Japoneses

Análise

A comunidade nikkei e a Revista Made in Japan

O contato entre etnias diferentes pode, em alguns casos, gerar reações conservadoras e segregacionistas, ao passo que em outros proporciona um intercâmbio entre culturas e um campo propício para o surgimento de uma nova identidade, como é o caso do que acontece com os imigrantes japoneses que vieram para o Brasil e seus descendentes. 

Alguns vêem a comunidade composta por eles, a comunidade nikkei, como uma extensão do Japão. Outros a vêem como um segmento da sociedade brasileira. Alguns até mesmo acreditam que ela seja as duas coisas, ou nenhuma das duas. O que é inegável é que desde 1908 – quando começou o fluxo migratório japonês destinado ao Brasil e o cultivo da cultura nipônica aqui – até os dias de hoje, isseis, nisseis, sansseis e yosseis ajudaram a criar uma cultura própria brasileira-nikkei, repleta de peculiaridades. 

A variante cultural 

Ao mesmo tempo em que há uma relação entre os descendentes e sua condição nikkei definida por traços étnicos, há também a variante cultural que é de extrema importância na caracterização da identidade comunitária. A comunidade e a cultura têm uma relação mútua de dependência. O traço comum entre pessoas que as coloca em uma mesma comunidade não pode ser reduzido à etnia, consangüinidade ou nome de família. 

A cultura é um fator essencial no elo entre indivíduo e comunidade, pois é ela que legitima a sua pertinência naquele grupo. Para confirmar isto basta observar mestiços que possuem, por exemplo, maior domínio do idioma japonês, mais hábitos alimentares e maior adoção de valores tradicionalmente japoneses do que muitos nikkei com maior nível de “niponicidade”. 

A flexibilidade e a abertura da comunidade são benéficas, pois aumentam as suas chances de sobrevivência e evolução junto ao resto da sociedade, além do intercâmbio cultural. A comunidade nikkei brasileira está situada em um novo território formado por pessoas que vivem uma tradição mista que se identifica ao mesmo tempo com o Brasil e com o Japão, recebendo influências de ambos os países e adicionando também a ambos. Seu papel vai além da preservação da cultura nipônica entre imigrantes e descendentes no Brasil, já que ela difunde em diferentes níveis esta cultura dentro da sociedade brasileira e também difunde a cultura brasileira no Japão através dos dekassegui (descendentes de imigrantes que retornam ao Japão). 

Este fenômeno de evolução social da comunidade nikkei necessitava, porém de uma reafirmação de identidade comunitária que a sustentasse. A Revista Made in JAPAN se insere neste contexto. 

Leia na seção Freqüências sobre a Revista Made in JAPAN.

Conclusão 

Através do estudo sobre comunidade, cultura e a própria atuação da revista Made in JAPAN podemos ver a importância da flexibilidade e da mudança para a sobrevivência e prosperidade de uma comunidade étnica. Ao se fechar, um grupo está fadado a morrer, ao passo que aquele que se abre ao contato intercultural pode se firmar em um novo território que abranja influências diferentes e acabar por gerar algo novo, uma identidade própria. 

A importância de um projeto de comunicação na construção de uma nova identidade se dá tanto pela agregação de valores a essa nova identidade, como pela visibilidade que ele a dá perante a comunidade e a sociedade como um todo. 

A Made in JAPAN serve como uma vitrine da comunidade nikkei para o mundo, mas também influencia o modo como os próprios nikkei se vêem. A utilização de contatos interculturais que simbolizem um relacionamento íntimo entre o Brasil e o Japão, além da inclusão de mestiços na comunidade por meio de traços culturais comuns mais valorizados, ajuda no fortalecimento da sua identidade e da pertinência da sua existência. 

Bibliografia
 

  • Hayashi, André Ryo (1996).  A comunidade, a cultura e as entidades nikkey do Brasil.  São Paulo, Mania de Livros.

  • Koshiyama, Alice Mitika (2003).  A construção de novas identidades na revista Made in JAPAN (1998-2002).  São Paulo, GT Comunicação e Cultura das Minorias.

Autora: Mariana G. Rocha Coelho (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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