Análise

Choques da Civilização
Uma civilização Ocidental? Modernização ou Ocidentalização

Civilização Universal: significados

Civilização Universal definida como um conjunto cultural da Humanidade e aceitação de valores, práticas, crenças comuns por povos pelo mundo afora.
Essa idéia pode significar (e o autor rejeita todas):
- possibilidade de empregar civilização universal como o que é comum a Humanidade (o que representaria uma confusão semântica);
- o que a atual sociedade tem em comum e que difere dos povos primitivos;
- cultura de Davos – aqueles que detém o poder econômico-político, têm as mesmas características entre si e disseminariam seus princípios para o restante do mundo;
- pressupõe que a disseminação dos padrões de consumo e da cultura popular ocidentais pelo mundo afora estaria criando uma civilização universal.

Esse último seria reduzir a cultura ocidental à bebidas gasosas (Coca-cola), calças desbotadas (jeans) e comidas gordurosas (McDonald). Mais correto seria retirar o foco dos bens de consumo para a mídia. Mas com esse refinamento conceitual, “entretenimento não equivale a conversão cultural” e as pessoas absorvem a comunicação embebidas de seus valores locais. Qualquer informação recebida antes passa por um filtro próprio de cada cultura. As comunicações globais são uma das mais importantes manifestações contemporâneas do poderio ocidental.

Idioma. Se uma civilização universal está emergindo, então deveriam estar surgindo um idioma e uma religião universal (que são características básicas de uma civilização). Primeiramente, tendemos em acreditar que seria o inglês, mas isso é um engano. Para se ter uma idéia, caiu de 9,8% para 7,6% o total de pessoas que falam inglês no mundo. Um idioma que é estranho a 92% do mundo não pode ser o oficial. Podemos sim, afirmar que o inglês é o meio mundial de comunicação intercultural (e isso já pressupõe outras culturas), o que faz do inglês seria uma língua franca. Língua franca é uma forma de lidar com culturas, não eliminá-las. (Apesar da inegável influência da língua na configuração cultural de uma região.)

Uma língua para ser franca carece de ser “desetnicizada”. O inglês passou por esse processo. Fala-se diferentes “ingleses” ao redor do mundo. Pode-se pensar até que os “ingleses” serão distintos. A distribuição de idiomas segue a distribuição de poder e isso aconteceu ao longo de toda nossa história. Nas sociedades não-ocidentais têm ocorrido uma tendência ao inglês no nível universitário e por outro lado, pressões para o uso dos idiomas locais.

Religião. Parte final do século XX: ressurgimento de religiões. Aumento nos que seguem cristianismo e islamismo. Nas sociedades que se modernizam, tende-se a aceitação ao cristianismo, já que esse condiz mais com as exigências (sociais, econômicas e culturais) da modernização. O islamismo ganha em longo prazo, pois prega não só a conversão, mas a reprodução (estima-se que 30% da população em 2025, quando os cristãos serão não mais que 25%). Com essa pluralidade, seria impossível pensar no surgimento de uma religião universal.

Civilização Universal: Fontes

O conceito de uma civilização universal é nítido produto da civilização ocidental. Esse conceito ajuda a justificar (como na época imperial) o suposto predomínio cultural do Ocidente. O universalismo é a ideologia do Ocidente para confrontação com culturas não ocidentais. Os não-ocidentais vêem como ocidental, o que os ocidentais vêem como universal.

Argumentos para confirmar que estaria ocorrendo a civilização universal:

1º - O fracasso do comunismo representa a universalidade da democracia liberal. Na verdade, ainda há comunismo de mercado (na China), autoritarismo (no Iraque) etc. É arrogância pensar que, porque o comunismo fracassou, muçulmanos, chineses, indianos vão abraçar totalmente (e sem restrições) o liberalismo ocidental.

2° - Maior interação entre os povos e nações está gerando uma cultura mundial comum. Os avanços na tecnologia promoveram maior movimentação de bens, pessoas, idéias, dinheiro, sem dúvida. Mas e o impacto? O comércio exterior aumenta ou diminui a possibilidade de guerra? Em 1913 o comércio exterior representava 33% do Produto Bruto Internacional e nos subseqüentes houve as duas grandes guerras. O comércio exterior e as comunicações não foram capazes de produzir a paz. Além disso, a sociologia afirma: “num mundo crescentemente globalizado há uma exacerbação de auto-consciência civilizacional, societária e étnica”, isso porque as pessoas definem sua identidade pelo que não são. Quanto maior a interação mundial, maior a necessidade de identificação regional. Isso faz cair ao chão a idéia de uma cultura mundial comum.

O Ocidente e a Modernização

3° - Civilização Universal emergindo como resultado dos amplos processos de modernização (industrialização, urbanização, alfabetização, educação, riqueza e mobilidade social e estrutural mais complexas e diversificadas).

Modernização – processo revolucionário comparável em importância ao surgimento da civilização (no singular). Diferenças imensas de valores, atitudes, conhecimento e cultura entre sociedades modernas e tradicionais. Mas isso não pressupõe diretamente que as sociedades todas modernizadas serão mais homogêneas que na época em que todas as sociedades eram tradicionais. De qualquer forma, as sociedades modernas se parecem mais umas com as outras de que as tradicionais entre si por duas razões: a) com a modernização o grau de intercâmbio atinge uma velocidade e grau incomparavelmente maiores que as sociedades tradicionais; b) sociedades tradicionais – agricultura; sociedades modernas – indústrias. A estrutura social da agricultura é moldada pela geografia e a indústria depende somente das diferenças de cultura e de estrutura social.

Há os que apóiam que a civilização moderna é a civilização ocidental e vice-versa. Mas o Ocidente era Ocidente antes mesmo de ser moderno. Mas o que diferencia a civilização ocidental do resto do mundo antes de ser moderno?

• Legado clássico – filosofia e racionalismo gregos, o Direito Romano, o latim, cristianismo;

• Catolicismo e Protestantismo – mais importante característica;

• Idiomas europeus – multiplicidade;

• Separação da autoridade temporal e espiritual – Igreja separada do Estado; essa divisão contribuiu para o desenvolvimento da liberdade no Ocidente;

• Império da lei: lei, elemento essencial para a civilização ocidental. Isso levou ao constitucionalismo, direitos humanos, contra o exercício do poder arbitrário;

• Pluralismo social: aristocracia forte e autônoma, campesinato substancioso e importante classe de comerciantes;

• Corpos representativos – assembléias, parlamentos e outras instituições de representação. Evoluíram para a democracia;

• Individualismo – tradição de direitos e liberdades individuais;

A combinação desses fatores foi determinante.

Reações do Ocidente à Modernização

A expansão do Ocidente promoveu a modernização e a ocidentalização dos não-ocidentais. As elites não-ocidentais agiram: rejeitando ambas, rejeitando a ocidentalização ou abraçando ambas.

Rejeicionismo: Japão (no início) e China. A rejeição à modernização se torna praticamente impossível num mundo interligado e essencialmente moderno.

Kemalismo: abraçar ambas. A idéia presente no kemalismo é ocidentalizar para que a modernização seja mais eficiente. A idéia é que para reformular o modelo econômico e tecnológico tem que se reformular o pensamento e a cultura.

Reformismo: combinar a modernização com a preservação de valores, práticas e instituições. Japão: “espírito japonês, técnica ocidental”.

Rejeicionismo: modernização e ocidentalização são indesejáveis e é possível rejeitar ambas; Kemalismo: modernização e ocidentalização são desejáveis e ocidentalização indispensável para se ter modernização; Reformismo: modernização desejável e possível sem uma ocidentalização total, que é indesejável.

Em alguns lugares à medida que a modernização aumenta, a ocidentalização diminui e a cultura original passa por renascimento. O esquema seria o seguinte:

Ocidentalização ? modernização

Modernização ? desocidentalização

Emprestam elementos de forma seletiva para melhorar suas condições de sobrevivência. Um exemplo religioso que comprova essa tese é o Budismo que foi da Índia para a China e nem por isso “indianizou” a China.

O kemalismo ainda não foi provado com um exemplo prático completo.

As sociedades islâmicas têm tido dificuldade com a modernização. Porém não há nada que prove que a religião muçulmana emperre o capitalismo moderno.

Modernização não quer dizer ocidentalização. A modernização reforça as culturas autóctones e reduz o poder relativo do Ocidente.

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