|
|

Maré de Angolanos
Maurício Monteiro Filho em 05/08/2005
Sábado à tarde, véspera do dia das mães no Brasil também para os
que deixaram as suas a um Oceano Atlântico de distância. É um
dia como qualquer outro para os angolanos que se reúnem ao redor
do bar Adega, ponto de encontro quase diário dos imigrantes de
Angola que moram no complexo da Maré, bairro da zona norte da
cidade do Rio de Janeiro.
De repente, os tiros esporádicos que se escutam à distância
passam a zunir a 10 metros da esquina onde os angolanos se
encontram. Um camburão da Polícia Militar chega em alta
velocidade, pára com um cavalo de pau e dele descem quatro "kabombas"
– como os angolanos chamam os policiais – fortemente armados,
atirando contra os traficantes que realizam o "plantão", do lado
oposto da rua. Manoel Filipe, no Brasil há 9 anos, tem motivos
de sobra para se preocupar. Vinte dias após sua chegada ao país,
ele foi vítima de uma bala perdida que quase o matou.
|

Foto: Maurício Monteiro Filho |
Novamente, o ruído dos disparos se
embrenha pela favela. Minutos mais tarde, a ordem de que os
comerciantes baixassem as portas a meia altura era o sinal de
luto pela morte de mais um membro da "malandragem", como é
conhecido o tráfico.
Qualquer semelhança entre o cotidiano na Maré e a realidade
sangrenta que marcou as últimas décadas em Angola é uma trágica
coincidência para os imigrantes – a esmagadora maioria de homens
jovens – daquele país que moram na favela. Fugidos da guerra,
muitos como refugiados, vieram encontrar uma vida muito
diferente daquela retratada pelas novelas brasileiras que são
transmitidas no país africano. Praticamente, trocaram uma guerra
civil por outra.
Ainda assim, a Maré é também o ponto de união e identidade
daqueles que deixaram família e amigos. "O que me faz ficar é a
união. Aqui é a nossa embaixada, é nossa terra", declara Moraes
Domingos.
Os números comprovam o que Maninho, como ele é chamado, diz.
Segundo a Divisão de Cadastro e Registro de Estrangeiros da
Polícia Federal, dos 5539 imigrantes angolanos no Brasil, a
concentração mais expressiva – 2766 – está no Rio de Janeiro. E,
dentro desse estado, a maioria vive na Maré.
Guerra civil
Angola comemora, em 2005, 30 anos de sua independência de
Portugal. O processo de libertação, no entanto, teve como
resultado uma guerra que durou cerca de 14 anos, cujo final não
foi seguido por um período de paz. Vencido o combate contra os
colonizadores, iniciou-se um conflito civil pelo poder, em que
eram protagonistas o partido governista Movimento Popular de
Libertação de Angola (MPLA), de inspiração marxista e auxiliado
pela União Soviética, e o rebelde União Nacional para a
Independência Total de Angola (Unita), apoiado pelos Estados
Unidos.
O conflito só se encerrou oficialmente com a morte do líder da
Unita, Jonas Savimbi, em fevereiro de 2002. Sem lideranças
fortes o suficiente para substituí-lo, os guerrilheiros
entregaram as armas em abril do mesmo ano.
Esse histórico de guerras estimulou fortemente a emigração. Os
principais destinos foram países vizinhos, como a República
Democrática do Congo (antigo Zaire), além de Portugal e Brasil,
que foi a primeira nação a reconhecer a independência angolana.
Segundo o professor José Maria Nunes Pereira, co-fundador do
Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes,
na cidade do Rio de Janeiro, não é de hoje que o Brasil é o
destino preferencial dos que emigram de Angola. "Não começou com
a luta pela independência, mas sim com a guerra civil que se
confundiu com ela", afirma.
Em 1992, foram realizadas eleições presidenciais em Angola. José
Eduardo dos Santos, do MPLA, que está no poder desde 1979,
disputou o cargo com Savimbi. Com a derrota nas urnas, os
rebeldes se revoltaram, acusando o governo de fraude, e pela
primeira vez a guerra chegou a Luanda, capital do país.
Esse momento corresponde ao marco inicial da vinda de refugiados
angolanos para o Brasil. "Quando a Unita entrou na capital,
chegou aqui uma grande leva de imigrantes", explica Nunes. De
acordo com dados do Comitê Nacional para Refugiados (Conare),
entre 1992 e 93, ocorreu o pico histórico de solicitações de
refúgio. "Até então, não existiam angolanos nessa situação no
Brasil. Em 1994, já havia por volta de 800", estima Cândido
Feliciano da Ponte, diretor da Cáritas Arquidiocesana do Rio de
Janeiro, entidade religiosa que atua em parceria com o Alto
Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, no Brasil.
Segundo ele, atualmente, dos 3 mil refugiados de todas as nações
que vivem no país, cerca de 1,6 mil são provenientes de Angola.
Ao mesmo tempo aumentava também a chegada de imigrantes
não-refugiados, além dos muitos que entravam no país de forma
ilegal. É justamente a partir dessa época que a maioria dos
primeiros angolanos que acabaram por se radicar na Maré partiram
de Angola.
Manoel Filipe foi um deles. Permaneceu dois anos como
clandestino, até conseguir a legalização por meio da anistia
concedida pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1998. "A
melhor forma de não servir o exército era sair do país", conta
ele. Filipe lembra que, quando a Unita perdeu as eleições e
marchou para Luanda, o MPLA enchia caminhões com armas e
munições e os distribuía para que a população atacasse os
rebeldes.
Angola no Brasil
"Essa revista vai para Angola? Tem de ir, para o pessoal ver que
aqui não é como nas novelas." Assim Emanoel Catela expressa sua
desilusão com a realidade que encontrou no Brasil. Após seis
anos vivendo no país, ele já se conformou com a miséria e só
pretende voltar para a terra natal a passeio.
Como ele, muitos imigrantes sofreram para se adaptar à vida na
comunidade. E não é para menos. Segundo o Censo Maré 2000,
realizado pela organização não-governamental (ONG) Centro de
Estudos e Ações Solidárias da Maré, o complexo, composto por 16
comunidades, com seus mais de 132 mil habitantes, é a maior
concentração de população de baixa renda do estado do Rio de
Janeiro e uma das maiores do país. Fisicamente, a gigantesca
favela está encravada no meio de um triângulo formado pela
Avenida Brasil e pelas Linhas Vermelha e Amarela.
Porém, além da pobreza, o que mais cerceia a vida de seus
moradores são as fronteiras impostas pela guerra do tráfico.
Dentro do complexo e nas suas imediações, revezam-se no poder as
três grandes facções do crime organizado do Rio de Janeiro:
Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos.
Foi justamente nessa região, nas comunidades de Vila do João e
Vila Pinheiros, que se fixou a maior parte desses imigrantes.
Segundo afirma a geógrafa Regina Petrus, em sua dissertação de
mestrado sobre os angolanos no Rio de Janeiro, apresentada em
2001 ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, "por ser a principal
referência para os que chegam pelo aeroporto internacional,
torna-se mais fácil conseguir alojamento e encontrar conhecidos
e amigos de Angola nas favelas do Complexo [da Maré]".
Para piorar o quadro, como a grande maioria veio de Luanda,
poucos chegaram a vivenciar a guerra civil, que foi muito mais
intensa nas províncias do interior. Assim, como se estivessem
predestinados à violência, fugiram da que - literalmente -
minava seu país para conhecê-la de perto nas favelas do Rio de
Janeiro.
Dessa forma, na Maré eles passaram a ter certeza de algo que os
próprios números dos confrontos angolanos desmentem. "Durante
toda a guerra em Angola, não morreu gente como aqui", garante
Filipe. Contrariando o que ele diz, porém, as vítimas da
violência causada pelo tráfico são poucas perto das atingidas
pelo conflito naquele país, que tem a maior população de
mutilados do mundo. Entre 1975 e 2002, estima-se entre 500 mil e
1 milhão o número de angolanos mortos, além de mais de 200 mil
feridos gravemente.
Antonio Kennedy, que está no Brasil há nove anos, é fã de Bob
Marley. Dedilhando em seu violão Redemption Song ("Canção da
Redenção"), sucesso do cantor de reggae jamaicano, ele improvisa
em português sobre a letra em inglês: "Já há paz em Angola.
Agora, ela tem que existir no Brasil".
Mas, por mais que essa seja a esperança de Kennedy e dos
angolanos da Maré, não foram poucas as vezes em que a mídia fez
alusão a pretensas ligações entre eles e o tráfico de drogas. As
especulações chegavam ao ponto de acusá-los de virem para o Rio
de Janeiro para transmitir aos soldados do pó os conhecimentos
militares que teriam adquirido em Angola. Contra isso,
defendem-se em uníssono: "Quando nós chegamos, a guerra do
tráfico já existia havia muito tempo".
Outra forma quase diária de violência com que convivem os
angolanos na Maré é a policial. Moraes Domingos é um dos vários
que a sentiram na pele. Ele voltava da escola, à noite, quando
foi abordado por dois kabombas. "Queriam saber se eu estava
legalizado, se tinha dinheiro. O mais revoltante foi que o
policial branco não fez nada, mas o negro me deu um tapa. Esse
ódio ficou marcado dentro de mim", diz, indignado.
A discriminação é uma constante também na vida de José Mario de
Andrade, o Zeca, no Brasil desde 2001. Ele já desistiu de ir
para o centro da cidade, pois era sempre parado pela polícia,
que tomava todo o seu dinheiro. A dificuldade de sair da Maré
também significa para Zeca ficar distante de sua religião, o
islamismo, uma vez que não há mesquitas próximas.
Seu gosto musical lhe rendeu outro apelido - Caneta Cheia de
Idéia -, pelas letras de rap que costuma escrever. Nelas, desfia
críticas contra a falta de liberdade de expressão que imperava
em Angola e contra a desigualdade no Brasil. "Lá, não era
permitido falar a verdade. Mas também há muita injustiça aqui,
só que mais obscura. Não me conformo com o estado como vivo
neste país", confessa ele.
A brutalidade policial contra os angolanos inspirou a criação de
uma entidade que defendesse os imigrantes e mesmo os negros
brasileiros vitimados por essas práticas. Assim, foi fundado no
ano passado o Núcleo de Apoio aos Angolanos e Negros do Complexo
da Maré. "Queremos inibir o preconceito e nos articularmos para
manter o respeito", explica Manoel Filipe, coordenador-geral da
entidade.
Hoje, o núcleo realiza eventos em datas significativas, como o
Dia das Crianças, que ocorre a 1º de junho em Angola. Outra
comemoração importante celebra conjuntamente a data da
independência, em 11 de novembro, e o Dia Nacional da
Consciência Negra, no dia 20 do mesmo mês.
Ainda assim, em relação à grande concentração de angolanos na
Maré, a representatividade do núcleo ainda é muito pequena e
pouco reconhecida. "Eu já não tenho fé na entidade", desabafa
Moraes Domingos, que é um de seus membros fundadores.
Mukunzeiros
No sábado à tarde, a atividade é intensa ao redor do bar Adega.
Nem a kizomba - estilo musical típico de Angola - no último
volume é capaz de atrapalhar o funcionamento de um verdadeiro
conjunto de escritórios a céu aberto.
Em frente ao bar, um posto telefônico improvisado é um dos
pontos mais concorridos. Por meio de um celular, ligado a um
carregador portátil conectado diretamente ao poste de
eletricidade, pode-se falar com parentes e amigos em Angola ao
custo de R$ 1 por minuto.
O motivo das ligações, contudo, é estritamente comercial. É dia
da partida do vôo semanal Luanda-Rio de Janeiro, da empresa de
aviação Taag - Linhas Aéreas de Angola. E nele estarão os
artigos que sustentam os "mukunzeiros", angolanos que realizam o
comércio de mercadorias entre seu país e o Brasil. Para a
esmagadora maioria desses imigrantes, essa é a única forma de
geração de renda.
Pedro Martins veio para cá com o sonho de se tornar jogador
profissional de futebol. Lateral-esquerdo, seus ídolos eram
Bebeto e Romário. "Achei que aqui conseguiria trabalhar e jogar.
Queria aprender para voltar e defender a seleção angolana. Mas
só conseguir emprego já foi muito difícil", conta. Assim, ele
abandonou as esperanças no esporte e fixou-se no Brás, bairro da
cidade de São Paulo, tornando-se mais um mukunzeiro. Acabou indo
morar na Maré quando foi ao Rio de Janeiro para servir de guia a
alguns amigos que chegavam de Angola.
Celso Miranda está no Brasil há nove anos. Mais conhecido como
Fidel, apelido que ganhou por ter nascido no ano em que o
estadista cubano visitou Angola, ele abriu o Adega há cinco
meses. Como muitos na Maré, Fidel já trabalhou como servente de
pedreiro e chegou a ter carteira assinada quando foi empregado
de uma vidraçaria. Mas os salários baixos o forçaram a buscar
outra alternativa. "O bar me dá prejuízo. Só o mantenho para os
angolanos não ficarem desunidos. É com a mukunza que eu me
sustento", relata ele. Vendendo tênis e telefones celulares,
que, junto com roupas femininas, são os principais artigos
comercializados, ele chega a ganhar R$ 3 mil por mês.
A dinâmica dessa atividade é simples. De Angola, os parceiros,
geralmente parentes ou amigos, dos mukunzeiros enviam tênis Nike
conhecidos como "12 molas". Lá, esses modelos custam, em média,
US$ 50, e são revendidos aqui por cerca de R$ 300 a R$ 350,
enquanto as lojas chegam a cobrar mais de R$ 600. Em
contrapartida, do Brasil eles enviam celulares e roupas
femininas, compradas em geral em São Paulo, a preços muito mais
baixos do que em Angola.
Que língua é essa?
Para Stefanie, de 7 anos, Isolino Cassesse fala "angolano".
Nascida no Brasil, ela acha estranho o sotaque "embolado" ainda
forte de seu pai, apesar de seus dez últimos anos vividos em
território brasileiro. Segundo ele, apesar da violência, é
melhor criar um filho aqui do que em Angola, onde deixou outros
quatro. "Medo eu tenho, mas aqui existem mais oportunidades",
garante.
A relação entre Isolino e sua filha representa o choque
cultural, inesperado, vivido por todos os angolanos que hoje
moram num país que parece ter se esquecido de suas raízes
africanas. "Vim para cá pela expressão portuguesa, pelo clima
parecido e porque, pelas novelas, a gente via uma afinidade
muito grande", justifica Manoel Filipe. "Mas, nelas, só havia o
lado bom, sem a miséria e os problemas sociais", complementa.
Ainda assim, por mais frustrante que possa ter sido o encontro
com a realidade brasileira que a televisão insiste em não
mostrar, a presença dos imigrantes na Maré já está se impondo
sobre o sotaque e o modo de vida carioca da comunidade. Vencendo
a predominância do funk e do pagode, que ecoam por toda a
favela, a influência angolana sobre a cultura local é lembrada
quando um dos imigrantes começa a cantarolar: "Eu vou fazer um
samba/ Mas sem querer dilema/ Pois o indivíduo tem que saber/
Que o rico samba veio do semba", aludindo ao estilo musical de
Angola que inspirou a criação do mais popular dos ritmos
brasileiros.
Outro bom exemplo são os grupos de dança tradicional africana,
ligados à Ação Comunitária do Brasil (ACB), ONG que atua na Vila
do João e na Cidade Alta, no bairro de Cordovil, vizinho da
Maré. Inspirado no trabalho desenvolvido pelo Diamante Negro, em
que grande parte dos integrantes são angolanos, foi criado o
grupo Kina Mutembua, formado apenas por brasileiros, mas que
utiliza coreografias e temas da cultura de Angola e da África em
geral. Segundo o coordenador do grupo, Romildo Santos, a atuação
do Kina Mutembua - que significa "dançando com o vento/tempo" -
não se restringe à dança apenas, mas a um extenso trabalho de
pesquisa da cultura africana. "No nosso país, as tradições
negras estão muito perdidas e sofrem muita discriminação", diz
ele.
Atualmente, o Kina Mutembua tem atraído a atenção internacional.
Sua dança, criada pelo mesmo coreógrafo do Diamante Negro, já
foi levada para o Chile e recentemente recebeu propostas de se
apresentar na Itália.
Dessa maneira, a influência angolana mostrou que também é
possível transcender as fronteiras criadas pelo tráfico. Hoje, o
Kina Mutembua ensaia na sede da ACB na Cidade Alta, onde quem
manda é o Comando Vermelho, facção inimiga do Terceiro Comando e
dos Amigos dos Amigos, que dominam a Vila do João, onde o
Diamante Negro ensaia. Uma demonstração de que a "língua
angolana", expressa na sua influência sobre a cultura
brasileira, mesmo após décadas de guerra, ainda é capaz de
difundir a paz.
Fonte:
Repórter Brasil
voltar
para o canal Terrítorios
voltar
para HOME
|