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1,5 milhão de imigrantes irregulares no Brasil

Por Deborah Giannini, na Revista da Folha, 20/3/2006.

"Para el migrante, la patria es la tierra que le da el pan", diz o cartaz amarelado na porta do Centro da Pastoral do Migrante, no bairro da Liberdade. Cerca de 5.000 estrangeiros ilegais cruzam por ano aquela porta, em busca daquilo que a nova pátria ainda não conseguiu lhes prover -ajuda para pôr fim à própria clandestinidade.

Para o senso tupiniquim, talvez não seja compreensível que, entre tantos lugares do mundo, um estrangeiro escolha um país subdesenvolvido e mundialmente reconhecido como injusto e socialmente excludente para apostar suas esperanças de construir um futuro melhor -ainda mais nos últimos tempos, quando o Brasil passou de importador de mão-de-obra a exportador de sua própria gente.

Estima-se que 1,5 milhão de estrangeiros vivam de forma irregular no Brasil. Das safras migratórias mais recentes, cerca de 80% dos que entram ilegalmente no país são bolivianos, seguidos de peruanos, chineses e africanos de diferentes países, mas, principalmente, da Nigéria.

"O Brasil é a 'América' para muitos estrangeiros. É como o brasileiro que vai para os EUA ou o Japão: 'Vou ganhar US$ 2.000 por mês', comemoram. Na visão de americanos, isso não é nada, mas para ele e seu sonho de ajudar a família, é muito", compara Luiz Eduardo Machado, chefe do setor de Registro de Estrangeiros na Polícia Federal de São Paulo. No caso dos bolivianos, há mais um paralelo: a relação entre o dólar americano e o real é praticamente a mesma entre o real e o peso: um para três.

Só que o perfil do brasileiro que deixa o país "para fazer a América" é bem diferente do do boliviano que vem tentar a sorte aqui. "Entrar ilegalmente nos Estados Unidos exige uma reserva de, no mínimo, US$ 15 mil, para pagar o passaporte falso e o 'coiote' que vai guiar o ilegal na travessia da fronteira México/EUA. Portanto esse brasileiro sai da classe média. Já o boliviano é quase sempre miserável. Muitas vezes vem sem dinheiro nenhum, orientado por 'coiotes' pagos pelo dono da oficina de costura de São Paulo, com quem criam uma dívida a ser paga com meses e meses de trabalho", afirma o padre Roque Renato Pattussi, coordenador do Centro da Pastoral do Migrante e que já trabalhou também do lado de lá, acolhendo brasileiros ilegais nos Estados Unidos.

O boliviano M.A., 25, é um deles. Desembarcou por aqui há um ano, atraído pelo anúncio de emprego com direito a "moradia, comida e salário de US$ 100" (R$ 270, considerado de classe média na Bolívia). Entrou no país pela fronteira do Paraguai, que cruzou a pé. Quando chegou a São Paulo, no entanto, não encontrou exatamente o que imaginava: a moradia, na verdade, era um cortiço no Bom Retiro, onde tinha direito a um apenas banho por semana; o cardápio se restringia a arroz com salsicha e o salário não passava de R$ 200. Mesmo assim, ficou. "Pelo menos aqui há emprego", diz.

D.C., 30, caiu em conto semelhante, mas, no caso dele, o explorador foi o próprio tio, que se instalou aqui 15 anos atrás e montou sua própria oficina. Durante um ano, D.C. trabalhou praticamente sem ver a cor do dinheiro. "Eu ganhava R$ 1,20 por peça; descontando moradia e comida, me sobrariam R$ 0,40. Mas fiquei sem receber nada, só vales. Como estou ilegal no país, não tinha como reclamar", diz o costureiro, que deixou o emprego e recorreu à Pastoral em busca de ajuda para continuar no país.

As jornadas extensas não chegam a assustar, diz ele. "Somos um povo trabalhador, estamos acostumados a trabalhar das 7h às 22h, o problema é que lá não há emprego", completa.

Segundo a advogada Ruth Camacho Kadluba, do Centro da Pastoral do Migrante, apenas 10% dos imigrantes bolivianos ilegais acabam em regime de semi-escravidão. "Mesmo sabendo que a vida aqui será difícil, eles vêm. É a Flórida deles", afirma.

Há uma diferença de perfil entre os ilegais latino-americanos e os que vêm de países da África. Enquanto os "hermanos" chegam com a família, os segundos costumam emigrar sozinhos ou com amigos. A maioria vem da Nigéria: há 1.382 nigerianos legalizados no país, segundo a Polícia Federal, mas entidades ligadas à cultura africana acreditam que, incluindo os ilegais, a comunidade chegue a 5.000 imigrantes. Há ainda estrangeiros vindos de lugares como Congo, Angola e Libéria.

Muitos vêm de avião, com a intenção de usar o Brasil como ponte para entrar nos Estados Unidos. Outros de navios, onde embarcam clandestinamente, com o objetivo de tentar pedido de refúgio. Mas, como fogem de guerras tribais, sem repercussão internacional, geralmente têm seus pedidos negados. Vão parar na área de comércio de calçados e de ouro. Uma parcela, sem conseguir emprego, passa a ser utilizada como "mula" no tráfico de drogas.

Mudanças De olho na mudança do panorama migratório ocorrido nos últimos anos, já existe uma comissão interministerial formada para discutir a reforma do Estatuto do Estrangeiro, criado em 1980. Por ser anterior à atual Constituição, de 1988, o texto diverge dela em alguns pontos, como saúde e educação. O estatuto não permite acesso do estrangeiro a esses serviços públicos; já a Constituição assegura tratamento igual a todos.

"O estatuto foi elaborado na época do regime militar, não contempla o cenário atual. Vamos tratar os imigrantes com direitos humanos, na contramão do mundo, mas, claro, sem abrir o país indiscriminadamente", afirma Luiz Paulo Barreto, secretário-executivo do Ministério da Justiça e presidente da comissão, que deve entregar a proposta do novo estatuto para consulta pública nos próximos dias, antes de ser enviada para o Congresso Nacional.

As principais mudanças são a criação de novas categorias de vistos, como para professores, cientistas e empresários, a fim de incentivar a entrada de mão-de-obra qualificada; facilitar emissão de vistos e documentos para imigrantes sul-americanos, o que significa regras menos rígidas e barateamento de custos (regularizar a situação ilegal chega a custar R$ 828 por pessoa); e estabelecer critérios mais ágeis para deportação ou expulsão de estrangeiros que cometem crime no Brasil.

Hoje, conseguir permanência definitiva por aqui não é difícil: basta casar com um local ou ter filho aqui sob sua guarda e dependência econômica (veja quadro na pág. 16). Até por isso, muitos se referem ao visto de permanência brasileiro como "passaporte da alegria". A questão é que a grande maioria dos imigrantes não se preocupa em obtê-lo porque não pretende, de início, viver "para sempre" no Brasil.

"Todo imigrante tem o princípio moral do retorno. 'Eu vou, fico dois, três anos e volto'. É o que todo mundo diz, inclusive o brasileiro que vai para fora. Mas o retorno acaba se tornando um pouco mais demorado porque ele não alcança o que planejava naquele período", afirma o padre Roque.

Luiz Paulo Barreto, do Ministério da Justiça, lembra que nossa história foi construída com a contribuição dos estrangeiros. "Em geral os imigrantes são empreendedores. Vamos tentar regularizar os ilegais e, se não for possível, iremos devolvê-los ao país de origem de maneira digna", afirma Barreto.

Na visão de quem vem de fora, o que se espera é generosidade. "O Brasil continua sendo um país enorme. É tão grande que cabe todo mundo. E os brasileiros não podem se esquecer de que onde há mais abelhas, haverá mais mel", filosofa o peruano Carlos, 25 anos, clandestino, que vende refrigerantes na praça da República.

* os nomes foram trocados

Título original: Terra estrangeira. Chamada original: Cerca de 1,5 milhão de imigrantes vivem de forma irregular no Brasil, a maioria em São Paulo.

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