Muçulmanos

Resenha

Elementos para uma geografia social

Resenha do texto “Os muçulmanos no Brasil: elementos para uma geografia social”, de Philippe Waniez e Violette Brustlein.

A chegada do Islã ao Brasil data do período colonial, pois uma parte dos escravos - denominados sob o termo genérico de malês - eram mulçumanos. Eles estavam localizados principalmente na região de Salvador, na Bahia, e tiveram significativa participação nas revoltas contra a escravidão, principalmente na de 1835. Entretanto, a atual presença muçulmana no Brasil remonta da segunda metade do século XIX com a imigração de sírios, libaneses e turcos oriundos do extinto Império Otomano. Os primeiros chegaram na década de 1860 num ritmo crescente que durou até a véspera da Primeira Guerra Mundial. Eles se dirigiam principalmente pra São Paulo (em 1920 o estado tinha cerca de 20 mil sírios e libaneses, aproximadamente 40% do total nacional), mas também para Minas Gerais e Rio de Janeiro. 

Dentre as razões da emigração sírio-libanesa para o Brasil (e também para o resto do mundo), duas são semelhantes às que provocaram a saída de populações européias para as Américas. De um lado, o crescimento do comércio internacional de bens manufaturados - propiciado pela melhoria das redes de transporte - levou à ruína diversas atividades artesanais pouco competitivas. De outro lado, o crescimento urbano não foi suficiente para absorver o contingente demográfico das regiões rurais, cujas estruturas agrárias tradicionais se mostravam inadequadas às novas condições de produção e comercialização (o que mostra que uma parcela considerável dos emigrantes é oriunda do campo). 

Há um fato curioso nessa emigração: a maior parte dos sírios e libaneses que emigraram para a América são cristãos. A explicação é um tanto quanto controversa, pois uma corrente acredita que isso se deve à perseguição da administração turca (a Síria e o Líbano faziam então parte do Império Otomano) aos cristãos, enquanto outra corrente crê que isso se deve à mentalidade progressista dos cristãos maronitas e sua menor ligação à pátria, ao contrário dos muçulmanos. Esse fato explica que, apesar da presença significativa de árabes no Brasil, o número de pessoas que se declaram muçulmanos apareça reduzido nos recenseamentos. 

De acordo com um censo demográfico realizado pelo IBGE em 1991, há 22.449 muçulmanos no Brasil. Esse dado cria uma certa confusão, pois de acordo com a Sociedade Beneficente Muçulmana de São Paulo, o número total de muçulmanos no Brasil gira em torno de um milhão e chega a quase cem o número de mesquitas ou salas de oração (Folha de São Paulo, 1998). Esta disparidade se deve, segundo especialistas, ao fato dos muçulmanos no recenseamento serem agrupados numa categoria genérica chamada outros. Mesmo esse número de um milhão é contestado por estudiosos, que acreditam que o número real seja de 200 mil muçulmanos. De qualquer forma, a religião muçulmana ocupa uma posição significativa no Brasil. 

O perfil socioeconômico dos muçulmanos no Brasil é de uma população majoritariamente urbana, masculina e branca. A maior parte não possui nacionalidade brasileira e vem do Líbano, seguido de longe por Síria e Israel. Eles possuem um nível educacional nitidamente mais alto que o dos brasileiros e também rendimentos mais elevados. O perfil econômico é o de um comerciante independente ou patrão de uma empresa que emprega menos de 10 pessoas. 

Os muçulmanos estão localizados principalmente nas regiões Sudeste e Sul do país, com destaque para o estado de São Paulo, que de acordo com o recenseamento de 1991 possui quase 10 mil pessoas declarando sua confissão religiosa islâmica, dos quais 6.300 residem no município de São Paulo. Há uma forte presença muçulmana também nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, com a diferença que nesses estados a presença é mais forte em outras cidades do que na capital. Há também uma concentração significativa em Brasília e no Rio de Janeiro. Fora esses estados, encontram-se pequenas concentrações na região Centro-Oeste. 

O conjunto desses fatores faz dos muçulmanos no Brasil um grupo social particular, pequeno em número, mas bastante ativo nas camadas sociais superiores da população e nos lugares de importância do poder econômico. 

Autores: Diogo do Nascimento Pereira (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
      

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