ela serve para proteger a religião do Estado. "Todos nós temos os nossos mitos fundadores", diz esta especialista. "O nosso mito fundador é o ideal republicano, e o laicismo é uma parte essencial deste ideal. Nos Estados Unidos, a liberdade religiosa é uma parte importante dos americanos --é por isso que nós, de vez em quando, não entendemos os americanos, e vice versa". É também por isso que, hoje, na França, a proibição do uso do véu é vista por muitos como uma proteção em relação à pressão que sofrem em casa essas garotas muçulmanas que prefeririam ir à escola sem véu.

Mas, o fato de alegar tal desculpa em relação a esta questão, argumenta, poderia ser utilizado por religiosos muçulmanos para exigir demais concessões que entram em confronto com a tradição secular da França, tais como a separação de garotas e dos rapazes nas aulas de natação e de esportes, ou retirar as garotas das aulas de biologia - pedidos estes que colégios na Alemanha e na Grã-Bretanha estão tendo que encarar com freqüência. "Como então definir uma distinção clara, de modo a estabelecer o que deve ou não ser feito nessas questões?", pergunta Barthélémy.

Um dos primeiros líderes políticos a falar recentemente contra uma interpretação estrita da lei de 1905 foi Sarkozy. Ele andou exercendo um lobby no sentido de obter financiamentos para as comunidades muçulmanas, argumentando que elas não dispõem dos mesmos recursos financeiros que as comunidades cristãs os judaicas, e que a ausência de um apoio do Estado as tornaria vulneráveis à influência de doadores no exterior. "Não são os minaretes que são perigosos, e sim as garagens e os subsolos que são transformados em locais secretos de oração", escreveu o ministro, no ano passado, num livro intitulado "A República, as religiões e a Esperança", que causou certo tumulto por aqui. "Os muçulmanos não devem ter mais direitos do que os outros. Mas nós precisamos nos assegurar de que eles não tenham menos direitos tampouco".

Sarkozy foi também um dos primeiros homens políticos a se referir aos imigrantes norte-africanos como sendo muçulmanos. Isso ocasionou uma mudança na linguagem que, segundo dizem alguns, apresenta o risco de reforçar uma concepção religiosa, em detrimento da identidade secular. Conforme aponta François Heisbourg, diretor da Fundação Francesa para Estudos Estratégicos, os distúrbios de rua não foram perpetrados por jovens que eram particularmente religiosos, e nem os manifestantes tomaram como alvos igrejas ou sinagogas. "Uma grande parte do problema da integração diz respeito à economia e não à religião", afirma.

A verdadeira questão, prossegue Heisbourg, não é o uso do véu e sim o par de tênis Nike caríssimo que separa as crianças cujos pais têm dinheiro daquelas crianças filhas de pais pobres. "Se nós fôssemos realmente sérios quando falamos em transformar as escolas em espaços verdadeiramente neutros", diz, "nós deveríamos introduzir o uso de uniformes escolares".

Tradução: Jean-Yves de Neufville, do Mídia Global (www.uol.com.br/midiaglobal)

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