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Exposição põe em evidência a herança árabe da "Outra América" em Brasília

Influência árabe é grande, mas passa despercebida no dia-a-dia. Por Annie Gasnier, Em Brasília, para o Le Monde, em 13/05/2005.

Distantes geograficamente, a América Latina e os países árabes têm, contudo, relações muito antigas. A influência árabe na América do Sul remonta à época da colonização, com a chegada de colonos impregnados por séculos de ocupação da península ibérica por povos árabes. Desde o século 15, os espanhóis e depois os portugueses introduziram a cultura árabe no continente sul-americano.

Na língua, os melhores exemplos desta herança são sem dúvida o "Ojala" espanhol e o "Oxalá" brasileiro, derivados do "Inch'Allah" árabe; já, no campo da arquitetura, destacam-se os azulejos das casas coloniais (Museu do Azulejo em Colônia, no Uruguai), dos palácios (a Glorieta de Sucre, na Bolívia), das igrejas (Igrejinha, em Salvador, na Bahia).

No campo da música, o alaúde de origem árabe tornou-se o "cavaquinho", um dos instrumentos do samba; por fim, no domínio da agricultura, os métodos de irrigação e as culturas da cana de açúcar, do café, do trigo e do arroz.

Mais tarde, a partir de 1875, várias levas de imigrantes, os quais são essencialmente cristãos provenientes da Grande Síria, partem para a conquista da América, a "Amrik" ou "a outra América", para defini-la em oposição àquela do Norte. Carregando uma bagagem mínima, eles desembarcam nos portos de Santos, Buenos Aires, Santiago, Lima e Veracruz.

Cento e trinta anos mais tarde, a comunidade árabe da América Latina conta 17 milhões de pessoas. Estas precisam exercer o papel de "traço de união" nas relações entre as duas regiões, declarou o presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, no discurso inaugural que ele pronunciou durante a cúpula de Brasília.

Esses imigrantes fugiram da pobreza, das perseguições e das discriminações do Império Otomano. Eles foram chamados de "turcos", por causa dos passaportes turcos que eles apresentavam ao desembarcar. Esses "turcos" foram adotados pelos romancistas Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez ou Isabel Allende.

Em Brasília, a bela exposição intitulada "Amrik", organizada pelo ministério brasileiro das relações exteriores, é dedicada à sua história.

No início os homens vieram sozinhos, com um irmão, um pai ou até mesmo com vizinhos. Muito rapidamente, impelidos pela necessidade, eles retomaram o seu campo de atividade predileto, o comércio, tornando-se mascates e viajando de aldeia em aldeia para vender de tudo, principalmente tecidos e bugigangas, ou ainda abrindo quitandas no coração das grandes cidades.

Nova terra prometida

Estes bairros mantiveram-se vivos ao longo dos anos, tais como o Saara, no centro histórico do Rio de Janeiro. As suas famílias acabaram se juntando a eles na sua nova terra prometida, mas algumas fotos amareladas revelam também que houve uma integração dos imigrantes por meio de casamentos com jovens sul-americanos, tais como o de Don Elias com Dona Luisa em Buenos Aires, antes da Segunda Guerra Mundial.

Todas as grandes cidades latino-americanas possuem o seu clube, a sua escola, o seu hospital sírio-libanês, os quais se tornaram locais elegantes e badalados. Os árabes integram-se e fundem-se dentro de uma sociedade permeável aos seus costumes.

Ao discursar na abertura da cúpula, em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva referiu-se à hospitalidade árabe do povo brasileiro. Os descendentes de sírios e de libaneses, e também de palestinos (no Chile e no sul do Brasil) estão presentes em todos os setores da sociedade: na política (os presidentes Carlos Menem na Argentina, Jamil Mahuad ou Abdala Bucaram no Equador, Tony Saca Em El Salvador), na medicina, na universidade, na literatura e no setor dos negócios (o mexicano Carlos Slim é dono da maior fortuna da América Latina).

É impossível imaginar a culinária latino-americana sem a influência do açafrão, do azeite, o qual se tornou um substituto da gordura de porco quando esta foi proibida, do cravo e da canela.

Em São Paulo, uma metrópole que conta vários milhões de descendentes de árabes (eles são 12 milhões apenas no Brasil), um quarto das refeições servidas nos bares e nos restaurantes são reproduzidas ou derivadas de receitas árabes: tabule, espetinhos de carne, purê de grão-de-bico, sobremesas com mel. Existe até mesmo uma cadeia nacional de fast food, a Habib's, que fabrica mensalmente dois milhões de "kibes", um bolinho de carne frita.

Junto com as levas de imigrantes mais recentes, apareceram também as construções de edifícios religiosos. Nesta exposição, grandes fotos em cor mostram a elegância da mesquita do Centro Cultural de Buenos Aires, que foi inaugurada há alguns anos perto do estádio de pólo, no bairro de Palermo.

Outros retratos mostram o Centro Educativo Libanês de Ciudad del Este (Paraguai), diante do qual jovens paraguaias, trajando o véu muçulmano, brincam com a objetiva da câmera que aponta para elas.

Por fim, as dançarinas do ventre, vistas num salão de chá egípcio em São Paulo, ou ainda a Casa dos Beduínos de Buenos Aires, revelam uma visão mais "descolada" e chique das jovens gerações. No Brasil, uma novela televisiva ["O Clone"], cuja história ocorria supostamente no Marrocos, chegou a popularizar a "dança do ventre" e os seus artifícios, os quais, entretanto, não suplantaram o samba.

Ao saírem da exposição, os visitantes brasileiros, na sua maioria, mostram-se espantados. Eles acabam de descobrir a importância de uma herança que eles não mais percebem no cotidiano.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

A Brasilia, une exposition met en relief l'héritage arabe de l'"Amrik"

LE MONDE | 12.05.05 | 14h14  •  Mis à jour le 12.05.05 | 14h14
Brasilia correspondance

istants géographiquement, l'Amérique latine et les pays arabes ont pourtant des relations anciennes. L'influence arabe en Amérique du Sud remonte à l'époque de la conquête, avec l'arrivée de colons imprégnés par des siècles d'occupation de la péninsule Ibérique. Dès le XVe siècle, les Espagnols puis les Portugais introduisent la culture arabe. Dans la langue, les meilleurs exemples en sont sans doute le "Ojala" espagnol et le "Oxala" brésilien, hérités du "Inch'Allah" arabe ; dans l'architecture, les azulejos des maisons coloniales (musée de l'Azulejo à Colonia, en Uruguay), des palais (la Glorieta de Sucre, en Bolivie), des églises (Igrejinha, à Salvador de Bahia) ; dans la musique, le luth devenu le "cavaquinho" de la samba ; dans l'agriculture, les méthodes d'irrigation et les cultures de la canne à sucre, du café, du blé et du riz.

Puis, à partir de 1875, des vagues d'immigrants, essentiellement des chrétiens provenant de la Grande Syrie, partent à la conquête de l'Amérique, l'"Amrik" ou "l'autre Amérique" , par opposition à celle du Nord. Un petit bagage à la main, ils débarquent dans les ports de Santos, Buenos Aires, Santiago, Lima et Veracruz. Cent trente ans plus tard, la communauté arabe d'Amérique latine compte 17 millions de personnes. Ils doivent être "le trait d'union" des relations entre les deux régions, a souhaité le président algérien Abdelaziz Bouteflika, dans son discours inaugural prononcé au sommet de Brasilia.

Ces immigrés ont fui la pauvreté, les persécutions et discriminations de l'Empire ottoman. Ils ont été appelés "turcos" , à cause des passeports turcs qu'ils exhibaient à leur arrivée. Ces "turcos" ont été adoptés par les romanciers Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez ou Isabel Allende.

A Brasilia, la belle exposition "Amrik" , organisée par le ministère brésilien des relations extérieures, est consacrée à leur histoire.

Au début, les hommes sont venus seuls, avec un frère, un père, des voisins. Très vite, poussés par la nécessité, ils ont repris leur domaine d'activité favori, le commerce, en tant que colporteurs, de village en village pour proposer tissus et colifichets, ou bien dans des échoppes au coeur des grandes villes.

NOUVELLE TERRE PROMISE

Ces quartiers ont traversé les années, comme le Saara, dans le centre historique de Rio de Janeiro. Les familles les ont rejoints dans leur nouvelle terre promise, mais des clichés jaunis témoignent aussi de l'intégration des arrivants par des mariages avec des jeunes Sud- Américains comme celui de Don Elias et Dona Luisa à Buenos Aires, avant la seconde guerre mondiale.

Toutes les grandes cités latino-américaines comptent leur club, leur école, leur hôpital syro-libanais, devenus des lieux huppés. Les Arabes s'intègrent et se fondent dans une société perméable à leurs coutumes. En ouvrant le sommet, à Brasilia, le président Luiz Inacio Lula da Silva a évoqué l'hospitalité arabe du peuple brésilien. Les descendants de Syriens et de Libanais, et aussi de Palestiniens (au Chili et dans le sud du Brésil) sont présents dans tous les secteurs : la politique (présidents Carlos Menem en Argentine, Jamil Mahuad ou Abdala Bucaram en Equateur, Tony Saca au Salvador), la médecine, l'Université, la littérature et les affaires (le Mexicain Carlos Slim détient la plus grosse fortune de l'Amérique latine).

Il est impossible d'imaginer la cuisine latino-américaine sans l'influence du safran, de l'huile d'olive, substitut de la graisse de porc interdite, du clou de girofle et de la cannelle. A Sao Paulo, mégapole qui compte plusieurs millions de descendants d'Arabes (12 millions pour le seul Brésil), un quart des repas servis dans les bars et restaurants sont issus de recettes arabes : taboulé, brochettes de viande, purée de pois chiches, desserts au miel. Il existe même une chaîne nationale de fast-food, Habib's, qui fabrique mensuellement deux millions de "kibe" , la boulette de viande frite.

Avec les vagues d'immigrations plus récentes sont apparues les constructions d'édifices religieux. De grandes photos couleurs, à l'exposition, montrent l'élégance de la mosquée du Centre culturel de Buenos Aires, inaugurée il y a quelques années près du stade de polo, à Palermo. Au Centre éducatif libanais de Ciudad del Este (Paraguay), des petites Paraguayennes voilées se jouent de l'objectif qui les vise. Enfin, des danseuses du ventre, dans un salon de thé égyptien, à Sao Paulo, ou la maison des Bédouins de Buenos Aires, révèlent une vision plus chic des jeunes générations. Au Brésil, un feuilleton télévisé, censé se passer au Maroc, avait popularisé la "dança do ventre" et ses artifices, qui n'a cependant pas supplanté la samba.

En quittant l'exposition, la plupart des visiteurs brésiliens sortent étonnés. Ils ont découvert l'importance d'un héritage qu'au quotidien ils ne perçoivent plus.

Annie Gasnier

Article paru dans l'édition du 13.05.05 

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