Leituras no Império

Análise

Ideal Coletivo
Daniel Jesus

As lutas de classes, movimentos, grupos ou etnias sempre estiveram presentes na história da humanidade. A luta pela auto - afirmação sempre procurou encontrar lugar lado ao oposto dominador, ou tomar-lhe o lugar de dominação. Mas essa luta tem sido conduzida de forma equivocada, com raras exceções, até hoje. Os Estados - nações procuram constituir um povo para defender os interesses de uma minoria. E em muitos casos, grupos utilizam o mesmo projeto em benefício de um número menor ainda. O Império é sempre o inimigo comum a ser derrotado. Em geral, o Império mantém focos opositores, para auto - afirmar a sua existência e a sua grandeza. A pergunta certa não é contra quem se luta, mas para que se luta, ou pelo que se luta. O homem deve buscar na sua origem as respostas. E dessa forma, evitar repetir o modelo abusivo de seus dominadores.

O Estado surgiu como uma forma legítima de governar as relações sociais feudais e as relações de produção. Inicialmente, o Estado Absolutista era representado pela monarquia patriarcal. As revoluções burguesas derrubaram a monarquia, mas se valeram do Estado para organizar a sua estrutura econômica capitalista. Se posteriormente, o corpo divino do rei simbolizava a identidade da nação, agora, o território, a cultura, a língua comum e a continuidade biológica seriam fundamentais. Mais tarde, acabaram constituindo os meios para se conceber o Povo da Nação. Atualmente, hinos, feriados nacionais e seleções esportivas são novos artifícios para caracterizar essa identidade. O cidadão nacional passa a ter responsabilidades e um papel ativo para manutenção de uma criação que representa a sua comunidade. A crise da modernidade, na relação conflituosa entre multidão e poder, espera ser resolvida pela legitimidade representativa do Estado e a caracterização do povo nacional.
É importante distinguir o conceito de multidão e povo. Antonio Negri, Michael Hardt, Paolo Virno e Thomas Hobbes fizeram tal distinção. A multidão é uma multiplicidade de idéias, características e relações, está sempre interagindo com o meio externo. O povo é algo uno, conduz todos os tipos de governo, apresenta homogeneidade interna e estabelece diferenças com o meio externo. Para ser bem - sucedida, toda nação precisa fazer da multidão um povo. A construção da identidade nacional do povo, em especial do europeu, se deu por dois meios fundamentais: o racismo colonial, e a representação de toda a população por um grupo hegemônico. De forma geral, o racismo ainda é um meio muito utilizado para estabelecer as bases de uma profunda identificação nacional. A Alemanha nazista, talvez, tenha sido o exemplo mais marcante da história. Mas, a jornada da Inglaterra para estabelecer o Império Britânico foi um dos meios mais fortes pelo qual o racismo foi utilizado como forma de legitimação de um povo.

Para o europeu colonialista, as diferenças raciais com índios, africanos e orientais foram fundamentais para o seu próprio entendimento como parte de um povo. É necessário um elemento racial, que de alguma forma crie o "outro", para o homem se sentir inserido em um grupo de características semelhantes às suas. A exposição de negros e índios na Europa, durante o período colonial, era extremamente importante para essa criação do "outro". Ainda hoje, esse conceito é usado para criar as diferenças necessárias aos povos. Assim como o brasileiro é sinônimo de malandro no exterior, o Argentino é egocêntrico e o Português é pouco inteligente para construção brasileira. Essa construção formulada pela mídia, vende o homem do Oriente Médio como um fundamentalista islâmico que vive errando pelo deserto sem expectativa de vida, o Africano, um homem de aldeias miseráveis necessitado de toda ajuda internacional possível, e o oriental (com exceção do japonês em geral, que já se ocidentalizou), uma figura exótica, cheia de mistérios e sabedoria, que vive em uma realidade temporal diferente do resto do mundo e por isso, talvez, seja impossível ouvi-lo. Edward Said escreveu que o Oriente foi criado, ou, orientalizado. Todas as partes do Oriente são iguais e o seu caráter oriental é eterno e imutável. O resultado é o Oriente como um objeto do discurso europeu.

Ainda no período colonial, o pensamento revolucionário humanista veio pregar a idéia da liberdade universal e a igualdade dos seres humanos. Mas quando aplicado, este pensamento caiu em conflito com a soberania e a dominação. Apesar da maioria das missões espanholas não ter tido a menor preocupação em preservar as populações nativas da América, alguns espanhóis reconheciam a humanidade dos nativos e procuravam protegê-los. Para eles, esses nativos eram humanos iguais a eles, pois eram potencialmente cristãos. O humanista não podia ver a diferença na humanidade. O homem, como ser humano, era cristão. Inúmeros outros casos podem ser relatados, todos viam o homem físico como igual, mas o seu conhecimento e a sua cultura não eram reconhecidas de forma alguma. Afinal de contas, a cultura do humanista nunca lhe permitiu ir tão longe no reconhecimento do "outro".

A Revolução Francesa trouxe a idéia de que a soberania nacional é construída pela hegemonia popular. Tal conceito faz parte do discurso restaurador dos dominantes e gera o desejo de mudanças e revoluções para os dominados. Esse pensamento guiou colônias à independência, levou países à adotarem políticas antiimperialistas contra o capital estrangeiro e fortalecem lutas de classes por melhores condições. A dialética entre dominantes e dominados, cria uma diferença entre ambos que precisa ser levada ao extremo. Ver, sentir, conhecer o lado oposto é importante para a auto - afirmação. Esse contato diminui a tensão e caracteriza ainda mais as diferenças, necessitando apenas de um controle das fronteiras para que a pureza de cada um seja preservada. Uma dialética negativa de reconhecimento, fundamentada na oposição entre as partes. Mas na verdade, a verdadeira situação nunca se reduz a um binário absoluto entre duas forças opostas: negros e brancos, judeus e árabes, ricos e pobres, latifundiários e sem - terra. Essa construção dialética demonstra que nada existe de essencial com relação às identidades em luta. A luta só é necessária para afirmação do Eu dominante e a afirmação dos seus poderes.

Muitos autores defendem uma dialética revolucionária, uma resposta recíproca e simétrica as forças dominantes. Um conceito que pode ser chamado de bumerangue da alteridade. Na época colonial, era símbolo da reversão da lógica colonialista, procurando unir na mesma luta todos os povos oprimidos, abolindo todas as diferenças raciais. Esse bumerangue, reeducaria o negro, por exemplo, a conhecer a sua essência, destruindo o Eu europeu, por não considerar a caracterização dominante dotada de relevância. O momento bumerangue, de dialética negativa, tem como primeiro passo, nesse caso, a destruição da negritude em si mesma. Para depois, atravessar um caminho, uma sociedade sem classes e sem raças, a verdadeira essência do humanismo. Essa lógica dialética foi defendida por Jean Paul Sartre. Mahatma Gandhi fez o mesmo ao recomendar os Hindus do Partido do Congresso a entregar o país independente aos dirigentes da Liga Muçulmana. Em suas reflexões, Gandhi não via diferenças entre as duas raças, reconhecia a importância do Estado independente, e acreditava que esse seria conduzido pela força heterogênea da multidão.

Todavia, a prática é bem mais complicada do que a teoria. E de forma geral, é caracterizada pela revolta fundamentada na violência. A libertação, o início do caminho que destruiria as alteridades e determinaria a igualdade das raças foi alcançado através da disputa entre dominante e dominado. O processo tornou-se político e caiu na armadilha da libertação nacional. As colônias são bons exemplos desses movimentos bem atuais que caminham para o mesmo destino. Na luta pela descolonização, o conceito de povo é enaltecido e a nação um veículo necessário para determinação da independência. A nação independente, dotada de uma estrutura de dominação interna, vai lutar por um espaço na rede capitalista das potências dominantes. O Estado - nação pós colonial está subordinado a organização global do mercado capitalista. O fim do colonialismo não abriu uma era de liberdade absoluta, mas ensinou novas formas de comando que operam em escala mundial.

Em resumo, as lutas que se valiam do ideal de liberdade racial, econômica e política foram traídas por almejar a posição do dominante. As nações independentes criaram as suas elites, reorganizaram suas classes, e se prenderam no sonho do capitalismo. O capitalismo não é o monstro do processo. Ele foi apenas o artifício utilizado pela dominação européia para atingir seus objetivos, e só pode ser empregado de forma plena pelas nações dominantes que controlam os meios de produção e comunicação. É bem verdade que estas cometeram seus erros, e só atingiram suas metas através da exploração e da dominação de outros povos. Mas seguí-los, é cometer as mesmas atitudes condenáveis. A nação ou o grupo que quiser utilizar os recursos do capitalismo, estará contrariando o conceito do momento bumerangue, cairá na lógica da alteridade, e ficará presa a roda do capital e da corrida pela acumulação. E pode estar neste fato os erros de determinados grupos em se reconhecerem. Quando se fala em grupo, destaca-se uma parte da multidão que se constitui por ideais e objetivos comuns. Nesse contexto, esse conceito pode ser utilizado para todos os movimentos que defendam direitos de excluídos. Mas, excluídos de que? Do sistema, ou melhor, do Império. Esse mesmo Império do qual todos eles se opõem.

Que fique bem claro, que a proposta aqui não é a omissão dessas vozes, e a manutenção desse processo de exploração que atravessou a escravidão e se mantém firme durante a democracia. E sim, uma reflexão mais profunda dos objetivos dessa luta. Um total conhecimento das suas origens e artifícios. De forma, a atingir algo mais próximo ao que Sartre e Gandhi acreditavam, cada um a sua maneira. Uma sociedade sem classes e raças, onde o humanismo se encontre na sua essência. Afinal, os séculos provaram que Newton estava certo, e a violência vinda de qualquer lado, só foi capaz de gerar mais violência. Nem os dominantes conseguiram reprimir de todo os seus dominados. Nem estes puderam livrar-se totalmente das garras de seus dominadores. Um bom começo é entender que geneticamente não existem raças. A cor da pele pode ser descrita, mas a herança genética não. A Humanidade teve início na África e de lá se espalhou para o mundo. Ou seja, o primeiro passo é reconhecer a origem comum do homem. Mas enquanto a luta ficar presa aos interesses nacionais, e a grupos que falam pela multidão, os problemas vão se avolumar ainda mais entre os já existentes. De onde veio esse povo? Quais os indivíduos desse grupo? Quem é esse homem?

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