Árabes

Resenha

A literatura como instrumento para o estudo da migração árabe

Resenha crítica de “Transculturación, identidad y alteridad en novelas de la inmigración árabe hacia Chile”, de María Olga Samamé B. Referências do texto analisado: Revista Signos – ISSN 0718 – 0934 versão on-line / Rev. Signos v.36 n.53 Valparaíso 2003.

Em seu artigo veiculado na revista Signos, Maria Olga Samamé B. nos brinda com uma nova perspectiva de análise acerca da imigração árabe no Chile. Intitulado de “Transculturación, identidad y alteridad en novelas de la inmigración árabe hacia Chile”, ela propõe uma abordagem da questão da imigração e da identidade a partir da própria narrativa da comunidade árabe. Para tanto, ela avalia como estes textos refletem questões primordiais da relação do imigrante com sua própria cultura e com a cultura que o recebe.

O artigo se organiza em torno de cinco romances da literatura árabe-chilena, e partindo deles procura, de acordo com as próprias palavras da autora, se aproximar da questão da identidade na narrativa da imigração árabe e verificar como se produziu a perda dos traços identitários ancestrais. Dessa forma, as obras são analisadas aplicando-se os conceitos metodológicos de Todorov, visando o entendimento da situação da identidade e da percepção do outro numa sociedade que está em um processo de mudança cultural e material permanentes. 

Os livros escolhidos para a execução do artigo foram: Memórias de um emigrante (1942), Benedicto Chuaqui; Los turcos (1961), de Roberto Sarah; El viajero de la alfombra mágica (1991), escrito por Walter Garib; Peregrino de ojos brillantes (1995), cujo autor é Jaime Hales; e, por fim, Nahima (2001), Edith Chanhín. Todas essas obras foram escritas por imigrantes diretos, que vieram para o Chile ainda na infância; ou descendentes de segunda e terceira geração, que viveram na experiência da família as questões da imigração. 

O artigo começa dando um panorama da imigração no Chile por parte dos árabes. De modo bem sucinto ela retrata as motivações que levaram os povos do oriente a emigrar, no entanto, ela predetermina fatores que não se confirmam ao longo do detalhamento dos livros. No caso, em todo momento, ela define questões que não se justificam nem em dados externos e nem em análises internas ao artigo. Contudo, muitas das constatações feitas já no começo do texto refletem a própria análise dos livros, antes mesmo deles serem explanados, o que acaba gerando uma confusão, pois parte-se do preceito de que não é possível verificar de onde vêem as informações e nem em que são embasadas. 

Seguindo o artigo, há uma demonstração muito bem fundamentada da posição do imigrante na sociedade chilena. A autora mostra como se dava a entrada no país e de que forma era regulamentada a imigração. Nesse ponto ela encerra sua contextualização do tema, momento em que ela colocou os pontos básicos da imigração árabe no Chile, como seus anseios, suas motivações, sua inserção e adaptação àquele novo mundo. A partir daí ela começa a tratar propriamente dos livros. A autora demonstra como a escrita dos imigrantes se torna material de suma importância para a análise da identidade no ponto de vista do próprio imigrante. 

Essa forma de estudo histórico-sociológico se demonstrou uma metodologia muito pertinente à questão da imigração e identidade. Uma vez que era preciso partir do próprio falar do árabe para entender como se comportou a identidade do imigrante ao longo de todo o processo de migração. Outro fator que valida ainda mais o método é a sua eficiência na análise da visão do outro, como proposta no texto, focando na visão do imigrante em relação ao chileno. Rever a identidade, questionar a identidade, reafirmar a identidade tornam-se exigências correntes, imputadas aos imigrantes ou desencadeadas internamente a eles. Pertencer a uma organização, grupo, movimento ou sociedade torna-se uma exigência e um problema, quando os referenciais se turvam, as fronteiras se tornam incertas e a ameaça de desagregação ou perda de identidade é ampliada. As obras narrativas são materiais profundamente ricos, e que possibilitam essa compreensão profunda da imigração. 

As obras selecionadas pela autora refletem momentos específicos da imigração árabe no Chile. E cada obra acrescenta um ponto à parte para o desenvolvimento do artigo. Com exceção da obra “Peregrinos de ojos brillantes”,  que mistura questões místicas em seu contexto e não acrescenta praticamente nada na análise proposta pela autora – todas as outras narrativas são fundamentais para o sucesso do artigo. Cabe destacar aqui as obras “Nahima”, cujo destaque do papel da mulher na imigração propicia um acréscimo valoroso ao trabalho. Assim como “El viajeiro de la alfombra mágica”, o qual trata de um fato verídico da história chilena e mostra claramente a contraposição entre o imigrante que almeja a manutenção de suas tradições e aquele que pretende se “aculturar” totalmente na sociedade que o recebeu. 

A análise propriamente dita, baseada no modelo proposto por Todorov, revela-se como insuficiente para abordar todas as questões referentes à imigração. A todo o momento a autora se repete, abordando sempre as mesmas questões da perda dos traços identitários e do preconceito sofrido pelos imigrantes árabes em sua chegada. Assim, o texto se estrutura numa forma redundante que se permite chegar sempre às mesmas conclusões. 

De fato, são relevados ao todo quatro conceitos: 1) O conceito do DESCOBRIR, que determina como os árabes percebiam a América antes de chegar. Esse conceito foi muito bem destrinchado ao longo do artigo, principalmente através dos livros que detalham a questão do desligamento da terra natal e a esperança da viagem. A motivação de saída dos imigrantes e sua escolha pelo Chile foram fatos descritos com perspicácia. 2) O CONQUISTAR diz respeito ao período em que o imigrante estabelece uma relação com o povo que o recebe e a tentativa de conquistá-lo. A autora trabalhou um ponto de vista muito peculiar desse assunto, priorizando o tema do preconceito e da dificuldade de aceitação por parte dos chilenos. Nesse ponto ela torna a se repetir constantemente, ao dizer como foi complicada a integração na sociedade de acolhida. 

3) No conceito do AMAR é tratado o sentimento de pertencimento do imigrante na sociedade chilena. Aqui é defendido que os imigrantes, em todos os livros, passaram a se considerar chilenos, amando e aceitando o Chile tanto quanto sua própria origem arábica. O livro de Benedicto Chuaqui foi categórico ao mostrar o patriotismo do personagem nas terras chilenas; em livros como “Los Turcos” também fica evidente essa devoção, principalmente na história do personagem que concorre às eleições presidenciais naquele país. Todavia, a relação do pertencimento é um assunto que merecia mais atenção do que os míseros seis parágrafos que foram dedicados a ele. 

4) Por fim, o CONHECER mostra o entendimento do imigrante em relação ao outro, no caso os chilenos que os receberam. Este ponto foi o melhor abordado pela autora. São considerados três pontos de vista que se contrapõe e se completam com perfeição. Sem dúvida, esse foi um aspecto laboriosamente dissertado ao longo deste trabalho, repleto de citações e muito bem amarrado com as propostas da autora. 

Em relação aos temas abordados, o artigo os avalia de maneira bem interessante, no entanto, é preciso destacar que essas quatro situações não esgotam toda a relação da imigração, tampouco esgotam as questões propostas de identidade, alteridade e mudança cultural. Para tanto seria necessário um aprofundamento nos conceitos antropológicos e psicológicos que envolvem cada obra citada. 

Enfim, o artigo apresenta uma visão bem distinta do estudo da imigração, e, salvo pequenos detalhes que seriam mais bem trabalhados em outro momento, o texto disserta com precisão sobre as relações que propõe. Sua conclusão nada mais é do que mais um momento de redundância, em que são brevemente apresentadas as brilhantes constatações que foram alcançadas ao longo dessa obra de Maria Olga Samamé B. 

Autores: Bruno Monteiro Pessoa e Stéphanie Purwin. Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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